Anvisa autoriza volta de testes da CoronaVac

(Divulgação)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou hoje (11) a retomada do estudo clínico da vacina CoronaVac, uma das que estão em fase de testes no país, conduzidos pelo Instituto Butantan. A agência disse ter recebido do Butantan novas informações sobre o “evento adverso grave” (EAG) que levou a Anvisa a suspender os estudos na última segunda-feira (9).

“Após avaliar os novos dados apresentados pelo patrocinador depois da suspensão do estudo, a Anvisa entende que tem subsídios suficientes para permitir a retomada da vacinação e segue acompanhando a investigação do desfecho do caso para que seja definida a possível relação de causalidade entre o EAG inesperado e a vacina”, informou a Anvisa por meio de nota.

No comunicado, a Anvisa voltou a defender a medida adotada na segunda-feira, que levou em consideração os dados que eram de conhecimento da agência até aquela data e que foram encaminhados ao órgão pelo Instituto Butantan.

Segundo a agência, a decisão se baseou em procedimentos previstos previsto nos protocolos de Boas Práticas Clínicas para este tipo de pesquisa e teve como premissa o “princípio da precaução” quando conhecimento científico não é capaz de afastar a possibilidade de dano.

Ao justificar a suspensão dos testes, a Anvisa disse que faltavam informações detalhadas sobre a gravidade e as causas do evento, assim como o parecer com o posicionamento do Comitê Independente de Monitoramento de Segurança (Data and Safety Monitoring Board, na sigla em inglês) e o boletim de ocorrência relacionado à provável motivação do EAG e que recebeu ontem (10) esses dados do Butantan.

EAG

Ontem, diferentes veículos de comunicação noticiaram que o evento adverso grave foi um óbito, por suicídio, não tendo ligação com a vacina. No entanto, em coletiva de imprensa ontem, o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres disse que a agência não havia recebido essa informação por canais oficiais.

“Diante do evento adverso grave, o comitê independente tem que atuar. Então a informação tem que vir daquele canal, os demais canais por mais que tenham informações relevantes, eles não são o comitê independente”, disse.

A Anvisa disse também que, em respeito à privacidade e integridade dos voluntários de pesquisa, não está divulgando a natureza do EAG.

Butantan

(Gov. do Estado de SP/Reprodução)

Após o anúncio da retomada dos estudos, o Butantan divulgou nota sobre o assunto. “Isso vem ao encontro com o que temos afirmado que essa é uma das vacinas mais seguras que está em desenvolvimento nesse momento. A Anvisa compreendeu nossos argumentos.  O óbito referido não tem relação com a vacina e, portanto, o estudo pode ser retomado.”, diz o comunicado. O instituto diz ainda que espera dar o andamento ao processo o mais rapidamente possível. “Sabemos que um dia com vacina faz diferença. Nós precisamos dessa vacina o quanto antes e por isso a nossa urgência na finalização desse estudo. Então agradeço à nossa Anvisa pela compreensão e pela rapidez com que foi autorizada a retomada dos estudos clínicos”. 

Ontem, em uma coletiva de imprensa sobre o assunto, em São Paulo, o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que o evento foi reportado detalhadamente à Anvisa no último dia 6 e classificou a decisão da Anvisa como precoce. Na entrevista, Covas ressaltou que os dados foram enviados à Anvisa dentro dos protocolos determinados pela agência reguladora e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), com todas as informações exigidas para o esclarecimento e para evitar a necessidade de paralisação do estudo.

Segundo o Butantan, o voluntário teria recebido a dose no dia 29 de outubro, 25 dias antes de o evento adverso acontecer. Covas disse ainda que o Butantan não sabe se o voluntário, que era paciente do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, tomou a vacina ou o placebo (uma substância que não apresenta interação ou efeito no organismo).

Ainda ontem, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que Anvisa prestasse informações em 48 horas sobre os estudos e o estágio de aprovação das vacinas contra a covid-19 no país.

Na manhã de hoje, parlamentares da Comissão Mista do Congresso que acompanha as medidas relacionadas ao novo coronavírus aprovaram requerimento de convite para ouvir os representantes da Anvisa e do Butantan. 

Por Luciano Nascimento, da Agência Brasil

Morte de voluntário não tem relação com vacina, diz Dimas Covas

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan (Governo do Estado de São/Reprodução)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu nesta segunda-feira (09/11) os ensaios clínicos da vacina Coronavac, do laboratório chinês Sinovac, contra o novo coronavírus, após a morte de um voluntário.

A agência comunicou que decidiu interromper o ensaio clínico da vacina Coronavac após a ocorrência de um “evento adverso grave” em 29 de outubro, sem dar mais informações.

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que se trata da morte de um voluntário e que ela não tem relação com a vacina. Ele declarou à TV Cultura que a Anvisa foi notificada de um óbito e não de um efeito adverso.

Com a interrupção do estudo, nenhum novo voluntário poderá ser vacinado, afirmou a Anvisa, acrescentando que vai “avaliar os dados observados até o momento e julgar o risco/benefício da continuidade” dos testes.

A suspensão dos ensaios clínicos da Coronavac, que envolve 9 mil voluntários, ocorreu um dia depois de o gigante farmacêutico americano Pfizer anunciar que a sua vacina contra a covid-19 alcançou 90% de eficácia nos testes.

As vacinas da Pfizer e Sinovac estão em testes da fase três, a última fase antes de receberem aprovação regulamentar. Ambas estão sendo testadas no Brasil, o segundo país mais afetado pela pandemia, com mais de 162 mil mortes.

A Coronavac, que também está sendo testada na China, na Turquia, em Bangladesh e na Indonésia,  tem sido objeto de uma batalha política no Brasil entre um dos seus maiores apoiadores, o governador de São Paulo, João Doria, e o seu principal adversário político, o presidente Jair Bolsonaro, que em outubro proibiu a compra da Coronavac.

Bolsonaro desdenhou da vacina por ela ser chinesa e promoveu a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford com a empresa farmacêutica britânica AstraZeneca.

O governo de São Paulo aliou-se à Sinovac para coordenar a última fase dos ensaios clínicos em território brasileiro e assinou um contrato que incluiu a aquisição e distribuição de 46 milhões de doses da vacina.

AS/lusa/ots

Por Deutsche Welle

Governo recua sobre vacina contra Covid-19

21/10/2020 Visita às instalações do Centro Tecnológico da Marinha (CTMSP)
Jair Bolsonaro, presidente da República (Marcos Corrêa/PR)

O presidente Jair Bolsonaro afirmou hoje (21) que o governo federal não comprará a vacina CoronaVac, que está sendo desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. De acordo com ele, antes de ser disponibilizada para a população, a vacina deverá ser “comprovada cientificamente” pelo Ministério da Saúde e certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“O povo brasileiro não será cobaia de ninguém. Não se justifica um bilionário aporte financeiro num medicamento que sequer ultrapassou sua fase de testagem”, escreveu Bolsonaro em publicação nas redes sociais.

Ontem (21), após reunião virtual com governadores, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, assinou um protocolo de intenções para adquirir 46 milhões de doses da CoronaVac, com o objetivo de ampliar a oferta de vacinação para os brasileiros. O ministério já tinha acordocom a AstraZeneca/Oxford, que previa 100 milhões de doses da vacina, e outro acordo com a iniciativa Covax, da Organização Mundial da Saúde, com mais 40 milhões de doses.

Segundo o ministério, o processo de aquisição ocorreria somente após o imunizante ser aprovado e obter o registro junto à Anvisa. Para auxiliar na produção da vacina, a pasta já havia anunciado o investimento de R$ 80 milhões para ampliação da estrutura do Butantan.

A CoronaVac já está na Fase 3 de testes em humanos e, segundo Instituto Butantan, ela é uma vacina segura, ou seja, não apresenta efeitos colaterais graves. Ao todo, os testes serão realizados em 13 mil voluntários e a expectativa é que sejam finalizados até dezembro.

Caso a última etapa de testes comprove a eficácia da vacina, ou seja, comprove que ela realmente protege contra o novo coronavírus, o acordo entre a Sinovac e o Butantan prevê a transferência de tecnologia para produção do imunizante no Brasil. A CoronaVac prevê a administração de duas doses por pessoa.

Ministério da Saúde

Já em pronunciamento na manhã de hoje, o secretário executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, informou que “houve uma interpretação equivocada da fala do ministro da Saúde” e não houve qualquer compromisso com o governo do estado de São Paulo no sentido de aquisição de vacina contra a covid-19. “Tratou-se de um protocolo de intenção entre o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan, sem caráter vinculante, por se tratar de um grande parceiro do Ministério da Saúde na produção de vacinas para o Programa Nacional de Imunizações [PNI].”

Franco esclareceu que é “mais uma inciativa para tentar proporcionar vacina segura e eficaz para a nossa população, neste caso como uma vacina brasileira” e se estiver disponível antes da vacina da AztraZeneca/Oxford ou da Covax. “Não há intenção de compra de vacinas chinesas”, ressaltou.

O secretário reforçou que qualquer vacina depende de análise técnica e aprovação da Anvisa, pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) do Sistema Único de Saúde (SUS). Franco reafirmou que quando qualquer vacina estiver disponível, certificada pela Anvisa e adquirida pelo Ministério da Saúde, ela será oferecida aos brasileiros por meio do PNI e, “no que depender desta pasta, não será obrigatória”.

Naja apreendida em Brasília é trazida para São Paulo

Já estão no Instituto Butantan, em São Paulo, as cobras Naja kaouthia e víbora-verde-voguel – espécies peçonhentas que estavam no Zoológico de Brasília, após terem sido apreendidas com o estudante acusado de tráfico de animais, Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl.

(Arquivo/Ivan Mattos/Zoológico de Brasília)

As duas serpentes, que são peçonhentas, junto com outras cinco cobras-do-milho não venenosas, chegaram hoje (12) no aeroporto de Guarulhos. Todos os protocolos de transporte previstos pelos órgãos regulatórios estão sendo respeitados, informou o instituto.

No Butantan, os animais foram registrados e passaram por exames clínicos gerais para entrar em uma quarentena pelo período de 30 a 40 dias. A definição sobre o destino deles será tomada após esse período. As cobras poderão ser encaminhados ao Museu Biológico ou ter atividades científicas e de educação ambiental como destino.

“O Butantan tem um papel atuante em casos como este. Não somos uma entidade fiscalizadora, mas, sim, de apoio aos órgãos responsáveis. Isso se dá por conta do nosso trabalho histórico com animais peçonhentos e venenosos. Há muitos anos que trabalhamos junto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Policia Ambiental no recebimento de animais apreendidos tanto da fauna brasileira, como da fauna exótica”, informou, por meio de nota, o diretor do Museu Biológico, Giuseppe Puorto, que desde 2017 tem em exposição no seu acervo uma naja kaouthia.

O estudante Pedro Henrique foi picado pela cobra naja no dia 7 de julho. Devido ao incidente, foi internado em um hospital privado na região administrativa do Gama, a 30 quilômetros do centro de Brasília. O quadro do rapaz evoluiu para estado grave e ele chegou a ser colocado em coma induzido, mas recebeu alta logo depois.

A cobra foi encontrada em uma caixa, na região central de Brasília, pelo Batalhão da Polícia Militar Ambiental (BPMA). O animal estava em boas condições e foi encaminhado para o Ibama, que o repassou ao Zoológico de Brasília.

Por Pedro Peduzzi – Repórter da Agência Brasil 

Como o país se prepara para garantir a vacina aos brasileiros

O Brasil teve uma reação lenta e descoordenada para frear a disseminação da covid-19, com o presidente Jair Bolsonaro e parte dos governadores questionando recomendações da comunidade científica sobre o tema. Como resultado, o país atingiu no último sábado (08/08) 100 mil mortos pela doença e divide com Estados Unidos e Índia a liderança no número de novos casos diários. Os preparativos para a testagem, produção e distribuição de uma vacina eficaz, porém, colocam hoje o Brasil em uma situação relativamente segura na corrida para imunizar sua população, segundo especialistas consultados pela DW Brasil.

Ong Rio de Paz fez manifestação, em Copacabana, em memória aos 100 mil brasileiros mortos (Rio de Paz/Fotos Públicas)

Há no mundo seis vacinas contra a covid-19 na fase 3 de ensaios clínicos, a última etapa antes da aprovação, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Dessas, duas receberam apoio direto de autoridades brasileiras e já contam com acordos que envolvem a compra e produção em território nacional: a desenvolvida pela universidade britânica de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, escolhida pelo governo federal, e a criada pela chinesa Sinovac, que tem o governo de São Paulo como parceiro.

As duas adotam tecnologias distintas, com vantagens e desvantagens. A aposta do presidente Jair Bolsonaro foi a de Oxford, por meio de uma parceria com a Fundação Oswaldo Cruz, instituição pública sediada no Rio de Janeiro. Na quinta-feira passada, o presidente assinou uma medida provisória abrindo crédito de R$ 1,9 bilhão para adquirir a tecnologia e oferecer 100 milhões de doses para brasileiros até meados de 2021, sendo 30 milhões ainda neste ano se a vacina se mostrar eficaz, distribuídas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Paralelamente, o governador de São Paulo, João Doria, aplica recursos paulistas em uma parceria entre o Instituto Butantan, órgão público de pesquisas biológicas, e a empresa chinesa Sinovac. Se apresentar bons resultados, poderiam ser produzidas no país 30 milhões de doses dessa vacina até janeiro de 2021.

A escolha do governo federal

Jair Bolsonaro, Presidente da República (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A opção do Ministério da Saúde pela vacina da Oxford/AstraZeneca começou a ser costurada no final de junho, quando a Fiocruz assinou um acordo prévio de cooperação para transferência de tecnologia e recebimento de insumos. A parceria foi confirmada em 31 de julho e viabilizada financeiramente pela medida provisória da semana passada.

Marco Krieger, vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, afirma à DW Brasil que o país fez um contrato de encomenda tecnológica, que permite a aquisição de uma tecnologia que ainda não está pronta, e inclui todos os passos para a sua nacionalização completa, que poderia ser alcançada no meio do ano que vem.

Até lá, a Fiocruz ainda dependeria da importação do princípio ativo da vacina, cuja compra também foi assegurada pela medida provisória e seria produzido pela AstraZeneca. Caberia à fundação brasileira então realizar os outros passos da produção, como formulação, envase, rotulagem e controle de qualidade.

Nessa transição, a Fiocruz poderia entregar 30 milhões de doses ainda neste ano e 70 milhões no primeiro semestre de 2021. “De forma paralela, estaremos fazendo a transferência total da tecnologia”, com capacidade para realizar todos os passos da produção no país no segundo semestre, diz Krieger.

Ele estima que até outubro haverá dados preliminares sobre a fase 3 do ensaio clínico, que se forem positivos permitiriam a obtenção de um registro emergencial da vacina junto à Anvisa. Segundo ele, não haverá pagamento de royalties nem à Universidade de Oxford nem ao laboratório AstraZeneca, mas apenas a cobertura dos custos de produção adicionados a uma taxa de no máximo 20% para cobrir gastos com pessoal e manutenção de estrutura.

A Fiocruz teria capacidade para fabricar 40 milhões de doses por mês. Para ampliar suas instalações, a medida provisória destina parte das verbas para reformar uma fábrica da fundação e comprar equipamentos necessários para produzir o princípio ativo da vacina no país. Na semana passada, a Fiocruz também recebeu uma doação de R$ 100 milhões de empresas e fundações com o mesmo objetivo.

(Itamar Crispim/Fiocruz)

Além de ser apoiada por iniciativas internacionais para a imunização da população mundial contra a covid-19, como a GAVI Alliance, a vacina de Oxford chamou a atenção da Fiocruz por utilizar uma tecnologia que tem sinergia com um dos atuais focos da fundação, a produção de biofármacos – uma nova geração de medicamentos produzidos a partir da biossíntese em organismos vivos.

Ao contrário dos medicamentos sintéticos, que são moléculas pequenas produzidas quimicamente, os biofármacos são proteínas úteis para tratar e curar doenças. Essas proteínas são produzidas por células vivas hospedeiras, em equipamentos conhecidos como biorreatores. Esse processo é realizado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) da Fiocruz.

A vacina de Oxford funciona dessa forma. Após obter o código genético da proteína spike presente no coronavírus, usada para penetrar nas células humanas, os cientistas modificaram um outro vírus, que causa infecções em chimpanzés mas não em humanos, para que ele produza essa proteína e provoque uma reação imunológica da pessoa que recebeu a vacina, tornando-a protegida caso venha a ter contato com o coronavírus. Trata-se de uma tecnologia nova e promissora, mas que ainda não se mostrou efetiva em nenhuma vacina aplicada em humanos.

“Levamos em consideração a tecnologia que poderia ser mais rapidamente interiorizada na Fiocruz. É algo que a gente já usa em outros produtos”, diz Krieger. Ele afirma que, se a vacina de Oxford não mostrar bons resultados, ou após a população já ter sido imunizada, a estrutura adquirida pela fundação poderá ser usada para produzir outros medicamentos e vacinas com a mesma tecnologia.

Ele está otimista em relação às chances de sucesso da vacina em teste no Brasil. “Com apenas uma dose ela já mostrou alto nível de voluntários que produziram anticorpos, mais de 91%, e quem tomou duas doses, 100%. Há chance gigantesca que essa vacina possa ser utilizada”, diz.

A aposta paulista

João Doria, governador de São Paulo, apresenta a vacina do laboratório Sinovac (Gov. do Estado de São Paulo)

Em 11 de junho, duas semanas antes do acordo inicial firmado entre a Fiocruz e Oxford/AstraZeneca, o Instituto Butantan e a Sinovac assinavam um termo para testar a vacina chinesa em 9 mil brasileiros, em um processo bancado por R$ 85 milhões do governo paulista.

O Butantan e a empresa chinesa já estavam em contato há algum tempo. Em agosto de 2019, uma missão composta por Doria e dirigentes de órgãos do governo paulista foram à China para inaugurar um escritório comercial de São Paulo em Xangai, e aproveitaram para visitar alguns produtores de vacina, incluindo a Sinovac. Após o início da pandemia, houve nova aproximação.

“A Sinovac, entre nossos parceiros, já tinha vacina em condições de ir para o estudo clínico e fizemos a associação. É um acordo de interesse mútuo. A Sinovac precisando fazer seu estudo clínico, e o Butantan precisando ter uma vacina em condições de avançar rapidamente”, afirma à DW Brasil Dimas Tadeu Covas, diretor do Instituto Butantan.

Ele estima que, até o final de setembro, todos os voluntários já terão recebido a vacina, e que a avaliação de sua eficácia ocorra até o final do ano. Segundo Covas, o acordo com a Sinovac permite que o Butantan comece a envasar a vacina em outubro, com capacidade de entregar 30 milhões de doses em janeiro de 2021. O princípio ativo viria da China, e caberia ao Butantan completar a fórmula, distribuí-la em frascos, fazer a rotulagem e o controle de qualidade.

Paralelamente, o Butantan já está adaptando uma de suas fábricas, em São Paulo, cuja reforma deve terminar em maio de 2021, para produzir a vacina integralmente em território nacional. “A partir daí, poderíamos ter todo o processo aqui, desde o cultivo [do vírus]”, diz Covas. Ainda não há acordo sobre a transferência de tecnologia, mas ele afirma que o Butantan se tornou “sócio dessa vacina” ao investir recursos próprios na fase 3 de ensaio clínico.

(Gov. do Estado de SP/Reprodução)

A tecnologia usada pela Sinovac é tradicional na área. Trata-se do próprio vírus que causa a covid-19, mas inativado. Ele é incapaz de provocar uma infecção, mas provoca na pessoa inoculada uma reação imunológica que a protege caso venha a ter contato com o coronavírus vivo.

Covas afirma que ainda não há estimativa de custos para produzir a vacina no Brasil, mas que deverá ser baixo comparado às outras vacinas em teste. Assim como Krieger, da Fiocruz, ele se mostra otimista. “Pode não ter o nível de eficácia desejado, pode ter 90%, 95%, mas em uma pandemia, dependendo do nível, essa vacina só não será utilizada se não tiver nenhum efeito. Mas não acredito nisso.”

Para o diretor do Butantan, a vacina da Sinovac “é a mais próxima de chegar à população no Brasil”, por usar uma tecnologia tradicional, já dominada pelo Butantan. “As outras vacinas são absolutamente novas, ainda não comprovadas do ponto de vista da tradição e da produtividade”, diz.

Covas afirma que o instituto não foi procurado em nenhum momento pelo Ministério da Saúde antes da decisão do governo federal de apostar na vacina da Oxford/AstraZeneca.

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan (Governo do Estado de São/Reprodução)

“Preliminarmente, não houve nenhuma conversa, nenhuma interrogação, nenhuma pergunta. Ontem [quinta-feira, 06/08], o secretário de Vigilância e Saúde [do Ministério da Saúde] disse que o ministério adquirirá a vacina que ficar pronta em primeiro lugar, e está disposto a vir aqui conhecer a vacina no Butantan, e marcou data”, conta, ressalvando que acharia “ótimo” se tanto a vacina de Oxford/AstraZeneca quanto à da Sinovac dessem bons resultados.

A posição do Brasil na fila

O fato de o Brasil ter potenciais vacinas sendo testadas em sua população, com acordos encaminhados que permitiriam a aquisição e a produção interna, é considerado positivo, segundo o virologista Flávio Fonseca, pesquisador do Centro de Tecnologia de Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Estava muito preocupado com a posição que o Brasil ficaria na fila que irá se formar quando as primeiras vacinas derem certo. Não havia nenhum movimento do governo federal para colocar o país numa posição mais favorável. Mas houve esse movimento tardio do governo, que achei válido e adequado”, afirma.

Ele diz que a vacina de Oxford/AstraZeneca, por usar uma tecnologia nova, tem um maior grau de incerteza. Mas, caso mostre bons resultados, deverá alcançar uma eficácia maior com apenas uma dose por pessoa e tem um processo de fabricação que exige requisitos de segurança mais baixos.

(Gov. do Estado de SP)

Já a tecnologia da Sinovac, diz, é “clássica”, usada por exemplo na vacina para a gripe distribuída no Brasil. Em contrapartida, por envolver a manipulação do próprio vírus, sua fabricação demanda um maior nível de biossegurança. Além disso, caso funcione, deve exigir a aplicação de duas ou três doses.

“Toda vacina que inclui um vírus vivo, como é a da AstraZeneca, estimula mais o sistema imune da pessoa vacinada. Já as com o vírus morto [como a da Sinovac] estimulam menos, e necessariamente será usada mais de uma dose”, afirma.

Fonseca alerta que ainda não é certo que uma das duas vacinas apresentará bons resultados e que os brasileiros não devem criar “uma expectativa ou euforia falsa”. Mas que pelo menos duas das vacinas sendo hoje testadas no mundo devem apresentar boa eficácia.

Uma vez desenvolvida a vacina e superada a fase de produção, ele crê que o país estará bem posicionado para a sua distribuição. “O Brasil tem um dos melhores programas de vacinação pública do mundo e a expertise para entregar a vacina para o país inteiro. Claro que isso será levado a um limite não testado”, diz.

Ele prevê que, inicialmente, serão vacinadas as pessoas na linha de frente do sistema de saúde, como médicos e enfermeiros, profissionais de categorias que não podem parar, como motoristas de ônibus e policiais, e pacientes mais suscetíveis ao agravamento da covid-19, como idosos e portadores de comorbidades.

Por Bruno Lupion

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

Butantan faz testagem gratuita de Covid-19 na capital

A equipe do Instituto Butantan está oferecendo testagem gratuita da covid-19 no estacionamento do shopping SP Market, na capital paulista, até o próximo dia 10. O atendimento é feito por ordem de chegada no modelo drive-thru, sem precisar sair do veículo, das 8h às 17h.

Até 200 pessoas por dia podem realizar o exame e o resultado sai após 72h. Com o objetivo de atender uma quantidade maior de pessoas assintomáticas, o número de testes diários dobrará a partir de quarta-feira (5), chegando a 400 exames.

Para evitar qualquer tipo de aglomeração, só é permitida a entrada de veículos de passeio, sem espaço para pedestres. Ao longo dos dias de testagem, não haverá cobrança de estacionamento para o público que comparecer para ser testado.

O teste disponível no local é o RT-PCR, considerado o mais assertivo no diagnóstico. A amostra analisada é obtida por meio de uma raspagem da nasofaringe, região posterior à cavidade nasal.

O shopping fica na Avenida das Nações Unidas, 22540.

Por Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil 

SP arrecada R$ 96 milhões para dobrar capacidade do Butantan

O estado de São Paulo já arrecadou R$ 96 milhões da iniciativa privada para aumentar a capacidade de produção de vacinas pelo Instituto Butantan. A meta do governo paulista é receber R$ 130 milhões em doações para dobrar a capacidade atual de produção do instituto.

Segundo o governo, a campanha prosseguirá até o fim de agosto para arrecadar os R$ 34 milhões que faltam para atingir a meta de R$ 130 milhões, com apoio de empresas e grupos filantrópicos privados. As doações serão transferidas integralmente à Fundação Butantan e verificadas por empresas de consultoria.

Hoje, o Instituto Butantan tem capacidade de produzir 120 milhões de doses por ano. O governo paulista pretende ampliar a capacidade do Butantan já pensando na CoronaVac, vacina que está em fase de testes no Brasil e que, caso seja aprovada, começará a ser fabricada pelo instituto, após acordo feito com uma farmacêutica chinesa. Caso aprovada, a vacina será administrada em duas doses por pessoa.

Caso a última etapa de testes comprove a eficácia da vacina, o acordo entre Sinovac e Butantan prevê a transferência de tecnologia para produção do imunizante no Brasil. “É a vacina mais promissora e mais desenvolvida em termos temporais. Não estou falando de tecnologia. É uma vacina que tem grandes chances de ser introduzida muito rapidamente para imunização em massa”, disse o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas.

Segundo Covas, a vacina é produzida com tecnologia tradicional, usada na fabricação de outros imunizantes. “O Butantan tem duas vacinas que se utilizam dessa tecnologia. São vacinas que normalmente têm produzido boa resposta. São seguras e relativamente fáceis de serem produzidas.”

Covas informou que a ideia é que uma quantidade inicial da vacina esteja disponível para a população brasileira já no início do próximo ano. “É possível que, no começo do próximo ano, tenhamos uma vacina já em quantitativos definidos. Seriam 60 milhões de doses a partir de outubro e mais 60 milhões de doses no primeiro trimestre do ano que vem. Estamos falando em 120 milhões de doses. Isso é contratual”, afirmou Dimas Covas. “O Butantan pode começar a fazer a formulação do envase dessa vacina a partir de outubro”, acrescentou.

  A CoronaVac já está na Fase 3 de testes em humanos, que está sendo realizada no Brasil. Ao todo, os testes com a CoronaVac serão realizados em 9 mil voluntários em centros de pesquisas de seis estados: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná. A pesquisa clínica será coordenada pelo Instituto Butantan, e o custo da testagem é estimado em R$ 85 milhões, pagos pelo governo.

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil 

‘Estamos na fase de aceleração da epidemia’, diz diretor do Instituto Butantan

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan (Governo do Estado de São/Reprodução)

Neste momento, São Paulo está vivendo a fase de aceleração da pandemia do novo coronavírus. A afirmação é do diretor do Instituto Butantan e membro do Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo, Dimas Covas.

“Nós estamos na fase de aceleração da epidemia. Estamos numa fase de ascensão”, disse Covas, em entrevista concedida hoje (30) à imprensa no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

Segundo o coordenador do Centro de Contigência do Coronavírus, infectologista David Uip, as medidas de isolamento social tomadas pelo governo do estado conseguiram achatar a curva e adiar o início da aceleração da doença. O período de quarentena no estado começou no dia 24 de março e deve se estender, inicialmente, até 10 de maio. “Isso tem possibilitado que o governo do estado se prepare da melhor forma para dar contingência às demandas que estão acontecendo”, disse Uip.

No entanto, o isolamento social em São Paulo tem diminuído. Hoje, a taxa de isolamento no estado ficou em 47%, abaixo da dos outros três dias desta semana, que  foi de 48%. Na capital, ela foi um pouco mais alta: 48%. Considerada baixa, segundo o governo, a taxa acende o sinal de alerta amarelo. O percentual considerado satisfatório é entre 50% e 60%. Para o governo, o ideal é acima de 70%.

Maiores níveis de isolamento social, diz o governo, diminuem a propagação da doença e as chances de provocar um colapso no sistema de saúde.

São Paulo já soma 28.698 casos confirmados de coronavírus, com 2.375 óbitos. Há ainda 1.744 pessoas internadas em unidades de terapia intensiva (UTIs) e 2.138 em enfermarias.

Por Elaine Patrícia Cruz – Repórter da Agência Brasil

Voo com testes para Coronavírus pousa em Campinas

Uma carga com 574 mil testes de coronavírus, encomendada pelo Instituto Butantan, chegou na madrugada deste sábado (18) ao Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, interior do estado. Os testes serão utilizados pelo governo paulista no combate ao coronavírus.

Segundo a assessoria do aeroporto, o pouso ocorreu às 4h50, e a operação envolveu funcionários do aeroporto, companhia aérea, agentes de carga e auditores da Alfandega da Receita Federal de Viracopos, além de escolta da Polícia Militar.

Esta é a segunda carga de testes que chega a São Paulo. No total, o governo encomendou à Coreia do Sul 1,3 milhão de testes. A primeira carga chegou no dia 14 de abril, com 726 mil testes.

De acordo com a DHL Global Forwarding, empresa que atua no setor logístico, o transporte da mercadoria foi feito por meio de um agenciamento da carga aérea, saindo da Coreia do Sul no dia 16 de abril, com conexão em Frankfurt, na Alemanha. Os testes foram mantidos sob temperatura de -20º C.

Fila de espera

Ementrevista, o secretário e stadual de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, disse que a fila de pessoas esperando por testes no estado vem diminuindo: na semana passada, estava com 17 mil e agora tem 9,5 mil.

“Nos últimos três dias foram realizados 5,5 mil testes e existem ainda outros 4,5 mil em processamento de laudos. O estoque que havia de 17 mil [na semana passada] exames está hoje em 9,4 mil. Nossa expectativa é que a realização de exames aumente a cada dia e que, na próxima semana, a gente possa estar zerado [com a fila de exames]”, disse Germann.

A intenção do governo paulista é ampliar a quantidade de testes realizados por dia, passando de cerca de 2 mil atualmente para 8 mil por dia em meados de maio.

Por Elaine Patrícia Cruz – Repórter da Agência Brasil

Pesquisadores descobrem pomada contra picada mortal de aranha

(Arquivo/Governo do Estado de SP)

A aranha-marrom é pequena, com tamanho que varia de 0,6 mm a 2 cm, porém sua picada pode causar necrose da pele, falência renal e até a morte das vítimas. Para diminuir todos esses problemas, os cientistas do Instituto Butantan desenvolveram uma pomada cujos efeitos curativos foram comprovados em testes realizados em cultura celular e animais.

O trabalho para decifrar os principais componentes da toxina da aranha-marrom começou em 1994. De acordo com a principal responsável pelo trabalho, a pesquisadora do IB, Denise Tambourgi, a pomada é feita à base de tetraciclina, substância que já é usada como antibiótico. Porém, ela é utilizada numa concentração abaixo.



Como cada Loxosceles produz muito pouco veneno – apenas cerca de 30 microgramas – seria muito difícil conseguir a quantidade necessária para os estudos. Então, os pesquisadores inseriram um gene dela na bactéria Escherichia coli, criando assim uma biofábrica da esfingomielinase D, passando a produzi-la em volume suficiente para as pesquisas.

Ao longo do trabalho, Denise e sua equipe descobriram que o veneno da aranha-marrom pode causar, além de efeitos já conhecidos, reações secundárias, que são desencadeadas principalmente pela proteína esfingomielinase D. “Costumo dizer que o veneno só dá o ‘start’ e a proteína altera as células”, explica.

Após o veneno, uma desregulação do organismo acontece, o que leva à produção de proteases – enzimas cuja função é quebrar as ligações químicas de outras proteínas, o que, por sua vez, causa a morte celular e a necrose. “São essas proteases, portanto, que devem ser inibidas pela pomada,” afirma.

O estudo coordenado por Denise decifrou o mecanismo de ação do veneno lançado pela aranha-marrom e também a forma sistêmica e cutânea da doença.

Os primeiros testes, realizados em cultura de células de pele humana e em animais, começaram a ser feitos em 2005 e se estenderam até agosto de 2018.

“Realizamos vários experimentos, aplicando o veneno da aranha-marrom nas culturas. Como esperávamos, as células morriam. Depois, as expomos à toxina e à tetraciclina, em várias dosagens, ao mesmo tempo. Constatamos, então, que o veneno não era mais capaz de matar as células.”

Como a tetraciclina é uma droga já testada para várias infecções e, por isso, usada comercialmente, não é necessário passar pelas várias fases de ensaios exigidos pelos protocolos de pesquisa para a liberação de medicamentos. Ela pode ser testada diretamente em humanos. “Na verdade, estamos apenas dando uma nova aplicação a esta substância”, diz a pesquisadora.

Essa fase começou em outubro passado. Serão tratados no total 240 pacientes, 120 com a pomada e 120 com placebo, de 61 hospitais de Santa Catarina, Estado onde ocorre o maior número de picadas. Até o momento, 20 pacientes já estão sendo tratados.

Aqueles que recebem placebo não ficarão sem tratamento. Eles receberão o que é usado hoje para a picada, que é o soro específico antiveneno da aranha-marrom ou um inespecífico, contra toxinas de aracnídeos em geral. As picadas também podem ser tratadas com medicamentos chamados corticosteroides, mais conhecidos com corticoides.

Se os resultados dos testes clínicos forem os esperados, a pomada poderá chegar às farmácias. Mas não há prazo para isso. Depois de aprovada nos ensaios, ela ainda precisa ser liberada para uso em uso em humanos e comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

*conteúdo do Governo do Estado de SP