Paraisópolis: Familiares pedem e Estado afasta 38 PMs

Por Elaine Patrícia Cruz

Beco é grafitado para homenagear os jovens mortos em Paraisópolis
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Lideranças comunitárias de Paraisópolisse reuniram no final da tarde de ontem (9) com o governador de São Paulo, João Doria, para cobrar transparência nas investigações sobre a morte de nove jovens durante ação policial em baile funk, no dia 1º de dezembro. 

Participaram ainda do encontro familiares das vítimas, membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Defensoria Pública e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). O secretário de Segurança Pública, general João Camilo Pires de Campos, também participou da reunião.

Gilson Rodrigues, da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, disse que a comunidade pediu o afastamento dos 38 policiais envolvidos na ocorrência e a ida do secretário de Segurança até a comunidade para conversar com os moradores. Segundo a defensora pública Ana Carolina Schwan, durante as investigações os policiais serão afastados das ruas, passando a desenvolver trabalhos administrativos

Segundo a procuradora-geral do Estado, Lia Porto, na reunião as famílias das vítimas cobraram transparência no inquérito policial que apura as causas das nove mortes.

“(Há) Transparência total em relação ao inquérito. A Defensoria já se colocou à disposição para acompanhar o inquérito. Rigor, rapidez, transparência e eficiência nas investigações (é o que as famílias pedem)”, disse ela..

Atendimentos

Segundo a defensora pública Ana Carolina Schwan, a Defensoria iniciou hoje o atendimento domiciliar das vítimas e dos parentes das vítimas. “A Defensoria esteve na comunidade de Paraisópolis na quinta e na sexta-feira fazendo atendimentos. Estamos organizando também outros pontos de atendimento na cidade a pedido da comunidade. Hoje iniciamos os atendimentos domiciliares das famílias das vítimas para colher a necessidade e individualidade deles”.

Dia de reuniões

Antes do encontro com Doria, as lideranças comunitárias de Paraisópolis se reuniram, pela manhã, com moradores do Morumbi, bairro vizinho de classe alta. Na reunião, eles decidiram pedir à prefeitura que seja criada uma subprefeitura de Paraisópolis/Morumbi. Hoje eles se submetem à subprefeitura do Campo Limpo.

Já a tarde, eles se reuniram com secretários municipais e estaduais na União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. O secretário de Segurança Pública não participou. Nessa reunião, eles encaminharam uma lista de demandas aos governos municipal e estadual e ficou acertada a criação de seis grupos de trabalho para lidarem com os pedidos feitos pela comunidade.

Medo e luto: como foi o 1º baile funk de Paraisópolis após mortes

Por Arthur Stabile

Exatamente uma semana depois de 9 pessoas morrerem pisoteadas, fluxo lembra dos mortos em ação da PM e tem tamanho reduzido pelo medo

Primeira edição do baile da DZ7, logo após o massacre ocorrido na comunidade. Local: Paraisópolis-SP. Data: 08/12/2019. Foto: Sérgio Silva.

O funk toca nas caixas de som em cima dos carros ou improvisadas na calçada. A molecada curte seu rolê dando uns passinhos, tomando seus drinks e na função dos amores casuais. Assim foi o baile da DZ7, na favela de Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, na madrugada deste domingo (8/12). Porém, o baile não tinha a mesma pegada de uma semana atrás, quando nove pessoas morreram pisoteadas no massacre decorrente da ação da PM. 

Fluxo na rua Ernest Renan, coração de Paraisópolis e do Baile da DZ7
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Mateus dos Santos Costa, 23, Eduardo da Silva, 21, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Dennys Franca, 16, e Gustavo Cruz Xavier, 14, não resistiram aos ferimentos e morreram asfixiados ou pelos danos causados pelo pisoteamento. A PM argumenta que agiu após uma moto furar um bloqueio, entrar no baile e atirar contra os policiais, que teriam reagido.

Padre Luciano Borges, pároco da comunidade, acompanhou o baile pela primeira vez
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O tamanho do baile deste domingo era extremamente inferior ao comum, o clima ainda carregava o peso do luto. Frequentadores da DZ7 estimam que o público não seria nem 10% de dias normais antes do massacre. “Não tá normal, não. Essa rua aqui é lotada”, conta o DJ RK, apontando para a Rodolfo Lotze, uma das ruas que cruza a Ernest Renan, local onde é feito o baile. “Tem muita gente com medo, principalmente quem é de fora. Pelo acontecido, resolveram não colar”, prossegue. O baile rolou mais como homenagem às vítimas do que pela diversão individual de quem estava ali.

Participantes cobravam paz na quebrada (Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

A vida na quebrada não parou por conta do massacre, mas quem esteve em Paraisópolis fez questão de lembrar dos seus que se foram. Era possível ver parte dos participantes da festa com camisetas pedindo paz na quebrada. Os modelos foram confeccionados especialmente para o evento em que se completa uma semana da tragédia.

Festa aconteceu com menor quantidade de pessoas, reflexo do medo causado pela ação da PM
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O MC GH transformou sua revolta em letra. Como publicado pela Ponte na sexta-feira (6/12), o músico criou uma letra para homenagear as vítimas do massacre e pedir paz. “Tive a ideia vendo comentários na internet sobre o que aconteceu. Diziam que, se eles não estivessem aqui ainda estariam vivos. Me revoltou e a letra saiu na hora”, explica GH.

MC GH, autor de funk de protesto após o massacre de Paraisópolis
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Além de funkeiros, o baile da DZ7 contou com a participação de religiosos neste domingo. Pároco de Paraisópolis, o padre Luciano Borges esteve pela primeira vez no baile. “É um momento em que nós precisamos pensar, a atuação como igreja, de prevenção de vidas. Quem vai à igreja, vai buscar a paz. Aqui é um espaço de cultura e deve ser respeitado pela polícia. Não deve ser marginalizado, como muitas vezes acaba sendo”, comentou.

Primeira edição do baile da DZ7, logo após o massacre ocorrido na comunidade. Local: Paraisópolis-SP. (Sérgio Silva/Ponte Jornalismo).

Assim como a letra do MC GH, os moradores deixam claro que as mortes não são um acidente de percurso. Ressaltam em suas falas que a ação da PM provocou as mortes e que era possível um final diferente do que aconteceu. “A gente vem para zuar, só isso. É a nossa diversão”, contra o estudante Pedro Henrique Dias, 17 anos.

Para MC RK, tamanho do baile deste domingo não era “10%” do que costuma ser
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O rapaz conversa com a reportagem mexendo em um guarda-chuva da marca Oakley. Segundo ele, é uma forma de chamar a atenção das garotas. E tem efeito, apesar do alto investimento. “Tem uns modelos que custam até R$ 5 mil. Esse aqui é menos, custa R$ 150, mas já dá uma moral”, continua. 

Beco em que sete das nove vítimas do massacre morreram pisoteadas
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O rolê é juntar os amigos, montar seu bonde e zuar na rua com o som alto, as bebidas, os passinhos e até com sinalizadores. A rua dá lugar a todo o contexto do funk, que cai a madrugada sendo a diversão da galera. “É bom demais, mano. Venho toda semana na DZ7, é de lei”, diz Thiago Lima, 20 anos, desempregado.

Mais do que zuação, o baile é um espaço para deixar os problemas de lado, como a própria falta de emprego. Dessa vez, no entanto, a DZ7 carregou consigo um teor diferente com as homenagens às nove vítimas. O funk do MC GH ressoou pela quebrada como forma de protesto, de nunca se esquecer dos que se foram.

(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Os momentos de memória revesavam com os de diversão. Afinal de contas, a DZ7 existe para isso: juntar gente da comunidade e de fora para aproveitar a vida, zuar. Não havia nenhuma viatura policial dentro da favela, apenas em seu entorno. Segundo os participantes, não tiveram nenhum problema para chegar ou ficar no baile.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/primeiro-baile-da-dz7-apos-massacre-de-paraisopolis-homenageia-vitimas/

Comissão Interamericana condena mortes em Paraisópolis

Por Kaique Dalapola e Paulo Eduardo Dias

Entidade internacional de direitos humanos manifestou “preocupação” e cobrou investigação “séria, imparcial e eficaz” para identificar e punir os responsáveis 

Moradores de Paraisópolis protestam e cobram respostas após o massacre
(Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)

A CIDH (Comissão Interamericana de Direito Humanos), que faz parte da OEA (Organização dos Estados Americanos), publicou uma nota “manifestando preocupação” sobre a ação policial que resultou na morte de nove jovens, com idades entre 14 e 23 anos, na madrugada do último domingo (1º/12). O caso ocorrido durante o Baile da DZ7 ficou conhecido como massacre de Paraisópolis, pois ocorreu na comunidade localizada na zona sul da cidade de São Paulo. 

O texto critica a ação da PM comandada pelo governador João Doria (PSDB). “A Comissão condena categoricamente essa ação policial e insta o Estado a iniciar, sem demora, uma investigação séria, imparcial e eficaz dos fatos, orientada a determinar a verdade, assim como a individualização, julgamento e eventual sanção dos responsáveis por esses fatos”, afirmou a entidade.

De acordo com a organização, as informações obtidas apontam que a ação da Polícia Militar em Paraisópolis “teria gerado pânico e tumulto entre os frequentadores de uma festa popular de rua” e se baseia em informações públicas e vídeos disponíveis para definir que “os policiais cometeram maus tratos e abusos de maneira indiscriminada contra jovens que se dispersaram na área de atividades culturais”, detalhou. 

A organização internacional também aponta que teve conhecimento que o Corpo de Bombeiros, que é um braço da PM, cancelou o chamado de atendimento médico emergencial às vítimas, o que representa, segundo a entidade, “um forte indício de omissão que deve ser rigorosamente investigado”. 

Na nota, a OEA afirmou que chamou a atenção do estado por diversas vezes acerca da letalidade policial e uso da força policial em manifestações. A entidade diz que, desde a visita que fez ao Brasil em novembro do ano passado identificou violação de direitos humanos em ações policiais em bairros periféricos e contra negros. 

“Nesse sentido, a Comissão chama o Estado a adotar as medidas necessárias para reformar o direito interno, em âmbitos federal e estadual, e harmonizá-lo com os padrões interamericanos e universais de direitos humanos relativos ao uso da força em intervenções policiais, observando os princípios de excepcionalidade, necessidade, proporcionalidade e legalidade”, disse a nota.

A cobrança internacional é bem vista pela Coalizão Negra por Direitos, grupo que puxou manifestação contra o massacre e enviou uma denúncia justamente à CIDH. “Mandamos uma denuncia para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e protocolamos outra na ONU. Foram as duas internacionais que acionamos, informando sobre as mortes e pedindo para que cobrassem o Estado brasileiro”, explicou Bianca Santana, integrante da Coalizão.

Segundo ela, o coletivo também se mobilizou nacionalmente, cobrando respostas de nove órgãos brasileiros para denunciar o massacre e fazer com que o governo seja cobrado.

“No dia seguinte a essas denúncias e ofícios a Comissão Interamericana de Direitos Humanos se pronunciou. Por mais que não dê para estabelecermos uma relação direta, porque não foi uma resposta para nós, imaginamos que tenha uma relação”, afirmou Bianca.

Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana), a manifestação é “contundente” e fundamental para pressionar a ação.

“[A nota] Gera uma pressão para que o governo de São Paulo modifique urgentemente as formas de abordagem policial e as suas ações nas regiões periféricas em relação aos jovens que moram nesses locais ou que frequentam esses grandes eventos”, disse.

O conselheiro considera que a repercussão internacional das nove mortes na comunidade de Paraisópolis está “gerando grande constrangimento ao governo de São Paulo, que terá a partir daí, que dar respostas efetivas”.

*Este texto foi publicado originalmente neste link: https://ponte.org/comissao-interamericana-condena-governo-doria-por-massacre-em-paraisopolis/

Heliópolis: Homem morre em ação semelhante a Paraisópolis

Por Letycia Bond 



Um homem, de 34 anos de idade, foi morto no último domingo (1º), em Heliópolis, em operação semelhante à realizada em Paraisópolis, em que nove jovens morreram pisoteados durante uma ação da Polícia Militar de São Paulo.

A PM sustenta que o homem fugiu após ser abordado pelos agentes destacados para a missão na comunidade, localizada na zona sul da cidade, a cerca de 20 quilômetros de Paraisópolis. A versão é de que um confronto se iniciou após ele abrir fogo. A ocorrência foi registrada na Rua Pacificador.

Em nota, a corporação informou que mobilizou, naquele final de semana, equipes para comparecer a bailes funk em 251 pontos distribuídos por toda a capital, no que chamou de Operação Pancadão. A PM disse que garantiu “a tranquilidade pública e paz social dos moradores da região” e que “na grande maioria dos pontos a operação foi um sucesso com a ocupação pacífica”.

“Em outros [pontos], os organizadores migraram o evento para local diverso do pré-agendado surpreendendo os moradores, causando transtorno dos mais diversos, principalmente do sossego e cerceando a liberdade de ir e vir”, acrescenta a PM no comunicado.

Vídeos

Desde a noite desta terça-feira (3), circularam nas redes sociais vídeos denunciando abusos cometidos por policiais militares em operações. Em um deles, que teria sido gravado em Paraisópolis, a câmera foca diversos agentes fardados e ao fundo escuta-se o som do que parecem ser disparos de armas de fogo, e um grito ameaçando os presentes: “Vai morrer! Vai morrer todo mundo!”.

Em outro vídeo veiculado na internet, um policial aparece agredindo jovens que saem de um local, com um cassetete. Ele dá risadas, enquanto os jovens passam com as mãos para o alto, depois de serem encurralados em uma viela.

Na manhã desta segunda-feira (2), o governador do estado, João Doria disse que não está em seus planos modificar os procedimentos da abordagem policial. “Os procedimentos, a atitude e o comportamento da Polícia Militar, ou seja, o programa de segurança pública do governo do estado de São Paulo não vai mudar”, afirmou.

Ontem (3), o Ministério Público de São Paulo anunciou que investigará as ocorrências, para averiguar se houve violência policial na operação. Além da investigação dos procuradores, a ação policial em Paraisópolis é alvo de mais duas apurações, uma tramita na Corregedoria da Polícia e a outra no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Agência Brasil entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Até o momento, a pasta não respondeu à reportagem.

PM dá risada ao agredir jovem de muletas na Paraisópolis

Por Maria Teresa Cruz

Inicialmente, moradores disseram que gravação teria sido em 1/12, quando nove pessoas morreram, mas PM afirma que foi em 19 de outubro

Em um vídeo filmado na favela de Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, um policial militar aparece armado com um pedaço de pau agredindo indiscriminadamente todas pessoas que passam por uma viela, na saída de um baile funk. Em alguns momentos, ele ri. Nem um jovem de muletas é poupado.

Policial atras de uma parede na esquina da viela Três Corações com a Rua Ernest Renan, um dos locais onde a multidão fica no Baile da DZ7 (Reprodução)

Segundo um morador da favela, as imagens foram feitas na madrugada de domingo (1º/12), quando nove pessoas foram mortas, possivelmente pisoteadas, durante uma operação policial.

O morador, que prefere não se identificar, afirma que o local das imagens é a Rua Manoel Antonio Pinto, uma travessa da Ernest Renan, que corta a comunidade e onde acontece o Baile da DZ7. A gravação aconteceu durante a dispersão do Baile do Bega, bem ao lado da tabacaria UFC Bar Hookah. A Ponte, que esteve no local, também confrontou as imagens do vídeo e do endereço citado.

Local exato onde foram gravadas as imagens de policiais agredindo e dispersando pessoas que tinham participado de baile funk (Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo)

O local das imagens fica perto de uma das saídas da Viela Três Corações, berço do Baile da DZ7, onde há muitos anos funcionava um boteco de mesmo nome e que a música era o forró. “Com o tempo foi mudando até virar um ponto de baile funk que ficou muito conhecido”, conta.

No outro vídeo, é possível ouvir alguns estouros e barulho de vidro estilhaçando e ver, na sequência, uma multidão saindo de uma porta estreita, como se estivesse fugindo de alguma coisa. “Essa cena do pessoal correndo é comum. A polícia chega armada e o que as pessoas que estão no baile vão fazer? Correr, claro, para tentar se proteger, tentar um abrigo”, afirma.

Frequentadores tentam escapar da ação policial em bar ao lado da tabacaria UFC Bar Hookah, um dos locais onde rola o som durante o baile da DZ7 (Reprodução)

O local onde foram feitas as imagens dos vídeos é paralelo à avenida Rudolf Lutze, onde os PMs afirmam que iniciaram a suposta perseguição aos suspeitos que estariam em uma moto atirando.

“Precisa se apurar se de fato as imagens são do dia da ação policial que resultou nas 9 mortes. As imagens demonstram a violência policial e até um jovem com deficiência foi agredido. Os policiais se divertem com as agressões e o sofrimento das vítimas”, aponta Ariel de Castro Alves, advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana).

Os nove jovens mortos após ação da PM em baile funk (Arquivo pessoal/Montagem)

Ponte procurou a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de SP) para comentar os vídeos. Em nota, a PM informa que “o policial que aparece no vídeo foi identificado e afastado do policiamento” e que a “instituição instaurou inquérito. As imagens foram gravadas em Paraisópolis, no dia 19/10, não tendo relação com o ocorrido no último fim de semana”. O policial quando é afastado segue recebendo salário, só fica fora das ruas.

Em seu Twitter, o governador João Doria escreveu o seguinte: “Ao tomar conhecimento do vídeo, exigi punição exemplar ao agressor, já afastado de suas funções. Práticas como essa não condizem com o procedimento da Polícia de SP e serão veementemente condenadas”.

Sobre o outro vídeo, a pasta não se pronunciou até o momento.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/em-video-pm-espanca-jovem-com-muletas-e-da-risada-em-paraisopolis/

Promotores vão investigar mortes na Paraisópolis

Vídeo mostra pessoas encurraladas em uma viela e policial batendo com cassetete (Reprodução)

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Gianpaolo Smanio, afirmou hoje (3) que ainda não é possível apontar irregularidades na ação da Polícia Militar (PM) em um baile funk em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, que terminou com a morte de nove jovens. Segundo Smanio, a ação policial será investigada em um inquérito aberto nesta segunda-feira (2) pelo Ministério Público do estado e que será comandado pela promotora de Justiça Soraia Bicudo Simões, do I Tribunal do Júri.

“Vamos avaliar os protocolos, avaliar as condutas, para que se possa propor o melhor caminho para que a violência não tenha escalada. Vamos apurar o que houve, mas, sobretudo, [evitar] que isso se repita e vamos procurar caminhos de não violência para que as pessoas que queiram possam se divertir, para que a comunidade possa ser respeitada, mas também para que as pessoas do entorno também possam ser respeitadas e que as questões da criminalidade possam ser investigadas. A ideia é fazer uma mediação para encontrar a melhor solução”, disse o procurador-geral.

As nove vítimas teriam morrido “pisoteadas” após uma operação policial durante um baile funk. A PM informou que os policiais se dirigiram ao local do baile atrás de dois fugitivos que estavam em uma motocicleta. Moradores da comunidade negam essa versão e dizem que a operação parecia premeditada e que seria uma vingança à morte de um policial ocorrida no mesmo local, um mês antes.

Um vídeo gravado por moradores e divulgado à imprensa mostra policiais encurralando dezenas de pessoas em uma viela e batendo nelas com cassetetes.

Muito questionado por jornalistas sobre a ação policial em Paraisópolis e também sobre os vídeos que circularam mostrando violência policial em abordagens que teriam ocorrido lá no mesmo dia do baile funk, Smanio preferiu não fazer críticas à PM. “Morte significa que não foi bem feita [a ação]”, disse, apenas. “Qualquer afirmação antes de uma investigação, antes de conhecermos os fatos e as circunstâncias todas, é uma afirmação precipitada.”

Em entrevista à imprensa, Samanio disse que recebeu ontem, em audiência, um grupo de deputados, acompanhado por moradores da comunidade e integrantes de movimentos sociais, que pediram celeridade nas investigações. “Acertamos por realizar um fórum para que essa questão do baile funk e da atuação policial possa ser tratada de uma maneira global, com todos os interessados, e para que possamos encontrar soluções para essa questão que já causou vítimas.”

Investigações

Todos os policiais envolvidos na ocorrência foram afastados das ruas ontem pelo comando da Polícia Militar, mas continuam exercento atividades administrativas na corporação.

Além da investigação no Ministério Público, a ação policial em Paraisópolis e as mortes ocorridas lá durante o baile funk são alvo de mais duas apurações: uma na Corregedoria da Polícia e outra no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Uma informação que também deve ser investigada é a de que um bombeiro cancelou uma chamada ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) durante a ação policial, alegando que a polícia já tinha socorrido os feridos. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo confirmou que encaminhou uma ambulância ao local após o registro de solicitação na central na madrugada de domingo (1º), mas que a solicitação foi cancelada. “A chamada foi classificada como alta prioridade, porém, houve cancelamento do pedido por parte do Comando do Corpo de Bombeiros (Cobom).”

Quatro documentos obtidos pela Agência Brasil – quatro declarações de óbito – revelam que as vítimas morreram por asfixia mecânica. Essa, no entanto, é a descrição que consta na declaração de óbito das quatro vítimas, sem considerar os laudos do Instituto Médico-Legal, que ainda estão sob análise e não foram divulgados.

ONGs

A Human Rights Watch, organização internacional não governamental que atua com direitos humanos, lamentou as nove mortes em Paraisópolis e os 12 feridos na ação ocorrida no dia 1º de dezembro. A ONG exige que o Ministério Público exerça o controle externo sobre o trabalho da polícia.

“Desta forma, [o Ministério Público] deve garantir uma investigação rápida, completa e independente sobre qualquer abuso e uso excessivo da força nesse caso, bem como sobre os ferimentos e as mortes. O Ministério Público do Estado de São Paulo deve também iniciar sua própria investigação independente sobre a motivação, o planejamento e a execução da operação da polícia militar em Paraisópolis”, diz nota da ONG.

A Conectas também prestou solidariedade às vítimas e parentes e cobra uma apuração rígida do caso. Para a Conectas, a ação foi “negligente” e evidencia “o padrão de atuação dos órgãos de segurança pública com a vida de pessoas pobres e negras em áreas periféricas, fazendo, inclusive, uso de armas de fogo e armamentos menos letais num evento com mais de 5 mil pessoas, causando pânico generalizado em uma das maiores comunidades de ‘São Paulo.

A organização não governamental também cobra uma “postura contundente do Ministério Público na apuração de crimes”.

Defensoria

A Defensoria Pública de São Paulo colocou-se à disposição dos parentes dos jovens mortos na ação policial para atendimento individualizado e reservado, em domicílio, e está organizando, para os próximos dias, um plantão na própria comunidade.

Depois disso, a Defensoria Pública vai analisar as medidas cabíveis, incluindo eventuais pedidos de indenização e de atendimento psicológico, sem prejuízo do acompanhamento das investigações e apurações já em curso sobre o grave episódio.

Condepe

João Doria, governador de São Paulo (Valter Campanato/Agência Brasil)

O advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), órgão ligado à Secretaria Estadual de Justiça de São Paulo, também fez críticas à ação policial em Paraisópolis. “Os vídeos demonstram não só uma ação desastrosa, mas criminosa dos policiais envolvidos na ocorrência em Paraisópolis. Os vídeos mostram torturas, abusos de autoridade, agressões e que os jovens foram encurralados pelos policiais. Demonstram que os PMs são os principais responsáveis pela tragédia.”

Na noite desta terça-feira, o Condepe promoverá um encontro para discutir o que os conselheiros chamam de Massacre de Paraisópolis. Segundo o Condepe, nesse encontro serão discutidas medidas urgentes para acompanhar a apuração das mortes e assegurar proteção dos direitos de outras vítimas e familiares.

Ontem, o governador de São Paulo, João Doria, disse que não pretende reduzir o número de operações policiais, nem modificar os moldes em que funcionam atualmente. Já o comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Marcelo Salles, disse que a ação policial no baile funk foi uma reação à agressão sofrida pelos policiais.

Veja quem são as nove vítimas de Paraisópolis

Por Arthur Stabile

Amigos e familiares contam como eram os nove jovens que morreram pisoteados após ação da PM em baile funk

Os nove jovens mortos após ação da PM em baile funk (Arquivo pessoal/Montagem)

Nove jovens de 14 a 23 anos, moradores de variados bairros da cidade de São Paulo e de cidades da região metropolitana da capital paulista. Um trabalhava com vendas, outro estava desempregado e mantinha vivo o sonho de ser jogador de futebol, outros vários ainda estudavam. Amigos e, sobretudo, familiares contam como eram os nove mortos do massacre ocorrido em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, decorrente de uma ação da Polícia Militar do estado, comandada pelo governador João Doria (PSDB).



Parentes de alguns dos mortos estiveram no IML (Instituto Médico Legal) Sul para reconhecer e liberar os corpos para os respectivos enterros. Outros estiveram no IML Central. Eles relembraram com carinho de seus entes queridos e cobraram respostas do poder público, seja pela violência da PM com os integrantes do baile funk feito em Paraisópolis, seja pelo fato de não verem os corpos e ferimentos das vítimas, apenas seus rostos.

Bruno estava desempregado e sonhava ser jogador (Arquivo pessoal)

Esta segunda questão é levantada por Vanini Cristiane Siqueira, irmã de Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos. Desempregado, o jovem trabalhava com telemarketing até ser demitido há alguns meses. Ainda nutria o sonho de virar jogador de futebol, apesar da idade avançada para o início de carreira. Para os pais, tempo que não foi suficiente para o amadurecimento do jovem torcedor do São Paulo. Nem sequer carta de motorista o deixaram tirar, mesmo após quatro anos da liberação legal, por considerá-lo imaturo para ter um carro sob seu controle.

No IML, Vanini reconheceu o rosto do irmão. Quando tomou a atitude de abrir o saco que cobria o corpo, foi impedida por um funcionário do IML. Segundo ele, ela não poderia fazer aquilo pois o corpo estava muito machucado. “Eu saio daqui inconformada. Por que não pude ver o corpo do meu irmão? Não estão deixando ninguém ver o corpo, só o rosto”, afirmou a irmã. “Tem que saber o que aconteceu realmente, porque esses jovens foram impedidos de sair. Tem que ser averiguado. Infelizmente o meu irmão se foi. É pedir justiça e que Deus receba ele”, lamentou. 

Gustavo era o mais jovem dos mortos e estudava no 9º ano (Arquivo pessoal)

Bruno era um rapaz apegado à família, segundo Vanini. Colocava os sobrinhos e os pais em primeiro lugar. Ele era adotado, vivia com a família de acolhimento desde os 10 anos em Mogi das Cruzes (Grande SP). “Inclusive, ele abraçou minha mãe esses dias e falou: ‘mãe, eu não quero que você vá antes de mim, eu quero ir antes de você’. Ele sempre deixava bilhetes para minha mãe”, conta Vanini. No IML, a mãe biológica de Bruno não resistiu e desmaiou ao ver o filho deitado na maca.



Inconformismo é um sentimento comum entre os familiares. Roberto Oliveira é padrinho de Gustavo Cruz Xavier, 14 anos, estudante que morava no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, a vítima mais nova do massacre. Eles descobriram que o jovem estava morto ao receberem por WhatsApp vídeos do massacre ocorrido no baile funk. Nas imagens, a mãe reconheceu Gustavo e, com sua demora de voltar para a casa, os familiares ligaram os pontos.

Um jovem “tranquilo e amoroso”, diz parente sobre Marcos Paulo (Arquivo pessoal)

O adolescente mentiu e foi com dois amigos de 16 anos para o baile, considerado perigoso pela família, tanto pelas ações policiais quanto pela presença de “gente ruim”. “Os adolescentes que moram na periferia não têm condição de ir em um shopping curtir, em ir curtir nesses bailes no Anhembi, com um monte de artista. É muito caro. E os bailes funks são baratos”, comenta Roberto.

O padrinho conta que Gustavo “só tinha tamanho”, um menino doce que não tinha malícia nem “pensava rápido” quando acontecia uma confusão, como a ação da PM. Estudante do nono ano do ensino fundamental, o principal sonho dele era o de muitos jovens da periferia: ter um carro. “O Gustavo era um menino, não pensava muito no futuro”, lembra.

Baiano, Mateus se sustentava vendendo produtos de limpeza (Arquivo pessoal)

A família recebeu do IML apenas uma corrente usada por Gustavo no baile funk, nenhum outro pertence sob alegação de que as roupas foram cortadas e “jogadas fora”. “[Marca] de pisoteamento a gente não viu. Quando você cai no chão jogando bola você se rala. Nele não, tinha uma pancada na cabeça, na testa, e o pescoço estava meio roxo. Não deram nem a roupa dele para nós”, conta Roberto.

Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos, disse para a família que ia comer uma pizza e foi para Paraisópolis. O estudante se preparava para fazer vestibular e aproveitou um momento para juntar um grupo de amigos e ir pela primeira vez em um baile funk, de acordo com um familiar. Era um intervalo para divertimento. Um dos integrantes do grupo disse aos parentes de Marcos que a PM os agrediu deliberadamente.

“Bateram muito com cassetete, o outro rapaz está cheio de hematomas. Ele tropeçou, caiu e vários policiais o agrediram. Está com os punhos machucados”, conta a parente de Marcos, que pediu anonimato com medo de sofrer represálias. Marcos Paulo era um jovem tranquilo e amoroso que ainda estudava no 2º ano do ensino médio. Segundo essa familiar, o bairro em que moram dá poucas opções de lazer, o que faz os adolescentes buscarem os bailes.

Segundo amigo, PM disse que “cuidaria” de Dennys durante a operação (Arquivo pessoal)

Silvia Ferreira, cunhada de Mateus dos Santos Costa, 23 anos, criticou a falta de informações no IML. “Vamos na delegacia, alguém tem falar alguma coisa para a gente. O médico da perícia não sabe dar uma justificativa. Falam para voltarmos daqui a 60 dias e pegar o laudo”, denuncia. “É uma pessoa que está ali, um humano. Não é um cachorro. Ao menos vem e fala: ‘ele está muito machucado, não sabemos dizer se foi um espancamento, se foi pisoteamento’. Dá uma declaração justa. Que governo é esse?Que putaria é essa?”, esbravejou.

O jovem ganhava a vida vendendo produtos de limpeza. Natural da Bahia, vivia em Carapicuíba, cidade da região metropolitana de São Paulo, e viveu seus últimos dias cercado de alegrias. Afinal de contas, Mateus era torcedor do Flamengo, time que no fim de semana do dia 23 de novembro conquistou os títulos da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro de futebol masculino.

Luara tinha 18 anos (Arquivo pessoal)

“O vídeo mostra muito bem claro. Os amigos disseram que foi tudo muito rápido, que os policiais já chegaram fechando a rua. Fecharam todos os becos e um escadão”, conta Silvia. “Ele era um menino tranquilo. Se fosse errado, eu falava que não valia nada. Ele só foi para lá porque Carapicuíba não tem opção para a gente sair, nem para nós que somos casal”, afirma, se referindo ao companheiro, Marcos Costa, irmão de Mateus, que estava no IML.

Uma parente de Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16 anos, morador da Vila Matilde, zona leste paulistana, conta que ouviu de um amigo que estava com o jovem o que teria ocorrido no baile. O grupo correu quando a polícia chegou, Dennys ficou para trás e um dos amigos tentou ajudar. Ali, um policial teria dito: “pode deixar que a gente cuida dele”. 

Eduardo da Silva, morto aos 21 anos (Arquivo pessoal)

“Não foi nada disso que eles estão divulgando. Ele tem um machucado na cabeça, os pés intactos e o costuraram de qualquer jeito. Pedi para tocar nele e não deixaram nem por a mão”, disse a familiar, abalada, pedindo para não ser identificada. Dennys estudava no segundo ano do ensino médio.

Um amigo de Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos, descreve o rapaz como “um moleque bom, que nunca fez mal para ninguém”. “Era trabalhador, que estudava e sempre tirava um sorriso de todo mundo, muito brincalhão”, comenta o rapaz. 

Segundo amigo, Denys era brincalhão e “tirava sorriso” de todos (Arquivo pessoal)

Moradora do Jardim Primavera, região do Grajaú, também na zona sul de São Paulo, Luara Victória de Oliveira, 18, era frequentadora assídua de baile funk. Segundo o R7, um parente da vítima, que pediu para não ser identificado, contou que Luara foi criada pelo pai na casa da avó e precisou muito do apoio de familiares nos últimos 5 anos, quando ficou órfã. Também relatou que amava ir aos “pancadões” e que já tinha ido outras vezes ao baile de Paraisópolis. Ela estudava na rede pública, em uma escola ao lado do bairro onde vivia, e estava procurando um emprego. 

Pai de um filho de 2 anos, Eduardo Silva, 21, é a oitava vítima. Ao R7, uma cunhada do jovem, que preferiu não se identificar, afirma que a família ficou desesperada quando Eduardo não voltou do baile. “Como vai ser agora? Na hora que recebei a notícia fiquei pensando no que dizer quando ele perguntar do pai. Como vou explicar o que aconteceu”, disse. Ele morava no bairro Cidade Ariston, em Carapicuíba, na Grande São Paulo, com a mãe, o pai, uma irmã e o filho, e trabalhava numa oficina mecânica. “Agora fica a lembrança e a saudade. Ele era um bom menino”, lamentou.

Gabriel Rogério de Moares, 20, a nona vítima, foi velado e enterrado nesta segunda-feira (2/12) em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, onde vivia. Ao G1, o pai dele, Reinaldo Cabral de Moraes, disse que uma ação contra criminosos não justifica agredir jovens que estavam se divertindo. “Não existe justificativa para tirar uma vida. Vão ter investigações, mas o que indica é que houve um excesso policial, força excessiva contra jovens que estavam lá e não tinham nada a ver com o assunto. O que se leva a crer, como alguns falaram lá, é que foi uma emboscada, foi um cerco”, criticou.

Ainda segundo o portal, Gabriel trabalhava como leiturista de uma empresa que presta serviços para uma concessionária de energia.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/vendedor-desempregado-e-muitos-estudantes-as-vitimas-do-massacre-em-paraisopolis/

Paraisópolis: Delegado isenta PM após menos de 7 horas de investigação

Por Maria Teresa Cruz

Para delegado, ‘não há indícios’ de que PMs sejam responsáveis pelas 9 mortes em favela da zona sul de SP; Ministério Público vai acompanhar investigação

Protesto neste domingo por justiça aos 9 mortos em ação policial em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo (Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)


Policiais militares que participaram da ação com 9 mortes em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, afirmam que fizeram “uso moderado da força” com cassetetes e munição química, negam ter feito disparos com arma de fogo e colocam a responsabilidade pelo que aconteceu em uma suposta perseguição policial que terminou no meio da multidão que participava de um baile funk. 

Para o delegado do 89º DP (Portal do Morumbi) Emiliano da Silva Chaves Neto, “não foram encontrados indícios de participação direta ou efetiva [dos policiais] nas mortes” e, portanto, a investigação segue na própria delegacia e não será, até o momento, remetida ao DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). O registro da ocorrência onde consta essa conclusão foi feito cerca de 7 horas após os fatos. 

Vídeos que circularam nas redes sociais durante o domingo e compilados pela Ponte mostram outra versão: multidão encurralada, disparos feitos pela PM na direção de pessoas correndo e dois jovens sendo agredidos com socos, tapas e pisões em uma viela pelos policiais. 

As vítimas são: Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Mateus dos Santos Costa, 23, Eduardo da Silva, 21, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel R. de Moraes, 20, Dennys Franca, 16, e Gustavo Cruz Xavier, 14. 

Ponte teve acesso aos depoimentos de 4 PMs envolvidos na ocorrência – Antonio Marcos Cruz da Silva, Vinícius José Nahool Lima, Thiago Roger de Lima Martins Oliveira e Renan Cesar Angelo, todos do 16º BPM/M – além de policiais que falaram à Polícia Civil na condição de testemunhas.

A narrativa é a mesma: os PMs afirma que estavam em operação de combate ao pancadão na região, quando dois agentes avistaram suspeitos em uma moto XT 660 que, para escapar da abordagem, atiraram e fugiram, iniciando uma perseguição. Na sequência, tentaram se esconder no meio da multidão que participava de um baile funk, o baile da DZ7. Os participantes da festa, ainda segundo os relatos dos agentes, teriam lançado pedras e garrafas contra os policiais, que, então, reagiram. 



“Ao visualizarem as equipes policiais furaram o comboio policial e o indivíduo que esta estava na garupa do motociclo sacou de arma de fogo e passou a efetuar disparos de arma de fogo em direção do comboio que era formado por viaturas motocicletas da polícia militar, que não tiveram condições de revidar no momento, que conseguiram se abrigar e logo em seguida foram no encalço dos meliantes, porém eles adentraram no pancadão que ocorria na via pública no interior da comunidade Paraisópolis e mesmo se misturando entre os frequentadores do pancadão o indivíduo que estava com arma de fogo continuava efetuando disparos a esmo, o que causou uma grande confusão entre dos frequentadores do pancadão, restando nove pessoas pisoteadas por conta do tumulto, as quais ficaram pelo local”, diz trecho sobre o depoimento do PM Renan Cesar Angelo. Com poucas diferenças, a narrativa se repete em outras falas. 

Ainda, segundo os testemunhos, os PMs negam terem efetuado disparos de arma de fogo e apenas identificaram que uma das vítimas havia levado um tiro em uma das pernas. Apesar disso, reforçam que não dispararam e que não houve revide com arma de fogo após os ocupantes da moto terem atirado.

O PM Thiago Roger Lima Martins de Oliveira destacou, em seu depoimento, que quando a equipe percebeu que havia uma multidão, tentaram sair, foram atacados, “visualizaram as viaturas da Força Tática, M16010 e M16011 apedrejadas e danificadas” e que tentaram “prestar apoio”, segundo o B.O.. 

O delegado Emiliano da Silva Chaves Neto também destacou a “lesão corporal” por possível disparo de arma de fogo em uma das vítimas feridas, destacou que as armas dos policiais foram apreendidas e indicou exame balístico caso necessário. 

Nesta segunda-feira (2/12), em coletiva de imprensa, o governador João Doria (PSDB), que anteriormente havia pedido em sua conta no Twitter “apuração rigorosa”, saiu em defesa dos policiais. “A letalidade não foi provocada pela PM e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo”, disse. Doria prestou solidariedade às famílias das vítimas.

Segundo o R7, a Polícia Civil vai esperar os laudos do IML (Instituto Médico Legal) para saber a causa das nove mortes e, por enquanto, os depoimentos estão suspensos. 

O Ministério Público Estadual de SP informou nesta segunda-feira (2/12) que o procurador-geral de Justiça de SP, Gianpaolo Smanio, determinou que a promotora Soraia Bicudo Simões acompanhe a investigação da ação policial.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/em-menos-de-7-horas-delegado-isenta-pms-por-mortes/

Segurança pública no Estado não vai mudar, diz Doria

Por Letycia Bond

João Doria, governador de São Paulo (Valter Campanato/Agência Brasil)


Após nove mortes em uma ação da Polícia Militar na comunidade de Paraisópolis, o governador de São Paulo, João Doria, comunicou que não pretende reduzir as operações policiais nem modificar os moldes em que funcionam atualmente.

“Os procedimentos, a atitude e o comportamento da Polícia Militar, ou seja, o programa de segurança pública do governo do estado de São Paulo não vai mudar”, afirmou.

“Procedimentos de ação, operacionais, podem ser revistos. Aliás, devem ser revistos, evidentemente, para serem aperfeiçoados, melhorados, evitando que tanto os cidadãos como criminosos e os próprios policiais possam ter a circunstância adequada, protegermos quem devemos proteger, preservar quem devemos preservar e prender quem merece ser preso”, acrescentou o governador.

Polícia Militar

O comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Marcelo Salles, disse que os agentes que chegaram primeiro ao baile funk foram agredidos. “Os três primeiros policiais que chegaram foram agredidos com pedras, com garrafas e contidos. É isso que precisa ficar conhecido. Por conta da ação, houve uma reação. Foi isso que houve”.

Algumas pessoas envolvidas na ação policial alegam que os militares atiraram em direção ao público do evento, com armas de cano longo, de calibre 12, e que portavam granadas. O coronel Salles nega essa versão. Ele disse que embora parte dos depoimentos ainda deva ser colhida, avalia já constatar “inconsistência” nos relatos. “Vamos ouvir todos que foram encaminhados ao inquérito, mas, de plano, já se nota uma inconsistência”, afirmou.

A PM sustenta que suspeitos foram abordados pelos policiais que faziam patrulhamento e abriram fogo. Na sequência, os agentes teriam perseguido o grupo até o baile funk. Nesse momento, ocorreu o tumulto, que resultou na morte de nove pessoas, que morreram pisoteadas. Uma das vítimas tinha 14 anos. Ao todo, 5 mil pessoas estavam no local.

Corregedoria investiga conduta de PMs na Paraisópolis

Por Letycia Bond 

Delegacia no Portal do Morumbi, que investiga as mortes no Baile Funk
(Nivaldo Lima/SP Agora)


A Polícia Militar de São Paulo informou, hoje (2), que a Corregedoria da corporação abriu inquérito para averiguar a conduta dos agentes que atuaram em Paraisópolis, onde nove pessoas morreram em um baile funk. O episódio ocorreu na madrugada deste domingo (1º).

Em nota, a PM diz que todas as circunstâncias serão apuradas. “As armas dos policiais foram apreendidas e encaminhadas para perícia”, acrescentou.

“O 89º DP [89º Distrito Polícial] também instaurou inquérito”, informa, acrescentando que os agentes escalados para a missão na comunidade, localizada na zona sul da capital paulista, já foram ouvidos.

Por volta das 11h de hoje (2), familiares das vítimas compareceram à unidade responsável pelo caso. A irmã do operador de telemarketing Bruno Gabriel dos Santos, de 22 anos, um dos jovens mortos, professora Ivanini Siqueira, disse que ele estava na companhia de amigos e não conseguiu se desvencilhar do fluxo de pessoas, quando o público do baile funk tentava sair do local. A família é de Mogi das Cruzes, município onde o jovem deve ser enterrado.

“Eles levaram garrafada. Foi todo mundo correndo. Eles estavam em um grupinho de cinco e ele foi o único que não conseguiu correr. Correu pro lado errado, e os outros correram pro outro lado e conseguiram se salvar”, disse Ivanini Siqueira.

Ivanini disse que não tem forças para acompanhar o noticiário e que espera justiça. Ela suspeita que Bruno tenha sido vítima de violência policial, porque assistiu a um vídeo em que a posição do seu corpo sugere que ele tenha sido agredido. “Ou ele foi pego com alguma coisa na cabeça dele, ou ele foi pego de frente, porque, [do contrário], por que é que o corpo estaria [virado] para cima? Não tem lógica isso”.

“Agora a gente está correndo atrás para poder levar o corpo para Mogi [das Cruzes] e pedir justiça, basicamente, para saber o que realmente aconteceu, por que esses jovens não puderam se defender, porque eles foram pegos tão de surpresa”.