Ex-secretário do Amazonas contradiz Pazuello em depoimento à CPI

Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

O ex-secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo afirmou à CPI da Pandemia nesta terça-feira (15/06) que telefonou na noite de 7 de janeiro para o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello para pedir ajuda no fornecimento de oxigênio hospitalar a Manaus. Campêlo ainda relatou como o ministério tentou promover tratamentos ineficazes durante a crise no estado.

A cidade foi palco de um colapso em sua rede hospitalar no início do ano, com dezenas de pacientes com covid-19  morrendo sufocados por causa da falta de oxigênio medicinal. O caso rendeu um inquérito contra Pazuello no Supremo Tribunal Federal (STF) e é apontado por críticos do governo federal como um dos maiores símbolos do descaso do presidente Jair Bolsonaro e seu círculo em relação à pandemia.

Os senadores tentam precisar o momento exato em que o governo Bolsonaro foi avisado sobre a crise no estado e se a União executou ações para conter o colapso

A afirmação de Campêlo contradiz o depoimento que Pazuello prestou à comissão. O general disse que só teria sido informado sobre problemas no fornecimento de oxigênio no dia 10 de janeiro. Campêlo, por sua vez, afirmou que contatou o então ministro tanto no dia 7 quanto no dia 10.

Apesar de ter falado com Pazuello no dia 7, e também no dia 10, presencialmente, o ex-secretário disse que, de seu conhecimento, não houve resposta por parte do Ministério da Saúde a uma série de ofícios enviados pelo governo local sobre o problema de desabastecimento.

Pazuello já informou datas diferentes sobre quando teria sido alertado sobre os problemas, chegando a apontar dias díspares como 8 e 17 de janeiro, até fixar o dia 10 de janeiro no seu depoimento aos senadores. Documentos do próprio Ministério da Saúde também indicam que ele foi efetivamente avisado em 7 de janeiro.

Questionado ainda se o Ministério das Relações Exteriores atuou para ajudar a levar oxigênio de outros países para a rede hospitalar do Amazonas, Campêlo afirmou que não teve conhecimento de alguma ação nesse sentido.

Críticas

Apesar das afirmações que colocam mais pressão sobre o governo federal, Campêlo minimizou a crise do oxigênio de Manaus afirmando que a cidade registrou a intermitência de abastecimento de oxigênio apenas nos dias 14 e 15 de janeiro. “Não foram apenas dois dias”, interrompeu o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

A CPI também exibiu um vídeo com reportagens do final de janeiro que mostravam a extensão do colapso e pessoas comprando oxigênio para parentes que sofriam com a covid-19. “As pessoas não iriam comprar se não tivesse colapsado”, disse o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

O senador Eduardo Braga (MDB-AM) também criticou o ex-secretário afirmando que as medidas para lidar com a falta de oxigênio no Amazonas deveriam ter sido tomadas com antecedência, já que os sinais de colapso já estavam escancarados há meses. “Não subestime o nosso raciocínio”, disse a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), mencionando que mais de 2 mil óbitos foram registrados no estado entre os dias 6 e 30 de janeiro.

Pressionado pelos senadores, Campêlo acabou reconhecendo que o governo do Amazonas não comprou usinas de oxigênio para suprir a demanda nem mesmo depois do fim da crise, em janeiro. O ex-secretário disse que foram abertos processos para compra, mas que eles não foram bem-sucedidos.

O senador Eduardo Braga também leu, durante a sessão, uma carta da empresa fornecedora de oxiênio White Martins endereçada ao governo amazonense que alertava para uma eventual escassez do elemento químico já em julho de 2020. Em setembro, a empresa reforçou o alerta. “Não para dizer que você não sabia, que você não poderia comprar uma usina”, disse Braga.

O senador Otto Alencar (PSD-BA), que é médico, disse que o colapso em Manaus ocorreu com a participação de dois gestores (Pazuello e Campêlo) que não tinham conhecimento da área de saúde.

“Sentado na cadeira do Ministério da Saúde, o general que não sabia sequer o que era o SUS. Sentado na cadeira de secretário de Saúde, um engenheiro que não tinha experiência absolutamente nenhuma em medicina sanitária, epidemiológica. Eu acho que esse casamento deu a tragédia de Manaus”, disse Alencar.

Campêlo é investigado por suspeita de fraude na contratação de hospitais de campanha e uso de verbas federais durante a pandemia. Ele comandou a Secretaria de Saúde do Amazonas até 7 de junho, quando pediu para deixar o cargo após ser preso na Operação Sangria. O governador do Amazonas, Wilson Lima, também é investigado no âmbito da mesma operação.

Remédios ineficazes e aplicativo

O ex-secretário Marcellus Campêlo também afirmou que o estado enviou em 31 de dezembro de 2020 um ofício ao governo Bolsonaro sobre a situação cada vez mais grave da saúde no Amazonas. A resposta do governo foi incentivar ainda mais o chamado “tratamento precoce”, o coquetel de drogas ineficazes propagandeado por Bolsonaro e figuras da extrema direita.

Em 4 de janeiro de 2021, os membros do governo amazonense receberam a secretária do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro, a “capitã cloroquina”, que já prestou depoimento à CPI. “Vimos uma ênfase da doutora Mayra no tratamento precoce”, disse.

“A visita da doutora, no dia 4, tinha um enfoque muito forte e firme no tratamento precoce. Foi uma reunião gravada, uma reunião aberta, inclusive, à imprensa, onde ela falava isso e falava de um sistema chamado TrateCov a que, depois, nós teríamos acesso”, completou Campêlo.

Ele também falou que o governo federal enviou ao estado 120 mil comprimidos de hidroxicloroquina após a primeira visita de Mayra Pinheiro. O ex-secretário, no entanto, disse que essa remessa foi distribuída a municípios e que o governo do estado não adotou oficialmente “o tratamento precoce”. “A rede estadual não faz tratamento precoce. Não orientava o uso [da cloroquina]”, disse.

Poucos dias depois, Manaus foi palco do lançamento do TratCov, um aplicativo que recomendava indiscriminadamente cloroquina até mesmo para bebês. Pazuello participou da cerimônia de lançamento da ferramenta. Mais tarde, ele tentou argumentar que o aplicativo era um “protótipo” que havia ido ao ar indevidamente, mesmo com a ferramenta aparecendo disponível no site do ministério. Pinheiro também fez um discurso entusiasmado sobre o TrateCov em Manaus.

Indagado sobre o aplicativo, Campêlo disse que no lançamento do aplicativo nem sabia “do que se tratava”.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, perguntou a Campêlo se a suposta tese da imunidade de rebanho gerada pela primeira onda de casos de covid-19 no Amazonas, em 2020, teria influenciado políticas de saúde no estado. “Essa tese nunca foi ventilada em qualquer reunião de que eu tenha participado”, respondeu Campêlo.

Próximos depoimentos

Na quarta-feira, a CPI deve ouvir o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel. O político é suspeito de ter se beneficiado de esquemas de corrupção durante a gestão da pandemia. Em setembro, Witzel perdeu o cargo de governador após sofrer um processo de impeachment. “Eu irei [à CPI] e vou responder a todas as perguntas”, afirmou Witzel nesta terça-feira à revista Veja.

Na quinta-feira está previsto o depoimento do empresário Carlos “Wizard” Martins, suspeito de ser um dos organizadores do “gabinete das sombras” que operava paralelamente ao Ministério da Saúde para promover drogas ineficazes junto à população. Martins atuou como conselheiro de Pazuello em 2020 e quase foi nomeado para um cargo oficial no ministério, mas a indicação foi retirada após o empresário sofrer críticas por sugerir, sem provas, que o número de mortes por covid-19 no Brasil estava sendo artificialmente superestimado. Nos últimos meses, Martins, um entusiasta da cloroquina, tentou liderar uma iniciativa fracassada para adquirir vacinas para o setor privado.

No entanto, ainda não é certo que o depoimento de Wizard vai mesmo ocorrer. O empresário está nos Estados Unidos, aonde levou sua família para ser vacinada. Membros da CPI reclamaram que Wizard evitou responder a tentativas de contato por vários dias. Na segunda-feira, ele finalmente enviou um ofício ao colegiado solicitando que seu depoimento ocorresse de forma virtual. O pedido foi recusado pela cúpula da CPI, que afirmou que “tomará providências” caso o empresário não compareça. As medidas podem incluir condução coercitiva e retenção de passaporte.

Por  Jean-Philip Struck, da Deutsche Welle

Governador do Amazonas é alvo de operação da PF

Wilson Lima, governador do Amazonas (Diego Peres/Gov. do Estado do Amazonas)

A Polícia Federal deflagrou, hoje (2), em Manaus e Porto Alegre, a quarta fase da Operação Sangria, que investiga desvio de dinheiro público, organização criminosa e fraude em licitação no Estado do Amazonas. Entre os alvos, segundo apurou o jornal O Globo, está Wilson Lima (PSC), governador do Amazonas, e o secretário de Saúde do Estado.

A ação da Polícia Federal cumpre 25 mandados judiciais, expedidos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), sendo 19 mandados de busca e apreensão e 6 de prisão temporária, além de sequestro de bens e valores.

Investigações revelaram indícios de que funcionários do alto escalão da Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas realizaram contratação fraudulenta para favorecer grupo de empresários locais, sob orientação da cúpula do Governo do Estado, de um hospital de campanha.

“De acordo com os elementos de prova, ele não atende às necessidades básicas de assistência à população atingida pela pandemia COVID-19, bem como coloca em risco de contaminação os pacientes e os funcionários da unidade”, informa nota da PF.

Os investigadores também indicam que contratos das áreas de conservação e limpeza, lavanderia hospitalar e diagnóstico por imagem, todos os três firmados em janeiro de 2021 com o Governo do Amazonas, cujos serviços são prestados em apoio ao hospital de campanha, contêm indícios de montagem e direcionamento de procedimento licitatório, prática de sobrepreço e não prestação de serviços contratados.

Os indiciados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de fraude à licitação, peculato e pertencimento a organização criminosa e, se condenados, poderão cumprir pena de até 24 anos de reclusão.

Após colapso na saúde, amazonenses parecem não ter medo de nova onda

Aglomeração em Manaus (Bruno Kelly/Amazonia Real/via Fotos Públicas)

No último domingo (04), viralizaram na internet vídeos e posts de uma mega-festa realizada em um condomínio de luxo da Avenida Ephigênio Salles, na zona centro-sul de Manaus. Um dia depois, outras imagens começaram a circular nas redes sociais denunciando um cruzeiro com aproximadamente 60 turistas brasileiros e estrangeiros. Na terça-feira (06), a Polícia Civil interceptou três embarcações de luxo que faziam esses passeios, imediatamente considerados clandestinos. Havia cinco dias, os turistas navegavam tranquilamente e felizes pelo rio Amazonas.

Em períodos normais, festas ou passeios de barco fazem parte da paisagem da Amazônia. Nesta pandemia, esses atos de aglomeração simbolizam a violação às medidas sanitárias para conter o novo coronavírus e um desrespeito às quase 350 mil mortes de Covid-19. Mas traduzem também a postura do governo do Amazonas e, em particular, da prefeitura de Manaus, que já nos primeiros sinais de queda no número de internações e mortes no estado decidiram flexibilizar o isolamento social, apesar dos alertas de que nada está controlado.

A cada fim de semana, o telefone 190 da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas recebe uma média de 600 denúncias de festas clandestinas. As informações são encaminhadas às viaturas da Polícia Militar para verificação das ocorrências – a maioria em Manaus.

Festa em condomínio de luxo em Manaus (Foto reprodução redes sociais)

A festança clandestina do condomínio da Avenida Ephigênio Salles gerou imediata reação nas redes sociais. “Um dia desses estava todo mundo morrendo sem oxigênio. Agora já está desse jeito? Ninguém aprende nem se tiver uma terceira onda”, protestou o internauta Marcos Dias. “Oh coisa linda… Vamos aguardar os próximos episódios do povo fazendo vaquinha para pagar hospital particular”, ironizou Silvio Carlos. “Uma verdadeira vergonha. Falta de empatia”, resumiu Jussara Menezes.

Mesmo sob protestos, esse episódio corre o risco de ficar por isso mesmo. A Polícia Civil, provocada, limitou-se a dizer que investiga a denúncia que estaria relacionada a “um dos” condomínios de luxo localizados na Avenida Ephigênio Salles: Residencial Ephygenio Salles, Greenwood Park, Jardim Vila Rica e Bosque Imperial

Diferente dos turistas do “cruzeiro macabro” que foram encaminhados para a Central de Flagrantes da Delegacia Geral (DG), onde assinaram um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e vão responder pelo descumprimento de medidas sanitárias, de acordo com o artigo 268 do Código Penal: “Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa: Pena – detenção, de um mês a um ano, e multa”.

“Boa parte deles (passageiros) é estrangeira, e vieram provavelmente para conhecer a Amazônia, mas em um contexto muito triste. Estamos batalhando, vidas estão sendo perdidas, a polícia está na rua para coibir esse tipo de coisa para que a gente passe rapidamente pela pandemia. Mas, infelizmente, algumas pessoas insistem em desobedecer”, afirmou o diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), Bruno Fraga.

Cruzeiro macabro teve turistas detidos 
(Foto: Divugação PC-AM) 

A excursão Amazon Immersion, cujo panfleto é todo em inglês, levava os 60 turistas para visitas a comunidades tradicionais indígenas e ribeirinhas. O grupo estava a bordo do iate Anna Beatriz 1. Acompanhavam o comboio as embarcações Hélio Gabriel e Mano Zeca, que não levavam passageiros.

O iate Anna Beatriz 1 tem 19 suítes – sendo uma master com cama de casal e TV de plasma -, e três decks, restaurante, cozinha, sala de jogos, bar e área de entretenimento e lazer com piscina. Na parte de segurança, a embarcação tem dois grupos geradores e uma radar de bordo, GPS e rádio UHF/VHF. O custo cobrando por passageiro no cruzeiro, segundo a polícia, foi entre R$ 6,1 mil a R$ 11,7 mil.

“Constatamos estrangeiros das mais diversas nacionalidades, brasileiros também, pessoas de diversos cantos do país, de alto poder aquisitivo, com acesso à informação. Eles estão desde o dia 2 de abril navegando e passaram por comunidades indígenas. Nós vemos muitos estrangeiros falando sobre a nova cepa aqui no Amazonas, está todo mundo criticando, quando na verdade nós sabemos da fragilidade dos nossos índios em contato com pessoas de fora, principalmente em uma situação dessas”, destacou o delegado Juan Valério.

O fim do isolamento

Fiscalizações fecha estabelecimentos comerciais em Manaus 
(Foto: Herick Pereira/Secom)

Até o dia 19 março, a plataforma Inloco (que teve seu serviço descontinuado em 23 de março), mostrou  que o Amazonas chegou a um  índice de isolamento social de no máximo 40%, bem longe dos 60% registrados no mês anterior; continua caindo. Especialistas veem com preocupação essa postura de decretar, por conta própria, uma volta à normalidade. Mas ela se justifica a partir das orientações dadas pelos poderes estadual e municipais.

O afrouxamento das medidas restritivas no Amazonas teve início a partir de 22 de fevereiro, depois da explosão de casos da segunda onda, que culminou com a crise da falta de oxigênio no Estado, em meados de janeiro, que levou pessoas à morte por asfixia. Bastou que o lockdown parcial implementado pelo governo estadual ajudasse a reduzir o ritmo de contaminação, para as autoridades públicas iniciarem a flexibilização.

O epidemiologista do Instituto Leônidas e Maria Deane, a Fiocruz Amazônia, Jesem Orellana, aponta que a redução no número de casos, alcançada graças às medidas mais restritivas adotada pelo Amazonas, já mostra um recrudescimento. “Neste momento, Manaus já apresenta sinais de reversão da queda [de casos], ou seja, pode ser que nos próximos dias, nas próximas semanas, a incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave, portanto de Covid-19, volte a aumentar, mas não sabemos em que velocidade isso vai acontecer, e nem quanto tempo isso vai demorar para de fato se concretizar”, prevê.

Uma das principais vozes de alerta para a gravidade da pandemia no Amazonas, o pesquisador Orellana lembra que a desaceleração no número de casos vinha muito rápida entre janeiro e fevereiro, e que as flexibilizações promovidas pelo governo do Estado acabaram por jogar todo o esforço para a contenção do vírus.  

Cedo para flexibilizar

Movimento na rua Marechal Deodoro, no centro de Manaus
( Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

O infectologista Nelson Barbosa também avalia que foi cedo demais para o governo adotar as medidas de relaxamento. “Até porque, como os próprios estudos científicos mostraram, esse vírus faz uma mutação muito rápida. Então, provavelmente, já tem outras mutações do coronavírus e aí o que que pode acontecer? Já que a população do Amazonas só foi vacinada em 9,7%, o risco é muito grande de haver uma terceira onda”, alerta o especialista.

De forma geral, os pesquisadores apontam que o isolamento social ainda é a forma mais eficaz de conter a circulação viral, principalmente por causa do ritmo lento da vacinação no Estado. “Isso [ritmo lento da vacinação] é um reflexo das medidas desastrosas implementadas pelos ministros da saúde e pelo presidente Jair Bolsonaro. O lobby contra a vacina causou condições para que hoje nós vacinamos muito menos do que de fato precisaríamos”, aponta o doutorando de biologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Lucas Ferrante, que já fez o alerta de uma possível terceira onda.

O ritmo de vacinação em Manaus, de acordo com Ferrante, ainda é tão pequeno que não é capaz de interferir nas dinâmicas epidemiológicas e propagação do vírus. Até a quinta-feira (8), pouco mais de 607.582 doses de vacinas haviam sido aplicadas em todo o Amazonas, sendo 463.411 na primeira dose e 144.171 na segunda dose. 

“Precisamos adotar medidas mais restritivas para impedir este aumento de casos. Nós precisamos deter isso, principalmente, neste cenário catastrófico que o Brasil vive, onde com o maior número de internações, um novo colapso do sistema de saúde de Manaus seria extremamente preocupante, pois a cidade estaria desabastecida de suprimentos médicos básicos, uma vez que essa demanda aumentou para todo o País”, alerta Ferrante.  

Em todo o território nacional, a Covid-19 já fez 345.025 vítimas até esta quinta-feira (8). Já no Amazonas, o Ministério da Saúde informa que no último ano, mais de 11 mil óbitos foram registrados no estado. Veja o infográfico abaixo:

https://datawrapper.dwcdn.net/PVjYo/1/

Os dados do infográfico são do SRAG 2021 – Banco de Dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave – incluindo dados da COVID-19 atualizados até 28/03/2021. Na nova atualização, publicada em 05/04/2021, a reportagem da Amazônia Real encontrou uma diminuição de 1.335 mortes. Até o fechamento desta matéria, o Ministério da Saúde não explicou a ausência de quase 11% das mortes registradas especialmente no mês de janeiro/21, no estado do Amazonas. A agência aguarda uma resposta do governo federal.

Atividades paralisadas

Movimento na avenida Eduardo Ribeiro no centro de Manaus
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Apesar da aparente normalidade, o comércio manauara ainda sente os efeitos da segunda onda de uma forma acentuada. A Câmara de Dirigentes de Lojistas de Manaus (CDL Manaus) estima uma queda de pelo menos 40% no faturamento. “Estamos levantando no mês de abril quantas lojas estão fechadas e não vão abrir. Em abril, vamos verificar qual foi o volume de empregos perdidos”, anuncia o presidente da CDL Manaus, Ralph Assayag.

O Estado do Amazonas está na chamada fase laranja – que corresponde à classificação de risco moderado para a transmissão da Covid-19 -, de acordo com a Matriz de Risco, que segue o padrão de cores e níveis de riscos do documento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Nesta fase, explica Assayag, ainda há restrições de horários nos funcionamentos dos estabelecimentos comerciais. “Os shoppings têm perdido em torno de seis horas de abertura por dia, e aos domingos também que não abre. Os restaurantes noturnos estão fechados. Então, ainda tem muita coisa para acontecer para que a gente possa fazer o levantamento final em relação à perda de faturamento e o impacto da segunda onda da Covid-19 na economia do Estado”, ressalta o dirigente.

O lojista Eduardo Silva, de 49 anos e que há 19 trabalha como vendedor de eletroeletrônicos no centro de Manaus, estima que a atividade caiu “pelo menos uns 80%”. Para ele, a falta do auxílio emergencial nos três primeiros meses do ano foi decisiva para a retenção do comércio. “Era o que estava ajudando a manter o comércio vivo”, disse.

Por que se isolar

Florentino Barbosa da Silva no mercado Adolpho Lisboa, em Manaus 
(Foto: Leanderson Lima/Amazônia Real)

No icônico mercado municipal Adolpho Lisboa, um dos cartões postais de Manaus, Florentino Barbosa da Silva, de 65 anos – “e sete meses”, como ele faz questão de ressaltar – tenta retomar à vida normal depois de quase perder a luta contra a Covid-19. “Eu estive no bico do urubu e voltei”, brincou o comerciante que vende artesanatos, bolsas e chapéus.

Ao todo foram 33 dias internado no Hospital Pronto-Socorro 28 de agosto. A internação aconteceu no dia 14 de novembro de 2020. “Usei até fralda e fiquei sem andar”, recordou. Florentino afirmou que não morreu graças a um dos médicos que lutou para que ele não fosse intubado. Com dificuldade para “lembrar das coisas”, ele lamenta não se lembrar de quem o salvou. 

“Queriam me intubar, mas esse médico disse que não. Ele me levou para a UTI, mas não fui intubado. Todos os dias ele ia lá comigo. Ele foi uma pessoa incrível. Todos ali no 28 de agosto”, disse.

Após receber a alta, Florentino conta que se sente como se tivesse nascido de novo. Sobre o movimento no mercadão? Ele diz que está na casa dos 3%, mas, apesar das dificuldades, sabe que tem o que comemorar: a vida nova e a primeira dose da vacina já recebida. Para aqueles que acham que o novo coronavírus é brincadeira, o comerciante tem um recado: “Se você nunca teve Covid, nem pense em ter. É uma coisa muito perigosa. Tenham cuidado. Usem máscara que essa é a coisa certa”.

Investigações sobre festas em iates de luxo

A reportagem da Amazônia Real questionou com a Polícia Civil a nacionalidade dos participantes do evento “Imersão na Amazônia”, bem como a empresa que organizou a festa nos iates de luxo, e quem seria o proprietário das embarcações. O órgão não respondeu aos questionamentos.

A agência também procurou a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) para saber o número de autuações das polícias em festas clandestinas nesta pandemia. Segundo o órgão, entre os meses de setembro de 2020 e abril de 2021, 46 festas clandestinas foram registradas no Amazonas, sendo 40 em Manaus e seis em cidades do interior do estado, respectivamente: Manacapuru, Iranduba, Coari, Benjamin Constant, Tonantins e Novo Airão.

Durante os flagrantes nas festas clandestinas, 494 pessoas foram presas por acusação de desrespeitar as medidas sanitárias para prevenir a proliferação do novo coronavírus.  Mas o número de presos foi menor, pois essas festas, segundo SSP-AM, contaram com as participações de ao menos 20 mil pessoas. A secretaria disse que, em Manaus, a maioria das festas aconteceu em bairros nobres, como o Tarumã, na zona oeste da capital.

Sobre a festa no condomínio de luxo da Avenida Ephigênio Salles, no bairro Aleixo, a Delegacia Geral da Polícia Civil informou à Amazônia Real uma investigação está em curso no 16º Distrito de Polícia. No entanto, no condomínio de luxo ninguém foi preso por fazer aglomerações durante a maior crise sanitária no mundo.

  • Movimento na Feira da Manaus Moderna, no centro de Manaus ( Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)
  • Movimento na Feira da Manaus Moderna, no centro de Manaus ( Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Por Leanderson Lima, da Amazônia Real 

Em dois meses, covid-19 mata mais que em 2020 inteiro no Amazonas

(Reprodução)

O estado do Amazonas registrou mais mortes por Covid-19 em 2 meses de 2021 do que durante todo o ano de 2020. Até a última terça-feira (23), foram registradas 5.288 mortes causadas pela doença neste ano. De março a dezembro do ano passado, o total foi de 5.285. 

Os dados são da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), que divulga diariamente o número de mortos por Covid-19. Há uma diferença entre o registro e a ocorrência de mortes devido aos casos diagnosticados após os óbitos. 

O estado vive uma segunda onda de infecções e desde o início da pandemia do novo coronavírus registra 10.573 mortes. O número de casos confirmados até a última terça-feira (23) é de 309.311. O Amazonas enfrentou um colapso no sistema de saúde no mês passado devido à falta de leitos e cilindros de oxigênio; pacientes foram enviados para hospitais de outros estados e a região recebeu doações de diversas partes do Brasil. 

O país registrou 1.370 mortes por Covid-19 nas últimas 24 horas e soma 248.648 óbitos por conta da doença, segundo divulgação do consórcio dos veículos de imprensa. 

Por TV Cultura

Mourão defende que Pazuello seja investigado

O vice-presidente, Hamilton Mourão, afirmou nesta segunda-feira (25), em coletiva no Palácio do Planalto, que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, “tem feito um trabalho meticuloso e de forma honesta” à frente da pasta. No entanto, Mourão também disse ser a favor ao pedido de abertura de inquérito para investigar a conduta do ministro diante ao colapso na rede de saúde de Manaus. 

O pedido de inquérito foi solicitado pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, ao Supremo Tribunal Federal (STF) no último sábado (23). A decisão de apurar a conduta do ministro foi tomada para investigar uma possível omissão na crise em Manaus. A capital do Amazonas sofreu, nos últimos dias, com a superlotação de hospitais por conta do aumento de casos de Covid-19 e com a decorrente falta de oxigênio para os pacientes.

“Uma vez que existe muito disse-me-disse a respeito disso, acho que a melhor linha de ação é que se chegue à conclusão do que aconteceu. Eu, pelo o que tenho acompanhado do trabalho do ministro Pazuello, sei que ele tem feito um trabalho meticuloso e de forma honesta e competente. Então, que se investigue e que se chegue à conclusão do que aconteceu na realidade”, conclui Mourão.

Por TV Cultura

Caminhões com oxigênio chegam a Manaus

(Reprodução)

O Ministério da Infraestrutura informou hoje (24) que seis caminhões que saíram de Porto Velho com carregamento de oxigênio para Manaus concluíram a viagem. A capital amazonense passa por uma crise de falta do produto em razão do aumento no número de casos de covid-19.

Segundo a pasta, cerca de 100 mil metros cúbicos (m³) de oxigênio foram transportados para Manaus. As carretas saíram na última quarta-feira (20) de Porto Velho e levaram mais de três dias para cruzar os quase 900 quilômetros do trecho da BR-319, única ligação rodoviária com a capital amazonense, mas que não é pavimentada e possui diversos trechos com atoleiros no período chuvoso.

A operação foi realizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em parceria com a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Ainda de acordo com ministério, a expectativa é que uma última carreta chegue a Manaus no final do dia.

“Na primeira etapa da operação para transportar 160 mil m³ de oxigênio para Manaus, os comboios percorreram o trajeto de 877 quilômetros e contaram com o apoio das equipes de manutenção do Dnit para atravessar trechos não pavimentados da BR-319”, informou o comunicado.

A pasta destacou que a rota emergencial foi criada em alternativa às balsas da hidrovia do Rio Madeira e do Rio Amazonas, reduzindo em dias a chegada do material à capital amazonense. Ao todo, sete carretas com oxigênio passaram pela BR-319.

Por Luciano Nascimento, da Agência Brasil

Amazonas recebe primeiro lote da vacina de Oxford

Wilson Lima (PSC) e Eduardo Pazuello
(Diego Peres/Gov. do Amazonas)

O Estado do Amazonas recebeu na noite de ontem (23) o primeiro lote de vacinas de Oxford/AstraZeneca, distribuída no Brasil a partir da Fiocruz, pelo Ministério da Saúde. Nesse primeiro lote são132,5 mil doses. Neste domingo (24), deve chegar ao estado mais um lote de 44 mil doses do imunizante.

A vacina, fabricada pelo laboratório Serum, na Índia, chegou ao Brasil na sexta-feira (22). Em menos de 24 horas, a Fiocruz fez a verificação de segurança dos dois milhões de doses e liberou o imunizante para distribuição.

Pelo acordo firmado com o Ministério da Saúde, o Amazonas ficará com 5% do total de vacinas importadas da Índia. O Estado vive um colapso no sistema de saúde, com falta de oxigênio e superlotação de hospitais.

“Daqui, essas vacinas serão enviadas até a (Fundação de) Vigilância em Saúde para que possamos fazer o registro e catalogar, e a partir de então começar a distribuição na capital e no interior”, explicou Wilson Lima (PSC), governador do Amazonas, que acompanhou o desembarque das doses ao lado do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Com denúncia de desvio de vacinas, Manaus suspende vacinação

(Ruan Souza/Pref. de Manaus)

A vacinação contra a covid-19 foi suspensa temporariamente em Manaus nesta quinta-feira (21/01). Segundo a prefeitura e a Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas, a paralisação ocorre para redefinição das prioridades dentro do grupo que deve receber as primeiras doses do imunizante enviadas pelo governo federal.

De acordo com as autoridades, a vacinação deve ser retomada na sexta-feira, após a reformulação dos critérios de prioridade para a imunização, que deve focar em profissionais de saúde expostos à covid-19. A cidade teria recebido doses suficientes para vacinar apenas 34% dos profissionais da área.

A prefeitura afirmou ainda que a suspensão atende a recomendação de órgãos de controle locais, que solicitaram ao governo estadual a reorganização do plano de distribuição da vacina “com os critérios de definição de prioridades, baseados na exposição ao risco, comorbidades e faixa etária”.

O Amazonas recebeu 282.320 doses da Coronavac. Como são necessárias duas dose do imunizante para garantir a proteção contra o coronavírus, inicialmente o estado previa a vacinação de 100.642 indígenas; 29.361 profissionais de saúde; 400 idosos com mais de 60 anos que vivem em abrigos e 60 portadores de necessidades especiais também institucionalizados. 

Do total de doses recebidas, 13.046 fazem parte da chamada “reserva técnica”, criada devido à possibilidade de perda do material em acidentes ou de contaminação.

Denúncias de irregularidades

A suspensão ocorre em meio a uma investigação do Ministério Público (MP) sobre supostas irregularidades na aplicação de doses. Diversas fotos de parentes de empresários locais ou de pessoas próximas a políticos sendo vacinadas foram postadas nas redes sociais. As imagens levantaram as suspeitas de que a fila da vacina estaria sendo furada.

Um dos casos que mais chamou atenção foi o de duas irmãs recém-formadas em medicina que são parentes de um importante empresário local. A prefeitura nega irregularidades e alega que as jovens atuam em plantões de uma unidade de saúde, embora tenham sido nomeadas apenas nesta semana, junto com o início da imunização.

Depois da polêmica, o prefeito de Manaus, David Almeida, decidiu proibir a publicação de fotos da vacinação em redes sociais. “Se você se vacinou, fique para você. Você não precisa compartilhar na rede social. Essa é a determinação, esse é o pedido”, disse.

Nos dois primeiros dias de vacinação, 1.140 profissionais de saúde que atuam na linha de frente contra a covid-19 receberam a primeira dose da Coronavac, segundo a prefeitura.

Caos na saúde

(Ingrid Anne/Pref. de Manaus)

Manaus enfrenta um colapso em seu sistema de saúde em meio a uma explosão de casos de covid-19. A falta de oxigênio medicinal provocou a morte de vários pacientes e obrigou a remoção de dezenas para outros estados.

Assim como Manaus, várias cidades do interior do estado enfrentam escassez de oxigênio nos hospitais. Em Parintins, a cerca de 470 quilômetros da capital, a prefeitura comprou equipamentos da Alemanha para montar uma usina de oxigênio, que terá capacidade para atender até 80 leitos. A estrutura será montada no único hospital público da cidade, Jofre Cohen.

Em meio à crise dramática e após uma série de mortes, o Amazonas começou a receber cilindros de oxigênio de fora do estado e até do exterior. Na terça-feira, cinco caminhões com oxigênio doado pela Venezuela chegaram a Manaus, carregando mais de 107 mil metros cúbicos do gás.

O Amazonas demanda atualmente cerca de 76 mil metros cúbicos de oxigênio hospitalar por dia, mas as empresas não conseguem produzir mais de 28.200 metros cúbicos diariamente. 

Por Deutsche Welle

CN/ots

STJ dá 48h para Amazonas se explicar sobre oxigênio

O vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Jorge Mussi, determinou ontem (19) que o governo estadual e os municípios do Amazonas prestem em 48 horas esclarecimentos sobre o exato momento em que tiveram conhecimento do risco de desabastecimento de oxigênio em unidades de saúde.

O ministro ordenou que os esclarecimentos sejam “detalhados”. Ele também quer ser informado sobre o recebimento e o uso de verbas federais para o combate à pandemia de covid-19. Mussi está responsável pelo plantão do STJ, até o fim de janeiro, e pode decidir nos casos que julgar urgentes.

Mussi recebeu um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) no sábado (16) para investigar a condução da crise no sistema de saúde pelas autoridades estaduais e municipais do Amazonas, sobretudo em relação à falta de oxigênio nas unidades hospitalares.

Ao atender ao pedido da PGR, Mussi requisitou ainda informações sobre as ações adotadas no combate à pandemia; o número de leitos clínicos e de UTI à disposição; o número de profissionais envolvidos nas ações de combate à pandemia, entre outras informações técnicas sobre as ações de saúde pública desenvolvidas pelo Sistema Único de Saúde.

As apurações correrão no âmbito de um inquérito que já havia sido aberto no STJ para investigar desvios na instalação de um hospital de campanha em Manaus. Na decisão de terça-feira (19), Mussi escreveu que o Ministério Público Federal demonstrou haver a suspeita de “ilegalidades diversas no emprego de recursos federais destinados ao enfrentamento da pandemia”.

Por Agência Brasil