Frio pode ter matado uma pessoa na última madrugada

Entidades que acompanham a população em situação de rua em São Paulo apontam pelo menos uma morte em decorrência do frio na madrugada de hoje (30) na capital. O caso foi registrado na Praça da Sé. De acordo com o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura de São Paulo, esta foi a noite mais fria do ano, com média da temperatura mínima de 5,7 graus Celcius (ºC). Não fazia tanto frio assim na cidade desde julho de 2019.

Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, aponta que essas mortes por hipotermia são subnotificadas, pois os médicos registram, normalmente, a patologia de base. “A pessoa teve um infarto, mas estava deitada na rua em um papelão com 5ºC, então o que aconteceu? O que potencializou foi o frio”, questiona. Ele lembra que casos de infartos, por exemplo, aumentam no inverno

Segundo o padre, a morte na Sé foi identificada como colite, uma inflamação do cólon. A Secretaria de Saúde do Município informou que não foi verificada ocorrência de verificação de óbito com essas características. “Constatam parada cardíaca, infarto do miocárdio, pneumonia, cirrose, nunca se diz que foi por causa do frio. Para chegar à constatação de hipotermia precisaria fazer exames muito sofisticados que não são feitos”, lamenta.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo apontou que não foi acionada para casos envolvendo a população de rua na região da Sé. Foi verificada uma ocorrência envolvendo a população de rua na noite de ontem (29). Segundo a pasta, a vítima teve o corpo incendiado e foi hospitalizada. Ainda segundo o órgão, mortes por causa natural são encaminhadas aos órgãos de saúde para emissão da declaração de óbito e demais providências legais.

Além deste caso da Sé, Darcy Costa, do Movimento Nacional da População de Rua, relata estar acompanhando o caso de outro homem morto por morte natural nesta madrugada na mesma região. O movimento calcula pelo menos 12 mortes por causa natural nas ruas de São Paulo desde o início do ano, especialmente nas noites de frio mais intenso. 

“A insalubridade dos serviços [de acolhimento], a falta de segurança dentro dos serviços faz com que a população de rua procure evitar os espaços. E faz com que as pessoas permaneçam na rua, às vezes se sentem mais seguras na maloca delas”, aponta Costa.

Censo feito em 2019 pela prefeitura apontou que há 24.344 pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo.

Números

De acordo com a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, a prefeitura dispõe de 101 Centros de Acolhida para População em Situação de Rua, com mais de 24 mil vagas. A pasta informou ainda que, devido à nova onda de frio, providenciou que o Clube Esportivo Pelezão receba pessoas que aceitarem o acolhimento das equipes Operação Baixas Temperaturas a partir de hoje (30). Nesta unidade são 140 vagas.

Ainda segundo a prefeitura, 227 pessoas foram acolhidas na madrugada desta quarta-feira. Foram registradas 30 recusas e foram distribuídos 200 cobertores. Desde 30 de abril, a prefeitura contabiliza 10.744 acolhimentos, 779 recusas e 9.537 cobertores distribuídos.

O governo de São Paulo anunciou hoje (30) que vai doar à população em situação de rua da capital 25 mil cobertores e 25 mil sacos térmicos de dormir.

Solução emergencial

Lancellotti e Costa defendem como solução emergencial mais efetiva a disponibilidade de leitos na rede hoteleira ou pensões. “Está sendo usada timidamente”, avaliou o padre da Pastoral do Povo da Rua. Ele também defende um controle de vagas centralizado para permitir melhores condições de oferta nos abrigos. 

“Pessoas que estão mais fragilizadas, pessoas idosas, mães com crianças [deveriam ficar nas vagas dos hotéis]. E garantir também a higiene dos espaços, porque muitas vezes fica insuportável, precisa de um operacional contínuo. Deveria-se diminuir o número de pessoas num mesmo abrigo, esse modelo de galpão com centenas de pessoas”, avaliou Costa.

Solicitação

A prefeitura destaca que a população pode solicitar uma abordagem social pela Central 156 (ligação gratuita nas opções 0 e em seguida 3). O pedido pode ser anônimo e é necessário informar o endereço onde a pessoa em situação de rua está, citar características físicas e detalhes da vestimenta.

