“Estamos prontos para novas parcerias”, diz ministro em cúpula do G20

Calos Alberto França, ministro das Relações Exteriores (Gabriel Albuquerque/via Agência Brasil)

O ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto França, aproveitou a Cúpula Global de Saúde do G20 (grupo das 20 maiores economias mundiais), que ocorre hoje (21) de forma remota, para tentar atrair, para o Brasil, o investimento financeiro de empresas farmacêuticas internacionais.

“Estamos prontos para firmar novas parcerias com empresas interessadas em produzir no Brasil, beneficiando-se de nossas instalações industriais, força de trabalho e experiência no desenvolvimento, produção e distribuição de vacinas”, disse França ao participar da abertura do evento que reúne líderes políticos do G20, chefes de organismos internacionais e empresários.

Em seu discurso representando o Brasil no encontro, França declarou que a cooperação internacional será essencial para que o mundo supere a pandemia da covid-19, e que as empresas farmacêuticas têm um papel “essencial” neste processo.

“Para acelerar o processo global de vacinação e fortalecer o combate ao novo coronavírus, o Brasil defende a adoção de medidas concretas para fortalecer a produção internacional de vacinas, medicamentos e equipamentos em um grande número de países em desenvolvimento, bem como a facilitação de acordos e a transferência de tecnologias”, acrescentou o chanceler.

França acenou aos executivos farmacêuticos estrangeiros destacando que o Brasil não só possui um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS), como tem projetos para ampliar a capacidade produtiva nacional, como o Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Codin) estão construindo na zona oeste do Rio de Janeiro.

“Estamos investindo na aceleração de nossa capacidade produtiva com a construção do complexo do [bairro de] Santa Cruz, no Rio de Janeiro, que será o maior polo biofarmacêutico da América Latina. E também planejamos instalar, futuramente, no país, um laboratório do mais alto nível de biossegurança”, comentou o ministro.

Admitindo que o Brasil ainda precisa de assistência internacional para lidar com a pandemia, França agradeceu o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos países que têm colaborado com vacinas, medicamentos, equipamentos e outros insumos hospitalares. Mas também criticou as desigualdades entre nações na distribuição dos suprimentos.

“Infelizmente, o acesso equitativo às vacinas, testes e tratamentos com que nós, membros [de organismos internacionais], nos comprometemos a fim de garantir que ninguém ficasse para trás, ainda não é uma realidade”, lamentou França. “Enquanto alguns países ricos têm abundância de vacinas, os países menos desenvolvidos estão sofrendo as consequências da pressão sobre seus sistemas de saúde, sem o mesmo acesso aos suprimentos e tratamentos existentes.”

por Alex Rodrigues, da Agência Brasil

À CPI, Ernesto Araújo tenta reescrever atuação no Ministério de Relações Exteriores

Ernesto Araújo, ex-ministro de Relações Exteriores, e Omar Aziz, presidente da CPI da Covid-19
(Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em depoimento à CPI da Pandemia no Senado nesta terça-feira (18/05), o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo tentou pintar um retrato moderado da sua gestão à frente da pasta, negando que tenha protagonizado atritos com a China e implementado um alinhamento sem ressalvas com o governo do ex-presidente Donald Trump. Ele também afirmou que teria favorecido o multilateralismo e tentou se distanciar do ideólogo de extrema direita Olavo de Carvalho.

Aos senadores, o ex-ministro ainda tentou transferir a culpa pela escassez de vacinas contra a covid-19 exclusivamente ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, poupando o presidente Jair Bolsonaro. Por outro lado, ele admitiu a atuação do Itamaraty na obtenção da cloroquina, droga que é promovida pelo governo Bolsonaro, mesmo sem evidências científicas sobre eventuais efeitos positivos contra a covid-19.

O contraste entre as ações de Araújo nos tempos de Itamaraty e seu posicionamento moderado na CPI levaram vários senadores a acusarem o ex-ministro de mentir.

Araújo assumiu o Itamaraty no início da gestão Jair Bolsonaro e permaneceu no cargo até 29 de marçodeste ano. Próximo do filho “03” do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, Araújo foi um dos principais expoentes da chamada “ala ideológica” do governo, ligada a movimentos ultraconservadores e de extrema direita.

Em seus pouco mais de dois anos de gestão, Araújo implantou uma agenda “antiglobalista”, que isolou o país. Adepto de teorias conspiratórias, ele ainda transformou o ministério num palco de palestras para blogueiros propagadores de fake news. Em outubro de 2020, Araújo chegou a afirmar que, se a atual política externa do Brasil “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”. Sua situação no governo ficou insustentável depois que Senado, Câmara dos Deputados, generais, grandes empresários e lideranças do agronegócio se uniram para tirá-lo da Esplanada.

China

Mas, aos senadores, Araújo renegou ou tentou minimizar muitas das suas posições mais incendiárias. Ele afirmou, por exemplo, que o Brasil mantém uma relação “madura e construtiva” com a China e que nunca adotou uma postura ofensiva ao país asiático.

“Jamais promovi nenhum atrito com a China, seja antes ou durante a pandemia”, disse. “Não entendo nenhuma declaração que eu tenha feito como antichinesa. Não houve nenhuma que se possa qualificar como antichinesa. Não houve impacto”, completou.

A China é no momento o principal fornecedor de vacinas e insumos para o Brasil. Analistas e políticos da oposição consideram que a política de confronto do governo Bolsonaro contra os chineses pode estar levando Pequim a atrasar o envio de doses para o país sul-americano.

Em abril do ano passado, Araújo publicou um texto em seu blog em que afirmava que o coronavírus seria, na verdade, parte de um plano comunista para conquistar o mundo. Na ocasião, ele descreveu esse plano como “comunavírus”, que seria uma conspiração “comunista-globalista de apropriação da pandemia para subverter completamente a democracia liberal e a economia de mercado”.

Nesta terça-feira, ele afirmou que a expressão “comunavírus” não tinha relação com o coronavírus e que ele não a considerava ofensiva. Mesmo argumentando que não houve atritos com a China, Araújo confirmou aos senadores que mandou uma queixa a Pequim sobre a atuação do embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, que reagiu aos ataques de Eduardo Bolsonaro e do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub. Recentemente, o próprio presidente Bolsonaro lançou ataques à China, sugerindo, sem provas, que os asiáticos criaram o vírus em laboratório como parte de uma “guerra química”.

Vacinas e Covax Facility

Araújo também pintou um retrato positivo da atuação do Itamaraty na aquisição de vacinas, tentando transferir problemas na área ao Ministério da Saúde sob a gestão Pazuello. No entanto, várias das afirmações de Araújo foram desmentidas imediatamente pelos senadores.

Araújo, por exemplo, afirmou que não foi contra a adesão do Brasil ao consórcio Covax Facility, da Organização Mundial da Saúde (OMS), para a distribuição de vacinas. Segundo Araújo, o Itamaraty “esteve sempre atento” à iniciativa. Mas o senador Otto Allencar imediatamente apontou que o Itamaraty nem sequer mandou representantes para as duas primeiras reuniões do consórcio, que ocorreram em abril e maio de 2020.

O governo só acabou formalizando sua adesão ao consórcio em setembro do ano passado, e optou apenas por adquirir a compra mínima prevista pelo mecanismo, equivalente a 10% da população brasileira, quando havia a opção para solicitar até 50% de cobertura. Questionado por que o governo Bolsonaro só optou pela cobertura mínima, Araújo disse: “Essa decisão não foi minha. Foi do Ministério da Saúde.”

“O ministro faltou com a verdade, não falou aquilo que realmente aconteceu”, disse o senador Alencar sobre as declarações de Araújo sobre o consórcio.

Araújo também afirmou que “o Brasil foi o primeiro país que recebeu vacinas exportadas pela Índia”, o que, segundo ele, atestaria uma diplomacia eficiente da pasta. No entanto, antes de enviar 2 milhões de doses para o Brasil numa operação marcada por atrasos e uma campanha fracassada de propaganda do governo Bolsonaro, os indianos exportaram doses para o Butão, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e o arquipélago de Seicheles.

O ex-ministro ainda afirmou que teve conhecimento da carta enviada pelo CEO mundial da Pfizer, Albert Bourla, ao governo brasileiro em setembro do ano passado, perguntando se o país teria interesse em comprar a vacina da empresa. O documento ficou dois meses sem resposta.

Araújo disse que “talvez” tenha tomado conhecimento da carta em 14 de setembro, dois dias depois de ela ser enviada, mas que caberia ao Ministério da Saúde definir de forma centralizada a estratégia de vacinação. Ele também disse não saber por que houve demora na resposta do governo.

Ele disse também que nas reuniões ministeriais dais quais participou a compra de vacinas para não foi discutida especificamente. Houve apenas uma exceção, segundo o ex-ministro, em fevereiro ou março deste ano, quando se teria debatido um contato com a Pfizer. 

Cloroquina

À CPI, Araújo confirmou que o Itamaraty atuou para obter cloroquina no mercado internacional. A droga sem eficácia comprovada contra a covid-19 vem sendo promovida por Bolsonaro como um tratamento contra a doença desde março de 2020, mesmo com estudos descartando efeitos benéficos.

“Em março, havia expectativa de que houvesse eficácia no uso da cloroquina para tratamento da covid, não só no Brasil, mas no mundo. Isso baixou precipitadamente o estoque de cloroquina e fomos informados sobre isso pelo Ministério da Saúde. A pedido do Ministério da Saúde buscamos facilitar a importação de insumos para a produção de cloroquina”, disse.

Apesar de afirmar que o envolvimento do Itamaraty na importação de cloroquina ocorreu a pedido do Ministério da Saúde, ele também reconheceu que houve participação de Bolsonaro no assunto. Depois da resposta sobre o papel do Ministério da Saúde, o relator da CPI, Renan Calheiros, questionou Araújo se o tema havia sido discutido com outros membros do governo.

“Não foi exatamente um pedido para implementar esse pedido do Ministério da Saúde, mas o presidente da República, em determinado momento, pediu que o Itamaraty viabilizasse um telefonema dele com o primeiro-ministro [da Índia]”, disse o ex-ministro.

Outras posições

Aos senadores, Araújo também tentou minimizar outras marcas da sua gestão, como o alinhamento com o governo Trump. “Não houve um alinhamento com os EUA, houve uma aproximação a partir de um distanciamento que ocorreu anteriormente. Jamais entramos em qualquer iniciativa que fosse apenas de interesse americano”, disse.

Brasil foi um dos últimos países do mundo a reconhecer a vitória do democrata Joe Biden sobre Trump nas eleições de novembro de 2020, e o presidente Bolsonaro chegou até mesmo a insinuar que o republicano havia sido vítima de fraude eleitoral. Em janeiro de 2021, Araújo disse que a turba de extremistas que invadiu o Capitólio, nos EUA, seria formada por “cidadãos de bem”.

O ex-ministro ainda tentou se distanciar do ideólogo de extrema direita Olavo de Carvalho, considerado mentor de figuras como Eduardo Bolsonaro, o assessor especial do presidente para Assuntos Internacionais Filipe G. Martins, o ex-ministro Weintraub e o próprio Araújo. Questionado por Renan Calheiros se Olavo fazia um aconselhamento paralelo na condução da política externa, Araújo negou e minimizou a influência do ideólogo.

“Não tenho conhecimento da existência de nenhum mecanismo desse tipo nem de influência do professor Olavo de Carvalho”, disse Araújo, acrescentando que não considera Olavo seu “guru”. Em setembro passado, no entanto, Araújo afirmou que as obras de Olavo de Carvalho “inspiram e contribuem” para formulação de “políticas e tomadas de decisão”.

Por fim, Araújo ainda afirmou que “o tema ambiental se tornou uma prioridade” sob sua gestão e que nunca foi contra o multilateralismo.

Críticas

Durante a sessão, a senadora Kátia Abreu fez uma dura fala contra Araújo. Sem fazer perguntas, ela ironizou as posições supostamente moderadas que Araújo apresentou à CPI, afirmando que ele tem duas “personalidades”.

“O senhor é um negacionista compulsivo, omisso. O senhor, no Ministério das Relações Exteriores, foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para um naufrágio. Bússola que nos levou para o naufrágio da política internacional, da política externa brasileira, foi isso que o senhor fez. Isso é voz unânime dos seus colegas no mundo inteiro“, afirmou Abreu.

“A impressão que se tem é que existe um Ernesto que fala conosco e ouvimos a voz, e um outro Ernesto, que eu não sei onde fica, nas redes, na internet, nos artigos, nos blogs, falando coisas totalmente diferentes. Eu sinceramente estou confusa sobre qual personalidade nós devemos considerar”, completou. Em janeiro, Abreu já havia protagonizado um embate com Araújo no Senado e chamado o ex-ministro de “marginal” após o diplomata acusá-la de agir como lobista dos chineses na instalação do 5G no Brasil.

O presidente da CPI, Omar Aziz, também se irritou com as falas de Araújo sobre a China, que pintaram um falso retrato de relações amistosas entre os dois países. “Quero alertá-lo que o senhor está sob juramento de falar a verdade. Vossa excelência está faltando com a verdade. Peço que não faça isso”, disse Aziz.

Já o senador Otto Alencar lembrou do episódio em que Araújo participou de uma confraternização comandada por Bolsonaro em uma churrascaria na qual o presidente distribuiu ataques grosseiros à imprensa. “Eu fiquei preocupado de o senhor quebrar a mão de tanto que aplaudiu as agressões do presidente à imprensa”, disse Alencar.

A senadora Mara Gabrilli, por sua vez, criticou a gestão de Araújo à frente do Itamaraty. “O senhor rasgou a diplomacia mais básica”, disse.

Por Deutsche Welle
jps/bl/lf (ots)

Após pressões, Ernesto Araújo vai deixar governo

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, pediu nesta segunda-feira (29/03) para deixar o cargo. A informação foi repassada pelo chanceler a seus subordinados e a expectativa é de que o anúncio oficial seja feito até o fim do dia.

Extremista de direita e adepto de teorias conspiratórias, Araújo era visto como um obstáculo na diplomacia entre o Brasil e vários países, dificultando acordos comerciais, como compra de vacinas da China e da Índia. 

Embora apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro, a situação de Araújo ficou insustentável depois que Senado, Câmara, generais, grandes empresários e lideranças do agronegócio se uniram nos últimos dias para tirá-lo da Esplanada. Recentemente, o presidente da Câmara, Arthur Lira, chegou a afirmar que Araújo perdeu a capacidade de dialogar com países. 

O pedido de demissão de Araújo da chefia do Itamaraty fez o governo Bolsonaro chegar à marca de 16 ministros substituídos do cargo para o qual foram inicialmente nomeados.

Entre os cotados para substituir Araújo, segundo veículos da imprensa brasileira, estão o embaixador do Brasil na França, Luiz Fernando Serra, e o chefe da Secretaria Especial de Comunicação (Secom), almirante Flávio Rocha. Nenhum desses nomes sinaliza alguma mudança de rumo na condução do Itamaraty.

O primeiro é, assim como Araújo, um diplomata bolsonarista. Serra já deu respostas agressivas para parlamentares franceses que pediram esclarecimentos sobre o andamento da investigação do assassinato de Marielle Franco – a morte da vereadora de esquerda em 2018 costuma ser tratada com desprezo por apoiadores do governo. Já o almirante Rocha, desde que passou a comandar a Secom na primeira quinzena de março, passou a usar a secretaria para propagar narrativas falsas sobre o governo ter apoiado vacinas desde o início da pandemia. 

Araújo, no entanto, deve permanecer no cargo até que seu substituto seja definido, como ocorreu com Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde.

Em carta, diplomatas pediram saída de Araújo

Além de toda pressão externa, a situação de Araújo era insustentável dentro do próprio Itamaraty. No sábado, um grupo de cerca de 300 diplomatas divulgou uma carta na qual criticavam a postura adotada pelo ministro e deram a entender que desejavam que o chanceler deixasse o cargo.

“Nos últimos dois anos, avolumaram-se exemplos de condutas incompatíveis com os princípios constitucionais e até mesmo os códigos mais elementares da prática diplomática. O Itamaraty enfrenta aguda crise orçamentária e uma série numerosa de incidentes diplomáticos, com graves prejuízos para as relações internacionais e a imagem do Brasil”, afirma o texto.

A carta não cita nominalmente Araújo, mas deixa claro o desastre diplomático causado pelo ministro desde que assumiu a pasta. A situação teria se agravado com a condução da política externa no contexto da pandemia.

A carta foi divulgada três dias após Araújo ter participado de uma audiência no Senado sobre a atuação da pasta para obter vacinas contra a covid-19 no exterior. O ministro teria se oposto à entrada do Brasil no consórcio global liderado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) Covax Facility, que prevê o envio de 42 milhões de doses de imunizantes para o país.

Durante a audiência, vários senadores criticaram duramente a atuação extremamente ideológica do ministro e defenderam a demissão de Araújo

Uma gestão que transformou o país em pária internacional

Ao tomar posse no Itamaraty em 2 de janeiro de 2019, Araújo citou que, sob sua chefia, o Itamaraty iria combater o aborto e se insurgir contra o “ódio a Deus”. Não havia quase nada sobre a pauta comercial do país no discurso de Araújo, um diplomata apagado, que teve uma carreira discreta antes da vitória de Bolsonaro nas eleições de 2018, 

Sua gestão à frente da diplomacia brasileira acabou tendo um comando compartilhado com Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, e o assessor Filipe G. Martins.

Todos são seguidores do guru Olavo de Carvalho, que promove teorias conspiratóriascomo a de que o príncipe britânico Charles é secretamente um adepto do islã. Com a influência de Olavo, o trio também passou a alardear, sem provas, de que há uma conspiração comunista internacional que pretende tomar o poder na América Latina – 30 anos após o fim da Guerra Fria.

Sob Araújo e as diretrizes do clã Bolsonaro, o Itamaraty passou a implementar uma chamada agenda “antiglobalista” na máquina diplomática brasileira, endossando ataques de Eduardo Bolsonaro à China – o maior parceiro comercial do Brasil – e transformando o ministério num palco de palestras para blogueiros propagadores de fake news. O país também se alinhou sem ressalvas ao governo de Trump e passou a colaborar diplomaticamente com regimes ultrafundamentalistas como Arábia Saudita para sabotar iniciativas internacionais de promoção aos direitos humanos.

Muitas das medidas contrariaram práticas que há décadas caracterizaram a diplomacia brasileira, algumas inclusive que remontavam ao regime militar. No primeiro ano da gestão de Araújo, ficaram para trás, além da independência do país em relação aos EUA em assuntos externos, a aproximação com países africanos, a não interferência em assuntos internos de vizinhos na América do Sul e o pragmatismo com os principais países europeus.

No lugar, foi implantado algo mais alinhado com a visão radical de extrema-direita do presidente Jair Bolsonaro. O multilateralismo foi abandonado, e no lugar entrou uma política externa baseada na afinidade pessoal e ideológica com outros líderes. A diplomacia brasileira se tornou imprevisível, gerando crises constantes ao longo dos últimos dois anos. 

No segundo ano de Araújo, o Brasil continuou a se distanciar dos seus vizinhos latino-americanos e fez apostas fracassadas como a manutenção de uma pretensa relação especial com o ex-presidente americano Donald Trump. Sob Araújo, a diplomacia brasileira evitou reconhecer a vitória do democrata Joe Biden por semanas. Em janeiro de 2021, Araújo ainda disse que a turba de extremistas que invadiu o Capitólio, nos EUA, seria formada por “cidadãos de bem”.

Entre 2019 e 2020, o Brasil se viu excluído de debates em que o país costumava ter voz ativa, como a questão do meio ambiente; e reforçou uma política de hostilidade a grandes parceiros comerciais, como a União Europeia e a China.

Em outubro de 2020, o ministro Ernesto Araújo disse que, se a atual política externa do Brasil “faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

Entre os “resultados” da diplomacia bolsonarista durante a gestão de Araújo também estão a continuidade da perda de apoio para o acordo entre Mercosul e União Europeia mesmo entre países europeus mais simpáticos ao pacto, como a Alemanha; e até a perspectiva da imposição de sanções internacionais ao país por causa da sua gestão relapsa do desmatamento.

Em abril de 2020, ainda na primeira fase da pandemia, Araújo explicou como a diplomacia brasileira deveria encarar a situação. A prioridade não era a busca de cooperação internacional contra o coronavírus ou a fabricação de vacinas, mas o que o ministro chamou de “comunavírus”, que seria uma conspiração “comunista-globalista de apropriação da pandemia para subverter completamente a democracia liberal e a economia de mercado”. 

Ao longo da pandemia, o Brasil também seguiu sem ressalvas Donald Trump em uma ofensiva contra a OMS. O comportamento permaneceu intocado até mesmo depois da derrota eleitoral do republicano. 

“Nenhum país da estatura do Brasil tem reputação tão ruim”, diagnosticou o diplomata Rubens Ricupero em abril  de 2020. “A imagem positiva acabou”, apontou no ano passado Friedrich Prot von Kunow, presidente da Sociedade Brasil-Alemanha (DBG) e que foi embaixador no Brasil entre 2004 e 2009.

Mas Araújo não pareceu ligar para esses diagnósticos. “Esse pária aqui, esse Brasil, essa política do povo brasileiro, tem conseguido resultados”, completou Araújo em um discurso em outubro.

Por Deutsche Welle
le/jps (ots)

Governo Bolsonaro sai em defesa da ação dos EUA sobre Irã

Por Luciano Nascimento

Hassan Rouhani, presidente do Irã, visita família do general Qasem Soleimani, morto em ataque dos Estados Unidos, no Iraque (Presidência do Irã/Fotos Públicas)


O Ministério das Relações Exteriores disse ontem (3), por meio de nota, que o governo brasileiro ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos Estados Unidos no Iraque manifesta seu apoio “à luta contra o flagelo do terrorismo”. A nota diz ainda que o país está “pronto a participar de esforços internacionais que contribuam para evitar uma escalada de conflitos neste momento.”

A nota do ministério foi divulgada um dia após a ação dos Estados Unidos que matou o principal general iraniano, Qassem Soleimani, em um ataque que teve como alvo o seu comboio, nas proximidades do Aeroporto de Bagdá, capital do Iraque. A ação foi ordenada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

“Ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos EUA nos últimos dias no Iraque, o governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo”, disse o Itamaraty.

Na nota, o ministério não fez comentários a respeito da morte do general iraniano, mas condenou o ataque à embaixada dos Estados Unidos em Bagdá. “O Brasil condena igualmente os ataques à Embaixada dos EUA em Bagdá, ocorridos nos últimos dias, e apela ao respeito da Convenção de Viena e à integridade dos agentes diplomáticos norte-americanos reconhecidos pelo governo do Iraque presentes naquele país”, diz a nota.

Segundo o Itamaraty,  o terrorismo não pode ser considerado um problema restrito ao Oriente Médio. O texto diz ainda que o Brasil não pode “permanecer indiferente a essa ameaça, que afeta inclusive a América do Sul”.

O Itamaraty diz ainda que o governo acompanha com atenção os desdobramentos da ação no Iraque, “inclusive seu impacto sobre os preços do petróleo, e apela uma vez mais para a unidade de todas as nações contra o terrorismo em todas as suas formas”.

O ataque dos Estados Unidos ganhou visibilidade devido aos riscos da escalada do conflito entre as duas nações. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, manifestou preocupação com a situação e advogou pela redução do aprofundamento dos conflitos no Golfo. “Este é um momento em que líderes devem exercitar sua cautela. O mundo não pode permitir uma nova guerra no Golfo”, pontuou.

Diante da repercussão do episódio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, buscou justificar o ato. Em sua conta no Twitter, declarou que Soleimani matou ou feriu “milhares de americanos por um período estendido de tempo e planejava matar muito mais” e acusou-o de participar da morte de manifestantes iranianos em seu país.