Reportagem detalha relação do PCC com garimpos ilegais

Uma equipe de agentes da Polícia Federal foi recebida a bala no rio Uraricoera, um dia após garimpeiros integrantes do PCC atacarem também a tiros indígenas Yanomami. Informes recebidos pela agência Amazônia Real de distintas fontes, ao longo desta terça-feira (11), revelam como está sendo tensa a relação de traficantes ligados à facção criminosa de São Paulo dentro dos garimpos de extração ilegal de ouro na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. A violenta recepção surpreendeu até mesmo os agentes federais.

“A equipe se abrigou e respondeu à injusta agressão [desta terça-feira] sem, contudo, haver registro de atingidos de nenhum dos lados”, informou, em nota, a PF.

“Não é normal garimpeiros atirarem contra a Polícia Federal.” Esta última informação é de um agente ouvido pela reportagem, que confirmou que o órgão investiga a participação de facções nos garimpos no ataque aos indígenas Yanomami da aldeia Palimi ú.

Mas esse agente fez questão de distinguir a origem do ataque que a equipe da PF sofreu com o conflito entre garimpeiros e Yanomami. “Possivelmente deve ser uma ação de vingança pela possível morte de seus pares”, disse.

A PF foi além e informou que nos dois ataques, os de segunda-feira (contra os Yanomami) e de terça-feira (contra seus agentes), não foram registrados óbitos em nenhum dos lados. “A PF não confirmou mortes, até porque não encontramos corpos”, disse a assessoria de imprensa do órgão. 

O presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye ́kuana (Considi-Y), Junior Hekurari, havia relatado que, no ataque de segunda-feira, três garimpeiros morreram, cinco foram baleados e um Yanomami ficou ferido. Segundo ele, os corpos foram levados pelos garimpeiros para o acampamento onde eles trabalham. 

(Mapa Hutukara)

Nesta terça-feira, Junior Hekurari voltou à comunidade Palimi ú, acompanhando os agentes da PF. Ele testemunhou o momento dos novos ataques dos garimpeiros. “A gente estava indo para posto de saúde onde o avião estava nos esperando [para voltar para Boa Vista]. Aí os garimpeiros vieram com os motores desligados. Chegando na comunidade começaram a atirar na direção do povo Yanomami. Depois viram a PF e também contra eles”, relatou à Amazônia Real.

Garimpeiros apoiadores de Jair Bolsonaro alegaram, também nesta terça-feira, que o conflito na aldeia Palimi ú começou porque os indígenas atiraram primeiro e seriam motivados por ONGs internacionais. Eles confirmaram que facções brasileiras e da Venezuela já estão dentro dos garimpos. A faccão venezuelana seria o Trem de Arágua. Mas negaram a ligação de garimpeiros com o PCC no conflito da aldeia Palami ú (Leia mais no final do texto).

Um número estimado em mais de 26 mil garimpeiros invadiu a Terra Indígena Yanomami para realizar a extração ilegal de ouro. A região, onde o Exército brasileiro mantém o 4º Pelotão de Fronteira em Surucucu, é alvo de mineradores, empresários, políticos e garimpeiros de várias partes do Brasil desde a década de 1970. Mas o componente “investimento do tráfico de drogas”, segundo uma fonte que conhece a história do garimpo, é algo mais recente e começou com o crescimento do PCC em Roraima, que chegou primeiro pelas unidades prisionais. 

PCC fez 12 ataques em Roraima

  • Comissão do CNJ visita a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo em Roraima RR. (Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ)
  • Comissão do CNJ visitou a Penitenciária Agrícola de Monte Cristo em Roraima RR em 2017 após os massacres ( no detalhe, pixação do PCC (Foto: Luiz Silveira/Agência CNJ)
  • Cápsulas de munição apreendidas na aldeia Palami ú (Foto Condisi-Y)
  • Cápsulas de munição apreendidas na aldeia Palami ú (Foto Condisi-Y)
  • Quadriciclo usado pelos garimpeiros apreendido na aldeia Palami ú (Foto Condisi-Y)
  • Combustível usado pelos garimpeiros apreendido na aldeia Palami ú (Foto Condisi-Y)
  • Agente da PF na a aldeia Palami ú (Foto:Polícia Federal)

Em 2017, a facção foi a responsável pelo massacre de 33 presos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. “O PCC cresceu muito e precisou se capitalizar, daí começaram a partir para os garimpos, onde tem o dinheiro fácil”, disse um garimpeiro ouvido pela Amazônia Real, que pediu para não ser identificado. 

Segundo a Operação Érebo, da PF, em julho de 2018, o PCC realizou uma série de 12 ataques a prédios públicos, incluindo agências da Caixa Econômica Federal, delegacia e posto da Polícia Militar, em Boa Vista e em outras três cidades de Roraima. Seis meses depois, em janeiro de 2019, o Ministério Público do Estado de Roraima (MPRR) denunciou 44 acusados pelos atentados, todos integrantes da facção.

Contra um deles, que exercia função de comando, a investigação registrou “inúmeros diálogos em que o denunciado discute questões relacionadas à expansão da facção para regiões de garimpo no Estado de Roraima”, conforme transcrição de um trecho da denúncia do MPRR.

Um delegado, ouvido pela reportagem sob condição de sigilo de sua identidade, afirmou que “no caso específico desse garimpo [na TI Yanomami], a gente tem informações de que realmente existem algumas facções tentando dominar a extração de renda para a Orcrim [organização criminosa]”. Segundo ele, a infiltração da facção no garimpo começou “há uns três anos”.

Um garimpeiro, com muitos anos de trabalho em Roraima, confirmou que o PCC está, de fato, agindo na TI Yanomami sob as vistas do governo estadual. “O PCC está controlando até a subida dos rios, exigindo pedágio. Tem bandido demais. O governo não regulamenta a compra de ouro, aí fica sem [o garimpeiro] para quem vender, acaba sendo aliciado por esses criminosos e traficantes. Isso é uma pouca vergonha”, disse ele, que pediu para não ter o nome revelado, pois teme represálias dos traficantes.

Já um segundo garimpeiro que atua com as famílias desses trabalhadores afirmou que membros da facção PCC atuam pelo rio baixo Uraricoera e Alto Parima. “Então são essas duas regiões que mais tem produzido ouro. Eles trabalham com balsas e máquinas de barranco e mais lá em cima no Alto Parima. Mas quem domina lá é o PCC”, garantiu ele, outro com nome preservado. “Hoje não é mais só ser garimpeiro que vai entrar lá e dizer que vai trabalhar sem a permissão dele, que quem domina lá é a facção.”

A presença da facção do tráfico de drogas nos garimpos da TI Yanomami tem deixado muitos trabalhadores apreensivos ou com medo. “Olha, eu digo pra eles: ‘isso é problema de governo do estado, prefeito de município e do próprio governo federal. Eu não tenho poderes para isso e nem vou me comprometer. Primeiro, eu não tenho poder, e não tenho armas para brigar com esse pessoal e você sabe que eles são criminosos, que estão prejudicando a cada dia mais os próprios garimpeiros e os índios, e tão querendo tomar dos índios as próprias aldeias deles, as próprias lideranças deles lá”, disse o garimpeiro que atua com as famílias dos trabalhadores da atividade de mineração.

Bolsonaristas falam de facções

Garimpo em Terra Indígena Yanomami (Foto Chico Batata/Greenpeace)

Um dia após o ataque na TI Yanomami, organizações ligadas à extrema direita e ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se apressaram em desmentir a possível participação de garimpeiros ligados ao PCC. Isso porque o conflito pode ter estragado os planos do presidente. Ele já sinalizou que planeja realizar uma viagem para Roraima para visitar a região do Cotingo, onde existe um projeto antigo de construção de uma hidrelétrica, contestada pelos indígenas Macuxi e Wapichana, além de uma área de extração de minério.

Em entrevista à Amazônia Real, Jailson Mesquita preferiu responsabilizar organizações não-governamentais internacionais pelo clima de tensão na região. Ele falou como coordenador do Fórum de Roraima, uma organização que tem representantes de associações e cooperativas de garimpeiros, e partidos políticos de extrema-direita e centro-direita, entre eles o Avante, da base do governo Bolsonaro.  

“O conflito não foi com facção. Essa situação foi provocada depois que dois aviões de ONGs chegaram na aldeia Palimi ú, que é conhecida como ‘Americana’. Eles [os indígenas] tinham uma boa relação com os garimpeiros. Pediam armas para os garimpeiros,  cobraram 600 reais por cada canoa atravessar o rio. De uma hora para outra, o comportamento desses indígenas mudou. O conflito foi orquestrado pelas ONGs. Eles aumentaram a passagem das canoas para 2 mil reais. Depois eles [os indígenas; não aceitaram mais nada”, disse.

Na versão de Mesquita, antes do conflito os indígenas da aldeia Palimi ú “estavam com o ânimos acirrados”. “Quando os garimpeiros chegaram para dialogar, foram recebidos a bala. Se os garimpeiros tivessem com fuzil 7,62 não tinha jeito, tinham matado, no mínimo, dez pessoas. Eles [os indígenas] atiraram primeiro”, afirmou.

Para Mesquita, a Polícia Federal tem que apresentar os responsáveis pelo crime. “Os garimpeiros alegam que levaram armas de caça e revólveres calibres 38, 22. Eles estão errados também. Aqui ninguém vai proteger. A Polícia Federal deve penalizar quem cometeu esse tipo de crime, que é um atentado contra a vida.”    

Perguntado sobre a infiltração de facções criminosas, entre elas o PCC, nos garimpeiros da TI Yanomami, Jailson Mesquita desconversou: “Essa questão aí é a mesma questão de você me perguntar quantos evangélicos têm no garimpo. O membro da facção não anda escrito na testa e nem ele sai apresentando carteira de identidade”. 

Mas o coordenador do Fórum de Roraima confirmou que há membros de facções na TI Yanomami. “Eles [os garimpeiros de facções] foram pra lá como qualquer trabalhador. E lá [na TI Yanomami] não existe essa questão que eles estão demarcando território. Inclusive lá eles convivem como qualquer outro garimpeiro comum”, disse. 

“Eles têm uma relação como qualquer outra classe social. Eu até estranho essa questão aí [da facção do PCC], porque a história é totalmente ao contrário. A imprensa, me permita uma crítica, jamais quis dar a atenção para o problema. Antes de haver esses garimpeiros aqui, as facções venezuelanas atravessavam a fronteira, inclusive a Guarda Nacional da Venezuela, armados e de helicópteros, assaltavam os garimpeiros do lado brasileiro e nunca ninguém abriu a boca para falar sobre isso”, disse Mesquita.

Relatos assustadores

Indígenas e agentes da PF na aldeia Palimi ú (Foto Polícia Federal)

Conforme revelado com exclusividade na segunda-feira pela Amazônia Real, a chegada do PCC na conflagrada área de garimpo na TI Yanomami trouxe variantes até então ignoradas pelas autoridades. E com potencial para tornar a situação insustentável para os indígenas. As distintas e até contraditórias versões nos relatos acima mostram a intrincada e delicada realidade enfrentada pelos Yanomami, que nunca estiveram tão ameaçados quanto agora. 

Diante de uma situação que se agrava a cada hora, é compreensível que a maioria das fontes ouvidas pela Amazônia Real, entre agentes públicos, garimpeiros e indígenas, tenham pedido para não ter seus nomes revelados. A chegada de forças policiais só fez a tensão aumentar. 

“Há relatos assustadores sobre a relação milícia, armamentos pesados e conflitos internos entre essas facções, que subiram o Uraricoera com metralhadoras, roupas do Exército para acertarem as contas e matarem outros garimpeiros”, informou um servidor ligado à saúde indígena Yanomami, que pediu para não revelar seu nome por medo.

A Terra Indígena Yanomami possui um alto índice de doenças como o novo coronavírus, a malária e a desnutrição. Os garimpos ilegais devastam as florestas e, segundo especialistas, o aumento das doenças tem relação com esse tipo de invasão. O território tem mais de 9,4 milhões de hectares entre os estados do Amazonas e de Roraima. Como se os problemas já não fossem suficientes, em 2020, o Ministério da Defesa levou lotes de comprimidos de cloroquina para os Yanomami.

Em resposta à Amazônia Real, o Exército informou que a presença dos militares nas terras indígenas “é benéfica à defesa dos direitos daqueles brasileiros ante a possíveis agressões culturais e físicas”. Disse ainda que, ao ser informado do conflito na TI Yanomami, o Comando Militar da Amazônia (CMA) deslocou um helicóptero para apoiar com logística e segurança a ação da Polícia Federal e da Fundação Nacional do Índio (Funai). “O Exército Brasileiro tem um comprometimento histórico com a unidade nacional e é garantidor, em última instância, da lei e a ordem. Nesse sentido, tem o dever de evitar fissuras no seio da sociedade brasileira”, disse em nota a 7ª Seção de Comunicação do CMA. 

Neste ano, a Justiça Federal de Roraima determinou que a União retirasse os invasores do território sob pena de pagamento de multa de 1 milhão de reais. Até o momento, o governo federal ignorou o cumprimento da decisão. “Esse tipo de conflito tem sido alertado pelo MPF em diversos procedimentos, inclusive com ações na Justiça Federal pedindo um plano de retirada de garimpeiros, temendo possível genocídio. A Justiça já até decidiu a favor do MPF e da retirada do garimpo ilegal na TIY”, disse o MPF.  Em 2020, em um outro conflito, dois indígenas morreram.

Por Kátia Brasil e Emily Costa, da Amazônia Real

Suspeito tenta fugir, troca tiros com PMs e é baleado

Um criminoso procurado pela Justiça e ligado à facção PCC, segundo a polícia, morreu em troca de tiros com policiais militares na região do Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo. No início da noite desta terça-feira (26), Pms faziam patrulhamento quando desconfiaram do motorista de um veículo e resolveram fazer a abordagem. O condutor, no entanto, acelerou ao perceber a aproximação da viatura, dando início a uma perseguição que terminaria minutos depois na Rua Barcelona, próximo à Avenida Presidente Altino.

No local, o suspeito foi interceptado e teria atirado em direção aos policiais, que reagiram. No revide, o bandido acabou sendo baleado e morreu quando era levado pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital Regional de Osasco, cidade da região metropolitana que está no limite de município com o bairro.

De acordo com a Polícia Militar, o criminoso, identificado posteriormente como sendo Gabriel Almeida Novaes, conhecido por “Biel”, ocupava um cargo na hierarquia na facção criminosa que atua dentro e fora dos presídios do Estado. O caso foi comunicado ao delegado plantonista do (91º) Distrito Policial da Vila Leopoldina e registrado como “morte decorrente de oposição à intervenção policial” no DHPP, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, que vai investigar a ação dos militares.

*Com informações de Paulo Édson Fiore, da Jovem Pan

Operação prende suspeitos de ligação com PCC no litoral

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou, nesta quarta-feira (18), com apoio da Polícia Militar do Estado de São Paulo (2º CPChoque), a Operação Colorido, visando a desarticular um grupo dedicado ao tráfico de drogas. Trata-se de desmembramento da Operação Fast Track, deflagrada simultaneamente na capital, om o objetivo de desarticular a célula jurídica da organização criminosa autodenominada Primeiro Comando da Capital (PCC). 

No curso das investigações, apurou-se que, após a transferência de F.G.S., vulgo “Colorido” ou “Azul”, para o sistema penitenciário federal, ele designou W.N.B., vulgo “Bel” ou “Bolacha”, para cuidar de seus negócios relacionados ao tráfico de drogas. A autorização foi transmitida através de uma advogada, alvo da operação deflagrada na capital.

No período do monitoramento do grupo, identificou-se seu envolvimento com a aquisição de mais de R$ 200 mil em entorpecentes oriundos de Corumbá (MS), rota do tráfico de cocaína. “Bel” atuava em sociedade com C.C.S.C., vulgo “Binho”, e ambos ainda contavam com a participação das respectivas companheiras para a movimentação dos valores relacionados ao comércio dos entorpecentes.

Além de atuar no tráfico de drogas, “Bel” exerce a função de apoio da sintonia final do PCC, estando, portanto, próximo ao mais alto escalão da organização criminosa. “Colorido”, por sua vez, é um dos primeiros integrantes do PCC. Ele foi preso em 2001 após uma investigação da Polícia Civil identificá-lo como gerente na receptação de cargas de armas a serem utilizadas em grandes assaltos, principalmente a bancos. Em 2019, “Colorido” recebeu condenação a 36 anos de prisão por envolvimento em homicídios. O homem é considerado como um dos principais líderes da organização criminosa, exercendo a função de sintonia final, o que motivou sua transferência para o sistema penitenciário federal em fevereiro de 2019.

Foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão e quatro de prisão temporária nas cidades de São Vicente, Santos e Praia Grande.

*MP-SP

Suspeito de integrar PCC é preso com arma e droga

A Polícia Militar prendeu um homem, procurado da Justiça, suspeito de integrar o PCC, e apreendeu dinheiro, arma e droga. A prisão aconteceu na madrugada de hoje (12), na região do Parque Novo Mundo, Zona Norte de São Paulo, após perseguição.

