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Bocardi pergunta se rapaz pega bolinha de tênis e é acusado de preconceito

Jornalista afirmou que é "triste a acusação de preconceito".
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Rodrigo Bocardi, da TV Globo, fez o questionamento quando atleta aguardava metrô; para especialista, fala sem intenção não retira o preconceito

O apresentador da TV Globo Rodrigo Bocardi perguntou a um atleta negro do clube Pinheiros, que fica localizado em bairro rico de mesmo nome na cidade de São Paulo, se ele era pegador de bolinhas de tênis. O questionamento aconteceu durante entrevista ao vivo no Bom Dia São Paulo, jornal transmitido no começo da manhã na capital, nesta sexta-feira (7/2).

Um repórter que informava sobre a situação do transporte público enquanto estava na estação Dom Pedro II da linha 3 – Vermelha do metrô quando se dirigiu ao atleta. Leonel, como se identificou, disse que não havia embarcado ainda por conta da lotação dos trens e, na sequência, Bocardi falou.

“O Leonel vai pegar bolinha lá no Pinheiros, não?”, perguntou o apresentador, em um pedido para o repórter transmitir a questão ao jovem e insistiu quando a pergunta feita era sobre o local em que ele faria baldeação, não sobre a profissão. Questionado sobre se era pegador de bolinha de tênis, Leonel respondeu negativamente.

“Não [vou pegar bolinhas], eu sou atleta do Pinheiros. Jogo polo aquático”. Em seguida, o apresentador comentou. “Aí sim! Está pensando o quê?! E eu pensando que eram meus parceiros que ajudam nas partidas, tal. Jogador de polo aquático, olha que fera! Manda os parabéns”, respondeu Bocardi, agradecendo o “sorrisão” com que Leonel atendeu a equipe da Globo.

Ainda no jornal, Bocardi se explicou dizendo que “foi pela camiseta” que fez o comentário “na maior inocência”. “Pela camiseta fui e perguntei, está lá junto comigo todo dia. Assim como existem brancos, negros de todo quanto o que é tipo ali. Não tem isso”, disse o apresentador para “terminar numa boa a sexta-feira”. “Quem vê preconceito nisso não está sendo justo”, finalizou.

O comentário teve repercussão negativa nas redes sociais, em que acusavam Bocardi de racismo. O apresentador usou seu perfil no Twitter para dar sua versão, citando ser “muito triste a acusação de preconceito”. Segundo ele, a confusão ocorreu pelo fato dos pegadores usarem uniforme e os atletas não terem essa obrigação.

“Não o chamei de pegador pela cor da pele ou pela presença num trem. Chamei-o por ver que vestia o uniforme que eu sempre vejo os pegadores usarem. Peço desculpas a todos e em especial ao Lionel”, escreveu Bocardi, que relembrou sua “origem humilde”, quando pegava ônibus para ir e voltar do trabalho e escola. “Alguém como eu não pode ter preconceito”, seguiu.

Após uma série de cinco postagens, o apresentador comentou sobre a foto que usa em seu perfil nas redes sociais, na qual aparece rodeado de garotos negros. “A foto do meu perfil neste Twitter está aí desde a criação da conta, nunca foi trocada, e foi tirada em 2003 – período que morei em Angola! Obrigado”, encerrou.

‘Reforça o mito da democracia racial’

Para Dennis Oliveira, professor de Jornalismo da Universidade de São Paulo e militante da Rede Quilombação, a fala de Rodrigo Bocardi tem cunho racista. Além disso, o professor explica que a pergunta feita estava fora de contexto do tema abordado na reportagem.

“Qual a relevância pública dessa pergunta? Mesmo que fosse um pegador de bolinhas, está se discutindo o metrô”, sustentou, dizendo que a justificativa da pergunta é o preconceito. “[O apresentador] Estranhou ser do Pinheiros um menino negro e pensou automaticamente que era um pegador de bolinha”, prosseguiu.

As explicações dadas na sequência, sob os argumentos de não ser racista e ter falado por conta da camiseta usada ser a do clube, são vistas como uma forma de reforçar o racismo, segundo Oliveira.

“Na medida em que não admite o preconceito presente na resposta, não se permite uma discussão séria. Retira a dimensão de racismo institucional do comportamento e reforça o mito da democracia racial, presente também na resposta”, explicou o professor da USP.

A psicóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina Lia Vainer Schucman, que tem atuação voltada para a área racial, existe dos tipos de racismo: o feito com má fé e o que ocorre sem a intensão.

“A própria pessoa acredita que não teve a intenção. Temos que tirar racismo do âmbito moral, mas de ser uma construção que estrutura a sociedade e, por isso, ela estruturar o sujeito. Ele foi racista, sim”, detalhou.

Segundo Lia, mesmo que a pessoa não tenha a intenção de ser racista isso não retira dela a responsabilidade pelo ato. “O problema não é só ter feito, é que, quando acusado, não rever, não fazer autoanálise. Qualquer pessoa achar que está livre do racismo no Brasil não sabe como ele funciona”, continuou a psicóloga.

Lia detalha que há racismo além de uma atitude intencional ou não, sendo este ato baseado em “uma estrutura de aprendizagem como um todo, que é muito mais forte”.

Um exemplo é se uma mulher branca pede para uma outra mulher, negra e em mesma função em uma empresa, pegar um café. “O fato dela se sentir livre para pedir à essa pessoa tem a ver com o uso das áreas sociais. Essa mesma pessoa, não faria isso com um homem branco”, justificou a psicóloga.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

 

 

 

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