Helicóptero da Nasa faz voo teste em Marte

Concepção artística do veículo voador Ingenuity (Nasa/via Agência Brasil)

O pequeno helicóptero espacial Ingenuity, da agência espacial norte-americana, a Nasa, subiu aos céus de Marte. A manobra era esperada com grande expectativa pelos controladores da missão, devido à fina atmosfera marciana.

Os primeiros dados recebidos informavam que tudo ocorreu como previsto e pouco depois chegou a confirmação de que o teste foi executado com perfeição.

As imagens transmitidas pela Nasa mostram a equipe comemorando, depois de terem recebido as primeiras informações e um pequeno vídeo, registrado pelo rover Preserverance, revelando o pequeno voo do Ingenuity.

De acordo como a equipe da Nasa, o helicóptero fez um curto voo vertical e subiu a uma velocidade de 28 metros.

Uma entrevista coletiva dos controladores da missão está prevista para as 15h, quando eles darão mais detalhes sobre o voo teste.

* Com informações da RTP – Rádio e Televisão de Portugal

Perseverance fotografa arco-íris em Marte e esclarece mistério

Um fenômeno inusitado foi capturado pelo sonda robô Perseverance, da agência aeroespacial norte-americana Nasa, que explora desde fevereiro o solo marciano. Uma foto tirada pela Perseverance mostra um arco-íris no céu do planeta vermelho – algo considerado impossível, já que o fenômeno ocorre por causa da refração da luz solar nas partículas de água suspensas na atmosfera. Como Marte possui uma atmosfera fina e gelada, não há possibilidade de haver água em estado líquido circulando livremente pelo ar.

Após ganhar repercussão em redes sociais, a foto publicada pela Nasa teve que ser elucidada. O perfil da sonda exploradora no Twitter frustrou teorias conspiratórias que tentavam explicar o fenômeno de forma não científica.

Segundo pesquisadores da Nasa, o fenômeno registrado não era exatamente um arco-íris, e sim um reflexo de lente muito comum, o lens flare. Esse fenômeno ocorre quando a luz bate diretamente sobre uma lente de câmera em um ângulo oblíquo e se espalha pela superfície de vidro, o que causa o registro de uma luz brilhante, geralmente em forma de gota ou círculos.

A imagem foi capturada pela câmera traseira da sonda, que serve para identificar possíveis perigos na rota de movimentação do veículo. Essa câmera, chamada HazCam, faz parte do sistema autônomo de movimentação da Perseverance.

https://twitter.com/NASAPersevere/status/1379536046338154498/photo/1

Imagens mostram nave da Nasa pousando em Marte

A Nasa divulgou o primeiro vídeo do robô Perseverance durante pouso histórico em Marte no último dia 18. Nas imagens, é possível ver o momento exato que ele abre o paraquedas e toca o solo do planeta em segurança.

Durante o vídeo, é possível ouvir um dos cientistas que coordenam a missão:

“Tenho certeza que vamos estudar esse vídeo por muitos, muitos anos, em busca dos detalhes”. 

O Perseverance é uma missão que pousou em Marte na última quinta-feira (18), sete meses depois de ter partido da Estação Aérea de Cabo Canaveral, localizado na Flórida.

A estrutura pousou na cratera de Jezero, um antigo lago marciano, e passará dois anos em busca de sinais concretos de vida microbiana passada no planeta. Parte do material encontrado deve vir à Terra para passar por pesquisas.

O robô tem 19 câmeras e o Ingenuity, nave semelhante a um helicóptero que conduziu sua aterrissagem, tem mais quatro.

Objetivos da missão

Se todo esse trabalho dos engenheiros acontecer conforme o planejado, o veículo da Agência Espacial Europeia, pode começar sua jornada para o planeta vermelho em 2026, pousando em 2028 e ajudando a entregar as amostras de volta à terra em 2031.

Os cientistas querem saber como era Marte bilhões de anos atrás, quando tinha rios, lagos e oceanos que podem ter permitido que organismos simples e minúsculos florescessem antes do planeta se transformar no mundo desértico que é hoje.

*Com TV Cultura

Lua tem reserva de água em estado líquido

(Arquivo/Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O Observatório Estratosférico de Astronomia Infravermelha (Sofia, na sigla em inglês) da Nasa, a agência aeroespacial norte americana, anunciou hoje (26) a descoberta de água na superfície iluminada da Lua.

Moléculas de H²O foram achadas na cratera Clavius, localizada no hemisfério sul lunar, uma das maiores crateras visíveis do satélite natural a partir da Terra. Observações anteriores já haviam mostrado a presença de hidrogênio no local, mas essa é a primeira vez que água é detectada na Lua.

A quantidade de água observada é o equivalente a 354,9 mililitros, um pouco mais da metade de uma garrafinha de água mineral. O líquido está contido em um metro cúbico de solo espalhado pela superfície lunar.

“Tínhamos indicação de possibilidade da presença de H²O no lado iluminado pelo Sol da Lua”, afirmou Paul Hertz, diretor da divisão de Astrofísica da Nasa, durante o evento de divulgação da descoberta. “Agora sabemos onde está. Essa descoberta desafia nossa compreensão da superfície lunar e levanta questões intrigantes sobre recursos na exploração do espaço profundo”, concluiu.

Recurso escasso

Apesar da importância da descoberta, a quantidade de água achada em solo lunar serve para confirmar novamente uma afirmação antiga da ciência: a água é um recurso extremamente escasso e raro na natureza. Segundo dados da Nasa, em comparação, o Deserto do Saara tem 100 vezes a quantidade de água detectada em solo lunar.

“A água é um recurso precioso, tanto para propósitos científicos quanto para os nossos exploradores”, disse Jacob Bleacher, chefe de Exploração Científica da Nasa. “Se pudermos usar o recurso na Lua, podemos levar menor quantidade [de água] e mais equipamento para ajudar em novas descobertas científicas”, salientou.

Com informações da Nasa

Pedro Ivo de Oliveira – Repórter da Agência Brasil 

Cientistas encontram indícios de vida em Vênus

(Nasa/via Deutsche Welle)

Uma equipe internacional de astrônomos identificou a presença de um gás na atmosfera de Vênus que se tornou um dos indícios científicos de vida fora da Terra mais importantes já descobertos.

A detecção da fosfina – um gás existente na Terra – nas nuvens espessas de Vênus foi anunciada em um estudo publicado nesta segunda-feira (14/09) na revista científica Nature Astronomy.

A descoberta é um forte indício de que micróbios podem habitar ou ter habitado o planeta vizinho. Na Terra, a fosfina é produzida por bactérias que vivem em ambientes carentes de oxigênio.

O time, que reúne pesquisadores do Reino Unido, Estados Unidos e Japão, identificou traços do gás pela primeira vez com o telescópio James Clerk Maxwell, no Havaí, e os confirmou por meio do radiotelescópio Alma, o maior do tipo no mundo, localizado no Chile.

“Fiquei muito surpresa – atordoada, na verdade”, contou a astrônoma Jane Greaves, da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, autora principal do estudo.

Há muito tempo a existência de vida extraterrestre é uma das questões primordiais da ciência. Astrônomos usam sondas e telescópios para buscar “bioassinaturas” – sinais indiretos de vida – em outros planetas e luas do Sistema Solar e além dele.

“Com o que sabemos atualmente sobre Vênus, a explicação mais plausível para a [presença de] fosfina, por mais fantástica que possa parecer, é vida”, disse a astroquímica portuguesa Clara Sousa-Silva, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA.

“Isso é importante porque, se for fosfina e se existir vida, significa que nós não estamos sozinhos. Também significa que a vida em si deve ser algo muito comum, podendo haver muitos outros planetas habitados em toda nossa galáxia”, acrescentou.

Contudo, os pesquisadores destacaram que, apesar de tentadora, a detecção de fosfina está longe de ser prova de que existe vida fora da Terra. “Enfatizo que vida, como explicação para nossa descoberta, deve ser, como sempre, a última possibilidade”, afirmou Sousa-Silva.

A fosfina – formada por um átomo de fósforo e três átomos de hidrogênio – é altamente tóxica para seres humanos. O gás foi visto em 20 partes por bilhão na atmosfera de Vênus, uma concentração considerada residual.

Os cientistas analisaram potenciais fontes não biológicas para a presença do gás em Vênus, como vulcanismo, meteoritos e vários tipos de reações químicas, mas nenhuma possibilidade pareceu viável. A pesquisa continua, visando confirmar a presença de vida no planeta ou encontrar uma explicação alternativa.

Vênus é o planeta mais próximo da Terra e o segundo mais próximo do Sol, depois de Mercúrio – a Terra é o terceiro. Sua estrutura é semelhante à da Terra, mas seu tamanho é levemente menor. O planeta está envolto em uma atmosfera espessa e tóxica que retém calor. As temperaturas de sua superfície chegam a escaldantes 471 ºC, suficientes para derreter chumbo.

“Nenhuma vida seria capaz de sobreviver na superfície de Vênus, porque ela é completamente inóspita, mesmo para bioquímicos completamente diferentes dos nossos”, afirmou Sousa-Silva. “Mas há muito tempo, Vênus pode ter tido vida em sua superfície, antes de um efeito estufa descontrolado deixar a maior parte do planeta completamente inabitável.”

Mas para alguns cientistas, ainda existe a possibilidade de haver vida nas altas nuvens venusianas, com temperaturas amenas em torno de 30 ºC, que poderiam abrigar micróbios aéreos. “Se forem microrganismos, eles teriam acesso a luz solar e água, e talvez vivam em gotículas líquidas para impedir que se desidratem”, sugeriu Greaves.

Esses micróbios teriam que ter “algum mecanismo de proteção contra corrosão por ácido”, disse a astrônoma, já que as nuvens de Vênus são formadas por cerca de 90% de ácido sulfúrico – uma acidez à qual os micróbios terrestres não sobrevivem.

EK/afp/ap/efe/rtr

Por Deutsche Welle

Nasa e SpaceX lançam missão tripulada

Foi lançada na tarde de hoje (30) a nave espacial Crew Dragon, em uma missão tripulada por dois astronautas, que é fruto de parceria público-privada da Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) com empresa aeroespacial SpaceX. A primeira tentativa, feita na quarta-feira (27), acabou adiada devido ao mau tempo, inclusive com a possibilidade de tornado, segundo informou o serviço nacional de meteorologia dos EUA.

A missão, chamada Demo-2, é também “o primeiro voo em órbita de astronautas norte-americanos em foguetes norte-americanos a partir de solo americano desde o final da era do ônibus espacial, em 2011”, conforme definiu a própria Nasa.

A decolagem ocorreu no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Diante da necessidade de isolamento social, pela qual boa parte do planeta passa devido à pandemia de covid-19, a Nasa fez uma transmissão especial, via internet, da decolagem da nave espacial que levou os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley até a Estação Espacial Internacional.

“Com a experiência de lançamento virtual da Nasa, possibilitamos que mais pessoas assistam ao início desta nova era no voo espacial humano”, explica a assessora de Comunicação da Nasa Bettina Inclán.

A equipe

Robert Behnken e Douglas Hurley (Nasa/Fotos Públicas)

Os dois astronautas têm papéis bem definidos durante a missão Demo-2 (a Demo-1 foi realizada sem tripulação, em teste envolvendo um boneco coberto de censores). Behnken será responsável por procedimentos como os de encontro, atracação e desencaixe, em especial enquanto a espaçonave estiver atracada na estação espacial.

Já Hurley é responsável por atividades como lançamento, pouso e recuperação.

A missão validará o sistema de transporte de tripulação da SpaceX, o que inclui a plataforma de lançamento, foguete, nave espacial e recursos operacionais. Será também a primeira vez que os astronautas da Nasa testarão os sistemas de espaçonaves em órbita.

O fato de a missão partir dos EUA e ter como protagonistas astronautas norte-americanos aumentou o interesse da população dos Estados Unidos no evento. “Já estamos vendo pessoas participando on-line com a hashtag #LaunchAmerica e ajudando a criar empolgação para esse momento histórico”, acrescentou Bettina.

A última decolagem de um veículo norte-americano em direção à Estação Espacial Internacional foi em 2011, ano em que o ônibus espacial Atlantis foi aposentado. Desde então, os EUA têm dependido dos foguetes russos Soyuz para chegar à estação, partindo do Cazaquistão.

Novo passo da lógica

Robert Behnken e Douglas Hurley (Nasa/Fotos Públicas)

Por meio de redes sociais, o astronauta Douglas Hurley tem feito elogios às inovações tecnológicas do novo veículo aeroespacial desenvolvido pela SpaceX, empresa que tem à frente o empreendedor e visionário Elon Musk.

Entre as novidades da nave estão os painéis em touchscreen, que podem controlar tudo de uma forma bem mais prática do que os inúmeros botões que integravam o painel dos antigos ônibus espaciais. Também foi necessário desenvolver luvas de fácil interação com esse tipo de tela.

Trata-se de um “novo passo da lógica”, disse o astronauta Hurley em uma leve referência à famosa frase “este é um pequeno passo para um homem; e um salto gigante para a humanidade”, dita por Neil Armstrong em 20 de julho de 1969, quando se tornou o primeiro homem a pisar na Lua.

“Minha primeira impressão sobre o interior da [cápsula] Crew Dragon? Fiquei impressionado. É obviamente uma nave espacial moderna com design aerodinâmico e muito confortável. Os assentos são basicamente de carros de corrida; e o quesito segurança foi bastante considerado”, disse o astronauta via Twitter.

Impulsionada pelo foguete Falcon 9, a cápsula Crew Dragon deve ultrapassar a velocidade de 27 mil quilômetros por hora, para chegar no dia seguinte (31) à Estação Espacial Internacional.

*Com informações da Agência Brasil

Estação espacial recebe espaçonave japonesa

Por NHK

(Nasa/via Fotos Públicas)

Uma espaçonave não tripulada do Japão foi acoplada à Estação Espacial Internacional. A Kounotori 8 foi lançada do Centro Espacial de Tanegashima, na província de Kagoshima, no Japão, no último dia 25.

Após se aproximar da estação espacial na órbita terrestre, em uma altitude de aproximadamente 400 quilômetros, a espaçonave cargueira foi acoplada com a ajuda de um braço robótico operado por um astronauta. A acoplagem aconteceu pouco após às 3h da manhã deste domingo (29), horário de Tóquio.

Durante a operação, 40 funcionários estavam na sala de controle da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (Jaxa, na sigla em inglês) em Tsukuba, cidade na província de Ibaraki.

A equipe japonesa repassou para a Nasa, a agência aeroespacial americana, dados sobre a Kounotori 8 e celebrou quando a aeronave foi capturada pelo braço robótico.

A Kounotori 8 tem dez metros de comprimento e 4,4 metros de diâmetro. Ela transportou para a estação espacial aproximadamente 5,3 toneladas de equipamentos e mantimentos, entre eles água e comida para astronautas, baterias e satélites desenvolvidos por universidades.

Pesquisadores falam do ‘rio de fumaça’ que escureceu SP

Karina Toledo | Agência FAPESP

Imagens de satélite mostram deslocamento da fumaça (Aqua/Nasa/via Fotos Públicas)

Dois sistemas que permitem o monitoramento de poluentes atmosféricos – desenvolvidos nas últimas duas décadas com apoio da FAPESP – estão ajudando cientistas a entender fenômenos raros observados na cidade de São Paulo na última segunda-feira (19/08): o escurecimento repentino do céu no meio da tarde e a chuva acinzentada observada logo depois em algumas partes da Região Metropolitana.

Ainda no domingo (18/08), uma intensa pluma de material particulado com mais de 3 mil metros de altitude foi detectada por uma equipe do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) por meio do sistema Lidar, do Centro de Lasers e Aplicações (CLA). Posteriormente, com auxílio de imagens de satélites da Nasa – a agência espacial norte-americana – e de um modelo que prevê a trajetória percorrida por massas de ar, os pesquisadores concluíram se tratar de partículas provenientes de queimadas ocorridas nas regiões Centro-Oeste e Norte, entre Paraguai e Mato Grosso, abrangendo trechos da Bolívia, Mato Grosso do Sul e Rondônia.

Acrônimo para light detection and ranging (detecção de luz e medida de distância), o Lidar é um radar de laser que permite o sensoriamento remoto ativo da atmosfera para a detecção de poluentes. Vem sendo desenvolvido desde 1998 por Eduardo Landulfo, por meio de vários projetos financiados pela FAPESP.

“O sistema ilumina o céu e as partículas presentes na atmosfera refletem a luz, que captamos com um telescópio. Ao analisar esse sinal, conseguimos identificar o tipo de partícula e a distância da superfície em que ela se encontra”, explicou Landulfo.

Segundo o pesquisador, a pluma de poluição começou a pairar sobre a Região Metropolitana de São Paulo entre 4 e 5 horas da tarde de domingo – resultado de queimadas que ocorreram muito provavelmente de quatro a sete dias antes.

Como explicou Saulo Ribeiro de Freitas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a massa de ar poluído gerada pelas queimadas nas regiões Norte e Centro-Oeste geralmente é empurrada a 5 mil metros de altitude por ventos que sopram do Atlântico para o Pacífico (de leste para oeste), até esbarrar na Cordilheira dos Andes. A fumaça começa então a se acumular sobre o leste do Amazonas, Acre, Venezuela, Colômbia e Paraguai – até que o chamado sistema anticiclone, com ventos que circulam a 3 mil metros de altitude no sentido anti-horário, começa a transportar a massa poluída na direção sul, margeando os Andes.

“O que ocorreu no início desta semana foi a convergência dessa massa de ar poluído que vinha do norte com uma frente fria vinda do sul. Os ventos convergiram e fizeram o rio de fumaça se curvar em direção à região Sudeste. Além da fuligem, outros poluentes presentes na atmosfera – como monóxido de carbono, dióxido de carbono, ozônio, óxido nitroso e metano – interagiram com as nuvens trazidas pela frente fria e potencializaram a formação de smog [termo em inglês que representa a mistura entre fumaça e neblina]”, disse.

O transporte atmosférico de emissões de queimada sobre a América do Sul vem sendo monitorado no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe desde 2003, por meio do sistema CATT-BRAMS (Coupled Aerosol and Tracer Transport model to the Brazilian developments on the Regional Atmospheric Modelling System), desenvolvido por Freitas em colaboração com Karla Longo e Luiz Flávio Rodrigues (ambos do Inpe) e com apoio da FAPESP.

“Trata-se de um produto pioneiro que faz previsão para até três dias da qualidade do ar e que tem sido adotado em vários centros do mundo, entre eles o National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos”, contou o pesquisador. As previsões da qualidade do ar feitas no CPTEC podem ser consultadas diariamente pelo endereço http://meioambiente.cptec.inpe.br.

Nas imagens obtidas pelo modelo BRAMS (foto) é possível ver que no dia 16 de agosto o “rio de fumaça” descia no sentido sul, atingindo Porto Alegre (RS) e parte da Argentina. Aos poucos, vai sendo desviado para o Sudeste e, no dia 20 de agosto, já cobre boa parte do Estado de São Paulo.

De acordo com o professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Artaxo, durante sua trajetória rumo à região Sudeste, a pluma das queimadas interagiu com o vapor d’água na atmosfera, alterando as propriedades das nuvens.

“As partículas funcionam como núcleo de condensação da água. Assim, gotículas de chuva menores são formadas, mas em grande quantidade e isso faz com que uma maior parte da radiação solar seja refletida de volta para o espaço, a ponto de escurecer o solo, como aconteceu no último domingo”, disse.

Segundo Freitas, a chuva de cor acinzentada também foi resultado dessa interação da fuligem com as nuvens. “A fumaça entranhou nas gotículas de chuva, sendo depois depositada na superfície da cidade de São Paulo”, disse.

Trata-se de um fenômeno esperado do ponto de vista da química atmosférica, afirmou Artaxo, e não deve causar alarde. “Essa chuva não faz mal para as pessoas. Apenas caiu de uma nuvem com alta influência de queimadas”, disse.

Análises feitas com uma amostra da água turva colhida na Zona Leste da capital pela bióloga Marta Marcondes, professora da Universidade Municipal de São Caetano (USCS), revelaram uma quantidade de sulfetos 10 vezes maior que a média normalmente observada em águas pluviais. “Essas substâncias normalmente estão relacionadas com a queima de biomassa e de combustíveis fósseis. Também chamou a atenção a grande quantidade de material particulado que ficou presa no filtro e a turbidez sete vezes maior que o normal”, disse.

Pesquisadores do Instituto de Química da USP identificaram na água da chuva a presença de reteno, substância proveniente da queima de biomassa e considerada um marcador de queimadas. O estudo foi coordenado pela professora Pérola de Castro Vasconcellos.

A boa notícia, segundo os especialistas, é que, como a pluma de poluição estava a mais de 3 mil metros da superfície, não chegou a comprometer a qualidade do ar na capital paulista. De fato, monitores da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) indicaram boas condições na última semana.

“As cidades mais próximas da região onde ocorrem as queimadas, como Cuiabá, Manaus e Porto Velho, são as que mais sofrem com a degradação da qualidade do ar”, disse Freitas.

Tanto o pesquisador do Inpe quanto Landulfo, do Ipen, afirmam que a chegada das emissões de queimadas na Região Sudeste é relativamente comum no período de seca, entre julho e setembro.

“Mas para ter causado todos esses efeitos observados nos últimos dias deve ter sido uma quantidade de fumaça muito grande. Ainda não sabemos distinguir se é um fogo provocado ou acidental, que também é comum no período da seca”, afirmou Landulfo.

Em nota técnica divulgada no dia 20 de agosto, porém, cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) afirmaram que “a Amazônia está queimando mais em 2019 e o período seco, por si só, não explica este aumento”.

Segundo o texto, o número de focos de incêndios para a maioria dos estados já é o maior dos últimos quatro anos – até 14 de agosto eram 32.728 focos registrados, número 60% superior à média dos três anos anteriores. A estiagem, por outro lado, está mais branda. Tal fato, afirma a nota, indica que “o desmatamento possa ser um fator de impulsionamento às chamas”. “Os 10 municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento”, diz o texto. Os pesquisadores se basearam em dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon, do sistema de detecção de focos de calor do satélite AQUA, da Nasa, e dados de precipitação do CHIRPS (Climate Hazards Group Infrared Precipitation and Station Data).

Dados do Sistema Deter, do Inpe, que emite alertas diários de áreas desmatadas para ajudar na fiscalização, indicam que o desmatamento na Amazônia cresceu 50% em 2019. Julho foi o pior mês da série histórica, com 2.254 quilômetros quadrados (km²) de alertas – alta de 278% em relação a julho do ano passado. De agosto de 2018 a julho de 2019, o Deter apontou 6.833 km² desmatados, contra 4.572 km² no ano passado (agosto de 2017 a julho de 2018). A taxa oficial da destruição será dada no fim do ano pelo sistema Prodes, também do Inpe.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.