O veículo de luxo em que ele estava já havia sido perseguido pelos policiais na semana passada, mas o motorista conseguiu escapar. Hoje, os militares cruzaram novamente com o carro nas imediações do Conjunto habitacional Chácara Bela Vista, na Avenida Educador Paulo Freire,  e, desta vez, conseguiram interceptá-lo.

Durante uma revista, os Pms encontraram um tijolo de maconha, uma arma e três celulares. Questionado sobre a origem da droga, o suspeito teria oferecido cerca de 200 mil reais para não ser preso.

Os policiais fingiram aceitar a proposta e seguiram até uma casa, na Rua Terceiro Sargento João Lopes Filho, no mesmo bairro, onde ele apresentou o dinheiro e recebeu voz de prisão. O suspeito, que não teve a identidade divulgada, foi conduzido ao 73º Distrito Policial do Jaçanã e autuado em flagrante por tráfico de drogas, porte ilegal de arma e corrupção ativa.

*Com informações de Paulo Édson Fiore, da Jovem Pan

PCC é alvo de operação que atinge braço financeiro da facção

Somente contas bancárias bloqueadas superam R$ 730 milhões
(Marco Gomes/via Agência Brasil)

Nesta quarta-feira (30) a Polícia Federal (PF) deflagrou em São Paulo a Operação Rei do Crime. O alvo da ação é um braço financeiro que opera em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC) há mais de 10 anos. A investigação interditou mais de 70 empresas e bloqueou, com autorização da Justiça, contas bancárias cujos valores superam R$ 730 milhões.

Em nove cidades – São Paulo (SP), Bauru (SP), Igaratá (SP), Mongaguá (SP), Guarujá (SP), Tremembé (SP), Londrina (PR), Curitiba (PR) e Balneário Camboriú (SC) – mais de 200 policiais federais cumprem em apartamentos de luxo e empresas 13 mandados de prisão preventiva, 43 mandados de busca e apreensão e sequestro de 32 automóveis.

Há ainda nove motocicletas, dois helicópteros, um iate, três motos aquáticas, 58 caminhões e 42 reboques e semirreboques, com valor aproximado que ultrapassa os de R$ 32 milhões em bens sequestrados da facção criminosa. Os mandados foram expedidos pela 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Entre os investigados estão empresários do setor de combustíveis e até um dos condenados pelo envolvimento no furto ao Banco Central do Brasil, ocorrido em Fortaleza (CE), em 2005. No total são 20 indiciados. O grupo responderá pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Durante a investigação, a Polícia Federal rastreou movimentações financeiras e identificou a existência de uma rede de combustíveis, inclusive uma distribuidora, que atuava em benefício da facção criminosa, lavando ativos de origem ilícita, por meio de empresas com atuação sólida no mercado e de empresas de fachada ou de laranjas.

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras também forneceu relatórios de inteligência financeira à PF. Os documentos apontaram movimentações atípicas do grupo investigado, cujo valor ultrapassa a cifra de R$ 30 bilhões. “De maneira inédita, a Polícia Federal solicitou em juízo a interdição da atividade econômica financeira de 73 pessoas jurídicas (postos de combustíveis, lojas de conveniência e escritórios de assessoria e contabilidade) utilizadas pela facção criminosa para movimentação de valores ilícitos, as quais passarão a ser administradas pela Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas”, diz nota da assessoria da PF.

A operação foi batizada de Rei do Crime em alusão a empresários que fomentam e financiam organizações criminosas sem praticar as ações violentas por elas perpetradas.

Por Karine Melo – Repórter Agência Brasil 

Sucessor de Marcola no PCC é procurado pela polícia

Membros do Ministério Público e das polícias em entrevista coletiva sobre a Operação Sharks | Foto: Aethur Stabile / Ponte

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) anunciou a prisão de dois integrantes da cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital) nesta segunda-feira (14/9). A operação, chamada de Sharks, contou com apoio da PM e identificou 21 líderes da facção nas ruas. Destes, um homem morreu em suposto confronto no litoral paulista e outros nove são considerados foragidos. 

Parte dos alvos da investigação já estavam preso, sendo oito dos 21 integrantes da sintonia final das ruas. Durante a coletiva do MP, feita nesta tarde na capital paulista, ainda acontecia movimentação dos policiais para encontrar os nove líderes foragidos. Não foi divulgado se algum deles foi preso após a conversa com os jornalistas. 

Não foi detalhado quem já estava preso anteriormente e quem foi pego nesta ação. Segundo o MP, estão presos Decio Gouveia Luís, o Décio Portugal, Wellington Roberto da Cruz, Patric Uelinton Salomão, Eduardo Aparecido de Almeida, Marcelo Moreira Prado, Robson Sampaio de Lima, Carla Luy Riciotti Lima, Wagner Rodrigo dos Santos, Diego Macedo do Carmo e Levi Adriani Felício.

Nenhuma das investidas policiais feitas pela Sharks encontrou o principal alvo da operação: Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta ou Africano. Ele é considerado o número um do PCC fora das cadeias e sucessor de Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, na liderança da facção desde a transferência da sintonia final para presídios federais, no começo de 2019.

Alem de Tuta, são considerados foragidos Gilberto Flares Lopes Pontes, Gratualino de Sousa Lira, Odair Lopes Mazzi Júnior, Sergio Luiz Ferreira, João Paulo Tomaz de Souza, Edmilson de Menezes, Sergio Luiz de Freitas Filho e Valdeci Alves dos Santos.

“É a operação mais importante depois da transferência da liderança do PCC para o sistema penitenciário federal”, definiu o promotor Lincoln Gakiya, que integra o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), detalhando que não “é a mais importante em quantidade, mas pela qualidade” dos investigados.

Um organograma feito pelos investigadores traça a divisão das ações. A Sintonia Final da Rua, comandada por Marcos Roberto, coordenada todos os trabalhos da Sintonia Raio-X, espécie de ala de informações da cúpula, da Sintonia Progresso, que cuida de determinar missões aos membros, a Sintonia Financeira e a Sintonia de Logística de Fornecimento de Drogas. 

Organograma representando os procurados e presos pela Operação Sharks | Foto: MP-SP / Divulgação

“Conseguimos, através de um trabalho bem feito da força-tarefa, identificar e mapear toda a liderança dessa facção que assumiu as funções com transferência de Marcola [apontado pelo órgão como chefe do PCC] e demais para o sistema federal. “, diz .

Segundo o MP, duas pessoas foram capturadas nesta segunda e uma morreu ao responder com tiros a chegada da polícia, segundo o comandante do Comando de Policiamento de Choque da Polícia Militar de São Paulo, coronel Rogério Silva Pedro. Claudio José Pinheiro Freitas morreu ao atirar nos PMs durante a tentativa de prisão. 

“Infelizmente em Praia Grande (litoral de SP) conseguimos romper a porta de entrada apartamento e o infrator saía de um dos quartos disparando contra policiais, houve necessidade [de responder a tiros]. Não temos policiais feridos”, informa o coronel Rogério.

A investigação aponta para uma nova estrutura dentro do PCC, chamado de setor “Raio X”. É um setor que fica abaixo da cúpula, nomeada internamente de “Sintonia Final” e funcionaria como uma espécie de “escudo” e buscava informações para proteger os demais líderes – ficaria inclusive acima do setor do “Progresso”, focado na arrecadação monetária da facção.

Marcos Roberto de Almeira, conforme investigação do MP, está nas ruas há cerca de três anos, tendo respondido por roubo a banco e tráfico de drogas. Segundo o promotor Lincoln Gakyia, o MP tinha conhecimento de que Tuta assumira a função de Marcola desde a transferências da Sintonia Final Geral para presídios federais, mas não pode agir antes. 

“Uma coisa é identificar, outra coisa é ter provas para pedir a prisão. Tem que ser consistentes”, definiu, segundo complementado pelo procurador-geral do estado de São Paulo, Mário Sarrubbo. “Num estado democrático de direito é necessário ter provas e por isso demora”.

A ação ocorre uma semana após a prisão do advogado Wellington Luiz Pereira de Alcântara por suposta ligação com a cúpula da facção. O defensor teria se comunicado com Marcola e repassado ordens dos líderes para integrantes nas ruas. A promotoria não aponta ligação entre as duas operações da polícia.

Por Arthur Stabile, da Ponte

Operação mira chefes do PCC

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco), com apoio da Polícia Militar e do 1º Batalhão de Polícia Militar de Choque (Rota), deflagrou, na manhã desta segunda-feira (14/9), a Operação Sharks para cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão contra lideranças da maior facção criminosa que age nos presídios e nas ruas do país. As investigações, conduzidas por uma força-tarefa composta por oito promotores de Justiça e agentes de investigação do Gaeco e com apoio da PM, foram iniciadas no primeiro semestre de 2019, a partir do cruzamento de múltiplos dados, mirando integrantes dos principais escalões da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).  

As provas colhidas revelaram que a cúpula da facção comanda sistemática que movimenta mais de R$ 100 milhões anualmente, quantia decorrente, primordialmente, do tráfico de drogas e da arrecadação de valores de seus integrantes, tudo com rigoroso controle em planilhas.  As investigações revelaram a cadeia logística do tráfico de drogas da facção, bem como a sucessão entre suas principais lideranças à frente da fonte de maior renda da organização criminosa, indicando, ao final, a participação de 21 pessoas, algumas presas durante a apuração.

*Com informações do MP-SP

PCC é alvo de operação da Polícia Federal

(PF/via Agência Brasil)

A Polícia Federal (PF) deflagrou hoje (31) a megaoperação Caixa Forte 2, para investigar tráfico de drogas e lavagem de dinheiro praticados por facção criminosa. Para a ação, foram mobilizados 1,1 mil policiais federais, que cumprem 623 mandados judiciais em 18 unidades federativas (Acre, Alagoas, Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo) e no Chile. 

Ao todo, foram expedidos pela 2ª Vara de Tóxicos de Belo Horizonte 422 mandados de prisão preventiva e 201 mandados de busca e apreensão. Também foi ordenado o bloqueio judicial de R$ 252 milhões.

Em nota, a PF informou que, na primeira fase da operação, descobriu a existência do núcleo “Setor do Progresso”, que tinha como função promover lavagem de dinheiro dos valores gerados com a atividade de tráfico de drogas. 

As investigações também conduziram a polícia ao chamado “Setor da Ajuda”, criado para recompensar membros de uma facção recolhidos em presídios e que mantinham contas bancárias para onde parte do dinheiro oriundo das atividades era destinada. Em alguns casos, as quantias eram depositadas em contas de pessoas que não pertenciam ao grupo criminoso, para despistar as autoridades policiais. 

A PF apurou, ainda, que 210 suspeitos desempenham as funções no alto escalão da facção criminosa, como a execução de servidores públicos. Todos cumprem penas em presídios federais. Os presos deverão responder por crimes de participação em organização criminosa, associação com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, cujas penas podem chegar a 28 anos de prisão.

Por Agência Brasil

Operação da PF mira expansão do PCC para o RJ

Policiais federais cumprem hoje (25) 27 mandados de prisão preventiva e dez de busca e apreensão contra acusados de integrar facção criminosa que atua em vários estados. O objetivo da Operação Expurgo é evitar que o grupo, que é a principal facção de São Paulo, se consolide no Rio de Janeiro.

(PF/via Fotos Públicas)

De acordo com a Polícia Federal (PF), investigações iniciadas em dezembro de 2018 mostraram que os líderes dessa facção tinham um plano de se expandir para o estado do Rio, através de alianças com grupos criminosos.

O grupo já atua no Rio, mas a polícia quer evitar que ele se estabeleça de vez no estado.

Muitas das lideranças já estão presas e continuam controlando as atividades criminosas de dentro de presídios do Rio e de outros estados, com o uso de aplicativos.

Os mandados foram expedidos pela 2ª Vara Criminal de Bangu, no Rio de Janeiro, e estão sendo cumpridos em seis estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul.

Os presos estão sendo investigados por participação em organização criminosa e tráfico de drogas e armas.

Por Vitor Abdala – Repórter da Agência Brasil

Ex-policial que sequestrou sobrinho de Marcola teme a morte

Augusto Peña foi responsável por sequestro apontado como estopim para os ataques de maio de 2006; resgate de enteado de Marcola custou R$ 300 mil 

Ex-policial civil Peña e uma das entradas do CDP de Pinheiros (Arquivo/Ponte)

O ex-policial civil Augusto Peña, acostumado a morar em apartamentos luxuosos nos bairros de Moema e Aclimação, áreas ricas da zona sul paulistana, está sentindo na própria pele o drama enfrentado por milhares de presos no cotidiano carcerário.

A apertada cela 310 do pavilhão 3 do superlotado CDP 3 (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, zona oeste, é onde vive Peña, condenado a 22 anos pelo sequestro do enteado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do PCC (Primeiro Comando da Capital).

Peña não está nada satisfeito com o novo endereço. Ele reclama que é obrigado a dormir diariamente no chão frio da cela superlotada e infestada de muquiranas e percevejos.

Também se queixa que a cela é suja, ocupada por presos enfermos, doentes mentais e detentos comuns condenados pelos mais variados crimes, todos misturados a ex-policiais civis e militares, guardas de muralha, agentes de segurança e demais servidores públicos.

Ex-policial civil Peña | Foto: Arquivo/Ponte

Mas o maior medo de Peña é o de morrer na prisão por ter sequestrado Rodrigo Olivatto de Morais, enteado de Marcola, em março de 2005. O ex-policial trabalhava em Suzano, na Grande São Paulo. Ele usou a delegacia como cativeiro e recebeu do PCC o resgate de R$ 300 mil.

Um relatório elaborado pela International Humans Rights Clinic, da Universidade de Harvard, em parceria com a Justiça Global concluiu que o sequestro de Rodrigo foi um dos estopins para os ataques de maio de 2006, protagonizado pelo PCC. O período ficou conhecido como “Maio Sangrento”. O PCC paralisou São Paulo, matando agentes das forças de segurança nas ruas e se rebelando em ao menos 74 presídios paulistas. Simultaneamente, policiais militares mataram centenas de pessoas no estado, no chamado “Crimes de Maio”.

Preocupado com a integridade física de seu cliente, o advogado Norberto de Almeida Ribeiro entrou com vários pedidos na Justiça solicitando a transferência de Peña para a Penitenciária 2 de Tremembé, no Vale do Paraíba. Todos foram negados.

A P2 de Tremembé, chamada de presídio “vip”, é conhecida por abrigar presos autores de crimes de grande repercussão, além de advogados, policiais e ex-policiais.

A SAP-SP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária de São Paulo), subordinada ao governo João Doria (PSDB), informou à Justiça que Peña “está em ala própria para ex-policiais, com a integridade física garantida, não sendo possível a sua transferência para penitenciária de sua escolha”.

O CDP 3 de Pinheiros é o mais lotado dos 48 Centros de Detenção Provisória do Estado de São Paulo, conforme mostrou reportagem da Ponte no dia 25 de março deste ano. A unidade prisional tem vagas para  572 detentos, mas abriga hoje, segundo dados da SAP, 1.589 presos, o que representa 277% acima da capacidade de ocupação.

Peña divide o xadrez com ao menos outros 50 presos. Geralmente, em cada cela cabem apenas 12. Em relatório recente enviado à SAP, o diretor do CDP 3 de Pinheiros, Roberto Wagner dos Santos Júnior, informou que não há presos com casos confirmados de Covid-19 na unidade.

No documento consta, porém, que no dia 23 de abril o detento Antonio Alves de Paiva, de idade avançada, sentiu febre e foi medicado no Hospital da Lapa. Houve coleta de material biológico, enviado ao Instituto Adolfo Lutz para teste de Coronavírus. O exame não ficou pronto ainda.

Augusto Peña foi medicado no CDP 3 de Pinheiros em 30 de junho de  2019, 27 dias depois de chegar na unidade. No relatório médico é mencionado que ele tem boa aceitação alimentar, pressão arterial de 16 x 9 e frequência cardíaca de 97 batimentos por minuto.

Ficha de atendimento médico de Peña | Foto: reprodução

Ele informou ao médico que faz uso de medicação psicotrópica, como Diazepan. Na consulta, foi solicitado para o detento uma avaliação psiquiátrica e prescritos remédios para transtornos de ansiedade e depressão.

Augusto Peña foi preso em 30 de abril de 2008 pelo sequestro de Rodrigo. Em 5 de janeiro de 2010, ele foi solto por determinação da 15ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça.

Em 7 de abril de 2015, a Vara Criminal de Suzano o condenou a 22 anos de prisão. Ele ficou foragido, mas acabou capturado em 10 de abril do ano passado na cidade de Ibaté, a 270 km da capital paulista.

Em 3 de junho de 2019,  Peña foi removido para o CDP 3 de Pinheiros. O ex-policial define a unidade prisional superlotada como “uma espécie de bomba relógio prestes a explodir”.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte