Entidades condenam discurso de Bolsonaro na ONU

Greenpeace e Observatório do Clima dizem que presidente "envergonhou" o Brasil
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Jair Bolsonaro durante discurso online na ONU (Marcos Corrêa/PR)

Organizações não governamentais que lutam pela defesa do meio ambiente condenaram nesta terça-feira (22/09) o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas, em que o líder brasileiro voltou a minimizar a crise ambiental que assola o país.

As entidades afirmaram que Bolsonaro “envergonhou” mais uma vez o Brasil perante a ONU, e tacharam o discurso – gravado previamente devido à pandemia de coronavírus – de “delirante”, “constrangedor”, “negacionista”, “irresponsável” e “infundado”.

“Em pouco mais de 14 minutos de uma fala calculadamente delirante, o presidente mais uma vez expôs o país de forma constrangedora e confirmou as preocupações dos investidores internacionais que pensam em sair do Brasil”, escreveu em nota o Observatório do Clima.

“Ao negar simultaneamente a crise ambiental e a pandemia, o presidente dá a trilha sonora para o desinvestimento e o cancelamento de acordos comerciais no momento crítico de recuperação econômica pós-covid”, completa o texto, que ainda acusa Bolsonaro de usar a tribuna das Nações Unidas para fazer campanha à reeleição, em vez de promover o país.

Para a rede composta por 50 organizações não governamentais e movimentos sociais, o discurso “não foi voltado à comunidade internacional, mas sim à claque bolsonarista em casa”.

“Não teve o objetivo real de prestar esclarecimentos sobre a situação do Brasil a parceiros comerciais e consumidores preocupados, muito menos de propor uma visão de país, como era a tradição, mas de combater a realidade e inventar inimigos imaginários.”

Citado na nota, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, afirmou que Bolsonaro ameaça a economia brasileira ao “negar a realidade e não apresentar nenhum plano para os problemas que enfrentamos”. “O Brasil pagará durante muito tempo a conta dessa irresponsabilidade. Temos um presidente que sabota o próprio país.”

Já o Greenpeace chamou atenção para as queimadas que devastam a Amazônia e o Pantanal e batem índices recordes sob o governo Bolsonaro. “O discurso […] aconteceu enquanto o país arde em chamas e testemunha a destruição de seus biomas e suas riquezas naturais”, alerta.

“A política antiambiental do atual governo está derretendo a imagem do Brasil lá fora e prejudicando a economia nacional”, insiste a ONG. “O país que antes já foi visto como liderança na questão ambiental foi o que mais destruiu suas florestas no mundo todo, em 2019, segundo dados da Global Forest Watch. Em 2020 os dados mostram que a situação só se agravou.”

Mariana Mota, coordenadora de políticas públicas do Greenpeace Brasil, afirmou que o drama ambiental vivido pelo Brasil é resultado da política do governo Bolsonaro, e negar ou minimizar essa realidade só “agrava a difícil situação que o país enfrenta”.

“Lamentavelmente, já estamos habituados a ouvir o presidente faltar com a verdade, desqualificar a ciência e buscar culpabilizar terceiros em vez de assumir a responsabilidade constitucional que possui. Entretanto, quando o faz na Assembleia Geral da ONU, diante de centenas de líderes de países, de investidores e do mundo todo, o presidente piora ainda mais a imagem do Brasil e agrava as sérias crises que enfrentamos”, disse Mota.

“Ao invés de negar a realidade, em meio à destruição recorde dos biomas brasileiros, o governo deveria cumprir seus deveres constitucionais em prol da proteção ambiental e apresentar um plano eficiente para enfrentar os incêndios que consomem o Brasil”, completou.

Por sua vez, a entidade WWF-Brasil considerou que Bolsonaro proferiu “uma fala cheia de acusações infundadas e ilações sem base científica que não condiz com o papel de um chefe de Estado”.

“Declarar que as queimadas são provocadas pelos ‘índios e caboclos’ [povos tradicionais descendentes de indígenas e brancos] é a maior delas”, disse Gabriela Yamaguchi, diretora de sociedade engajada da organização.

“Como um roteiro de ficção, o discurso uniu palavras-chaves das Nações Unidas com descrições de um Brasil que não existiu em 2020, em completo negacionismo da realidade do país e desconsiderando a urgência e seriedade dos desafios globais que o secretário-geral da ONU, António Guterres, tão bem descreveu”, acrescentou Yamaguchi.

A fala de Bolsonaro

Em seu discurso de abertura da 75ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira, o presidente afirmou que o Brasil é vítima de uma campanha de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal, e defendeu sua gestão da pandemia de covid-19.

Em relação ao meio ambiente, ele aproveitou a fala para se defender das críticas à sua política ambiental, proferidas por outros países e uma série de organizações em meio à alta do desmatamento e das queimadas na Amazônia e no Pantanal.

Bolsonaro afirmou que o agronegócio brasileiro segue “pujante” e que o Brasil tem e respeita “a melhor legislação ambiental do planeta”.

“Mesmo assim, somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal. A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos, que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”, disse, sem nomear qualquer instituição.

O presidente ainda culpou os indígenas e caboclos por incêndios na Amazônia e, sem citar estudos científicos ou especialistas, questionou a ocorrência de queimadas de grande porte.

“Nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior. Os incêndios ocorrem sempre nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam o roçado para sua sobrevivência, em áreas já desmatadas.”

Bolsonaro também afirmou que o Brasil é líder na conservação de florestas tropicais e tem “a matriz energética mais limpa e diversificada do mundo”.

Em razão da pandemia de covid-19, a assembleia da ONU deste ano ocorre de maneira virtual. O Brasil, como é tradição, abriu as intervenções de líderes mundiais.

EK/efe/lusa/ots

Por Deutsche Welle

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