Após mãe saber da morte da filha pela TV, ONG aciona MPF

Intervozes entrou com representação no Ministério Público Federal contra Cidade Alerta, da Record, por violação de direitos humanos

Apresentador Luiz Bacci conta ao vivo à mãe que filha foi assassinada (Reprodução)

Apresentador Luiz Bacci conta ao vivo à mãe que filha foi assassinada | Foto: reprodução
Uma mãe desmaia ao saber da morte da filha, que estava desaparecida e foi assassinada pelo ex-namorado. A notícia é dada durante um programa de televisão ao vivo em rede nacional. Isso aconteceu na última segunda-feira (17/2) no Cidade Alerta, programa policialesco da Record TV.

A família não tinha notícias da jovem desde o dia 8 de fevereiro. Na reportagem, a mãe da vítima compartilhou com os telespectadores que tinha esperança de encontrar a filha viva. Minutos depois, o apresentador Luiz Bacci dá a notícia de que a filha foi vítima de feminicídio.

Diante disso, o Intervozes, coletivo de comunicação que pesquisa programas policialescos, entrou com uma representação no Ministério Público Federal, por meio da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, acusando a emissora de violar os direitos humanos e as normas da radiodifusão vigentes no Brasil.

A jornalista Iara Moura, integrante da executiva do Intervozes, conversou com a Ponte sobre a representação (confira o documento na íntegra aqui). Par ela, o episódio não demonstra ser um caso isolado: “é um modelo de negócios cujo padrão é a violação de direitos humanos”.

Na representação, o capítulo da Constituição Federal, que versa sobre o respeito que as liberdades de expressão e de informação devem ser seguir, foi relembrado.

“A liberdade de expressão não é desculpa para o cometimento desse tipo de violação, ainda mais por ser um padrão de produção de conteúdo desses programas policialescos para chamar atenção da audiência e produzir lucro”, aponta.

Segundo as normas de radiodifusão, a liberdade não pode anular a punição dos que praticam abusos no seu exercício. Ou seja, as concessionárias de radiodifusão, como as emissoras de televisão, não podem permitir a transmissão de programas que atentem contra o sentimento público, expondo pessoas a situações que causam constrangimentos.

“A violação da intimidade e a vitimização não só da vítima de feminicídio, mas dos familiares, por exposição indevida, são absurdos que não podemos mais tolerar na TV brasileira”, crava Moura.

Com a representação, o Intervozes espera responsabilização jurídica, comercial e ética do apresentador e da emissora.

A reportagem procurou a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal. O órgão informou que recebeu o documento enviado pelo Intervozes na última quarta-feira (19/2) e que medidas cabíveis serão tomadas.

Outro lado

O apresentador Luiz Bacci se posicionou em seu Instagram. Nos vídeos publicados, ele afirmou que “foi mais um caso que terminou de maneira triste” e que “já havia vários indícios de que isso teria acontecido pela forma violenta de como o Carlos tratava a namorada”.

Bacci também disse que “qualquer parente passaria mal com uma notícia dessas” e que “isso também nos machucou muito, mesmo isso sendo parte do nosso dia a dia”.

A Ponte procurou a Record TV e o programa Cidade Alerta, mas, até o momento de publicação desta matéria, não obteve retorno.

Por Paloma Vasconcelos – Repórter da Ponte

Suspeito de matar Katarina tem predisposição para agredir mulher trans, diz polícia

Segundo a Polícia Civil, Gilcimar Flor Silva teria ameaçado mulheres trans que faziam programa na noite que Katarina Ariel Silva foi assassinada

Katarina tinha 22 anos e amigas trans pagaram traslado do corpo para ser enterrado no Ceará | (Arquivo pessoal/via Ponte)

Um homem preso preventivamente suspeito de ter assassinado a transexual Katarina Ariel Silva, 22 anos, na sexta-feira (14/2), em São Paulo, pode ter ameaçado outras mulheres trans que faziam programa no mesmo ponto na noite do assassinato da jovem, segundo a Polícia Civil.

Conforme apurado pela Ponte, testemunhas relataram à polícia que Gilcimar Flor Silva, preso desde sábado (15/2), teria ido ao menos três vezes no ponto em que elas faziam programa no Parque do Carmo, zona leste de São Paulo.

Na primeira abordagem, o suspeito teria aceitado o valor cobrado por programa com uma das garotas e, depois que ele mesmo desistiu, teria ameaçado a vítima com uma faca. Ele dirigia uma caminhonete. “Ele disse que voltaria e nos mataria, apontando uma arma”, relatou uma das garotas.

Mais tarde, o homem foi ao local com um veículo vermelho, no qual Katarina foi atacada e, posteriormente, encontrada morta no entorno do parque. Uma pessoa confirmou à Polícia Civil, segundo o registro da ocorrência, que viu a jovem trans subir no carro para fazer um programa.

De acordo com a investigação, Gilcimar teria confessado o crime à polícia por supostamente Katarina não ter troco para o valor acertado: enquanto o acordo era de R$ 50 pela prática de sexo oral, ele teria apenas uma nota de R$ 20 e uma de R$ 100 para pagar.

O suspeito, conforme relato da polícia, disse que a trans recebeu os R$ 100 e teria tirado a chave do carro da ignição para tentar ir embora, quando ele a puxou pela bolsa e a jovem teria sacado uma faca. Gilcimar então teria invertido a direção da arma branca para se defender e, consequentemente, a feriu.

De acordo com o delegado Eduardo Bernardo Pereira, que comanda a equipe D-Leste do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o suspeito é conhecido pelas transexuais que trabalham no entorno do Parque do Carmo como um homem violento.

Pereira afirmou à Ponte que o suspeito declarou ter ido mais uma vez ao ponto das transexuais, novamente com sua caminhonete, mas não acertou nenhum outro programa. Depois, ainda se dirigiu à um bar para beber, ainda de acordo com a versão da polícia.

“O que apuramos é que ele tem uma predisposição a agredir transexuais e, além disso, tem [no histórico] uma tentativa de homicídio com mesmo modus operandi: usou uma faca”, explicou. No caso citado, Gilcimar esfaqueou um homem por conta de uma discussão em um bar. Esse processo ainda corre na Justiça, segundo o delegado, sem maiores informações.

Agora, a Polícia Civil investiga se há outros casos como o de Katarina em que ele teria participado. “Nosso esforço é apurar para outras possíveis vítimas”, explicou Pereira.

Gilcimar permanecerá preso por ao menos 30 dias, conforme decisão da Justiça de SP. Um dos próximos passos da investigação é o resultado de exame do DNA recolhido nas unhas da vítima, que teria tentado resistir à agressão.

A polícia coletou material do suspeito para identificar se há compatibilidade com a pele recolhida no corpo de Katarina. “Ele tinha bastantes ferimentos, estava arranhado”, afirmou o delegado. A previsão é de 20 dias para a conclusão do exame.

Katarina era natural do Ceará e dividia casa com ao menos outras dez jovens transexuais que fazem programa no entorno do Parque do Carmo. A Ponte apurou que elas se juntaram e pagaram os R$ 5 mil de traslado para que o corpo fosse enterrado pela família no estado de origem.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte