APAER quer que Itamar Borges mantenha Casas da Agricultura

Itamar Borges, novo secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado (Arquivo/Alesp)

A Associação Paulista de Extensão Rural (APAER) solicitou, via ofício e carta aberta, uma audiência com o novo secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, Itamar Borges, que assumirá o cargo no lugar de Gustavo Junqueira. A entidade, formada por especialistas de órgãos públicos de extensão rural, pesquisa agropecuária, de universidades e organizações de produtores, quer o compromisso da pasta em revitalizar a Extensão Rural.

“A chegada do novo secretário traz esperança de diálogo e de um olhar mais sensível com a agricultura paulista, principalmente em relação a agricultura familiar, que é a principal responsável pela produção dos alimentos que chegam à mesa da população. É preciso um posicionamento claro sobre como ele pretende conduzir a pasta”, comenta Antônio Marchiori, presidente da APAER.

A principal preocupação da APAER é com o projeto de reestruturação da secretaria, desenhado na gestão de Gustavo Junqueira, e que foi alvo de críticas de várias entidades do setor. A proposta inicial previa o fechamento de todas as 574 Casas da Agricultura no Estado, ligadas à Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS – mais conhecida como CATI), e 48 Escritórios de Desenvolvimento Rural e de Defesa Agropecuária, das 80 unidades em funcionamento.

Antônio Marchiori, presidente da APAER (Divulgação)

A entidade chegou a apresentar, em dezembro do ano passado, um projeto de revitalização para preservar as Casas da Agricultura, elaborado em parceria com especialistas da Unesp, Esalq/USP, Unicamp e UFSCar, além da Embrapa. Em função das inovações que a proposta da APAER representa, ela foi denominada como “EXTENSÃO RURAL 7.0”, mas a Secretaria de Agricultura nunca respondeu às sugestões. 

“Em plena pandemia, a ameaça de extinção das Casas da Agricultura gerou muita insegurança entre os agricultores familiares, principalmente pela falta de transparência por parte da Secretaria. Até hoje não conseguimos ter uma posição clara do Estado sobre o que vai acontecer nesta reestruturação e se ela vai mesmo ser realizada”, afirma. 

Na audiência com Itamar Borges, a APAER pretende solicitar a abertura imediata das Casas da Agricultura, fechadas desde o início da pandemia, e propor a vacinação dos servidores contra a covid-19. A entidade quer que o novo secretário reveja a decisão do antecessor, que transferiu a gestão ambiental da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente para a estrutura da CATI, na Secretaria da Agricultura, o que, na visão da APAER, “paralisou o trabalho de extensão rural em São Paulo”. 

‘Tratoraço’ expõe uma gestão pública equivocada em São Paulo

Por Antônio Marchiori

A crise na Agricultura em São Paulo, que chegou às ruas de inúmeras cidades paulistas, por meio do ‘tratoraço’, há duas semanas, pode ser a ponta do iceberg dos problemas de gestão do agro paulista, no governo de João Doria. Desde o início da atual administração, os equívocos na gestão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA) são recorrentes, com manifestações na Assembleia Legislativa do Estado e notícias preocupantes de mudanças nos serviços de extensão rural, que têm ocupado os principais meios de comunicação do país.

Consideramos absurda a intenção que chegou a ser divulgada pelo Estado de aumentar impostos sobre alimentos, em plena pandemia de Covid-19, assim como a reestruturação que o secretário de Agricultura, Gustavo Junqueira, tenta implementar. Desde o ano passado, há uma mobilização para demover Junqueira da ideia de fechar 574 Casas da Agricultura, ligadas à CATI – atual Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS). As Casas da Agricultura são a porta de entrada para quem vive no campo, principalmente o agricultor familiar, aos serviços de apoio aos produtores.

Na esteira do desmonte estrutural de assistência à Agricultura, o percentual do orçamento estadual do atual governo, destinado à Secretaria, despencou  e é o menor em cem anos de história. 

São Paulo é o segundo pior orçamento estadual para a Agricultura de todo o Brasil. Sem investimento, o Estado reduz o alcance da extensão rural, que garante produção de alimentos pela agricultura familiar, desenvolvimento social no campo e preservação e conservação ambiental, por meio de práticas para viabilizar uma agricultura sustentável regenerativa.

Esse sucateamento ignora o potencial do agro paulista de produzir riqueza ao próprio Estado. Estudos mostram que a cada real investido em extensão rural, mais de dez reais retornam para a sociedade. 

A produção de alimentos precisa de incentivo, e é esse o grito que ecoa desse ‘tratoraço’ que deixou o campo e desfilou pelas cidades, sinalizando que uma gestão imprudente na Agricultura logo trará impactos para quem vive na área urbana, e não estamos falando apenas de preços dos alimentos – o que já é grave o bastante, uma clara ameaça à segurança alimentar, princípio basilar da sobrevivência.

O que causa indignação em quem faz o agro acontecer  é que, enquanto penaliza o setor rural, o Governo de São Paulo tem sido generoso com outros setores da economia. Cabe lembrar que a política fiscal do governo João Dória vem sendo questionada no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP). 

As renúncias fiscais praticadas pelo governo de São Paulo, em 2019, totalizaram a impressionante cifra de R$ 24,33 bilhões, segundo o Procurador-Geral de Contas, Thiago Pinheiro Lima.

É importante pontuar que na gestão pública, muitas vezes, a lógica do setor privado não se aplica. Por isso, cabe aos governantes olhar setores que garantem alimentação, saúde, educação e segurança como estratégicos e que necessitam de investimentos. 

Não dá para assistir, de braços cruzados, a segurança alimentar da população sendo negligenciada: é algo que os produtores rurais já entenderam e estão dispostos a medir forças com o atual Governo para preservar.

*Antônio Marchiori é engenheiro agrônomo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Mestre em Agronomia pela Esalq/USP, Doutor em Ciências pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e presidente da Associação Paulista de Extensão Rural (APAER).

Tecnologia ajuda produção de frutas natalinas o ano todo

(Arquivo/Wilson Barbosa)


Graças a uma série de pesquisas e do avanço científico, frutas típicas do período natalino podem ser encontradas com mais facilidade durante todo o ano no Estado de São Paulo. A ciência agronômica da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio do Instituto Agronômico (IAC), foi determinante para a tropicalização da fruticultura, ampliando a produção de itens como uva, pêssego, ameixa, nectarina, maçã e pêra, que exigem temperaturas mais baixas para produção.

Grande parte das frutas consumidas durante as festas no final de ano era oriunda de importações de outros estados e países. Como resultado da ciência e da adoção das tecnologias pelos fruticultores, as frutas passaram a ter maior disponibilidade, a preços mais acessíveis. Embora ainda com ofertas reduzidas e preços elevados, pode-se ter acesso às outras espécies, ainda pouco populares, como as castanhas japonesa e nozes pecan e macadâmia, além de atemoia, lichia, kiwi e pitaya.

A fruticultura de clima temperado paulista deixou de ser praticada somente em áreas serranas, que são mais frias, e em municípios próximos da Capital paulista.

“Os pomares passaram a ocupar algumas regiões do interior, onde muitas vezes não ocorrem temperaturas ou condições hibernais frias”, afirma a pesquisadora do IAC, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), Mara Fernandes Moura.

Pesquisas

Essa migração se deve às pesquisas na área de melhoramento genético conduzidas pelo IAC, que tropicalizou a fruticultura. As pesquisas do Instituto envolvem introdução e seleção de novas espécies e cultivares e hibridações para obtenção de cultivares menos exigentes em frio hibernal, além de adequadas aos diferentes sistemas de cultivo.

A pesquisa científica abriu novas fronteiras de produção, as uvas, por exemplo, que antigamente eram produzidas apenas em algumas regiões, como Jundiaí, Vinhedo e Valinhos, atualmente também são produzidas em municípios localizados em regiões mais quentes do interior paulista, a exemplo do Noroeste Paulista, como Jales e Votuporanga.

O pêssego, a exemplo da uva, passou a ser cultivado além da região de Jundiaí e Sudoeste do estado, município de Guapiara. Atualmente pode ser plantado em diversos outros locais da região do Paranapanema e Centro-Norte Paulista. O IAC começou o melhoramento genético do pessegueiro em 1947, sendo pioneiro no Brasil.

Eram também restritos às regiões frias do país, os pomares de maçã. As pesquisas do IAC também viabilizaram sua extensão para a região do Paranapanema, Jundiaí, Vinhedo e Valinhos. Nestes três municípios e também em Presidente Prudente passou a ocorrer o plantio de pêra, adaptada a áreas mais quentes graças ao trabalho científico.

(Arquivo/Wilson Barbosa)

“O conhecimento da resposta das plantas a diversos tipos e épocas de podas permitiu a oferta de frutas em épocas distintas do período de safra convencional”, afirma Mara. O exemplo mais típico desse caso, segundo Moura, é o cultivo de goiabas, que podem ser ofertadas durante todo o ano.

Técnicas

O pesquisador do IAC, José Luiz Hernandes, acrescenta outras técnicas que possibilitaram a ampliação da plantação e da colheira, como o sistema de produção em ambiente protegido.

“O cultivo de uva no Vale do São Francisco, maior polo exportador de uva, conhecido como polo de Petrolina-Juazeiro, só foi possível graças ao porta-enxerto de uva IAC 313 Tropical, que foi o responsável pelo desenvolvimento do polo vitícola do Nordeste brasileiro”, diz Hernandes. O pesquisador afirma que sem esse porta-enxerto não haveria a possibilidade de plantio de uva no Vale do São Francisco. Atualmente, o IAC 313 Tropical foi substituído pelo IAC 572 Jales, que é um dos mais utilizados naquela região.

O polo vitícola do Noroeste Paulista, que envolve os municípios de Jales e Votuporanga, só foi possível graças à utilização do porta-enxerto IAC 572 Jales, que também tem sido um dos principais responsáveis pelo cultivo de uva na Tailândia.

A cultivar IAC 766 Campinas é atualmente um dos mais importantes porta-enxertos de videira e vem substituindo paulatinamente outros porta-enxertos usados para uvas comuns de mesa em todo o estado de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e norte do Paraná.

Outro grande fator que contribuiu para o escalonamento e distribuição da oferta de frutas foi o desenvolvimento de novas cultivares com ciclos de produção distintos. “Hoje temos diversas cultivares de frutas de caroço, como pêssego, nectarina e ameixa, que possuem ciclos de 75 até 180 dias, o que permite produzir essas frutas de agosto até dezembro”, diz Mara.

A pesquisadora diz que, com relação à diversificação de espécies, ainda está sendo testado o cultivo de pequenos frutos, como amora preta e framboesa, dentro de um sistema de produção que possibilite a produção de frutas o ano inteiro dentro da pequena propriedade.

Cresce importação de agrotóxico proibido que pode causar Parkinson

Por Luana Rocha e Mariana Della Barba

Anvisa decidiu em 2017 proibir o paraquate por risco de provocar Parkinson. Mas desde então, ritmo de importação só aumentou, e restrições foram afrouxadas por pressão de empresas de agrotóxicos 

Pesticida paraquate é usado para dessecar culturas como soja e milho, normalmente antes da colheita (Jonas Oliveira/ANPr/Fotos Públicas)


“Ele começou com febre e coceira. Depois ficou suando frio, teve diarréia, a pressão caiu. Corremos pro hospital. A pele dele então ficou toda queimada e foi soltando do corpo. Mal consigo lembrar”, conta emocionado o produtor de leite paranaense José Quintino sobre o filho Júlio, que morreu em 2016 em Cascavel (PR) quando tinha 22 anos. “Veio médico de tudo que é parte, mas já não tinha jeito. Aos poucos, ele parou de respirar. Falaram que o pulmão dele tava inteiro queimado.”

Confirmada como causa da morte, a insuficiência pulmonar foi provocada por intoxicação aguda por agrotóxico. “O paraquate queimou o pulmão dele. Foi queimando a pele, as mucosas orais e nasais, indo até os alvéolos [pulmonares]. Esse é um agrotóxico de ação secante, seca e queima as folhas, faz o mesmo com a pele, as mucosas, o pulmão”, afirmou a médica epidemiologista Lilimar Mori, chefe da Divisão de Vigilância em Saúde da Secretaria da Saúde do Paraná e uma das responsáveis por confirmar que o agrotóxico foi a causa da morte de Júlio, contaminado ao descarregar cascas de soja com paraquate.  

Foi por causa dos riscos de intoxicação aguda do produto que envenenou Júlio, assim como sua relação com doenças como Parkinson, mutações genéticas e depressão, que a Anvisa decidiu em 2017 banir o paraquate, usado na dessecação de plantações para antecipar a colheita. A partir de setembro de 2020, nenhum litro do agrotóxico deve ser usado em solo brasileiro.

Apesar das evidências dos riscos, a resolução da Anvisa não fixou metas de redução de uso, de finalização de estoques e nem de importação do paraquate até sua completa suspensão. Sem esse limite, o ritmo de importação do agrotóxico só aumentou desde o início do processo de banimento, conforme apuraram Repórter Brasil Agência Pública.E essa brecha abriu espaço para um processo que os pesquisadores chamam de “desova”, porque quase que a totalidade do paraquate usado aqui vem de países onde seu uso está proibido. 

“O ideal é que, iniciado o processo de banimento, seja proibida a importação. Como isso não foi feito, as empresas acabam ‘desovando’ o material no Brasil porque, normalmente, o que está sendo banido aqui já foi proibido no seu país de origem”, afirma o pesquisador da Fiocruz, Luiz Cláudio Meirelles, que já foi coordenador geral de toxicologia da Anvisa.  

É o caso da gigante suíça Syngenta (recentemente comprada pela ChemChina), uma das maiores produtoras do paraquate no mundo, da alemã Helm do Brasil e das chinesas Sinon do Brasil e Rainbow Defensivos. A Suíça retirou o paraquate das prateleiras nos anos 80. Na Inglaterra (onde é fabricado o Gramoxone, o paraquate da Syngenta) e no restante da União Europeia, ele foi banido em 2007. A China, que costuma ter uma legislação ambiental mais permissiva, autoriza a produção mas somente para exportação, já que seu uso é vetado por lá há quatro anos.  

Júlio Quintino morreu aos 22 anos por intoxicação aguda ao manejar soja com resquícios de paraquat (Ministério da Agricultura e arquivo pessoal da família Quintino)

O fenômeno da “desova” pode ser observado pelos dados de importação do Ministério da Economia, Indústria, Comércio Exterior e Serviços no portal Comex Stat. Em 2017, 35,3 mil toneladas do herbicida (paraquate ou dicloreto de paraquate) chegaram ao Brasil. No ano seguinte, essa quantia aumentou em para 50,8 mil e continuou em curva ascendente em 2019 quando, até novembro, já haviam sido importados 65,3 mil toneladas de paraquate. 

“Essa é uma atitude típica, que já vimos em outros casos: o país não quer mais, e as empresas precisam desovar seus estoques e aproveitam para fazer isso em países que estabeleceram um período de transição até a proibição completa”, explica o professor de Economia da Universidade Federal do Paraná e engenheiro de alimentos, Victor Manoel Pelaez Alvarez.

“Desde que se acumularam evidências dos problemas causados pelo paraquate, o consumo continuou crescendo mesmo depois da proibição de uso. O correto seria importação zero em 2019”, explica o engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia na região sul. Para ele, “o crescimento das importações sugere que talvez as empresas tenham aproveitado a tolerância brasileira para transferir para nosso território parte de seus estoques globais”. 

Essa tendência é apontada também pelos dados de comercialização do Ibama. Em 2017, quando se iniciou o processo de banimento, o paraquate ocupava a oitava posição na lista dos dez ingredientes ativos mais vendidos no Brasil, com mais de 11 mil toneladas vendidas. Já no boletim referente a 2018, o pesticida subiu de posição e passou a ocupar o sexto lugar com mais de 13 mil toneladas vendidas em todo território nacional.

Na outra ponta desse mercado ainda lucrativo do paraquate está o produtor rural. “Como não houve imposição de limite para importação, ele pode estocar o produto até, por exemplo, 2023 e não vai chegar fiscalização”, afirma Meirelles, da Fiocruz. Os riscos para os trabalhadores rurais podem, na prática, também perdurarem até 2023 ou até acabarem os estoques.

Por meio da assessoria de imprensa da Syngenta, a empresa e outras 10 que comercializam paraquate no Brasil (que formam a chamada “Força-Tarefa paraquate”) afirmaram entender que “a saída de paraquate do mercado causaria impactos significativos na sustentabilidade da agricultura e na economia brasileira”. (Leia a resposta na íntegra) Sobre o aumento das vendas visto como desova pelos pesquisadores, o grupo afirmou que “o abastecimento e comercialização de produtos à base de paraquate – como qualquer outro – é determinado pela demanda dos agricultores e sanidade de suas lavouras”. As empresas se recusaram a fornecer dados sobre vendas no mercado brasileiro ou mundial.

A Anvisa afirmou, por e-mail, que não vê contradição no aumento da venda de paraquate durante a transição, já que “a resolução não fixa um percentual de redução ou uma tendência esperada de queda durante os três anos”. Leia o posicionamento na íntegra.

Gráfico: Bruno Fonseca/Agência Pública

O aumento da venda de paraquate segue a tendência de crescimento do mercado de pesticidas no Brasil. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), o setor dos agrotóxicos movimentou equivalente a US$ 10,5 bilhões em 2018, um aumento de 18% em relação a 2017. No topo de vendas aparecem os herbicidas (32,48%), categoria a qual pertence o paraquate. Questionada sobre o paraquate, a entidade  afirmou que não divulga dados de comercialização referentes a ingredientes ativos específicos.

Afrouxamento 

As discussões que levaram ao banimento do produto em 2020 começaram a se intensificar na Anvisa em 2008, quando o uso do paraquate passou a ser questionado após a divulgação de estudos indicando que o contato com o agrotóxico estaria associado à doença de Parkinson, além de ser potencialmente fatal quando há intoxicação, inclusive quando o trabalhador é envenenado sem estar aplicando o produto, como no caso de Júlio. 

O paraquate também está associado a casos de suicídio e até mesmo à depressão. Tanto que a Coreia do Sul baniu o herbicida em 2011, após constatar que ele era responsável pela maioria das mortes desse tipo. A medida derrubou pela metade os índices de suicídios via intoxicação por pesticidas no país.

Diante desse cenário, a primeira resolução (RDC Nº 177) da Anvisa foi publicada em 22 de setembro de 2017, com o argumento de que existiam “evidências suficientes” da relação entre o agrotóxico e a doença de Parkinson.

Essa resolução definiu  “medidas transitórias” pelos três anos seguintes até a proibição total em 2020. Entre elas, a proibição do uso do paraquate para fins dessecantes (seu principal uso no Brasil). Na ocasião, segundo a Anvisa, essa restrição serviria para proteger os trabalhadores que têm contato com o paraquate.

A Anvisa, no entanto, recuou apenas dois meses depois — e, em uma nova resolução (RDC 190) liberou o paraquate para ser usado como dessecante. A mudança ocorreu sob forte pressão de empresários do setor de agrotóxicos.

Cinco dias após a primeira resolução ser publicada, o alto escalão da Syngenta no Brasil e na América Latina se reuniu com a diretoria da Anvisa – em encontros que se repetiram outras vezes ao longo dos meses seguintes para tratar justamente do veto ao paraquate, como mostrava a agenda pública do órgão, revelada pelo The Intercept Brasil. Foi então criada uma força-tarefa das empresas produtoras e associações de produtores, que solicitaram à Anvisa a revisão de sua posição, conforme informado pelo próprio Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento.

Para  Meirelles, da Fiocruz, essa permissão é um “comportamento bem ruim” para quem deseja banir o paraquate já que, na prática, é como “manter a liberação do produto”. No Brasil, cerca de 60% do manejo da substância é empregada na dessecação e está liberada para as culturas do algodão, arroz, batata, cana-de-açúcar, milho e soja, alguns dos principais produtos cultivados no Brasil.

Anvisa estipulou três anos para que o mercado se adaptasse até o banimento total no Brasil do paraquate, já vetado na União Europeia e na China

A Anvisa não deixou claro o porquê do recuou do veto sobre o uso como dessecante, apenas informou que foram mantidas na segunda resolução as proibições imediatas, “responsáveis por garantir a redução das exposição aos trabalhadores”, como a proibição de produtos formulados em embalagens de volume inferior a 5 litros – que, segundo o órgão, evitaria o uso do produto por pequenos produtores. Assim, as embalagens de mais de 5 litros continuaram liberados. 

Pressão da ‘força-tarefa do paraquate’

Uma pessoa ligada ao setor de agrotóxicos afirmou à Repórter Brasil à Pública que a “força-tarefa paraquate” continua trabalhando para que o banimento do agrotóxico seja revertido. “Apresentamos várias pesquisas e buscamos meio jurídicos para conseguir isso [o não banimento]”, afirmou. 

As ações em curso para minar a suspensão foram confirmadas também por um funcionário de um órgão público que não quis ser identificado. Ele ressaltou que o contexto do governo atual seria um terreno favorável para tentar derrubar a resolução. “As empresas estão se reunindo para apresentar novos estudos e podem conseguir isso. Confesso que fico bastante preocupado”, disse. 

A Anvisa afirmou que o processo está mantido e que, até o momento, não recebeu nenhum novo estudo questionando o banimento. A Syngenta e as outras empresas da força-tarefa não quiserem comentar sobre as reuniões com a diretoria da Anvisa.

Em um contexto em que há uma aprovação recorde de produtos agrotóxicos, a disputa contra as grandes produtoras vem deixando a esfera federal e passando para a municipal e a estadual. 

É o caso do Rio Grande do Sul, o único estado no território brasileiro que tentou banir o paraquate. A iniciativa partiu da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), vinculada à Secretaria do Meio Ambiente. Em 2012, a fundação entrou na Justiça pedindo o banimento do paraquate no estado gaúcho. Na época, 14 marcas de agrotóxicos tinham autorização para comercialização no local. A decisão logo foi revertida judicialmente e, hoje, somente  dois produtos (paraquate Alta 200 SL e Tocha) permanecem proibidos no estado.

‘Mais que um veneno, é uma bomba atômica’

Outra dificuldade é a responsabilização em casos de contaminação. Um exemplo é o caso de uma escola no município Espigão Alto do Iguaçu (PR), a 356 quilômetros de Curitiba. Em novembro de 2018 quase 100 pessoas foram intoxicadas, no caso com mais vítimas na história recente do estado, conforme revelaram Agência Pública e Repórter Brasil.

A médica explica que apesar de a intoxicação ter sido bem menor do que no caso de Julio, a gravidade do caso está no fato de que, entre os afetados, havia 52 crianças. A maioria delas estudava em uma escola rural que funciona colada à área agrícola onde o veneno estava sendo aplicado. Quem entrou em contato com a nuvem de paraquate sofreu sintomas como fortes dores de cabeça, estômago e barriga, tonturas e vômitos – todos condizentes com os de intoxicação aguda pelo agrotóxico. O Ministério Público Estadual abriu inquérito para apurar o caso, mas ninguém ainda foi indiciado. 

No caso de Júlio, sua filha, que tinha 3 anos quando o pai morreu, recebe uma pensão do INSS pela morte dele. Mas o pai da vítima, José, lembra que até hoje não conseguiu nada da cooperativa onde ele comprou a soja com paraquate que matou seu filho. A investigação mostrou que após a soja com o agrotóxico foi colhida antes do período estipulado para dissipar melhor o produto. Assim, Júlio foi contaminado ao tocar na soja com paraquate e ao aspirar a poeira produzida ao descarregá-la.

“Uma indenização não vai pagar pela vida dele, claro. Mas é muita revolta. Esse paraquate é mais que um veneno, é uma bomba atômica. Tem mais gente que morreu aqui por causa dele. É muito difícil ver seu filho ir desse jeito…. Nossa vida desabou. A gente arrumou força com os amigos e pela minha netinha. Ele (Júlio) era quem fazia a mamadeira dela toda a noite.”


Por trás do alimento

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. Clique para ler a cobertura completa no site do projeto.

*Esta reportagem foi publicada originalmente pela Repórter Brasil.

8 frutas do mês e os benefícios para a saúde

Abacaxi (Reprodução)

Uma das frutas típicas do mês de setembro é o abacaxi. Fonte de vitaminas A e C, o abacaxi contribui para o aumento da imunidade, além de ter papel antioxidante e anti-inflamatório. A fruta também tem alto teor de manganês e é um bom alimento para auxiliar na prevenção da osteoporose e de fraturas ósseas.

Priorizar o consumo de alimentos da estação é benéfico não só para o produtor, mas também para o consumidor, que terá à disposição frutas, legumes ou verduras com mais nutrientes.

Veja outras frutas de setembro que a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo incentiva o consumo:

Bananas (Reprodução)

Banana nanica

Tem o sabor mais adocicado, tornando-se uma das variedades preferidas da fruta. Possui fibras que auxiliam no bom funcionamento intestinal, além de fósforo que ajuda na saúde dos dentes e ossos e a vitamina C, que atua no sistema imunológico e é antioxidante.

Banana prata

É um dos tipos que contém maior quantidade de potássio em sua composição, prevenindo câimbras musculares e auxiliando no controle de pressão arterial. Além disso, possui triptofano, aminoácido precursor do hormônio serotonina que está associado com a sensação de bem-estar.

Laranja Lima (Reprodução)

Laranja lima

É menos ácida que os outros tipos. É bastante suculenta, rica em vitamina C, potássio, ferro e vitaminas do complexo B, além de possuir características anti-inflamatórias.

Laranja (Reprodução)

Laranja pera

A laranja é uma fruta fonte de vitamina C, além de conter fibra, ácido fólico, potássio e antioxidantes, possui diversos benefícios, entre eles ação preventiva contra gripes e resfriados, melhora função do sistema digestivo e auxilia na prevenção de anemia, pois aumenta a absorção do ferro. A melhor forma a ser consumida é in natura.

Manga (Reprodução)

Manga

Fonte de carotenoides e carboidrato, ela fornece energia para o organismo. Contém cálcio e fibras, auxiliando no bom funcionamento intestinal.

Melão (Reprodução)

Melão

O melão contém vitaminas A e C, potássio, e uma grande quantidade de água. Proporciona diversos benefícios à saúde, dentre eles controlar a pressão arterial, prevenir a desidratação e função diurética. É pouco calórico e pode ser consumido in natura ou em forma de sucos.

Tangerina (Reprodução)

Tangerina

Também conhecida como mexerica ou bergamota, é uma fruta cítrica rica em vitamina C, que auxilia na proteção do organismo. Contém fósforo e cálcio, que são minerais importantes para a manutenção de ossos e dentes.

*Conteúdo do Governo do Estado de São Paulo

Proibida a venda de seis marcas de azeite

Por  Jonas Valente

(Arquivo/Agência Brasil)

O Ministério da Agricultura proibiu a comercialização de seis marcas de azeite. A decisão foi tomada após equipes de fiscalização encontrarem produtos fraudados ou impróprios para o consumo. As marcas vetadas foram: Oliveiras do Conde, Quinta Lusitana, Quinta D’Oro, Évora, Costanera e Olivais do Porto.

A fiscalização descobriu azeites com problema em Alagoas, Goiás, Mato Grosso, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Santa Catarina e São Paulo. Os itens estavam em redes de supermercados e pequenos estabelecimentos de comercialização de alimentos.

A identificação resultou de uma operação da Polícia Civil de São Paulo, que encontrou uma fábrica clandestina que adulterava azeites, misturando óleos para colocar no mercado garrafas sem azeite de oliva. Essa prática é fraude ao consumidor e crime à saúde pública. Após essa operação, foram testadas 54 marcas do produto.

Os comerciantes do produto, como redes de supermercado, onde foram encontrados os itens irregulares, terão de informar os estoques restantes. Caso se recusem a fornecer informações sobre a presença desses produtos, podem ser autuados.

A empresa pega vendendo produtos das marcas objeto da proibição poderão ser denunciadas ao Ministério Público Federal e responsabilizadas criminalmente, bem como punidas com multas de R$ 5 mil por ocorrência.

O Ministério da Agricultura alerta os consumidores a desconfiar de azeites muito baratos, pois há boas chances de adulteração. Segundo o órgão, em geral o item custa em torno de R$ 17, enquanto exemplares falsificados são comercializados por entre R$ 7 e R$ 10.

IBGE prevê safra de grãos 2,2% maior neste ano

Por Vitor Abdala

A safra de cereais, leguminosas e oleaginosas neste ano deve chegar a 231,5 milhões de toneladas, divulgou hoje o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Caso a previsão se concretize, a produção será 2,2% maior, ou seja, com 5 milhões de toneladas a mais do que a registrada em 2018.

A estimativa do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de abril do instituto é 0,6% maior em relação à última previsão, feita em março.



Os principais responsáveis pelo aumento da previsão de abril em relação a maio foram as projeções mais otimistas para as produções de milho (0,6%), soja (0,1%), sorgo (11%), trigo (7,1%) e algodão herbáceo (1,8%).

Entre as três principais safras de grãos, apenas o milho deverá ter crescimento em relação a 2018 (12,6%). A soja deverá queda de 4,4% e o arroz, de 10,6%.

Entre as lavouras com produção esperada de mais de um milhão de toneladas, além do milho, são esperadas altas, na comparação de 2019 com 2018, nas safras de algodão (29%), feijão (3,2%), sorgo (5%) e trigo (3,9%).

A área colhida também deve fechar o ano com crescimento de 2,2% em relação a 2018, uma redução de 0,1% na comparação com a estimativa feita em março.

Outros produtos

Além dos cereais, leguminosas e oleaginosas, o IBGE também estima a produção de outras lavouras importantes para a agricultura brasileira como a cana-de-açúcar, o café e a laranja.

A cana-de-açúcar, maior produto agrícola brasileiro, com mais de 600 mil toneladas colhidas por ano, deve fechar o ano com alta de 2,1%. Outros produtos com alta prevista são a mandioca (5,6%), o tomate (0,7%) e a banana (2,7%).

Por outro lado, são esperadas quedas nas safras de café (-10%), laranja (-5,2%) e uva (-10,7%).

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Produção de ovos bate recorde no país, diz IBGE

Por Vitor Abdala

(Arquivo/Agência Brasil)

As granjas brasileiras registraram a produção de 928,42 milhões de dúzias de ovos no quarto trimestre de 2018. Segundo dados divulgados hoje (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse é o maior valor da série da histórica da pesquisa, iniciada em 1987.

A produção de ovos do quarto trimestre foi 1% maior do que a registrada no terceiro trimestre e 8,2% superior ao resultado do quarto trimestre de 2017.

A pesquisa também analisa as aquisições de leite e de couro pelas unidades beneficiadoras do país. A aquisição de leite registrou aumentos de 7,2% em relação ao terceiro trimestre de 2018 e de 2,5% na comparação com o quarto trimestre de 2017. Já a aquisição de couro teve queda de 2,1% em relação ao terceiro trimestre e alta de 2% em relação ao quarto trimestre do ano anterior.

Abate de animais

O IBGE também divulgou hoje as pesquisas de abates de bovinos, suínos e de frangos. O abate de bovinos chegou a 8,09 milhões de cabeças de bovinos no quarto trimestre de 2018, uma queda de 2,3% na comparação com o terceiro trimestre. O resultado é 0,4% maior do que o do quarto trimestre de 2017.

No quarto trimestre de 2018, foram abatidas 11,1 milhões de cabeças de suínos, representando queda de 4,0% em relação ao trimestre imediatamente anterior e um crescimento de 0,4% na comparação com o mesmo período de 2017.

No país, foram abatidas 1,42 bilhão de cabeças de frangos, no quarto trimestre de 2018. Esse resultado significou queda em relação ao trimestre imediatamente anterior (-0,7%) e ao mesmo período de 2017 (-0,9%).

Ministério da Agricultura define estrutura esta semana

Carolina Gonçalves/Agência Brasil

A deputada federal e futura ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro, Tereza Cristina,dá entrevista na saída de sua residência em Brasília (Antonio Cruz/Agência Brasil)

A estrutura do Ministério da Agricultura, que poderá englobar pesca e agricultura familiar, será definida nesta terça-feira (13), em Brasília. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, tem reunião marcada com a deputada federal Tereza Cristina (DEM-MS), que comandará a pasta. Também é aguardado o anúncio do nome para o Ministério do Meio Ambiente que atuará em conjunto com a Agricultura.

No encontro, Tereza Cristina indicou que quer definir com o presidente eleito as medidas que poderão ser adotadas para garantir mais segurança jurídica para os produtores e a redução de impostos. A deputada federal é presidente da Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) na Câmara.



Tereza Cristina disse que sua intenção é começar o trabalho nas primeiras horas de segunda-feira (12). Engenheira agrônoma e empresária, ela afirmou que vai se sentar com técnicos e especialistas do atual ministério para entender melhor como funciona o trabalho. “É momento de ouvir muito agora”, afirmou a futura ministra.

Para a deputada federal, é fundamental também a definição sobre o Ministério do Meio Ambiente, que inicialmente seria fundido com a Agricultura. Segundo disse, ela espera ter uma relação “muito boa” com o titular que assumir a pasta. Após encontro com Bolsonaro, integrantes da bancada ruralista afirmaram que o nome para o Meio Ambiente será indicado pelo grupo. Não foi citado um nome específico.

Greenpeace se posiciona sobre a fusão de Ministérios

O Greenpeace Brasil emitiu nota nesta quarta-feira (31) sobre a possibilidade de o governo eleito, de Jair Bolsonaro (PSL), implantar uma fusão entre os Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Leia abaixo a íntegra da nota.

(Portal Greenpeace/Reprodução)

“Caso se concretize, a fusão do Ministério do Meio Ambiente com o Ministério da Agricultura será um grande equívoco e afetará o país tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental.

O Brasil é o país mais biodiverso do planeta, com a mais importante floresta do mundo. Um patrimônio único, que nos ajuda a ser um dos maiores produtores de alimentos do planeta. Precisamos fortalecer as instituições que protegem esse ativo, e não enfraquecê-las.

Do ponto de vista econômico, é um tiro no pé. Mercados internacionais e consumidores querem garantias de que o nosso produto agrícola não esteja manchado com a destruição florestal. Ao extinguir o Ministério do Meio Ambiente, reduziremos o combate ao desmatamento, perdendo competitividade, o que pode inclusive afetar a geração de empregos.

Além disso, o desmatamento, principalmente na Amazônia, ocorre majoritariamente de forma ilegal. Combater esse crime inclusive ajuda a fortalecer o produtor que respeita a lei.

Podemos e devemos produzir sem desmatar. Isso nos torna mais competitivos. Enfraquecer o Ministério do Meio Ambiente e, consequentemente, o IBAMA coloca o Brasil no caminho oposto, na contramão do mundo, prejudicando o país em vários sentidos.

O Greenpeace é crítico a qualquer posicionamento ou proposta que ofereça risco ao meio ambiente, às conquistas sociais e à democracia.”