Como Clarice Lispector conquistou o público estrangeiro

Cem anos após seu nascimento, escritora soma mais de 300 edições traduzidas
Clarice Lispector (Instituto Moreira Salles/Reprodução)

Clarice Lispector (1920-1977) não gostava da primeira tradução para o francês de seu romance Perto do Coração Selvagem. Lançado como Près du Coeur Sauvage pela editora Plon em 1954, o trabalho a desagradou e motivou uma carta da escritora ao responsável. Ao longo da vida, ela preferia desconsiderar a obra, fingir que nunca havia existido.

Contudo, mesmo com a desaprovação da autora, o livro inaugurou a seara internacional de Lispector. “[Com essa tradução], os franceses puderam conhecer e se encantar pela história de Joana, a menina que, numa vertiginosa primeira pessoa, relata episódios de sua vida. Depois, foi traduzida para o espanhol. E não parou mais”, comenta à DW Brasil a escritora e crítica literária Marisa Lajolo, professora na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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Aos poucos, a escritora brasileira, nascida na Ucrânia em 10 de dezembro de 1920, se tornaria uma das mais importantes da literatura nacional, com voz ressonante em pelo menos 20 países e reconhecimento da crítica especializada.

De acordo com levantamento feito para a DW Brasil pela biógrafa Nádia Battella Gotlib –autora de Clarice: uma vida que se conta –, professora e pesquisadora na Universidade de São Paulo, a escritora soma um total de 308 edições de livros traduzidos, desconsiderando edições de contos e crônicas em coletâneas. A partir da estreia francesa, a progressão jamais parou.

“No ano seguinte [1955], já houve seis traduções, incluindo A Maçã no Escuro para o inglês, pelo renomado tradutor Gregory Rabassa (1922-2016]”, pontua Gotlib. “Em 2010, havia mais de 185 edições de obras traduzidas em 20 países. Entre eles, traduções para o japonês, sueco, hebraico, truco, dinamarquês, finlandês, etc.”

Clarice Lispector durante entrevista à TV Cultura (Instituto Moreira Salles/Reprodução)

Na última década, houve um boom – para a biógrafa, a fama de Lispector ganhou nova fama com a popularização da internet. “De 2010 para 2020, contando com tal instrumento estimulador da divulgação, o número de traduções continuou aumentando: tenho o registro de mais 123 edições de livros”, diz.

Caráter universal

Especialistas ouvidos pela DW Brasil concordam que são três os fatores que fizeram de Clarice Lispector um sucesso no exterior: a circulação internacional da própria autora, sua atividade na imprensa da época e, claro, o caráter universal de sua obra.

Lispector foi casada, de 1943 a 1959, com o diplomata brasileiro Maury Gurgel Valente (1921-1994). Por conta dos trabalhos dele, o casal viajou o mundo. Chegaram a passar uma temporada em Nápoles, na Itália, e moraram em Berna, na Suíça, em Torquay, na Inglaterra, e em Washington, nos Estados Unidos.

Formada em Direito, a escritora sempre publicou em jornais e revistas. Essa relação estreita com o jornalismo também a aproximou da crítica especializada, facilitando a divulgação de sua obra. Mas nem sua vivência internacional nem seu acesso à mídia bastariam, não fosse o talento expressado em seu trabalho.

“A qualidade da sua obra é o grande fator do sucesso internacional”, afirma Lajolo. “Mas circulação internacional é também fruto de um certo capital social de um escritor. Sua editora, sua profissão, seu círculo social, sua presença na mídia… Esses elementos, desarticulados de textos bem escritos e de temas relevantes, não funcionam. Ou podem funcionar apenas em um primeiro momento. A permanência de um autor no horizonte literário internacional depende da qualidade de sua obra. E Clarice esbanja esta qualidade”, considera.

“Ninguém passa incólume por Clarice Lispector, porque a obra dela se propõe a revelar o mais íntimo do ser”, diz à DW Brasil o pesquisador Diego Luiz Miiller Fascina, professor na Universidade Estadual de Maringá e no Centro Universitário de Maringá e autor do livro Clarice Lispector: uma leitura materialista lacaniana. “Trata-se de uma escritora inovadora, que problematiza o ser e o dizer em todos os seus textos de uma maneira que, desde o seu surgimento, não havia sido experimentado no Brasil.”

Centenário como oportunidade

A biógrafa Gotlib vê no centenário do nascimento de Lispector a oportunidade para que o olhar sobre sua obra seja atualizado.

“As comemorações comprovam a importância da recepção de Clarice no Brasil e no exterior. Tenho participado de eventos on-line em vários estados do Brasil e também em países como Portugal, Ucrânia, Itália, Estados Unidos, Angola e Moçambique. É uma prova de que há interesse enorme em sua literatura”, diz.

Em 2009, o escritor e historiador americano Benjamin Moser publicou uma biografia – Why This World: A Biography of Clarice Lispector, no Brasil lançada como Clarice, uma biografia – que contribuiu para aumentar a fama internacional da brasileira. “Depois, ele traduziu alguns textos dela. Isso também ajudou na divulgação da obra”, comenta Fascina.

A partir de então, a editora britânica Penguin Books, em projeto liderado por Moser, passou a publicar novas edições da obra de Lispector, com traduções atualizadas e caprichadas.

“Clarice, cada vez mais, é lida, apreciada e estudada fora do Brasil”, afirma Fascina. “Várias universidades no exterior, sobretudo em Portugal e nos Estados Unidos, ofertam cursos sobre a obra de Clarice, muitos pesquisadores brasileiros também divulgam a obra dela, seja através de eventos acadêmicos em vários lugares do mundo, estágios de pós-doutorado no exterior, além da crítica acadêmica, lá de fora, que também se debruça sobre a obra dela.”

Por Edison Veiga, da Deutsche Welle

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