Por Camila Maciel – Repórter da Agência Brasil 

São Caetano faz operação para acolher moradores em situação de rua

(Pref. de São Caetano/Reprodução)

A Prefeitura de São Caetano iniciou este mês a Operação Baixas Temperaturas: Inverno Seguro, realizada pela cidade desde 2018. O projeto é realizado em parceria pelas secretarias de Saúde e de Assistência e Inclusão Social, por meio do Creas, UPA (Unidade de Pronto Atendimento Engenheiro Júlio Marcucci Sobrinho) e SOS Cidadão 156 (Serviço de Atendimento em Urgência e Emergência).

Com o programa, as pessoas em situação de rua, expostas a baixas temperaturas e frio intenso, podem ser atendidas pelo serviço de urgência e emergência (ambulâncias) para avaliação sobre a necessidade de atenção em saúde, sendo direcionadas para a UPA ou encaminhadas ao serviço de acolhimento institucional para abrigamento. Os usuários atendidos pelo serviço 156 e pela UPA recebem cobertores disponibilizados pela Seais e Fundo Social de Solidariedade.

“Por meio do telefone 0800 7000 156, a população também pode colaborar. Quem encontrar uma pessoa dormindo na rua, em noite com baixas temperaturas, pode acionar as equipes para que seja feito o primeiro atendimento. Caso haja aceitação, a pessoa será encaminhada para acolhimento em abrigo, para receber alimentação e higiene, ou, em caso de problemas de saúde, será levada para a UPA”, afirma a Secretária de Saúde, Regina Maura Zetone. 

A ação dos educadores sociais é reforçada sempre que a temperatura atinge ou se apresenta inferior à marca de 13º C, ou ainda, se a sensação térmica for equivalente. “O objetivo do plano é zelar pela vida da população em situação de rua e extrema vulnerabilidade, promovendo o acolhimento durante os meses mais frios do ano”, explicou a secretária de Assistência Social, Marisa Catalão.

O projeto conta também com as Organizações da Sociedade Civil do município que atuam em parceria com o Creas, por meio de ações que ofertam alimentação (café da manhã, almoço e jantar), higiene pessoal (banho, barbearia e corte de cabelo), troca de roupas e encaminhamento para instituições com estrutura de atendimento à população em situação de rua.

São Caetano conta com uma unidade de Serviço de Acolhimento Institucional Emergencial para Pessoas em Situação de Rua Covid-19, com capacidade total de 30 vagas, implantado em junho de 2020. O serviço atende à demanda encaminhada pelo Creas, diariamente, resultante da sensibilização dos educadores sociais e esgotamento das estratégias de reinserção familiar ou comunitária pela equipe técnica do serviço.

“O encaminhamento para acolhimento dos usuários somente acontece mediante a aceitação deles, e jamais de maneira coercitiva. Por isso a importância do trabalho de conscientização dessa população vulnerável, para garantir seus direitos e respeito à autonomia”, explicou Marília Felismino, coordenadora do Creas.

Como estratégia de ampliação de vagas de acolhimento, a operação deste ano contará também com a oferta de vagas de pernoite no Lar Bom Repouso, para atendimento de demandas que necessitem de acolhimento pós-atendimento médico/ambulatorial, ou, ainda, de cidadãos que resolvam aderir à oferta do serviço, em horário contrário ao de atuação da equipe de abordagem social do Creas. 

De acordo com a coordenadora do SOS Cidadão 156, Alessandra Masiukewycz, em 2019 foram realizados 266 atendimentos a moradores em situação de vulnerabilidade social e climática. “Tentamos abordar e encaminhar as pessoas aos abrigos. Em casos de recusa de atendimento deixamos cobertores e alimentos. Com o trabalho feito na cidade, não temos casos de óbitos e internações por hipotermia.”

Por Pref. de São Caetano do Sul

Morador de rua é atropelado na calçada por carro de luxo

(Reprodução)

Um morador de rua foi atropelado na calçada por um veículo de luxo, no bairro da Consolação, em São Paulo. O acidente aconteceu no início da madrugada de hoje (26), na Rua da Consolação, próximo à Praça Franklin Roosevelt.

De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), um motorista seguia em alta velocidade quando perdeu o controle da direção do veículo, próximo ao acesso à Rua Amaral Gurgel. O carro, um modelo da Audi, capotou, atingindo o morador de rua que estava na calçada.

A vítima, de 40 anos, foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros, com ferimentos na cabeça, e encaminhada à Santa Casa de Misericórdia, na mesma região. No automóvel, além do motorista, havia um rapaz e uma jovem, que saíram ilesos. 

Os agentes da CET e policiais militares do Batalhão de Trânsito isolaram um trecho da via para o trabalho da perícia. O condutor do Audi e os dois passageiros foram encaminhados ao Distrito Policial dos Jardins, onde a ocorrência foi registrada.

*com informações de Paulo Édson Fiore, da Jovem Pan

Frio pode ter matado 6 pessoas, diz pastoral de rua

Cinco das mortes ocorreram no centro da capital paulista, três na Praça da Sé, segundo a Pastoral; Prefeitura e Polícia Civil só confirmaram duas mortes

Na Praça Princesa Isabel, população de rua usa lonas plásticas para se proteger do frio, na quinta-feira | Foto: Reprodução/Instagram/Padre Júlio Lancelotti

Seis pessoas que viviam nas ruas da cidade de São Paulo morreram entre quinta-feira (20/8) e sábado (22) na cidade de São Paulo, segundo a Pastoral do Povo de Rua, da Igreja Católica, quando as temperaturas caíram. A Polícia Civil e a Prefeitura confirmam duas dessas mortes.

De acordo com a Polícia Civil, na manhã de hoje um homem de 39 anos foi encontrado morto na Rua 25 de Março e uma mulher, ainda não identificada, na Praça da Sé, ambos na região central. 

As duas foram registradas como “morte suspeita” no 8º DP (Brás) e encaminhadas para serem investigadas pelo 1º DP (Sé). A polícia vai fazer exames necroscópicos nas vítimas para identificar a causa da morte e disse que “não há outros registros com as mesmas características”. 

Informações do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, apontam que a primeira pessoa em situação de rua a morrer durante a onda de frio foi um homem deficiente físico, encontrado morto na Sé, na quinta-feira. No dia seguinte, mais três pessoas foram encontradas mortas nas ruas: um homem e uma mulher, também na Sé, e outra mulher próximo ao Metrô Tietê, na zona norte.

“Essas mortes, nessas ondas de frio, são sempre uma tragédia anunciada”, afirma o padre. Segundo ele, a falta de políticas públicas, mais do que o frio, é que faz com que as mortes se repitam todos os invernos. Lancelotti diz que parte das mortes por frio não entraria nas estatísticas da Prefeitura, uma vez que os cálculos oficiais só levariam em conta os mortos por hipotermia, e não de outras causas relacionadas às baixas temperaturas.

A capital paulista registrou a madrugada mais fria do ano no sábado, com os termômetros registrando em média 8° C. Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergência Climáticas da Prefeitura, a sensação térmica oscilou para em torno de 5° C. 

Por meio de nota, a Prefeitura de São Paulo lamentou e disse que, somente na madrugada deste sábado, 150 pessoas em situação de rua foram acolhidas e houve a distribuição de 182 cobertores. Outras 82 pessoas teriam recusado a assistência oferecida pela gestão municipal. 

Desde o dia 6 de maio, está em vigor em São Paulo o Plano de Contingência para situações de Baixas Temperaturas 2020, que atua em abordagens intensificadas à população de rua quando os termômetros ou sensação térmica atingem temperaturas de 13° C ou inferiores. 

Segundo os dados da Prefeitura, uma rede de assistentes sociais já realizou, desde o início do plano, mais de um milhão de acolhimentos — considerando que uma pessoa pode ser acolhida mais de uma vez. O objetivo é levar as pessoas em situação de rua para centros de acolhimento. No entanto, quem recusa, recebe um kit com lanche e cobertor.

Por Fausto Salvadori – Repórter da Ponte

Após madrugada mais fria do ano, moradora de rua é encontrada morta

Uma moradora em situação de rua foi encontrada morta, por volta das 9h20 de hoje (22), na Praça da Sé, no centro da capital paulista. As causas da morte estão sendo investigadas pelo 1º Distrito Policial e uma das suspeitas é de que o frio intenso possa ter contribuído para o óbito.

(Arquivo/Reprodução)

A prefeitura de São Paulo disse lamentar a morte e informou que o corpo ainda aguarda laudo do Instituto Médico Legal (IML).

A madrugada de hoje (22) foi a mais fria do ano na capital paulista. Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), as temperaturas mais baixas foram registradas um pouco antes da meia-noite, com média de 8,1°C na cidade e mínima absoluta de 6,7°C na região de Capela do Socorro. 

Atendimentos

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) informou que dispõe atualmente de 101 centros de acolhida para pessoas em situação de rua e que, durante situação de emergência, criou 1.222 novas vagas de acolhimento. Segundo a prefeitura, os equipamentos funcionam durante 24 horas e haveria vagas sobrando.

A secretaria informou ainda que intensifica as abordagens a moradores de rua quando a temperatura atinge o patamar igual ou inferior a 13ºC ou sensação térmica equivalente. Caso a pessoa não aceite o acolhimento, a prefeitura diz oferecer um kit com lanche e cobertor.

Nesta madrugada, segundo a secretaria, 150 pessoas foram acolhidas e 82 recusaram atendimento.

Por Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil 

Jovens em situação de rua ficam mais vulneráveis na pandemia

Pesquisa sobre crianças e adolescentes em situação de rua e em acolhimento institucional com trajetória de vida nas ruas identificou violações de direitos sofridos por essa população, incluindo a luta pela sobrevivência, o racismo estrutural, o trabalho precoce, a baixa escolaridade, a violência vivenciada nas ruas e também no âmbito familiar. Tais situações são agravadas ainda pelo contexto da pandemia de covid-19 no país, e esses grupos tornam-se mais vulneráveis, segundo avaliação de especialistas.

(Jorge Araujo/Fotos Publicas)

Desenvolvida pela Associação Beneficente O Pequeno Nazareno e pelo Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Ciespi/PUC-Rio) no âmbito do projeto Conhecer para Cuidar, a pesquisa tem o objetivo de subsidiar políticas públicas que atendam essa população.

Segundo o coordenador de projetos da associação, Manoel Torquato, a pesquisa mostra que 85% das crianças e adolescentes que vivem nas ruas são negros (soma de pretos e pardos), e este é um dado sempre importante, porque, de certa forma, explica a origem da situação de rua no Brasil. “Ela tem a ver com racismo estrutural”, afirma Torquato, que é também coordenador nacional da Rede Criança Não é de Rua. Nas instituições de acolhimento, o número é mais expressivo: 89% se autodeclararam pretos ou pardos.

O levantamento incluiu 17 cidades brasileiras com mais de 1 milhão de habitantes: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília, Fortaleza, Belo Horizonte, Manaus, Curitiba, Recife, Porto Alegre, Belém, Goiânia, Guarulhos, Campinas, São Luís, São Gonçalo e Maceió. Cerca de 600 pessoas foram entrevistadas.

Manoel Torquato ressalta que o racismo tem seus desdobramentos na desigualdade social observada até hoje. “Tanto que, se a gente comparar esses dados com os dados de homicídios, de encarceramento, de pobreza extrema, sempre vai encontrar uma maioria negra. Aqui, mais uma pesquisa vai apontar isso, agora com crianças e adolescentes em situação de rua.”

Para Torquato, todas as vulnerabilidades a que estão submetidos crianças e adolescentes são agravadas durante a pandemia. “Entre os que ficam permanentemente na rua, há a impossibilidade de cumprir a regra básica das organizações de saúde, que é o ‘fique em casa’. Ficar em casa em isolamento social pressupõe você ter uma casa”, destaca Torquato, ao lembrar que há uma enorme ausência de oferta por parte do Poder Público de alternativas para esse isolamento social.

“Não se acionou a rede hoteleira, como muitos países fizeram, para acolher essas pessoas provisoriamente, não se abriram as escolas públicas para uso coletivo desses espaços pela população em situação de rua. Manteve-se, então, essa população ainda em maior vulnerabilidade”, afirma Torquato diz ainda que a principal estratégia no país para aplacar os efeitos econômicos da pandemia, o auxílio emergencial de R$ 600, não dispôs de metodologia que incluísse as especificidades da situação de rua. O acesso a esse benefício depende de a pessoa ter internet, um número de celular e o equipamento.

O levantamento mostra ainda que cerca de 60% dos que vivem nas ruas e de 70% dos que estão acolhidos frequentam a escola. Com o fechamento das escolas e a falta de uma alternativa a essa frequência escolar, essas crianças estão mais sujeitas a ir para as ruas do que antes.

Especialista em direitos da infância e juventude e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe), o advogado Ariel de Castro Alves afirma que os dados mostram uma realidade que vem de muitos e muitos anos, principalmente nas grandes capitais e regiões metropolitanas. Segundo Alves, diante da pandemia, da crise social e econômica, a situação, que já gravíssima, deve se agravar mais. 

“Grande parte das crianças vai para as ruas em razão do trabalho infantil para contribuir com seu sustento e o de sua família, o que certamente tende a se agravar com o aumento do desemprego, subemprego e falta de renda dos pais, mães e responsáveis. Dia 13 de julho próximo, o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente] completa 30 anos, e o país precisa ter políticas públicas mais efetivas para a proteção de crianças e adolescentes em situações de rua”, destaca o advogado.

Ariel de Castro Alves ressalta que não há censos atualizados sobre essa população. “Ter dados e conhecer os problemas é o primeiro passo para tentar resolvê-los. Essa pesquisa precisa ser usada para os gestores públicos criarem programas e serviços voltados às abordagens de rua”, disse. Ele acrescenta que são necessários serviços e programas de enfrentamento ao trabalho infantil, vinculados àa educação em período integral, com bolsas de estudos e renda básica para as famílias.

Estado

Manoel Torquato enfatiza ainda a violências praticada nas ruas contra crianças e adolescentes. Perguntada se já tinha sofrido algum tipo de violência nas ruas, a maioria (88%) dos meninos e meninas que viviam nas ruas respondeu que sim. Entre os acolhidos nos serviços, o número foi mais expressivo: 97% disseram que já tinham sofrido violência.

Entre aqueles que estão em situação de rua, metade dos entrevistados apontou agentes de segurança pública como principais autores dos atos de violência sofridos. “Para nós, este é um dado importante porque, primeiro, indica o estado como principal violador. Esses agentes públicos de segurança representam o estado, são formados, capacitados pelo estado, isso indica uma negação do estado de direito.”

Para Torquato, além disso, esse dado da pesquisa aponta a questão de discriminação das pessoas em situação de rua pela política pública. “A política pública que chega a essa população chega através dos agentes de segurança e chega na forma de violência.”

Além da pobreza e da busca pela sobrevivência como principais motivos para crianças e adolescentes irem para as ruas, procuram-se as ruas como lugar de diversão e liberdade  – segunda opção mais apontada pelos entrevistados. Segundo Torquato, o resultado se relaciona com o perfil majoritário do público identificado na pesquisa, que são adolescentes, e com a falta de opções de lazer e diversão para eles.

“Nessa fase da vida, de fato, nós buscamos constantemente esse lugar de diversão e liberdade. Como falta nas comunidades a perspectiva de programas mais arrojados de cultura, de esporte, de lazer, o espaço da rua acaba também virando esse lugar, onde os meninos e meninas podem ocupar as praças, os pontos turísticos da cidade, andar livremente para um lado e para o outro, vivenciando uma experiência de liberdade e diversão, muitas vezes perigosa, porque a rua não tem essa infraestrutura de segurança para todos”, diz Torquato.

Para ele, esse elemento revelado pela pesquisa dá conta de uma demanda de política pública ausente para as pessoas que estão em uma zona de vulnerabilidade e mostra que a implementação de políticas mais atrativas em áreas preventivas  – como esporte, lazer, cultura e educação – poderiam contribuir para evitar a situação de rua em que vivem esses jovens. 

O terceiro aspecto mais citado para a ida às ruas é o conflito familiar. No entanto, Torquato afirma que é preciso cuidado para não cair na armadilha de culpar as famílias e de acusar os lares de desestruturados. Torquato lembra que, no caso dos filhos de classe média, há conflitos, mas eles recebem justificativas como a de que estão na fase da puberdade e ou de que “adolescente é assim mesmo”.

“Há uma série de justificativas para essa classe social [classe média] receber e acolher essa perspectiva de conflito que vivem os adolescentes e seus pais. No campo da pobreza, isso vira motivo de ida pra rua. Então, a gente tem que ter um cuidado na hora de observar esse dado para não cair no senso comum de sempre jogar o problema para a relação familiar”, finalizou.

Por Camila Boehm – Repórter da Agência Brasil

Cartões do Bom Prato são distribuídos aos moradores de rua

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, já entregou 2500 cartões para gratuidade nos restaurantes Bom Prato. A entrega iniciou no Pateo do Collegio, Largo da Concórdia e Praça Princesa Isabel, na região central da capital. A Prefeitura recebeu 8 mil cartões com QR Code fornecidos pelo Governo do Estado e começou a distribuição nesta segunda-feira (01) pelas equipes de abordagem do Serviço Especializado de Abordagem Especial (SEAS). Além do Centro, a ação se estenderá para outros territórios da cidade.

O município assinou um convênio com a Secretaria Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo (SEDS) para ampliar as medidas voltadas à segurança alimentar das pessoas em situação de rua. Poderão ser contempladas apenas aquelas pessoas que não estão acolhidas na rede socioassistencial, pois os equipamentos já fornecem alimentação para os usuários. Atualmente, há cerca de 12 mil pessoas nessas condições.

A ação tem duração inicial prevista até 31 de julho de 2020, podendo ser estendida enquanto durar o estado de calamidade pública em decorrência da pandemia de covid-19. As pessoas apresentarão o cartão em qualquer unidade do Bom Prato, com direito a três refeições diárias (café da manhã, almoço e jantar).

*Com informações da Prefeitura de SP

Morador de rua recebe comida de graça no Bom Prato

Restaurante Bom Prato de Jandira, na grande São Paulo (Arquivo/Gov. do Estado de SP)

Os restaurantes do programa estadual Bom Prato estão oferecendo refeições gratuitas, em todo estado, até o final de julho. No entanto, para poder utilizar a gratuidade, o usuário deverá estar cadastrado, pela prefeitura onde está localizado o restaurante, como população em situação de rua não albergada e sem acesso à assistência alimentar. 

O programa Bom Prato oferece refeições a R$ 0,50 (café da manhã) e a R$ 1 (almoço ou jantar). O programa conta com 58 unidades em funcionamento, sendo 22 localizadas na capital, 11 na Grande São Paulo, 8 no litoral e 17 no interior. 

A gratuidade para as pessoas cadastradas será custeada pelo governo do estado. Ficarão a cargo das prefeituras, onde há restaurantes do programa, localizar e identificar os beneficiários, bem como fazer a entrega dos cartões de gratuidade e o monitoramento da prestação dos serviços.

A refeição oferecida tem cerca de 1.200 calorias e é composta por arroz, feijão, salada, legumes, um tipo de carne, farinha de mandioca, pãozinho, suco e sobremesa – geralmente uma fruta da época. Já no café da manhã é oferecido leite com café, achocolatado ou iogurte, pão com margarina, requeijão ou frios e uma fruta da estação. 

Por Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil 

*Diferentemente do informado no título da matéria, o nome do projeto é Bom Prato. A informação foi corrigida.

Coronavírus: Ação tenta proteger moradores de rua

Prefeitura instala pia improvisada para moradores de rua lavarem as mãos
(Edson Lopes/Prefeitura de SP/Fotos Públicas)

A Prefeitura de São Paulo iniciou ontem (04) a ação “Vidas no Centro”, que visa proporcionar condições básicas para realizar higiene pessoal aos cidadãos em situação de vulnerabilidade social na região central cidade. O objetivo é minimizar o impacto da proliferação do coronavírus nesta população.

As operações começaram nas praças da Sé e da República. As demais estações serão abertas na sequência, ao longo da semana. Em sete pontos estratégicos, que serão instalados na região do Triângulo SP– recorte  especial do centro histórico paulistano que engloba o Largo São Bento, Pateo do Collegio e Largo São Francisco– e Centro novo, serão oferecidos sanitários masculinos e femininos e kits para higiene dental com escovas e pastas de dente. Para tomar banho, serão entregues toalhas descartáveis e sabonete no local. O funcionamento será todos os dias, das 7h às 19h.

“A estrutura está pronta para oferecer  banho quente e higienização para as pessoas da região. O importante é mantê-las limpas e sem aglomerações”, informou a secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, Berenice Gianella.

“Nessa parceria com a SMADS, vamos atender os cidadãos em situação de vulnerabilidade social, oferecendo apoio para uma higiene pessoal completa, protegendo um dos grupos mais vulneráveis à pandemia”, disse o secretário do Turismo, Miguel Calderaro Giacomini.



Serão três super estações, localizadas na Praça da Sé, Praça da República e Praça Cívica Ulisses Guimarães (Parque D. Pedro II), com capacidade de atendimento para até 3.000 pessoas por dia; duas estações padrão no Largo do Paissandu e Praça Ouvidor Pacheco e Silva, para atender 1.500 pessoas por dia; e outras duas estações de sanitários, sem banho, no Pateo do Collegio e Largo General Osório.

De acordo com a pesquisa censitária da população em situação de rua (2019), são 24.344 pessoas nesta condição, sendo a maior concentração e circulação encontra-se na região central, abrangida pela Subprefeitura da Sé.  Especificamente essa região soma 11.048 pessoas em situação de rua, sendo 3.455 delas acolhidas e 7.593 vivendo nas ruas.

(Jorge Araujo/Fotos Publicas)

Na região central da cidade, a Secretaria Municipal das Subprefeituras instalou 11 pias com água potável fornecida pela Sabesp para auxiliar as pessoas em situação de rua a efetuarem a higienização das mãos, nesse período de pandemia da covid-19, nos seguintes locais: Praça da Sé, Praça Ouvidor Pacheco e Silva, Largo São Francisco, Largo Paissandu, Pateo do Colégio, Praça da República, Largo do Arouche, Parque Dom Pedro, Largo General Osório e Praça da Liberdade e Praça Princesa Isabel.

Sobre o Triângulo SP

O Triângulo SP é um recorte especial do centro histórico paulistano, onde se situam os principais prédios históricos da cidade, entre eles o Largo São Bento, Pateo do Collegio e Largo São Francisco.

Em 25 de março de 2020, o prefeito Bruno Covas sancionou a lei nº 17.332, que criou Triângulo SP, polo singular de atratividade social, cultural e turística, no âmbito dos perímetros do Polo de Economia Criativa distrito criativo Sé/República e do Território de Interesse da Cultura e da Paisagem Paulista/Luz.

A Secretaria Municipal de Turismo vem realizando ações neste território desde dezembro de 2018.  O Triângulo SP recebe eventos destinados aos mais diversos públicos como o Festival de Natal de São Paulo, Festival do Café no Triângulo SP, Cidade do Futuro, Poesia no Centro, Históricos de São Paulo, entre outros, que já receberam mais de 5 milhões de pessoas.

*Com informações da Prefeitura de São Paulo

Vídeo: Morador de rua denuncia falta de higiene em albergue

Revoltado com CTA Brigadeiro Galvão, em São Paulo, atendido pelo albergue filmou o local, mostrando banheiros sem sabonete e cobertos de papel higiênico

Os centros de acolhida mantidos pela Prefeitura de São Paulo deveriam abrigar e proteger os moradores de rua, mas alguns deles podem ter se tornado mais perigosos do que a rua.

Revoltado com as condições do CTA 6 (Centro Temporário de Acolhimento) Brigadeiro Galvão, localizado em Santa Cecília, região central da cidade de São Paulo, o poeta Fábio Rodrigues, 44 anos, um dos atendidos pelo albergue, resolveu usar seu celular para filmar o que via.

Os vídeos retratam banheiros sujos, sem sabão para lavar as mãos nem cestos de lixo, corte de água durante as manhãs, aglomerações nos dormitórios e refeitórios e profissionais que manuseiam alimentos sem luvas ou máscara. Álcool em gel, nem pensar. São condições perfeitas para a disseminação da Covid-19, que já matou uma centena de pessoas só no estado de São Paulo.

Passando pelos banheiros, Fábio narra que “descarga não existe”, mostra vasos sanitários cheios e pilhas de papéis usados no lugar onde deveria haver um cesto de lixo. “A gente usa os banheiros das 16h de um dia até as 8h do dia seguinte, sem que nesse intervalo seja realizada qualquer espécie de limpeza”, afirma.

Refeitório do CTA 6 Brigadeiro Galvão (Reprodução)

“A logística de distribuição das camas é deveras burocrática. O sujeito não dorme continuamente no mesmo leito, a cada noite lhe é determinada uma cama diferente da noite anterior”, prossegue Fábio.

Nos vídeos, gravados há duas semanas, Fábio comenta: “Essa coisa de espaço entre as camas não existe. Algumas camas não têm lençol. Olha a condição do cobertor, se é que pode chamar isso aqui de cobertor”, diz, segurando na mão a manta fina.

Fábio fez questão de que seu nome aparecesse na reportagem.

A reportagem ouviu outros atendidos pelo albergue, que também denunciaram a falta de limpeza e comentaram sobre o medo que sentem da pandemia. “Com esse negócio do coronavírus aqui, a situação está escassa. A higiene está horrível, o banheiro não tem higiene. É difícil trocar a coberta das camas, a ventilação não existe, é um caos total”, afirma um dos atendidos, que pediu para ter seu nome preservado.

Palavra de especialista

A Ponte mostrou os vídeos para Lara Duarte, biomédica, professora de epidemiologia, patologista clínica e biotecnologista. Segundo ela, faltam nos banheiros sabão e lixeira com tampa fechada. Tanto ali como nos banheiros, deveria ser oferecido álcool em gel.

“A gente pode observar que as camas são muito próximas e a possibilidade de isolamento em caso de algum morador com sintoma fica bastante comprometida”, afirma. A biomédica recomenda a troca diária da roupa de cama ou, ao menos, da fronha, que fica mais em contato com a saliva e as secreções nasais, principais fontes de contaminação pela Covid-19.

Mais gente nas ruas do que vagas nos albergues

Não é a primeira vez que o CTA Brigadeiro Galvão é alvo de denúncias. No ano passado, segundo o G1, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde interditou a cozinha e os leitos do local por más condições de higiene – na cozinha foram verificados um cano estourado, falta de botas para os funcionários e em 89 leitos foram encontrados percevejos. O albergue dispõe de 240 vagas de acolhimento distribuídas em dois dormitórios, um deles para pessoas com deficiência.

Fachada do CTA 6 Brigadeiro Galvão | Foto: Divulgação

Criados em 2017, os CTAs são serviços destinados para pessoas que precisam de rápido acolhimento e servem de apoio aos demais centros de acolhida do município.

O Censo da População em Situação de Rua de São Paulo, de 2019, mostrou que, das 11,7 mil pessoas em situação de rua que utilizam o serviço em centros de acolhida, cerca de um terço (4,1 mil) ficam na mesma unidade por menos de três meses, mostrando uma rotatividade que aumenta o risco de o vírus se disseminar.

A mesma pesquisa também estima que pouco mais de 24,3 mil pessoas vivem em situação de rua na capital. O número é considerado subnotificadopelas organizações que tratam do tema. Mesmo levando em consideração o valor oficial, a prefeitura dispõe de 89 centros de acolhimento, com um total de 17,2 mil vagas, o que representa um déficit de pelo menos 7 mil pessoas.

O que diz a Prefeitura de SP

Em resposta, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, da gestão Bruno Covas (PSDB), emitiu a seguinte nota.

“A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que os Centros de Acolhida receberam as orientações de serem higienizados constantemente e mantidas as janelas abertas, além de distanciar as camas em distância segura nos quarto. Todos os eventos agendados nos serviços foram cancelados e as visitas suspensas. Os cuidados com a higiene, como lavar bem as mãos com água e sabão, cobrir a boca e o nariz ao tossir e espirrar, evitar tocar os olhos, e orientações de não compartilharem objetos de uso pessoal, foram intensificados.

A SMADS informa que a fiscalização dos serviços da rede socioassistencial é realizada de forma permanente pelos Gestores de Parcerias, das quais avaliam a qualidade do serviço executado, de acordo com a Instrução Normativa nº 5/SMADS.

Em relação ao CTA Brigadeiro Galvão, a Secretaria tem parceria com a Associação Cultural Nossa Senhora das Graças e que o local dispõe de duas bombas para abastecer todo o equipamento, além do abastecimento de água potável da rua, de modo ininterrupto.

De acordo com orientações dos órgãos de Saúde, a equipe da cozinha recebeu orientações técnicas de manipulação e preparo dos alimentos, além da utilização obrigatória dos EPIs, além das instalações de dispenser de sabonete líquido, álcool em gel e suporte para papel toalha.

Os beliches são higienizados, com troca de lençóis, fronhas e cobertores constantemente e as janelas abertas para arejar o ambiente. Os boxs dos banheiros são abastecidos com sabonete líquido, papel higiênico e papel toalha nos devidos suportes, quando ocorre entupimento, uma empresa especializada é acionada para realizar a manutenção e encontra embalagens de produtos de higiene, peças de roupas, maçanetas de portas, entre outros objetos no encanamento.

A Secretaria mantém cinco CTAs em parceria com a Associação Cultural Nossa Senhora das Graças, sendo o Aricanduva, Prates III, Brigadeiro Galvão, Mooca I e Anhangabaú (favor confirmar na panilha de parcerias)A SMADS está sempre à disposição para receber sugestões e reclamações sobre a Rede de Assistência Social pelos canais adequados, que são importantes meios de aperfeiçoar o trabalho desempenhado. As contribuições de munícipes podem ser feitas pela Central SP156 (telefone, aplicativo ou site) ou ainda pela ouvidoria da Prefeitura de São Paulo.”

Por Gustavo Luizon, Pedro Santi e Tárik El Zein – Repórteres da Ponte