Yanomami de 15 anos é o 3º índio morto por Coronavírus

Avanei Xirixana, de 15 anos, passou 21 dias entre postos de saúde e hospitais com sintomas de Covid-19, segundo a Pastoral da Terra (Reprodução)

Morreu na noite desta quinta-feira (9) o jovem yanomami Alvanei Xirixana, de 15 anos de idade, que testou positivo para a covid-19 e havia sido internado no Hospital Geral de Roraima (HGR), em Boa Vista. Desde sexta-feira (3) ele recebia cuidados em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas segundo a Comissão Pastoral da Terra, o indígena ficou com os sintomas durante 21 dias, entre idas e vindas de postos de saúde.

A Comissão conversou com o médico infectologista Joel Gonzaga, da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai). Segundo ele, o quadro de saúde do estudante se agravou “com o comprometimento cerebral, tromboembolismo e complicações da resposta inflamatória do vírus”.

O estudante tinha a saúde afetada por ter contraído, antes da Covid-19, “doenças como desnutrição, anemia, malárias repetitivas e foi tratado, mês passado (março), de Malária Falciparum”, disse Gonzaga à Comissão Pastoral da Terra.

De acordo com o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei), que atende a região, ele era natural da aldeia Rehebe, nos domínios da Terra Indígena Yanomami, mas passou a residir no município de Alto Alegre, a 87 quilômetros (km) da capital. O motivo da mudança para a Terra Indígena Boqueirão foi dar continuidade aos estudos do ensino fundamental. Ainda segundo o Dsei, o adolescente morava com uma liderança indígena.



Quando o jovem apresentou os primeiros sintomas da covid-19 foi atendido no Hospital Municipal de Alto Alegre. Posteriormente, foi encaminhado ao HGR, já com um um quadro de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Ele refez o teste para diagnóstico da covid-19 e somente a contraprova detectou a infecção.

Subnotificação

Entidades de defesa da causa indígena, como o Instituto Socioambiental (ISA) e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) têm denunciado a subnotificação de casos da covid-19 e demonstrado preocupação quanto ao que isso pode representar de risco para as comunidades. Ambas alertam que ao menos outros dois indígenas contaminados pelo novo coronavírus já foram a óbito e que o governo federal não registrou as ocorrências no balanço. Os indígenas eram uma mulher da etnia borari, de 87 anos, que morreu em Alter do Chão, no município de Santarém (PA), e o outro era um homem de 55 anos, do povo Mura, morto em Manaus.

Os óbitos ocorreram, respectivamente, no dia 19 de março e 5 de abril. As circunstâncias do falecimento da borari, considerada uma guardiã local, motivaram o Ministério Público Federal (MPF) a instaurar um inquérito no último dia 2.

Em comunicado divulgado ontem (9), o Cimi disse que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não contabilizou as duas mortes por se tratar de indígenas que vivem em contexto urbano.

Na quarta-feira (8), o Ministério da Saúde informou que a Sesai, responsável pelos Dsei, ainda não havia sido oficialmente comunicada pelos órgãos responsáveis sobre o caso do yanomami. O ministério acrescentou que o Dsei tomou conhecimento “por iniciativa própria”, por meio da Vigilância Epidemiológica.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) disse que a Sesai não havia confirmado o caso.

Até ontem (9), o relatório do Ministério da Saúde relacionava 24 casos suspeitos da covid-19 entre a população indígena, três a mais do que no dia anterior. Já as ocorrências descartadas passaram de 27 para 31.

*Com informações da Agência Brasil e da Comissão Pastoral da Terra

Índio adolescente morto sofria ameaças, diz família

Família diz que Dorivan Guajajara havia recebido ameaças (Mídia Índia/Fotos Públicas)


Duas pessoas foram mortas em Amarante do Maranhão, no Maranhão, nesta sexta-feira (13). Uma das vítimas é o adolescente Dorivan Guajajara que tinha sinais de ferimentos feitos com faca.

“Tem que ter alguma Justiça para investigar isso. Precisamos de que se preocupem com o que está acontecendo conosco”, disse um dos irmãos de Dorivan, o indígena Luiz Carlos Guajajara à Comissão Pastoral da Terra. A família também diz que Dorivan havia recebido ameaças.

A violência na Terra Indígena Araribóia fez outras vítimas nas últimas semanas. “Em novembro, Paulo Paulino Guajajara foi brutalmente assassinado a tiros por invasores dentro de seu próprio território enquanto caçava. Na última semana, Firmino Praxede Guajajara e Raimundo Belnício Guajajara, foram mortos na Terra Indígena Cana Brava, próxima à Araribóia”, relata a Comissão.

A Comissão cita ainda dados do Centro Indigenista Missionário (Cimi), que revelam ao menos 20 mortes de Guajajara no território e nas imediações desde 1992.

*Com informações da Comissão Pastoral da Terra

Testemunha de sucessor de Dorothy Stang é assassinada

Por Letycia Bond 

Marcio tinha 33 anos e quatro filhos (Comissão Pastoral da Terra/Reprodução)


A principal testemunha de defesa de padre José Amaro Lopes de Sousa, considerado o sucessor da missionária Dorothy Stang, foi assassinada na noite da última quarta-feira (4). A informação foi confirmada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em comunicado divulgado hoje (6).

Representantes da CPT relataram que a vítima, Márcio Rodrigues dos Reis, de 33 anos, já havia sido ameaçado de morte e foi encurralado em uma emboscada. Em nota, a comissão contou que a vítima trabalhava como mototaxista e recebeu um chamado para transportar um passageiro em uma estrada que liga os municípios paraenses de Anapu e Pacajá. Antes de chegar ao destino indicado, o passageiro o atacou com um golpe de faca. O corpo foi localizado por pessoas que transitavam pelo local e acionaram a polícia.

“Em liberdade, mas ameaçado de morte, Márcio foi aconselhado a sair de Anapu. Passou então quase um ano residindo fora do município, mas, devido às relações familiares construídas em Anapu e para manter sua profissão de mototaxista, decidiu retornar alguns meses atrás. Achava que não corria mais risco. Mas acabou sendo assassinado”, escreveram representantes da CPT.

Para a comissão, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (Segup) deveria conduzir a apuração do assassinato de Marcio.

“Com o assassinato de Marcio, completam 15 assassinatos de trabalhadores ocorridos em Anapu, desde o ano de 2015. Após intensa pressão, a Polícia Civil de Anapu instaurou inquéritos para apurar os 14 homicídios até então ocorridos. Até o início de 2019, apenas dois casos tinham resultado em uma ação penal, e em outros três houve apenas indiciamento de algum acusado. Nos nove restantes, os inquéritos sequer foram concluídos. Em todos eles, apenas um caso teve mandante identificado e preso”, complementa a CPT na nota.

A Agência Brasil solicitou à Polícia Civil do Pará informações sobre o caso e aguarda retorno. A Segup também foi procurada, mas não respondeu até o momento da publicação desta reportagem.

Caso

De acordo com a pastoral, Sousa era um dos integrantes de um acampamento sem-terra que ocupou uma área disputada com Silvério Albano Fernandes, um fazendeiro da região. Na versão da CPT, Fernandes apontava o religioso como liderança do grupo. A propriedade em questão é objeto de um processo que tramita, atualmente, no Tribunal Regional Federal 1, em Brasília.

Sousa chegou a ser preso acusado de esbulho (quando alguém toma algo de outra pessoa forçadamente) e posse de arma. Ele foi absolvido do crime em setembro de 2018, mas considerado culpado por porte de arma.