Brasil ultrapassa mil mortes por Coronavírus

Imagem mostra o momento exato em que o Coronavírus ataca uma célula do corpo (Débora F. Barreto Vieira/IOC/Fiocruz/via Fotos Públicas)

O Brasil superou, nesta sexta-feira (10) Santa, os mil casos de mortes pela Covid-19. Segundo balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, o país tem agora 1.056 óbitos e 19.638 casos oficialmente confirmados.

Entre as mortes confirmadas neste feriado está a do adolescente indígena da tribo Yanomami, Alvanei Xirixana, de 15 anos, que testou positivo para a Covid-19 e havia sido internado no Hospital Geral de Roraima (HGR), em Boa Vista. Foi a terceira morte de índio por Coronavírus, segundo denunciam entidades que atuam junto às tribos.

O levantamento, divulgado pelo Ministério da Saúde, também reafirma São Paulo como o principal epicentro da doença, com 8.216 casos testados positivos e 540 mortes.

Moradores de rua



A organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) está atuando na região central da cidade de São Paulo para conter os efeitos da pandemia. A entidade desenvolve normalmente ações em situações de grave crise humanitária, como guerras, epidemias e catástrofes.

“Nosso âmbito não costuma envolver lugares como São Paulo ou o Rio de Janeiro”, diz a coordenadora dos trabalhos na capital paulista, Ana Leticia Nery.

No Brasil, a organização tinha apenas um ponto de atuação, em Boa Vista, Roraima, onde atende aos imigrantes venezuelanos. Porém, a chegada do coronavírus fez com que os Médicos Sem Fronteiras vissem a necessidade de ação nas duas maiores cidades brasileiras.

“O nosso medo é que a pandemia acabe exacerbando a desigualdade no acesso à saúde, que já existe hoje. As populações vulneráveis, que já têm dificuldade em acessar o sistema de saúde, vão ter ainda menos acesso a ele no contexto da pandemia e vão acabar tendo uma mortalidade e transmissão desproporcionais à população geral”, explica Nery.

*Com informações da Agência Brasil e da Comissão Pastoral da Terra

*Atualizado às 18h35 para alterar número de mortos. O Ministério da Saúde retificou o número total de mortes que caiu de 1.057 para 1.056

MP pede interdição de presídio após surto de doença

(Arquivo Pessoal/via Ponte Jornalismo)


Um surto de doença de pele, a superlotação e as más condições fizeram o Ministério Público de Roraima (MP-RR) pedir interdição parcial na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo (Pamc), a maior do estado. No pedido de interdição, protocolado nesta segunda-feira (20), a Promotoria de Justiça de Execução Penal requer que os novos detentos que ingressarem no sistema prisional sejam remetidos à Cadeia Pública de Boa Vista, e não mais à penitenciária do Monte Cristo.   


https://spagora.com.br/doenca-misteriosa-atinge-presos-e-deforma-membros/brasil/

“Para o Ministério Público, como na Pamc há a custódia de mais de 2 mil detentos, mostra-se necessário isolar os presos infectados, para que a infecção não se alastre e atinja toda a massa carcerária, causando uma epidemia de infecção”, diz o MP estadual, em nota. Inaugurada no final dos anos 1970, a penitenciária tem capacidade para cerca de 400 presos, mas atualmente abriga 2.072 detentos. Segundo o MP, trata-se de uma média de 15 reclusos por cela, sendo que cada unidade foi projetada para três pessoas.

A concessão ou não da liminar caberá à juíza titular da Vara de Execução Penal, Joana Sarmento. Ela e o promotor de Justiça da Vara de Execução, Antonio Cezar Scheffer, realizaram, durante a manhã de hoje, visitas na penitenciária e no Hospital Geral de Roraima (HGR), onde estão sendo atendidos detentos com quadro mais grave da infecção causada pela doença de pele ainda desconhecida. Nesta terça-feira (21), está prevista uma reunião de integrantes do Poder Judiciário e do MP com representantes da Secretaria de Justiça e Cidadania e da Secretaria de Saúde do estado para debaterem um plano de emergência para tratamento dos presos infectados.

Precariedade

O defensor público Januário Lacerda participou de uma outra vistoria no presídio, realizada na sexta-feira (17), e confirmou à Agência Brasil a situação de precariedade na unidade. “Lá, infelizmente, a gente pôde constatar, in loco, a presença de doenças de pele, algumas pessoas não tinham nem sequer condições de sentar. Nós conversamos com a equipe médica que estava atendendo no dia e o que foi apontado é que, infelizmente, o processo de higienização dos presos é precário. Eles não têm o kit de higienização, só têm uma roupa, que consiste em uma bermuda, que não é lavada de forma adequada e nem seca ao sol, isso ajuda a proliferar os germes que estão causando essa doença”, disse.

Para Lacerda, que está preparando um conjunto documento com recomendações a serem adotadas na penitenciária, o governo do estado deve montar, de forma emergencial, uma enfermaria de campanha no local para prestar o tratamento adequado aos detentos com doenças de pele. Além disso, é preciso garantir um processo de higienização das roupas e dos utensílios usados pelos presos. O problema, segundo ele, foi agravado após a proibição de que familiares pudessem trazer roupas limpas e recolher roupas sujas dos detentos. A vedação ocorreu a partir da intervenção federal no sistema penitenciário e na segurança pública do estado, em vigor desde dezembro de 2018.  

“Antes, as famílias traziam as roupas limpas e recolhiam roupas sujas para serem lavadas. Até esse momento, a gente não tinha a presença massiva dessas doenças de pele. Quando a intervenção passou a proibir as famílias de trazerem as roupas, era obrigação dos sistema prisional oferecer as vestimentas, mas deram apenas uma roupa para cada detento usar ao longo de um ano”, disse.

Ontem (19), a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) publicou nota, em sua conta oficial no Twitter, informando estar ciente do problema que ocorre na penitenciária e pedindo para que as autoridades brasileiras assegurem “com urgência” o tratamento especializado aos presos e adotem medidas para evitar uma epidemia.

Outro lado

Procurado pela reportagem, o governo de Roraima negou, por meio nota, que haja surto de doença desconhecida na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo e que apenas sete presos estão internados com algum tipo de infecção de pele.

“São inverídicas as informações de que os internos da Pamc [Penitenciária Agrícola do Monte Cristo] têm doença desconhecida e de que há um surto de bactéria. Atualmente, há 12 apenados em tratamento no HGR. Cinco deles foram diagnosticados com tuberculose e já estavam em tratamento há três meses. Outro detento tem escabiose. Ele coçou muito e gerou uma infecção secundária nas mãos. Está fazendo tratamento com antibiótico e apresenta uma regressão da doença. Os demais, também com diagnóstico de piodermite, passaram por atendimento de infectologista e dermatologista, estão recebendo tratamento com antibióticos e reposição de vitaminas. Exames diários e tratamento continuado estão sendo feitos. Todos estão tendo progressiva melhora”, informou a Secretaria de Comunicação.

Ainda segundo o governo do estado, a Cadeia Pública de Boa Vista será reinaugurada nos próximos dias e será feita uma separação “mais eficaz dos detentos”, caso seja necessário abrigar novos presos na unidade, se a interdição parcial da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo for mesmo confirmada pela Justiça. 

Doença misteriosa atinge presos e deforma membros

Doença atinge ao menos 24 presos, que estão em tratamento em hospital e relatam sentir “serem comidos vivos”

Presos tem relatado inchado nas pernas, alguns sem conseguir andar por conta da bactéria | Foto: Arquivo pessoal

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Roraima denuncia uma doença que tem corroído a pele de presos na PAMC (Penitenciária Agrícola de Monte Cristo), em Boa Vista, capital do estado. Pelo menos 24 presos estão em tratamento hospitalar por terem pegado a doença. Uma das suspeitas é a ingestão de água com gosto ruim e cheiro desagradável há cerca de um mês.

Os relatos são de feridas profundas nas mãos e pés dos atingidos, alguns deles não conseguindo andar por conta das dores. Há situações mais graves, de pessoas com parte do corpo em carne viva. Todos os doentes estão no Hospital Geral de Roraima e parte deles têm deformações no corpo.

“A situação deles é grave porque alguns desses reeducandos não estavam andando, apresentando deformidade nas mãos e pes, inchaço nas pernas e coceira pelo corpo”, descreve à Ponte Hélio Abozaglo, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RR, e que denunciou o caso em primeira mão ao Blog do Expedito Peronnico

Abozaglo visitou o hospital para verificar a situação. Ele conta que 14 dos presos estão nos corredores do hospital, enquanto dez são medicados na enfermaria. O representante da OAB conta que ainda não se identificou qual é a bactéria que os atacou, nem qual a causa da contaminação.

Há casos de deformações nas mãos e pés | Foto: Arquivo pessoal

“Os presos nos relataram que estavam se sentindo mal há mais ou menos um mês depois que tomaram uma água da unidade, que estaria com mal gosto e cheiro desagradável. Daí começaram a se sentir mal, possivelmente”, explica o advogado.

O núcleo local de direitos humanos da OAB cobrará explicações do governo local na terça-feira (21/1), pois é feriado de São Sebastião. Um relatório do caso será enviado à Secretaria da Saúde, da Sejuc (Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania), ao governo do estado e a órgãos internacionais, como a CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos).

Em seu perfil na rede social Twitter, a CIDH sinalizou já estar à par da situação. “A CIDH insta o Estado do Brasil a garantir urgentemente o acesso a tratamento de saúde especializado às pessoas afetadas pela bactéria e a tomar medidas para solucionar os problemas estruturais da Penitenciária que facilitam a propagação de doenças”, publicou a Comissão.

De acordo com o presidente da comissão de Direitos Humanos da OAB, o sistema penitenciário de Roraima apresenta de forma recorrente problemas na saúde, como falta de médicos e medicamento, mas a situação se agravou com a superlotação da PAMC.

“A capacidade é de 480 internos e se tem 2.250. Está assim porque foi tirado pessoal da cadeia pública e jogado nessa unidade. Aumentou estrondosamente o número porque só tem um bloco dessa unidade funcionando, o outro está em construção”, detalha Helio Abozaglo.

Situações mais severas geram grandes feridas que podem chegar até ferimentos com exposição da carne da pessoa doente | Foto: Arquivo pessoal

Segundo o advogado, já havia um surto de coceiras no presídio desde outubro do ano passado e que perdura até hoje. “Não chegou a tanto como agora. É possível que tenha aumentado, juntado uma coisa com a outra. Este é bem pior porque a situação que vimos… Um deles tinha problema no pé, relatou que sentia alguma coisa corroendo a pele dele”, afirma.

Ponte questionou a Sejuc sobre a doença que atingiu os presos, se há uma causa constatada, exatamente quantos foram os infectados e o que está sendo feito com os presos que continuam no PAMC e aguarda um posicionamento oficial da pasta.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Incêndios: 4 Estados pediram ajuda às Forças Armadas

Por André Richter

A principal ferramenta da NASA para detecção de incêndios desde 2002 tem sido os instrumentos MODIS ( Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer ) nos satélites Terra e Aqua (Nasa/via Fotos Públicas)

O governo confirmou hoje (24) que os estados de Roraima, Rondônia, Tocantins e Pará pediram ajuda do Executivo federal para combater incêndios florestais. Segundo o Ministério da Defesa, cerca 44 mil militares das Forças Armadas estão continuamente na Região Amazônica e poderão ser empregados nas operações.

A confirmação foi feita pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante entrevista à imprensa. Salles participou de uma reunião na manhã deste sábado com o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. 

Ontem (23), o presidente Jair Bolsonaro assinou o decreto que autoriza o emprego das Forças Armadas para ajudar no combate aos incêndios na Floresta Amazônica. O decreto de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) vale para áreas de fronteira, terras indígenas, unidades federais de conservação ambiental e outras áreas da Amazônia Legal. 

Segundo o ministro da Defesa, a adesão dos governos locais é importante para que o trabalho de combate a crimes ambientais e a incêndios não se limitem às áreas federais.

“É importante a adesão dos governos senão nós vamos ficar limitados às áreas federais, que são as unidades de conservação e as terras indígenas. Já é alguma coisa, mas não é o suficiente. Tem que ser uma união de todos. Todo mundo ajudando é melhor”, disse o ministro. 

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que os estados terão apoio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgãos que pertencem à pasta, para o combate aos incêndios. 

“Não é possível desenvolver atividades de fiscalização sem o apoio estadual. Com a GLO Ambiental tenho certeza que, com envolvimento do Ministério da Defesa, das Forças Armadas, teremos muita efetividade naquilo que já vínhamos tentando fazer com muita força desde o início do ano”, afirmou. 

Segundo o Estado-Maior das Forças Armadas, que coordena as operações, as primeiras medidas foram tomadas neste sábado. Um helicóptero do Ibama e dois aviões de combate a incêndios serão enviados para Porto Velho. 

A operação é coordenada por um centro de operações instalado no ministério.

Avião com ajuda huminatária à Venezuela está em Boa Vista

Avião da FAB saiu de Brasília com quase 23 toneladas de leite em pó e 500 kits de primeiros socorros com destino a Boa Vista, Roraima para a ajuda humanitária colocada à disposição dos venezuelanos (TV Brasil/Reprodução)

O avião da Força Aérea Brasileira transportando ajuda humanitária à Venezuela, que decolou na manhã de hoje (22) da Base Aérea de Brasília, pousou há pouco em Boa Vista, capital do estado de Roraima. A aeronave transporta 23 toneladas de leite em pó e 500 kits de primeiros socorros.

O porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, disse nessa quinta-feira (21), em entrevista á imprensa, no Palácio do Planalto, que o Brasil manterá o planejamento de ajuda humanitária à Venezuela, mesmo após o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciar o fechamento da fronteira. Segundo o porta-voz, a estimativa é fazer chegar à região fronteiriça alimentos e remédios neste sábado (23).

“O planejamento da parte do governo brasileiro permanece o mesmo, estando em condições, a partir do dia 23, sábado, para prover os irmãos venezuelanos dentro do território venezuelano se houver a disponibilidade de meios e motoristas por parte dos venezuelanos liderados pelo Guaidó (Juan Guaidó, presidente interino)”, disse Rêgo Barros.

Segundo o porta-voz, a disposição do Brasil aguarda a chegada dos caminhões vindos da Venezuela, conduzidos por venezuelanos, mesmo que isso demore mais que o previsto.

Rêgo Barros disse que não há risco dos alimentos e remédios estragarem em depósitos de Boa Vista, em Roraima, à espera da abertura da fronteira. “O tempo dos medicamentos e alimentos que estamos levando tem um prazo de validade bastante alongado. Dois, três meses [estocados] não nos preocupa.”

Migração venezuelana gera tensão e muda perfil da pacata Pacaraima

Débora Brito/Agência Brasil

Ruas da cidade de Pacaraima. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Uma cidade pacata e de migrantes. É assim que muitos classificam Pacaraima, pequeno município do norte de Roraima, que se tornou nos últimos dias palco de tensão e conflito em torno da questão migratória. O pequeno município tem chamado a atenção para sérios problemas causados pelo abandono social e pela intolerância de alguns contra imigrantes venezuelanos.

A cidade ganhou visibilidade nacional e internacional quando começou a receber levas de venezuelanos fugindo da fome, da insegurança e das doenças causadas pela grave crise político- econômica que aflige o país de origem. O conflito ocorrido há uma semana retomou as atenções de todo o mundo para a cidade.

Não é a primeira vez que Pacaraima se torna o epicentro de uma tensão. Por estar situada inteiramente em área indígena (Reserva São Marcos), Pacaraima é o único município do Brasil que não tem seu perímetro urbano regularizado, característica que também atraiu para a cidade alguns contratempos.

Entre 2005 e 2009, o entorno de Pacaraima foi palco de protestos organizados por arrozeiros e outros moradores da região contrários à demarcação contínua da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, que alcança a área leste do município. A demarcação estabeleceu que os fazendeiros e não índios deixem as terras indígenas, determinação que gerou conflitos na área.

Muitos fazendeiros foram para outros estados, mas o assunto ainda divide opiniões no município, inclusive entre lideranças indígenas. A solução para delimitar a área do município e desmembrá-la das reservas indígenas ainda é acordada entre a prefeitura, integrantes do governo federal e representantes dos índios.

Ruas da cidade de Pacaraima.
Pacaraima é o único município do Brasil que não tem perímetro urbano regularizado, característica que também atraiu para a cidade alguns contratempos (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

De acordo com o professor João Carlos Jarochinski, um dos coordenadores do Programa de Mestrado em Sociedade e Fronteira Universidade Federal de Roraima (UFRR), o debate gira em torno da possibilidade de assegurar um espaço urbano de Pacaraima para a população não indígena.

“Pacaraima sempre foi uma área tensa por outros aspectos. O primeiro ponto que chama a atenção é que você não tem uma definição jurídica do município, o que, do ponto de vista de propriedade, é bastante problemático e dificulta a própria intervenção do Estado na área, na construção de espaços e de uma estrutura urbana mais adequada”, afirmou Jarochinski.

Focos de tensão

Por estar localizada na fronteira e em um estado rico em minérios e outros recursos naturais, ao longo de seus 23 anos de história Pacaraima enfrentou algumas situações relacionadas ao garimpo e ao combustível, recurso do qual depende da Venezuela, onde é possível abastecer pagando em média R$1,40 pelo litro da gasolina. O único posto de gasolina que abastece a cidade é venezuelano e muitas vezes está fechado.

“A migração sempre ocorreu ali e sempre teve atividades que beiravam a ilicitude. É um município que pouco oferece à população. Nele, você tem contrabando de combustível da Venezuela para o Brasil, uma atividade de alto risco, e a questão do garimpo. É uma área de base, de assistência para o garimpo, que, inclusive, se desenvolve de forma bastante efetiva na Venezuela”, completou o professor.

A questão energética também gera uma certa tensão na fronteira, uma vez que dois terços da energia de Roraima é fornecida pela Venezuela. Se há qualquer empecilho de ordem diplomática, como o recente embargo dos Estados Unidos aos pagamentos estrangeiros à Venezuela, entre eles os recursos brasileiros pagos pela energia vinda da Venezuela, a tensão recai sobre os moradores das áreas de limite entre os dois países.

“O próprio aspecto de ser fronteira gera um quadro de tensão, ainda mais que a gente tem uma ideia muito negativa de fronteira, sempre associada a assuntos negativos, como criminalidade, o que impacta na própria ideia de exclusão da comunidade”.

Perfil

Cercada por muitas serras e mais de 50 comunidades indígenas, a sede de Pacaraima tem cerca de seis mil habitantes e outros seis mil espalhados em vilas e aldeias de índios de diferentes etnias. Situada no ponto mais alto de Roraima, a 920 metros de altitude, a cidade tem um clima fresco e agradável, bem diferente da capital Boa Vista, a pouco mais de 200 km de distância.

A aglomeração em torno do garimpo foi um dos fatores que motivou a formação da então Vila BV-8, em meados da década de 20, além da presença do Exército na área para controlar o fluxo na fronteira. O município foi criado oficialmente com o nome de origem indígena em 1995.

Hoje, a principal fonte de renda da cidade é o serviço público e o comércio, que vive momentos de boom e crescimento, outros de instabilidade e dependente de oportunidades ou crises que atravessam a fronteira. A atividade agropecuária também tem participação importante na economia da região, com a criação de gado de corte, produção de polpa de cupuaçu, mandioca, farinha e milho, bases da alimentação indígena.

Ruas da cidade de Pacaraima.
A principal fonte de renda da cidade é o serviço público e o comércio, que vive momentos de boom e crescimento, outros de instabilidade e dependente de oportunidades ou crises que atravessam a fronteira (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Segundo o secretário municipal de Agricultura, Turismo e Meio Ambiente, Marcelo da Silva, a cidade também tem potencial para desenvolver o turismo ecológico e cultural.

Para Marcelo, o objetivo é dar uma fonte alternativa de renda para os indígenas e, desse modo, diminuir a dependência de atividades agropecuárias que geram mais impactos ambientais, além da disseminação da diversidade ambiental e da tradição indígena fortemente presente na região.

Renda e aspectos sociais

Conforme o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o salário médio dos trabalhadores formais em Pacaraima é de R$ 1,8 mil. Quase metade da população (46,5%) tem renda mensal inferior a um salário-mínimo e apenas 4,3% é ocupada.

O Produto Interno Bruto (PIB) per capita (soma de todos os bens dividida pelo número de habitantes) é de R$ 12,3 mil. O índice de desenvolvimento humano (IDH) municipal é de 0,650, valor considerado médio pelas Nações Unidas, em uma escala que vai de 0 a 1.

Os dados mais recentes do IBGE mostram ainda que a taxa de mortalidade infantil é 14,5 a cada 100 mil nascidos vivos, índice considerado baixo pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Apenas 21% do município tem esgotamento sanitário adequado e na educação, 93% das crianças de 6 a 14 anos estão escolarizadas.

Jungmann nega omissão em relação a venezuelanos em Roraima

Débora Brito/Agência Brasil

Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann visita instalações do centro de triagem para solicitantes de refúgio e residência temporária, em Pacaraima.
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Após visitar os centros de recepção e triagem de imigrantes na fronteira entre Brasil e Venezuela, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse nesta quinta-feira (23) que  episódios de violência que levaram à saída de venezuelanos da cidade de Pacaraima (RR) não são de responsabildiade do governo federal.

“A responsabilidade de fatos como esse tem que ser atribuída à situação trágica que se vive na Venezuela e obviamente essa migração se dá num ponto do Brasil cuja infraestrutura é muito incipiente. O governo federal tem procurado fazer tudo o que está ao seu alcance”, disse Jungmann a jornalistas durante sua visita ao município de Pacaraima.

Questionado se o governo não teria sido omisso em deixar mais de mil imigrantes sem assistência nas ruas de Pacaraima, Jungmann rebateu que a responsável pelos conflitos é a própria crise no país vizinho. Ele enfatizou que a situação é resultado de uma dificuldade que extrapola as fronteiras de vários países.

O ministro reconheceu que existe tensão, mas ponderou que o controle da situação não depende de uma solução isolada do governo federal. “Tem problema tem, tem tensão tem. Onde migração, no mundo, não cria tensão, não cria conflito? Agora, a postura correta é uns procurarem ajudar os outros pra fazer com que rapidamente essas tensões e conflitos possam ser superados e a gente possa viver na normalidade”.

O ministro ainda descartou totalmente a possibilidade de fechamento da fronteira, em respeito a acordos internacionais, à legislação nacional e à política internacional brasileira de recepção humanitária de imigrantes.

Ele citou como exemplo a Colômbia, que recebeu mais de um milhão de venezuelanos e não cogitou fechar a fronteira. E comentou ainda que a Organização dos Estados Americanos (OEA) já convocou uma reunião emergencial para tratar da crise migratória na região.

Segurança

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Mais 40 estações de trabalho serão adicionadas nos postos de triagem para agilizar o processo de registro e documentação dos imigrantes. O objetivo é evitar que eles fiquem nas ruas enquanto esperam a regularização dos documentos.

Sobre o reforço da segurança na região, Jungmann reafirmou que o patrulhamento será reforçado com 120 homens da força nacional (60 deles ainda estão a caminho via terrestre com 16 veículos). Além do contingente de 220 integrantes das forças armadas que já estão na região e passarão a fazer patrulhamento ostensivo na fronteira em apoio à Polícia Federal. O ministro disse ainda que a PF receberá R$ 2 milhões para reforçar sua atuação na fronteira.

O ministro acrescentou que o governo do estado também deve aumentar o efetivo de policiais na cidade, principalmente de agentes da polícia civil para dar continuidade aos inquéritos e investigações que estão em andamento. Em nota, o governo estadual disse que um edital já está aberto para realização de concurso para diferentes áreas da polícia.

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Saúde

Jungmann também foi questionado pelos jornalistas sobre a instalação de um hospital de campanha em Pacaraima para desafogar os hospitais locais que estão sem vagas para atender a brasileiros e venezuelanos.

Segundo o ministro, a cidade já conta com uma unidade deste tipo, mas a informação é negada pela gestão estadual. Em seguida, o Exército esclareceu que se trata de um posto avançado que dá apoio a um Hospital de Campanha.

Estado de choque, medo: venezuelanos buscam abrigo em Boa Vista

Débora Brito e Marcelo Camargo/Enviados especiais/Agência Brasil

Abrigo Rondon 1, em Boa Vista, que recebeu cerca de 100 venezuelanos vindos da cidade de Pacaraima nos últimos dois dias. (Marcello Camargo/Agência Brasil)

Menos de uma semana depois dos conflitos em Pacaraima (RR), venezuelanos que deixaram a cidade buscam refúgio em Boa Vista, capital do estado. A direção de um dos abrigos informou que os imigrantes chegaram em estado de choque, com medo e cansados. Muitos ainda estavam assustados pela perda dos poucos bens materiais.

Tomás Delfin Planez veio de Pacaraima para Boa Vista depois do conflito que envolveu um grupo de brasileiros e imigrantes venezuelanos no último sábado (18).
(Marcello Camargo/Agência Brasil)

É o caso de Tomás Planez, 61 anos, ferreiro soldador que saiu de Pacaraima depois do conflito no sábado (18), quando moradores da cidade atearam fogo contra venezuelanos depois de um assalto a um comerciante brasileiro.

Planez contou que teve todas as suas roupas, documentos e dinheiro queimados. Ele chegou em Boa Vista descalço, apenas com a roupa do corpo. “Foi terrível. Foi de sexta para sábado. Primeiro, começaram a atirar fogos artificiais, depois tiros de verdade. E nós ficamos trancados onde estávamos, tirando documentação”, relatou.

Além da perda material, o conflito separou a família de Planez que está apenas com uma das filhas no abrigo de Boa Vista. Decepcionados com o Brasil, os outros dois filhos e a mulher voltaram para a Venezuela.

Para Planez, no entanto, o sonho de conquistar um trabalho para ajudar sua família se sobrepõe à dor. “Pela situação da Venezuela, tive que mudar para buscar melhorias para mim, meus netos, filhos, familiares. Lá, não há alimentação, trabalho, tem crianças morrendo de fome, não há saúde, médico, não há nada. Tenho esperança para continuar [aqui], conseguir meu trabalho e mandar dinheiro para meus filhos e netos.”

Dignidade

O casal Blanca Perosa e Victor Hernadéz vieram de Pacaraima para Boa Vista depois do conflito que envolveu um grupo de brasileiros e imigrantes venezuelanos no último sábado (18).
(Marcello Camargo/Agência Brasil)

A vendedora de seguros Blanca Perosa, de 37 anos, também fugiu rumo a Boa Vista. Ela deixou seu país há pouco mais de uma semana em direção a Pacaraima, depois de “perder tudo para a crise política e econômica” que atinge a Venezuela há pelo menos 3 anos.

“A classe média desapareceu no meu país. Os comerciantes e microempresários lamentavelmente baixaram ao nível de pobreza e a nossa carteira de clientes desapareceu”, contou a venezuelana.

De acordo com Blanca, era impossível viver apenas com a renda do marido. “Meu esposo era funcionário estatal e não dava para sobreviver com o que o governo pagava. Tivemos que deixar empregos estáveis com salário mensal para ir às ruas vender tudo o que se podia: comida, fruta, tortilhas de milho, tudo o que rendesse dinheiro diário para viver.”

Blanca afirmou que a situação “ficou tão difícil” que decidiu vir com a família para o Brasil, mesmo que seja para permanecer ao relento. Com seus dois filhos pequenos e o marido, ela passou alguns dias nas ruas de Pacaraima. Depois, conseguiu vaga em um alojamento da Paróquia da cidade. O acolhimento livrou a família de ser vítima dos atos violentos que assustaram os venezuelanos no sábado (18).

Mil refugiados da Venezuela serão levados para outros estados

Débora Brito/Agência Brasil

No final de agosto, 1.000 venezuelanos abrigados em Roraima – distribuídos em 10 abrigos em Boa Vista e Pacaraima – serão interiorizados, anunciou nesta terça-feira (21) a subchefe substituta da Casa Civil, Viviane Ese, que integra o grupo interministerial que visita Pacaraima.

Por se situar na fronteira, a cidade tem recebido milhares de venezuelanos desde a intensificação da crise política e econômica na Venezuela. A maioria dos imigrantes estão vivendo em condição de rua e o governo quer acelerar o processo de interiorização. Desde o início do ano, já foram interiorizados 820 pessoas para diferentes estados do Brasil.

Segundo Viviane, na próxima etapa do programa de interiorização os venezuelanos sairão de Roraima em voos marcados para o fim de agosto e início de setembro, prioritariamente para a Região Sul. As cidades ainda não foram divulgadas.

O governo federal anunciou também a construção de um novo abrigo de transição entre as cidades de Boa Vista e Pacaraima, além da ampliação do número de vagas nos abrigos existentes. O início da obra será imediato, segundo a representante da Casa Civil.

“A intenção é que a gente faça a regularização de fronteira de forma humanitária. Temos também o processo se interiorização e de acolhimento para que não tenhamos mais pessoas nas ruas. O presidente [Michel Temer] anunciou o fortalecimento dessas ações”, disse Viviane.

O secretário Nacional de Segurança Pública, Flávio Basílio, informou que mais 60 homens da Força Nacional foram enviados hoje (21) a Roraima para apoiar o trabalho da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Exército. Eles saíram de Brasília, com 16 viaturas e um ônibus. Ontem (20), chegaram em Boa Vista os primeiros 60 homens da Força Nacional de um total de 120.

Hoje (21), uma equipe com técnicos de 11 ministérios visita a cidade de Pacaraima para avaliar a situação e levantar informações para adoção de novas medidas para ajudar os imigrantes venezuelanos. Eles se encontraram com representantes das agências da Organização das Nações Unidas (ONU) que tratam de refugiados e com agentes sociais que prestam assistência aos estrangeiros

Desafio

Uma das entidades que participou dos encontros é a Fraternidade – Federação Humanitária Internacional, responsável pela coordenação de quatro abrigos de venezuelanos, em Boa Vista, e um abrigo de imigrantes indígenas em Pacaraima.

Segundo Ricardo Rinaldi, coordenador de emergências e ajuda humanitária da Fraternidade, ainda entram em Roraima cerca de 500 venezuelanos por dia, e, segundo ele, o estado não tem mais condições financeira e estrutural para acolher de forma adequada todos os imigrantes que estão na fila aguardando abrigo.

Pelo menos 2 mil venezuelanos ainda estão em situação de rua em Boa Vista. Por ser um estado com muitas terras indígenas, há também a limitação jurídica e geográfica para criar um polo industrial na região que possa empregar os novos imigrantes ou construir um grande abrigo que pudesse acolher 10 mil pessoas.

“Nós [governo, sociedade] não temos experiência com esse fluxo migratório. Todos nós estamos aprendendo nessa situação”, disse Rinaldi, acrescentado que o foco neste momento é a interiorização dos venezuelanos que já estão com documentos e foram imunizados, para abrir vagas nos abrigos. O desafio é criar condições de acolhimento nos outros estados brasileiros, não só nas capitais, mas também em cidades do interior.

* Colaborou Luana Karen, da TV NBR

Fronteira: Comitê para Migrações repudia agressões a venezuelanos

Débora Brito/Agência Brasil

(Twitter/Reprodução)

O Comitê para Migrações de Roraima (Comirr) emitiu nota nesta segunda-feira (20) repudiando os atos violentos ocorridos em Pacaraima no último sábado (18). A rede de instituições da sociedade civil que trabalha na assistência a estrangeiros defendeu a dignidade, o direito de acolhida dos imigrantes e a humanização das medidas adotadas pelas autoridades.

“Em consonância com a Defensoria Pública da União, entendemos que a prática desses atos violentos contra cidadãos estrangeiros em vulnerabilidade, além de serem tipificados na legislação penal nacional, ocasionam o consequente retorno forçado ao país do qual saíram pela grave e generalizada violação de direitos humanos”, diz a nota.

No sábado, um grupo de brasileiros de Pacaraima agrediu refugiados venezuelanos com paus e pedras, depois que um comerciante local foi assaltado, supostamente por um imigrante venezuelano. Na confusão, foi ateado fogo nos pertences e acampamentos montados provisoriamente para venezuelanos.

O Comitê considera tímida a resposta do governo federal à crise com o programa de interiorização e criticou as tentativas de fechamento da fronteira pelo governo de Roraima. Para o Comitê, os pedidos para restringir a circulação dos imigrantes “alimenta o discurso xenofóbico de parte da população local” e contribui para “o acirramento da tensão social e disseminação de discursos de ódio”.

O Comirr ainda qualifica como irresponsável, populista e inconstitucional a forma como autoridades de diferentes níveis da federação têm atuado na adoção de medidas que acabam disseminando discriminação. A entidade reitera a defesa do Estado Democrático de Direito e afirmou que espera que o Ministério Público fiscalize o fato o mais rápido possível e que governo federal priorize o reforço dos serviços públicos e de interiorização dos imigrantes.