Moradores de Heliópolis fazem testes rápidos para Covid-19

Uma ação social oferta neste sábado (8) testes rápidos de detecção da covid-19 para 250 moradores de Heliópolis, favela localizada na zona sul de São Paulo, considerada a maior da capital. A HCA, startup de saúde, é a responsável pela operacionalização dos testes, doados pela Officer, empresa de tecnologia, à Central Única das Favelas (Cufa).

A empresa de tecnologia fez a doação de mil testes rápidos de coronavírus para a Cufa, que optou por distribuir a aplicação dos exames em quatro favelas. No sábado passado, aconteceu a primeira testagem no Parque Santo Antônio. Moradores de Paraisópolis e Brasilândia também serão contemplados, nos dias 15 e 16 de agosto, respectivamente.

A aplicação dos testes nas favelas é mais uma ação da campanha Cufa Contra o Vírus, que já realizou diversas lives e ações sociais, recebeu mais de 11 mil toneladas de alimentos e R$ 150 milhões em doações, além de álcool em gel, máscaras e muito mais.

A entidade informou que mantém parceria com centenas de organizações para combater o coronavírus nas favelas do Brasil. São, aproximadamente, 15 milhões de moradores em todo o território nacional e muitos deles não podem deixar de trabalhar e transitam pelas ruas se expondo ao risco do contágio. 

Para saber mais sobre os projetos, se voluntariar ou fazer alguma doação, acesse o site da Cufa.

Bares e barbearias abertos no bairro com mais mortes por Covid-19

Coronavírus matou 123 pessoas na Brasilândia e 20 leitos foram inaugurados em hospital ainda em obras

Moradora integrante do grupo de risco dá sinal para ônibus | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

“Todo mundo tem medo de morrer, né?”. A resposta de José Amorim se contrapõe ao que se vê. O senhor de 72 anos passeia às 10h de terça-feira (12/5) na Estrada do Sabão, zona norte da cidade de São Paulo, com uma lata de cerveja na mão e máscara no rosto.

De tempos e tempos, ele tira a proteção para dar um gole na bebida. Ao recolocá-la, diminui o risco de se contaminar com o coronavírus, doença que já matou 123 pessoas na Brasilândia, segundo nota publicada no portal da prefeitura de São Paulo nesta segunda-feira (11/5).

Adilson trabalha, enquanto seu José Amorim passa com sua cervejinha pela banca | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

No dia 18 de abril, a Brasilândia já liderava em números absolutos de mortes suspeitas ou confirmadas da doença com 53 casos. Uma semana antes, no dia 11, o total era de 33 casos, aumento de 66%. A Ponte solicitou os números desta terça-feira atualizados, mas, até a publicação, não houve retorno.

Seu José morou a vida toda na região. Conta que, “graças a Deus”, ninguém da sua família pegou a doença. No entanto, se mostra contrário ao isolamento completo das pessoas. “Não podemos parar, senão todo mundo morre de fome”, diz o aposentado.

Entrada do Hospital da Brasilândia, que não recebeu ambulâncias na manhã de terça (12/5) | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

Há 400 metros de onde ele parou para conversar com a reportagem há pessoas lutando pela vida. Nesta segunda-feira, a Prefeitura de São Paulo abriu 20 leitos para tratamento de casos graves da Covid-19 no Hospital Municipal da Brasilândia. Ainda não há número oficial de internados.

O prédio ainda está em obras. Enquanto a fachada tem fios soltos na guarita, a entrada de serviço ainda tem chão feito de terra e entrada e saída de caminhões.

Havia ao menos 30 funcionários trabalhando na conclusão do hospital na manhã desta terça-feira. Era possível ouvir o som dos trabalhos no ponto de ônibus que fica no lado oposto da Avenida Michihisa Murata, onde fica a unidade.

Simone e Sidney conversam enquanto ela espera pedidos de marmitas | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

No entorno, movimentação nas ruas e alguns comércios abertos. Ao menos dois salões de cabeleireiros, incluídos como serviço essencial pelo presidente Jair Bolsonaro, funcionavam.

Um deles é o de Jaimilton da Silva Rosena, 54 anos, que depois de 14 dias parado, reabriu o espaço para atender. “Tenho que pagar o aluguel do salão e de casa. Perdi 60% da renda nesses dias”, detalha.

Até o meio-dia já tinha atendido quatro clientes. O barbeiro faz o trabalho de máscara e usa álcool em gel como proteção. “Tem que ser assim, lavar tudo, estar protegido”, aponta.

Pela manhã, Jaimilton conseguiu fazer quatro cortes de cabelo | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo 

Ainda na Estrada do Sabão, duas quadras adiante, Jaimo Muniz da Silva aguardava clientes em seu comércio. Ele não fechou as portas, mesmo com o decreto do governador João Doria (PSDB).

“Se depender deles… Tenho que abrir. Como vou comprar comida?”, procura justificar. Ele mora com a mulher e duas filhas. Uma faz faculdade, a outra, ensino fundamental. Nenhuma pegou o vírus.

Simone Gonçalves, 67 anos, fazia marmitas em seu comércio metros antes. Manteve a renda, apesar da pandemia. “Não diminuiu nem aumentou, sigo vendendo o mesmo”, diz.

Thiago fuma em um dos dois dias da semana em que não conseguiu serviço | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

Nascida e criada na Brasilândia, conta também não ter tido ninguém da família ou amigos contaminados. “Ainda bem”, diz, aliviada. Ao seu lado está Sidney Francisco, 70 anos. Ambos são do grupo de risco por serem idosos.

Sidney segue a linha de raciocínio de José Amorim: de máscara, toma uma bebida destilada pela manhã. “Já vivi muito bem minha vida”, afirma, ao ser perguntado se teme o vírus.

Um grupo de cinco pessoas permanecia em um bar na avenida Elísio Teixeira Leite. Dois deles, os pedreiros Crispiniano Paixão dos Santos, 39 anos, e Thiago de Oliveira, 33, lamentavam a falta de serviços.

Trabalhadores descansam ao lado do hospital | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo 

Crispiniano sustenta quatro filhos, a companheira e a sogra. Havia acabado de voltar do Limão, bairro vizinho, onde fez um orçamento. Não sabe se a saída renderá trabalho e dinheiro.

Sem renda garantida, só o emprego da mulher tem sustentado sete que vivem na casa. “Comida é o importante”.

Thiago tem conseguido trabalhar um dia sim, outro não. Na semana, sai três vezes, o que garante a comida e as contas dele e da mãe. “A gente tem conseguido viver”, diz.

O dono do bar, Inácio Paulo, está ali a contragosto. Aos 88 anos, levou bronca da esposa, de 72, por abrir o bar em meio à pandemia. Afinal, ambos são grupo de risco.

Serviços continuavam mesmo com a abertura dos leitos de tratamento intensivo | Foto: João Leoci/Ponte Jornalismo

O senhor, que não quis ser fotografado, explica: “Pago aluguel do bar e de casa. Meu enteado trabalha, mas recebe pouco, mal dá para ele. Ou é isso ou fico sem comer”, queixa-se. Naquele momento, próximo do meio-dia, havia seis pessoas na porta do bar. 

Antes, no meio da manhã, o vendedor ambulante Adilson Cândido terminava de preparar a sua banquinha. Na esquina da Estrada do Sabão com a avenida Michihisa Murata, vende café, bolo e salgado para quem passa.

O isolamento fez a renda cair, porque seu outro negócio é um buffet. “Não tem festa, como vai fazer?”, lamenta. Sua esposa conseguiu receber os R$ 600 do auxílio emergencial dado pelo governo. Ele não teve acesso ao benefício.

Jaimo discorda do fechamento do comércio e manteve seu salão aberto | Foto: João Leoci/Ponte 

“Meu pedido está em análise até agora”, detalha, antes de atender um cliente. Vende um café, oferece um bolo, mas ele fica só na bebida. “Não tenho do que reclamar. Diferente de muita gente, tenho conseguido me virar”, diz Adilson, pai de duas garotas de 7 e 9 anos. 

Ponte solicitou à Prefeitura de São Paulo e à Secretaria Municipal de Saúde dados atualizados de mortos por Covid-19 na Brasilândia e nos demais bairros da cidade. Não obtivemos resposta até a publicação.

Para a pasta, a reportagem também questionou a quantidade de pessoas já atendidas no Hospital da Brasilândia e sobre as obras ainda em execução. A secretaria não respondeu até a publicação desta reportagem.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Região da Brasilândia recebe 20 novas UTIs

Uma das regiões da capital paulista mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus, o bairro de Brasilândia, na zona Norte da cidade, recebeu hoje (11) mais 20 unidades de terapia intensiva (UTI) e 16 leitos de enfermaria, todos destinados ao tratamento de pacientes com covid-19. O reforço ocorre em razão do início de funcionamento do Hospital Municipal de Brasilândia.  

De acordo com a prefeitura, quando estiver em pleno funcionamento, o local deverá chegar a ter 305 leitos, somados enfermaria e UTIs, e beneficiará uma população de 2,2 milhões de pessoas da região.

No último levantamento divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde, Brasilândia já havia registrado 123 óbitos em razão da covid-19. Segundo a prefeitura, as ruas do distrito, que possui mais de 280 mil habitantes, estão sendo desinfectadas e ações como carros de som e um trio elétrico, cedidos pela sociedade civil, passam orientações para o combate ao novo coronavírus.

Por Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil