Registrada 1ª morte por Covid-19 em presídios

Vítima tinha 73 anos e apresentava sintomas desde 9 de abril; caso não consta na estatística nacional da pandemia nas prisões, que indica mais de 50 infectados

Homem estava preso no Instituto Penal Cândido Mendes, unidade exclusiva para idosos | Foto: Reprodução/Google Street View 

O estado do Rio de Janeiro confirmou a primeira morte de preso por coronavírus no Brasil. Um homem de 73 anos, que se insere dentro do grupo de risco para a doença, não resistiu seis dias após apresentar os primeiros sintomas e morreu na quarta-feira (15/4). A morte não consta nos dados oficiais do governo sobre contaminações da Covid-19 nos presídios.

Segundo informações da Seap (Secretaria Estadual de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro), o homem se sentiu mal no dia 9 de abril e foi diagnosticado com quadro de hipertensão, sendo medicado e liberado. O atendimento aconteceu no Pronto Socorro Geral Hamilton Agostinho, no Complexo de Gericinó, em Bangu, centro da capital fluminense.

O quadro evoluiu para dores abdominais no dia 11 e, novamente atendido no Hamilton Agostinho, foi medicado e retornou mais uma vez ao Instituto Penal Cândido Mendes, unidade específica para presos acima de 60 anos. A penitenciária abriga 305 pessoas, 24% acima da capacidade total, de 246 presos. Dois dias depois, o idoso teve “sudorese fria e prostração”, segundo a Seap, e falta de ar.

Apesar de ter sido entubado no dia 14 e, portanto, estar com a ventilação mecânica, o homem morreu às 10h50 do dia seguinte. Os médicos haviam coletado material para o teste de coronavírus, que ficou pronto na quinta-feira (16/4) e deu resultado positivo para a doença.

No dia 24 de março, a Defensoria Pública do estado entrou com pedido de habeas corpus coletivo para os presos provisórios com mais de 60 anos. De acordo com a entidade, a Justiça não deu nenhuma resposta até o momento.

“Não há o menor sentido em manter encarcerados os grupos vulneráveis, em especial idosos, grávidas e mulheres que estão amamentando, ainda mais quando os presídios estão superlotados”, critica Rodrigo Baptista, defensor-público geral do Rio de Janeiro, à Ponte. “O risco é para as pessoas presas, seus familiares e para quem trabalha no sistema prisional. Ainda há tempo de salvar vidas nos presídios”, argumenta.

Em nota, a Seap lamentou a morte e assegura que os presos que tiveram contato com o homem “estão isolados”. “A secretaria ressalta que os internos estão sendo acompanhados e todos os atendimentos médicos, quando necessários, estão sendo realizados no local”, afirma.

Em artigo escrito para a Ponte, Irmã Petra Silvia, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, alertou para a tragédia que seria caso o coronavírus entrasse no sistema prisional.

“As prisões estão superlotadas. Exigir que presos que tenham suspeita de ter o vírus sejam isolados, ou que mantenham distância de dois metros dos outros presos dentro da cela é algo inviável, assim como a realização da higienização diária destas celas, lembrando que a água é racionada até para o consumo humano, e materiais de limpeza são escassos”, argumentou. 

Estatísticas desatualizadas

A informação da primeira morte dentro do sistema prisional brasileiro no Rio de Janeiro constou nas estatísticas oficiais do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, liderada por Sérgio Moro, apenas horas após a confirmação do estado. O ministério criou uma espécie de painel de monitoramento para informar suspeitas, confirmações e óbitos no cárcere. 

Até as 14h30 desta sexta-feira (17/4), o site mantinha como zero o total de óbitos, enquanto soma 162 suspeitas de contaminação e 51 detecções da doença. Os dados específicos do Rio de Janeiro estavam zerados para todos os itens.

Em consulta às 17h50 desta sexta-feira, a morte do homem no Rio de Janeiro passou a constar no sistema do Depen. No entanto, o estado segue sem nenhum caso de presos com suspeita ou confirmação da doença, o único número apresentado é o da morte do senhor de 73 anos.

Distrito Federal divulgou, na segunda-feira (13/4), que havia 23 casos confirmados de presos com a doença em suas unidades. Além deles, 18 agentes penitenciários também haviam contraído a doença, segundo a administração penitenciária. 

No dia 7 de abril, o mesmo sistema do Depen apresentava 118 casos suspeitos de coronavírus nas prisões brasileiras e nenhuma morte. Porém, naquele momento, as bases de dados dos estados já apresentavam divergência com a do ministério.

No dia 8 de abril, o Pará confirmou a primeira contaminação de Covid-19 no sistema penitenciário nacional, informação que não constava até aquela data nas estatísticas nacionais.

Minas Gerais, por exemplo, tinha, pelas estatísticas nacionais, 34 casos suspeitos, enquanto os dados locais apontavam para “próximo de 50” presos com sintomas da Covid-19.

Em São Paulo, a Secretaria da Administração Penitenciária confirmou nesta sexta-feira (15/4) que quatro presos e dois agentes penitenciários estavam com coronavírus, todos em Sorocaba, no interior do estado – um a mais do que na quarta-feira (15/4), primeira confirmação oficial de casos nos presídios estaduais. Dos infectados, três estão em tratamento e um recebeu alta, estando em quarentena. Ao menos 48 presos estão isolados. 

Antes das confirmações e mortes, o ministro Sério Moro elogiou o monitoramento do Depen em artigo escrito para o jornal O Estado de São Paulo, em 30 de março, e disse que não havia motivo para alarde diante da possibilidade de a pandemia entrar nos presídios.

“Não existe nenhum motivo para um temor infundado em relação ao sistema penitenciário. Não existe um caso de infectado dentro do sistema penitenciário”, afirmou o ministro, em entrevista coletiva no dia 1º de abril, contrariando pedido de urgência cobrado pela Human Rights Watch, entidade internacional de direitos humanos, que alertou sobre a situação perigosa para “presos, funcionários e para a sociedade”.

À Ponte, o Depen explicou que os dados tem um delay (atraso) pois as informações são disponibilizadas pelos próprios estados e informou que irá apurar cada caso. “Para cada caso confirmado de Covid-19 nas unidades prisionais, o Depen vai abrir um processo no sistema SEI [Sistema Eletrônico de Informações] e fazer o monitoramento do caso a partir das ações da Unidade da Federação”. 

*Atualização às 17h52: atualização das estatísticas do Depen com inclusão da morte do homem no Rio de Janeiro. Soma de um caso de preso infectado com Covid-19 em São Paulo.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Estado registra 1ª morte na PM por Covid-19

Magali Garcia trabalhava no Centro de Operações da Polícia Militar; no início do mês, doença já havia matado um sargento da reserva, segundo corporação

Magali se sentiu mal no dia 24 de março e morreu na madrugada do dia 30 | Foto: Reprodução/Facebook

Coronavírus faz a primeira vítima fatal na Polícia Militar do Estado de São Paulo. A sargento Magali Garcia, 46 anos, morreu na madrugada de ontem no HPM (Hospital da Polícia Militar), na Água Fria, zona norte da cidade de São Paulo. A Polícia Militar confirma a informação.

Magali trabalhava no Copom (Centro de Operações da Polícia Militar). No ultimo dia 24, ela sentiu uma leve falta de ar e cansaço. A policial foi medicada no HPM e orientada a ficar em isolamento por 14 dias por suspeita de Covid-19.

Três dias mais tarde, no dia 27, Magali passou mal e foi levada novamente para o HPM, onde teve de ser entubada – quando um equipamento auxilia na respiração. No dia seguinte ela teve uma ligeira melhora em seu quadro de saúde.

No entanto, a situação se agravou no dia 29 e nesta segunda-feira (30/3) o quadro evoluiu para óbito. Magali já havia testado positivo para o Covid-19 no dia 28 de março. A policial era ex-fumante mas, segundo colegas de farda, era saudável.

Foto de Magali no banco de dados da PM | Foto: Arquivo/Ponte

A morte de Magali é a primeira registrada entre os policiais ativos da corporação. No início do mês, um sargento da reserva morreu por contrair o coronavírus.

“É triste por dois motivos: primeiro porque é policial e segundo porque a conhecia e trabalhava junto”, lamentou o tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM paulista, que trabalhou com a sargento.

A morte da policial fez com que a corporação afastasse outros profissionais que trabalhavam com Magali no Copom. Nenhum deles apresenta sintomas do coronavírus, mas a decisão foi tomada em caráter preventivo.

Em nota, a Polícia Militar lamentou a morte da sargento por Covid-19. “A corporação segue rigorosamente as orientações do Comitê de Contingência do coronavírus e ressalta que todo policial com suspeita ou diagnóstico da doença é imediatamente afastado das funções e acompanhado por profissionais de saúde”, explicou a corporação.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Coronavírus: Justiça solta mais de 1.200 presos em SP

Até a última quinta-feira (26), 1.166 presos receberam o direito de deixar a prisão como prevenção da Covid-19. No sábado (28), outros 61 deixaram presídio de Tremembé

Presos começaram deixar presídios em SP devido ao coronavírus | Foto: Reprodução/Google Street View

A Justiça soltou ao menos 1.227 presos em todo o estado de São Paulo até a noite deste sábado (28/3), tendo como justificativa a prevenção ao novo coronavírus no sistema prisional.

Segundo o Ministério Público Estadual, até a última quinta-feira (26/3), a Capital e Grande São Paulo tiveram o maior número de libertados: ganharam a liberdade nessas regiões 519 presos.

Na Coordenadoria dos Estabelecimentos Prisionais da Região Central foram soltos 300 presos. Esse departamento da SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária) responde pelos presídios de Campinas, Hortolândia, Sorocaba, Casa Branca, Guareí, Itapetininga e cidades vizinhas.

Na Coordenadoria da Região Noroeste, responsável pelas prisões de Araraquara, Avaré, Getulina, Marília, Cerqueira César, Itaí, Ribeirão Preto, Pirajuí, entre outros, saíram em liberdade 185 detentos.

Já na Região Oeste, onde se concentram as prisões destinadas à liderança do PCC (Primeiro Comando da Capital), como Presidente Bernardes, Presidente Venceslau, Martinópolis, Mirandópolis, Pacaembu e Lavínia, foram soltos 80 presos.

Na Coordenadoria do Vale do Paraíba e Litoral, a Justiça determinou a libertação de 80 presidiários. O Ministério Público Estadual, no entanto, considera as 1.166 pessoas que foram soltas até quinta-feira, antes da decisão judicial de sexta-feira (27/3), que beneficiou outros 61 presos.

Esses 61 detentos do CPP (Centro de Progressão Penitenciária) Edgar Magalhães de Noronha, o Pemano, em Tremembé, todos do regime semiaberto, deixaram o presídio até a noite de sábado.

Outros 88 presos devem deixar o Pemano para cumprir pena em prisão domiciliar, conforme determinação da Justiça. A secretaria que administra os presídios de São Paulo não respondeu sobre os motivos deles seguirem na prisão mesmo após decisão judicial.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

PCC quer usar Coronavírus para tirar membros da cadeia

Salve (comunicado) dirigido ao grupo de advogados da facção recomenda buscar na Justiça a liberdade de presos que façam parte do grupo de risco da pandemia

Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, principal liderança do PCC (Arquivo Ponte)

A prisão de 40 advogados em novembro de 2016 não impediu a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) de montar outra “sintonia dos gravatas”, como é chamado o braço jurídico da facção criminosa.

Segundo o Ministério Público Estadual de São Paulo, o PCC contratou um grupo de novos advogados para atender os interesses da organização.

O serviço de inteligência do MPE apurou que o PCC divulgou um salve (comunicado) no sistema prisional, orientando os defensores a entrar com ações judiciais com base na Resolução 62 do Conselho Nacional de Justiça, que recomenda aos magistrados a adoção de medidas preventivas para evitar a proliferação do coronavírus nas prisões.

A ordem para a nova “sintonia dos gravatas” é verificar se cabe para os integrantes presos do PCC pedidos de regime domiciliar aos portadores de HIV, diabetes, tuberculose, câncer, problemas cardíacos e doenças respiratórias.

O novo braço jurídico do PCC foi orientado a pedir à Justiça prisão domiciliar para gestantes e presos acusados de cometer crime sem violência ou grave ameaça.

Outras recomendações são pedidos de medidas alternativas para presos em flagrante que cometeram crimes de menor potencial ofensivo e progressões de pena para os presos de regime semiaberto e para aqueles que aguardam a realização de exame criminológico.

Os advogados presos em 2016, na chamada Operação Ethos, foram condenados a penas que variavam de oito a 15 anos de prisão. A maioria delas foi reduzida em julgamento em instância superior no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Além dos advogados, também foi preso e condenado a 16 anos o ex-vice-presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Luís Carlos dos Santos.

Ele foi acusado de receber mesada mensal de R$ 5 mil do PCC para divulgar falsas notícias de violações de direitos humanos no sistema prisional. Santos teve a pena reduzida pela metade e já tem direito ao regime semiaberto.

Já os advogados foram acusados de atuar como pombo-correio do PCC, levando e trazendo recados para os líderes da facção nas prisões e nas ruas.

Um grupo de presos acusados pelo MPE de criar a “sintonia dos gravatas” também foi condenado. Um deles, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, recebeu uma pena de 30 anos. Ele sempre negou ser integrante de facção criminosa.

Os advogados da “nova sintonia dos gravatas” estão agora na mira do Gaeco (Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público Estadual.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Sem quarentena: entregadores se arriscam nas ruas

Relatos apontam que a empresa Rappi ofereceu 50 ml de álcool em gel e Ifood, nada; necessidade econômica faz trabalhadores encararem risco da pandemia

Entregadores, como Jeferson, levam álcool próprio para se proteger | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte 

Matheus Araújo, 18 anos, estava sentado ao lado da bicileta e de sua bolsa de entregas na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo. Negociava com uma cliente por áudios no WhatsApp a entrega da comida. Ela havia passado o endereço errado e oferecia R$ 10 adicionais para ele pedalar mais 4 quilômetros. “É 17h40, chego lá depois das 18h. Será que vale a pena?”, perguntou à reportagem.

Matheus é um dos tantos entregadores de aplicativos que continuam a trabalhar nas ruas em meio à pandemia de coronavírus Covid-19. A Ponte encontrou pelo menos 15 deles na região do Largo da Batata na tarde deste domingo (22/3). Quebram a recomendação do Ministério da Saúde de ficar em casa e reconhecem o risco, mas contam não ter outra opção. “Preciso trabalhar, não tem jeito. Preciso pagar a prestação do celular e juntar dinheiro para tirar a habilitação de motorista”, explica o jovem.

Mais preocupante do que sair de casa é fazer as entregas sem itens mínimos de proteção, como álcool em gel, máscara e luvas. Em apoio, Matheus relata que recebeu da Rappi, uma das empresas de entrega, dois tubos de 50 ml: um com álcool em gel e outro com sabão. Mas não ficaram com ele. “Ganhei ontem e dei para um outro amigo entregar. Eu tinha máscara e luva, ele, não”, conta. 

Hoje, trabalhou torcendo para não ser infectado. Entre 12h e 18h, entregou apenas seis pedidos. “Está muito fraco, não consegui nem R$ 30”, reclamou. Matheus trabalha em entregas para o Rappi e também Ifood, aplicativo que, segundo ele, não ofereceu nada aos entregadores.

Matheus havia conseguido R$ 30 em 6 horas de trabalho | Foto: Arthur Stabile/Ponte 

Outros trabalhadores reclamam que não conseguiram da Rappi nem mesmo os dois tubos que foram dados a Matheus. “Não deram nada. Está rodando uma imagem que fala que eles vão dar auxílio caixão se alguém morrer. Dá nem para saber se é verdade ou brincadeira”, afirma um entregador, parado ao lado de outro amigo, ambos sem entregas.



A dupla estava sentada em um banco de concreto em frente à estação Faria Lima do metrô. Cada um havia entregado apenas quatro pedidos durante todo o dia. “Normalmente dá para fazer R$ 80, R$ 110 no dia. Hoje não passou de R$ 20”, conta um deles, que mora no Jardim João XXIII, também na zona oeste, mas a 15 quilômetros dali. “Deu para bancar a passagem. Só”.

Trabalhador mostra os dois frascos que recebeu da Rappi: álcool em gel e sabão | Foto: Arthur Stabile/Ponte 

Segundo o entregador, eles só conseguem se proteger por iniciativa própria: ao chegarem nos restaurantes usam o álcool em gel disponível ali e pegam um pouco para colocar no frasco. O amigo mostrou um pequeno recipiente em que leva uma porção do produto. “Tem que pegar na cara larga, senão eles não oferecem. Chegou e já pego para não ter risco de negarem”, conta.

A situação também e similar na zona sul. João Vitor de Almeida, 21 anos, entregador da Rappi. revela não ter recebido nenhum auxílio da empresa, o que faz seu medo do coronavírus ser ainda maior. “Estou com medo, tenho pessoal idoso em casa. Eles que sofrem. Não é que não estamos sujeitos, mas para eles é pior”, revela.

Roberto Silva explica que conta com ajuda de restaurantes para se proteger | Foto: Arthur Stabile/Ponte

O rapaz explica o motivo de ir para a rua apesar do medo: as contas. “Tem que trabalhar, a dívida não espera. Independente do vírus, tem que pagar as contas. Vem o banco e toma a moto, toma tudo. Estou tocando mais entrega para fazer mercado hoje”, afirma. 

João Vitor durante uma pausa no trabalho | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte

Jefferson Souza, 20 anos, também usa sua bicicleta para trabalhar. Quando volta para casa faz questão de tomar o máximo de cuidado. “Eu estou me preservando. Toda vez que faço uma entrega e quando vou ter contato com pessoas da minha família eu lavo as mãos. Se eu pudesse eu estava em casa”, admite.

Roberto Silva, 26 anos, trabalha há um ano e três meses na rua, já tendo representado a Rappi e Uber Eats. Ele aponta que não recebeu nada da Ifood, empresa para a qual faz entregas atualmente. “Eles mandam mensagem para a gente se conscientizar, passar álcool em gel, usar máscara”, conta. Questionado sobre se a Ifood disponibilizou estes itens, a resposta é negativa.

“Os restaurantes estão se sensibilizando muito. Disponibilizam álcool em gel na hora que entrega [a encomenda], dão local para lavar a mão, mas muitos ainda não estão com essa vontade”, explica.

Ponte questionou a Rappi e a Ifood sobre as afirmações dos entregadores e se as empresas ofereceram itens de higiene para quem faz as entregas. Nenhuma das duas respondeu até a publicação desta reportagem.

Por Arthur Stabile e Paulo Eduardo Dias – Repórteres da Ponte

Presídios ficam destruídos após rebeliões

Em Tremembé e Porto Feliz, incêndio destruiu estruturas, móveis e documentos; presos recapturados foram transferidos para outras cadeias

Pavilhão e sala de atendimento na Penitenciária de Tremembé, uma das unidades atingidas pela rebelião e onde houve registro de fugas | Foto: Sifuspesp

Duas unidades prisionais de São Paulo tiveram as instalações parcialmente destruídas após a rebelião que atingiu 4 presídios nesta segunda-feira (16/3), quando 1.389 presos fugiram. Os detentos recapturados estão sendo alocados para outros presídios. Eles perderam o benefício do semiaberto e ficarão em observação para afastar sintomas de coronavírus, já que tomaram contato com ambiente externo. A SAP-SP (Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo) confirmou as transferências, mas não detalhou quais são as unidades.

As imagens mostram alas do Centro de Progressão Penitenciária de Porto Feliz e de Tremembé, de onde fugiram 218 e 584 presos, respectivamente. Segundo a pasta, os detentos que não participaram da ação estão sendo mantidos em “espaços com condição de habitabilidade”.

Sala com tudo revirado em Tremembé | Foto: Sifupesp

A pasta admite que os locais ficaram deteriorados, mas informou, em nota, que os prejuízos estão sendo contabilizados. Em Mongaguá, 577 detentos fugiram. Até a noite desta terça-feira (17/3), 611 pessoas haviam sido recapturadas, segundo a SAP. As imagens foram feitas e enviadas à Ponte pelo Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo).

Ala do Centro de Progressão Penitenciária de Porto Feliz | Foto: Sifuspesp

Os detentos se rebelaram depois que o corregedor geral de Justiça de SP, desembargador Ricardo Anafe, atendendo a um pedido do secretário coronel Nivaldo Restivo, suspendeu as saídas temporárias (para detentos em regime semiaberto que trabalham ou estudam) alegando questão de saúde pública (leia decisão na íntegra). A previsão é que a saída temporária colocaria 34 mil detentos em circulação no mês de março e isso poderia ajudar a proliferar o coronavírus, dentro e fora do sistema prisional.

Corredor do Centro de Progressão Penitenciária de Tremembé após a fuga de detentos | Foto: Sifuspesp

Foi a maior rebelião coordenada desde 2006, quando 74 prisões “viraram” (expressão usada para dizer que detentos tomaram conta de unidade prisional) a mando do PCC (Primeiro Comando da Capital). Em 2001, a facção foi responsável por estimular simultaneamente 29 rebeliões em presídios.

Centro de Progressão Penitenciária de Porto Feliz, de onde fugiram mais de 500 presos | Foto: Sifuspesp

Dessa vez, o estopim foi a suspensão das saídas por causa do coronavírus. Ainda assim, a Ponte havia antecipado que a população carcerária estava em rota de colisão com o estado de SP. Denúncias de más condições na Penitenciária Federal de Brasília, onde está a cúpula do PCC, fizeram com que presos se negassem a sair para audiências na semana passada. Além disso, no intervalo de dois dias, dois agentes penitenciários foram mortos. Áudios obtidos pela Ponte mostram conversas de funcionários que indicam que as cadeias iriam “virar” a partir de domingo, após as visitas irem embora.

A reportagem apurou que os presos da Penitenciária Federal de Brasília, entre eles os apontados como integrantes da cúpula do PCC, estão incomunicáveis desde as primeiras horas da manhã da segunda-feira (16/3). 

Um dos presídios onde houve registro de rebelião, o Centro de Progressão Penitenciária em Mirandópolis, é neutro, não vinculado à facção, onde há ex-PCC e presos que cumprem pena por estupro. 

Unidade de Porto Feliz ficou destruída após incêndio | Foto: Sifupesp

Embora o próprio governo de São Paulo tenha admitido que a rebelião aconteceu por causa da suspensão das saídas temporárias, a socióloga Camila Nunes Dias, professora da Universidade Federal do ABC e autora do livro “PCC: hegemonia nas prisões e monopólio da violência” (Saraiva, 2013) e coautora de “A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil” (Todavia, 2018), alerta que nada no sistema prisional acontece “de uma hora para outra”.

“Aqui em SP o sistema prisional vem sofrendo, há algum tempo, de fortes pressões. Essas pressões têm a ver com o aumento da população carcerária, que aumenta superlotação, aumenta a precariedade dos estabelecimentos, e, tudo isso, causa a metáfora do barril de pólvora. Além dessa questão estrutural, tem a questão da transferência da cúpula do PCC, no começo do ano passado, para presídios federais”, pontuou. 

Em entrevista à Ponte, Camila também destacou a greve em apoio ao PCC realizada em algumas unidades e proibição de visitas em retaliação ao movimento, ambas as situações ocorridas na semana passada.

“Juntando tudo isso, eu diria que a gota d’água foi essa proibição para que os presos saíssem em regime semiaberto. Uma medida pode fazer com que essas pressões explodam e foi isso que aconteceu”, afirmou.

Por Josmar Jozino e Maria Teresa Cruz – Repórteres da Ponte

Suspeito de matar Katarina tem predisposição para agredir mulher trans, diz polícia

Segundo a Polícia Civil, Gilcimar Flor Silva teria ameaçado mulheres trans que faziam programa na noite que Katarina Ariel Silva foi assassinada

Katarina tinha 22 anos e amigas trans pagaram traslado do corpo para ser enterrado no Ceará | (Arquivo pessoal/via Ponte)

Um homem preso preventivamente suspeito de ter assassinado a transexual Katarina Ariel Silva, 22 anos, na sexta-feira (14/2), em São Paulo, pode ter ameaçado outras mulheres trans que faziam programa no mesmo ponto na noite do assassinato da jovem, segundo a Polícia Civil.

Conforme apurado pela Ponte, testemunhas relataram à polícia que Gilcimar Flor Silva, preso desde sábado (15/2), teria ido ao menos três vezes no ponto em que elas faziam programa no Parque do Carmo, zona leste de São Paulo.

Na primeira abordagem, o suspeito teria aceitado o valor cobrado por programa com uma das garotas e, depois que ele mesmo desistiu, teria ameaçado a vítima com uma faca. Ele dirigia uma caminhonete. “Ele disse que voltaria e nos mataria, apontando uma arma”, relatou uma das garotas.

Mais tarde, o homem foi ao local com um veículo vermelho, no qual Katarina foi atacada e, posteriormente, encontrada morta no entorno do parque. Uma pessoa confirmou à Polícia Civil, segundo o registro da ocorrência, que viu a jovem trans subir no carro para fazer um programa.

De acordo com a investigação, Gilcimar teria confessado o crime à polícia por supostamente Katarina não ter troco para o valor acertado: enquanto o acordo era de R$ 50 pela prática de sexo oral, ele teria apenas uma nota de R$ 20 e uma de R$ 100 para pagar.

O suspeito, conforme relato da polícia, disse que a trans recebeu os R$ 100 e teria tirado a chave do carro da ignição para tentar ir embora, quando ele a puxou pela bolsa e a jovem teria sacado uma faca. Gilcimar então teria invertido a direção da arma branca para se defender e, consequentemente, a feriu.

De acordo com o delegado Eduardo Bernardo Pereira, que comanda a equipe D-Leste do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o suspeito é conhecido pelas transexuais que trabalham no entorno do Parque do Carmo como um homem violento.

Pereira afirmou à Ponte que o suspeito declarou ter ido mais uma vez ao ponto das transexuais, novamente com sua caminhonete, mas não acertou nenhum outro programa. Depois, ainda se dirigiu à um bar para beber, ainda de acordo com a versão da polícia.

“O que apuramos é que ele tem uma predisposição a agredir transexuais e, além disso, tem [no histórico] uma tentativa de homicídio com mesmo modus operandi: usou uma faca”, explicou. No caso citado, Gilcimar esfaqueou um homem por conta de uma discussão em um bar. Esse processo ainda corre na Justiça, segundo o delegado, sem maiores informações.

Agora, a Polícia Civil investiga se há outros casos como o de Katarina em que ele teria participado. “Nosso esforço é apurar para outras possíveis vítimas”, explicou Pereira.

Gilcimar permanecerá preso por ao menos 30 dias, conforme decisão da Justiça de SP. Um dos próximos passos da investigação é o resultado de exame do DNA recolhido nas unhas da vítima, que teria tentado resistir à agressão.

A polícia coletou material do suspeito para identificar se há compatibilidade com a pele recolhida no corpo de Katarina. “Ele tinha bastantes ferimentos, estava arranhado”, afirmou o delegado. A previsão é de 20 dias para a conclusão do exame.

Katarina era natural do Ceará e dividia casa com ao menos outras dez jovens transexuais que fazem programa no entorno do Parque do Carmo. A Ponte apurou que elas se juntaram e pagaram os R$ 5 mil de traslado para que o corpo fosse enterrado pela família no estado de origem.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Bocardi pergunta se rapaz pega bolinha de tênis e é acusado de preconceito

Rodrigo Bocardi, da TV Globo, fez o questionamento quando atleta aguardava metrô; para especialista, fala sem intenção não retira o preconceito

O apresentador da TV Globo Rodrigo Bocardi perguntou a um atleta negro do clube Pinheiros, que fica localizado em bairro rico de mesmo nome na cidade de São Paulo, se ele era pegador de bolinhas de tênis. O questionamento aconteceu durante entrevista ao vivo no Bom Dia São Paulo, jornal transmitido no começo da manhã na capital, nesta sexta-feira (7/2).

Um repórter que informava sobre a situação do transporte público enquanto estava na estação Dom Pedro II da linha 3 – Vermelha do metrô quando se dirigiu ao atleta. Leonel, como se identificou, disse que não havia embarcado ainda por conta da lotação dos trens e, na sequência, Bocardi falou.

“O Leonel vai pegar bolinha lá no Pinheiros, não?”, perguntou o apresentador, em um pedido para o repórter transmitir a questão ao jovem e insistiu quando a pergunta feita era sobre o local em que ele faria baldeação, não sobre a profissão. Questionado sobre se era pegador de bolinha de tênis, Leonel respondeu negativamente.

“Não [vou pegar bolinhas], eu sou atleta do Pinheiros. Jogo polo aquático”. Em seguida, o apresentador comentou. “Aí sim! Está pensando o quê?! E eu pensando que eram meus parceiros que ajudam nas partidas, tal. Jogador de polo aquático, olha que fera! Manda os parabéns”, respondeu Bocardi, agradecendo o “sorrisão” com que Leonel atendeu a equipe da Globo.

Ainda no jornal, Bocardi se explicou dizendo que “foi pela camiseta” que fez o comentário “na maior inocência”. “Pela camiseta fui e perguntei, está lá junto comigo todo dia. Assim como existem brancos, negros de todo quanto o que é tipo ali. Não tem isso”, disse o apresentador para “terminar numa boa a sexta-feira”. “Quem vê preconceito nisso não está sendo justo”, finalizou.

O comentário teve repercussão negativa nas redes sociais, em que acusavam Bocardi de racismo. O apresentador usou seu perfil no Twitter para dar sua versão, citando ser “muito triste a acusação de preconceito”. Segundo ele, a confusão ocorreu pelo fato dos pegadores usarem uniforme e os atletas não terem essa obrigação.

“Não o chamei de pegador pela cor da pele ou pela presença num trem. Chamei-o por ver que vestia o uniforme que eu sempre vejo os pegadores usarem. Peço desculpas a todos e em especial ao Lionel”, escreveu Bocardi, que relembrou sua “origem humilde”, quando pegava ônibus para ir e voltar do trabalho e escola. “Alguém como eu não pode ter preconceito”, seguiu.

Após uma série de cinco postagens, o apresentador comentou sobre a foto que usa em seu perfil nas redes sociais, na qual aparece rodeado de garotos negros. “A foto do meu perfil neste Twitter está aí desde a criação da conta, nunca foi trocada, e foi tirada em 2003 – período que morei em Angola! Obrigado”, encerrou.

‘Reforça o mito da democracia racial’

Para Dennis Oliveira, professor de Jornalismo da Universidade de São Paulo e militante da Rede Quilombação, a fala de Rodrigo Bocardi tem cunho racista. Além disso, o professor explica que a pergunta feita estava fora de contexto do tema abordado na reportagem.

“Qual a relevância pública dessa pergunta? Mesmo que fosse um pegador de bolinhas, está se discutindo o metrô”, sustentou, dizendo que a justificativa da pergunta é o preconceito. “[O apresentador] Estranhou ser do Pinheiros um menino negro e pensou automaticamente que era um pegador de bolinha”, prosseguiu.

As explicações dadas na sequência, sob os argumentos de não ser racista e ter falado por conta da camiseta usada ser a do clube, são vistas como uma forma de reforçar o racismo, segundo Oliveira.

“Na medida em que não admite o preconceito presente na resposta, não se permite uma discussão séria. Retira a dimensão de racismo institucional do comportamento e reforça o mito da democracia racial, presente também na resposta”, explicou o professor da USP.

A psicóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina Lia Vainer Schucman, que tem atuação voltada para a área racial, existe dos tipos de racismo: o feito com má fé e o que ocorre sem a intensão.

“A própria pessoa acredita que não teve a intenção. Temos que tirar racismo do âmbito moral, mas de ser uma construção que estrutura a sociedade e, por isso, ela estruturar o sujeito. Ele foi racista, sim”, detalhou.

Segundo Lia, mesmo que a pessoa não tenha a intenção de ser racista isso não retira dela a responsabilidade pelo ato. “O problema não é só ter feito, é que, quando acusado, não rever, não fazer autoanálise. Qualquer pessoa achar que está livre do racismo no Brasil não sabe como ele funciona”, continuou a psicóloga.

Lia detalha que há racismo além de uma atitude intencional ou não, sendo este ato baseado em “uma estrutura de aprendizagem como um todo, que é muito mais forte”.

Um exemplo é se uma mulher branca pede para uma outra mulher, negra e em mesma função em uma empresa, pegar um café. “O fato dela se sentir livre para pedir à essa pessoa tem a ver com o uso das áreas sociais. Essa mesma pessoa, não faria isso com um homem branco”, justificou a psicóloga.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

 

 

 

Corregedoria diz que PM ‘desrespeita superiores’ ao propor polícia mais democrática

Martel Alexandre del Colle pode ser expulso da PM do Paraná após publicar artigos sobre a polícia; ‘tentativa de intimidação’, diz membro do Policiais Antifascismo 

Martel Alexandre del Colle e documento da Corregedoria que informou sobre processo administrativo discplinar| Foto: arquivo pessoal

A Corregedoria da Polícia Militar do Paraná afirma que o policial aposentado Martel Alexandre del Colle desrespeitou a corporação ao criticar, em “pelo menos 11 textos”, ações policiais e se posicionar politicamente. Conforme mostrou reportagem da Ponte do último dia 22, Martel responde a um processo administrativo disciplinar e corre risco de ser expulso da corporação.

Segundo a nota da Corregedoria, enviada mais de uma semana depois da abertura de processo contra Martel, as reflexões propostas pelo PM aposentado “desmerecem os militares estaduais como um todo bem como suas ações, além de infringir o Código de Ética e regulamento da Corporação, maculando o prestígio da Polícia Militar do Paraná perante a sociedade”. O órgão, contudo, não especificou que tipo de norma Martel estaria descumprindo. “Há imputações graves contra a Polícia Militar e autoridades civis constituídas. Os conteúdos incitam outros policiais militares a desrespeitarem seus superiores hierárquicos e cita ações criminosas como sendo padrão de comportamento em ações de Polícia Militar”, diz outro trecho da nota. Martel integra o movimento Policiais Antifascismo.

Os conteúdos que incomodaram a PM paranaense foram publicados no portal Justificando e no canal que Martel mantém no YouTube. Em um dos textos, por exemplo, o policial critica a PM por agir como uma polícia de governo. “Uma polícia de governo cria estratégias para controlar o povo e não teme usar a violência para conseguir tal objetivo. Uma polícia de governo vê o povo como um incômodo, como um inimigo, como uma ameaça”, sustenta em sua argumentação. Na época das eleições de 2018, Martel publicou um artigo que viralizou declarando abertamente que não votaria em Bolsonarojustamente por ser policial. 

Assim como o colega de movimento, o investigador Alexandre Félix Campos, do Policiais Antifascismo em São Paulo, também passa por situação semelhante desde que se tornou alvo de apuração interna da corporação por ter se manifestado contra Bolsonaro e por criticar ações da polícia. “Para um policial ser convocado, precisa existir uma acusação formal. Quando cheguei na Corregedoria, descobri que não havia apuração instaurada. Queriam saber quem organizou o movimento Policiais Antifascismo, se eu tinha participado da organização do ato #EleNão [contra o presidente eleito Jair Bolsonaro] em São Paulo”, disse na época.

Segundo Alexandre, o processo na Corregedoria da Polícia Civil de SP ainda está aberto. “A dor que nós sentimos é uma dor muito profunda porque, pra mim, ser tratado como traidor é algo que dói muito”, disse em entrevista à Ponte. “A minha luta é o oposto disso, eu luto para que possamos construir uma polícia em que o policial seja bem tratado, seja respeitado nos seus direitos, que tenha condições de ter suas folgas, de ter a companhia da sua família sem precisar trabalhar 24 horas por dia para conseguir garantir o seu sustento”, prossegue.

Para ele, esses processos são uma forma seletiva de intimidação e censura que não atinge quem está no topo da hierarquia das corporações, como oficiais da PM e delegados de polícia que são, em maioria, “homens brancos, héteros, cis, nascidos numa classe um pouco mais abastada e que tiveram acesso a bons colégios e boas universidades”. 

“Os dirigentes continuam se manifestando, criticando o governo, criticando ações, tendo posturas que confrontam a lei que nos rege, mas nada contra eles é sequer instaurado para apuração. Enquanto pra mim, pro Martel, pra tantos outros policiais que somos das bases, qualquer expressão, que é um direito fundamental garantido pela nossa Constituição, quando nos manifestamos, nós somos imediatamente levados a condições de estresse extremo e com intenção de nos calar”, aponta Alexandre.

Para o advogado Hugo Leonardo, presidente do IDDD (Instituto de Defesa do Direito de Defesa), o processo administrativo contra Martel, bem como os apontamentos da Corregedoria são absurdos e ferem o princípio de liberdade de expressão. “Esse direito de se manifestar livremente e tecer críticas a quem quer que seja, sem cometer crime contra a honra de alguém, é uma cláusula pétrea prevista na Constituição”, afirma. “Se existem essas normas do estado do Paraná, elas devem ser consideradas inconstitucionais inexoravelmente porque estão infringindo um ponto crucial da nossa Constituição Federal”.

Questionado se essas ações podem ter relação com a eleição de Bolsonaro, Leonardo é cauteloso. “Eu não consigo fazer uma analogia direta em relação ao histórico de atuação da corregedoria do Paraná, mas nós estamos vivendo efetivamente um recrudescimento do poder punitivo, no momento em que os autoritários de plantão estão mais à vontade para buscar transpor as barreiras da democracia e dos direitos e garantias individuais”, avalia.

O investigador aponta que apesar das “represálias”, é necessário dar continuidade às reivindicações e críticas às corporações para que a estrutura da polícia seja repensada pelos próprios policiais. “Nós estamos numa luta, não iremos nos calar, iremos caminhar cada vez mais firmes para mudar essa estrutura que mata o pobre, o preto, o periférico, aquele que não atende a uma normatividade, e mata pessoas que estão nesse espectro, estando dentro ou fora da polícia”, declara Alexandre.

A Ponte procurou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, através da assessoria de imprensa privada do órgão, a InPress, e questionou sobre o processo contra o investigador, mas a pasta não se manifestou até a publicação da reportagem.

Por Jeniffer Mendonça – Repórter da Ponte

Homens invadem bar, atiram em 6 pessoas e 3 morrem

Segundo a Polícia Militar, três homens entraram no estabelecimento e atiraram. Dois homens morreram no local e outro no hospital do Campo Limpo

Rua de bar onde seis pessoas foram baleadas | Foto: Google Street View


Seis pessoas foram baleadas em um bar no Jardim Germânia, na região do Capão Redondo, zona sul da cidade de São Paulo, no final da tarde deste domingo (26/01).

De acordo com a Polícia Militar, dois homens morreram no local e outras quatro pessoas foram socorridas por populares e conduzidas ao Hospital Municipal do Campo Limpo. 

Ainda segundo a Polícia Militar, três homens armados entraram no estabelecimento e abriram fogo.

A reportagem apurou que das vítimas levadas para o hospital, um homem de 48 anos não resistiu aos ferimentos e morreu. Seguem na unidade hospitalar uma mulher de 32 anos e outros dois homens, de 37 e 40 anos. 

Outro rapaz, de 19 anos, já havia dado entrada no mesmo hospital na madrugada deste domingo. Todos chegaram por meios próprios.

A Polícia Militar disse que o local está sendo preservado para perícia e o caso deve ser registrado no 47º DP (Capão Redondo).

Por Kaique Dalapola e Thiago Felix – Repórteres da Ponte