Diretor da Prevent Senior nega ocultação de mortes por covid-19

Pedro Benedito Batista Júnior (ao centro), diretor da Prevent Senior (Edilson Rodrigues/Agência Senado)

A CPI da Pandemia ouviu nesta quarta-feira (22/09) o depoimento do diretor-executivo da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, que passa à condição de investigado.

A empresa é suspeita de ocultar mortes de pacientes com covid-19 em estudo realizado para testar medicamentos do chamado “tratamento precoce”, sem eficácia e segurança comprovadas cientificamente. Os pacientes e os familiares não teriam sido informados sobre a participação no estudo.

A comissão também investiga a empresa sobre uma possível pressão para que médicos conveniados à operadora prescrevessem remédios do “kit covid”, como a hidroxicloroquina. 

Além disso, senadores disseram que ouviram de usuários da operadora relatos de assédio para que aceitassem o tratamento precoce, que até hoje é amplamente defendido pelo governo Jair Bolsonaro, na contramão do resto do mundo.

Diante do depoimento de Batista, o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL) anunciou durante a sessão que alterou a condição do depoente de testemunha para investigado.

Dossiê aponta ocultação de mortes

Funcionários da Prevent encaminharam à CPI um dossiê segundo o qual a empresa teria ocultado mortes por covid-19 e impedido o uso de equipamento de proteção individual (EPI). O objetivo seria facilitar a disseminação do coronavírus em ambiente hospitalar e iniciar um protocolo de testes para tratamento da doença.

À CPI, Batista criticou o documento, que, segundo ele, foi elaborado com base em notícias veiculadas na imprensa e demanda parlamentar. De acordo com o depoente, mensagens e planilhas de acompanhamento de pacientes foram manipuladas pelos ex-médicos da Prevent Senior George Joppert Netto e André Fernandes Joppert, desligados da empresa em julho de 2020.

Batista alegou ainda que uma análise de provas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) comprovou a inexistência de infração por parte da Prevent.

O diretor da Prevent Senior negou que tenha havido “testagem em massa”, mas admitiu a realização de um “estudo observacional”. Segundo ele, nenhum médico foi “incitado” a receitar hidroxicloroquina e cada profissional teve autonomia junto ao paciente.

“Quando foram feitos estudos, sim, todos os pacientes receberam o ‘termo de livre esclarecido'”, garantiu.

Questionado pelo relator sobre o descrédito do estudo pela comunidade internacional, Batista respondeu que a pesquisa não foi publicada por ter sido apenas “a observação” de 630 pacientes. Entre os pacientes acima de 80 anos, a taxa de óbito foi de 29%, segundo o depoente.

Mortes não notificadas

De acordo com reportagem exclusiva da emissoraGloboNews, nove participantes do estudo teriam morrido de covid-19, mas apenas dois óbitos foram relatados. 

Ainda de acordo com a GloboNews, a Prevent Senior teria omitido do atestado de óbito que a causa da morte do médico defensor do tratamento precoce Anthony Wong, em janeiro, foi covid-19. O mesmo teria ocorrido com a certidão de óbito de Regina Hang, mãe do empresário bolsonarista Luciano Hang, que morreu em fevereiro após complicações da doença no hospital Sancta Maggiore, da Prevent Senior, em São Paulo. Ambos foram tratados com medicamentos do “kit covid”. 

Durante a sessão da CPI, foi exibido um vídeo no qual Luciano Hang diz que a mãe poderia ter sobrevivido se tivesse feito o “tratamento precoce”. Renan Calheiros classificou o comportamento do empresário como “macabro” e “repugnante”.

“Há uma farsa que será desmascarada aqui. Vamos provar que ele pediu: ‘Escondam que minha mãe foi tratada com cloroquina, para não desmerecer a eficácia’. Ele a levou para ser tratada no hospital com cloroquina, e a Prevent Senior ocultou isso”, disse o relator da CPI.

Já o senador Otto Alencar (PSD-BA) chamou Hang de “filho desalmado” por usar a morte da mãe para promover o “tratamento precoce”.

O depoente, por sua vez, reiterou que não comentaria casos de pacientes, alegando sigilo médico. Sobre a morte do médico Anthony Wong, Batista se recusou a responder a uma série de perguntas, justificando que a autonomia médica precisa ser preservada. 

Mas Renan apresentou um áudio de uma conversa telefônica com trocas de ameaças entre Batista e um ex-médico da Prevent Senior que denunciou que a empresa teria escondido que a morte de Wong tinha sido por covid-19.

Batista negou, ainda, que o estudo da Prevent Senior sobre o uso de cloroquina por pacientes tenha sido revisado para corrigir “inconsistências”. No entanto, Renan reproduziu durante a sessão um áudio em que um diretor da empresa, o cardiologista Rodrigo Esper, determina a revisão dos dados.

O áudio foi gravado depois que Bolsonaro citou o estudo em uma rede social. Segundo o presidente, nenhum dos 412 pacientes da empresa que tomaram cloroquina morreu por covid-19. No áudio, porém, Esper faz referência à postagem de Bolsonaro e diz que é necessário “ajustar os parafusos”.

Procura por cloroquina após falas de Bolsonaro

À CPI, Batista disse que, após declarações de Bolsonaro e de outras pessoas influentes, pacientes contaminados com o coronavírus começaram a exigir serem tratados com cloroquina.

Senadores afirmaram que Batista mentiu ao dizer que médicos ligados à Prevent Senior não receitaram tratamento precoce sem diagnóstico adequado. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) relatou que teve acesso a receitas que comprovam a mentira.

O diretor da operadora afirmou que a Prevent tratou cerca de 18 mil pacientes com covid-19, mas disse não saber informar o número de mortes, o que gerou críticas de senadores.

Ao contrário de denúncias, Batista também disse que nenhum médico foi constrangido por não prescrever “tratamento precoce”.

“Médicos foram excluídos da empresa por falhas graves éticas e morais, como invasão de prontuários e tratamento inadequado de pacientes”, justificou.

Durante a sessão, foi exibido um vídeo em que um suposto representante da Prevent Senior afirma que, após assinatura do contrato com a empresa, os clientes recebiam o “kit covid”.

No vídeo, o representante esclarece que a Prevent queria evitar que o cliente adoecesse, porque isso geraria custos. Assim, enviava aos clientes o kit com ivermectina, cloroquina e outros medicamentos.

À CPI, Batista negou a informação. “Eram enviadas as medicações prescritas pelos médicos aos pacientes, nunca houve kit anticovid”, afirmou.

Contrapondo Batista, Renan afirmou que a CPI tem provas de que os kits foram, sim, enviados.

Financiamento do estudo

Batista não respondeu se os laboratórios Vitamedic e Aspen patrocinaram estudos realizados pela Prevent Senior com a ivermectina e a hidroxocloriquina.

O relator perguntou ainda se a Prevent Senior teve participação no “aumento vertiginoso de faturamento” dos dois laboratórios durante a pandemia. Batista disse não poder responder, uma vez que não avaliou o balanço das duas empresas.

Renan lembrou que a Prevent Senior comprou 32 mil comprimidos de ivermectina da Vitamedic em 2020 e quase 28 mil entre janeiro e setembro de 2021. No caso da hidroxicloriquina, a empresa adquiriu 600 mil cápsulas diretamente da Aspen durante a pandemia.

Por Deutsche Welle
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CPI apura se Prevent Senior testou “kit covid” em pacientes sem avisá-los

(Pedro França/Agência Senado)

Na reta final de seus trabalhos, a CPI da Pandemia buscará esclarecer por qual motivo a operadora de saúde Prevent Senior envolveu-se na disseminação do uso e em estudos sobre o chamado “kit covid”, composto por medicamentos ineficazes contra a doença defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro, como a cloroquina, a azitromicina e a ivermectina, que podem inclusive agravar a saúde dos pacientes.

Segundo acusações em poder da comissão, detalhadas em reportagens veiculadas pela GloboNews, a Prevent Senior pressionou seus profissionais a receitarem o “kit covid” e realizou uma pesquisa ministrando os medicamentos a pessoas com suspeita ou diagnóstico de covid-19 sem informar os pacientes ou seus familiares.

O diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, que também é tenente médico da reserva do Exército, havia sido intimado pela CPI da Pandemia a prestar depoimento nesta quinta-feira (16/09), mas não compareceu sob argumento de que fora comunicado com menos de 48 horas de antecedência.

Os senadores remarcaram seu depoimento para a próxima quarta-feira, e ameaçaram acionar a Justiça para que ele seja conduzido coercitivamente. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), pretende apresentar seu relatório até o final da próxima semana.

Tratamentos experimentais

O senador Humberto Costa (PT-PE), autor do requerimento da convocação de Batista, afirmou que a comissão recebeu denúncias de médicos de que a operadora teria pressionado profissionais a receitar o “kit covid” e realizado tratamentos experimentais sem o consentimento de pacientes.

“Uma das coisas que o hospital orientava era que os pacientes e os seus familiares não tivessem conhecimento de que essa experiência estava sendo feita, que não tivessem conhecimento de que estavam sendo administrados esses medicamentos. A informação que se tem é que isso foi um acerto entre a direção do hospital e o governo federal”, afirmou Costa. Não está claro, porém, quais seriam os termos desse suposto acordo entre a Prevent e o governo Bolsonaro. 

Segundo a GloboNews, o estudo começou a ser realizado em 25 de março de 2020 e a primeira versão dos resultados foi divulgada em 15 de abril. Três dias depois, Bolsonaro compartilhou as informações no seu Twitter, como um suposto exemplo de que a cloroquina seria eficaz contra a covid-19, e mencionando a Prevent.

“Segundo o CEO Fernando Parrillo, a Prevent Senior reduziu de 14 para 7 dias o tempo de uso de respiradores e divulgou hoje, às 1h40 da manhã, o complemento de um levantamento clínico feito: de um grupo de 636 pacientes acompanhados pelos médicos, 224 NÃO fizeram uso da HIDROXICLOROQUINA. Destes, 12 foram hospitalizados e 5 faleceram. Já dos 412 que optaram pelo medicamento, somente 8 foram internados e, além de não serem entubados, o número de óbitos foi ZERO. O estudo completo será publicado em breve”, tuitou o presidente em 18 de abril.

Pesquisa sem consentimento

Mensagem obtida pela GloboNews mostra um diretor da Prevent, Fernando Oikawa, orientando os médicos a ministrarem cloroquina e azitromicina aos pacientes como parte do estudo, com a ressalva que não informassem o paciente ou seus familiares a respeito.

“Iremos iniciar o protocolo de HIDROXICLOROQUINA + AZITROMICINA. Por favor, NÃO INFORMAR O PACIENTE ou FAMILIAR, (sic) sobre a medicação e nem sobre o programa”, escreveu Oikawa em um grupo de aplicativo de mensagens com profissionais da Prevent.

Nove pessoas morreram durante a pesquisa, das quais seis haviam tomado cloroquina e azitromicina, duas não tinham tomado a medicação, e uma sem informação a respeito. Segundo um médico da Prevent relatou à GloboNews, o estudo teria sido manipulado e seus resultados já estariam prontos antes da sua conclusão.

Ainda segundo a emissora, os autores do estudo mencionam só duas mortes entre os pacientes pesquisados. O coordenador da pesquisa, o cardiologista Rodrigo Esper, afirma no estudo que essas duas mortes teriam ocorrido por outros motivos de saúde pré-existentes e não relacionados à covid-19.

Ministério Público também investiga

A reportagem da GloboNews apontou ainda que a Prevent Senior teria ocultado a morte de pacientes que tiveram covid-19 e receberam atendimento em seus hospitais. A emissora teve acesso a uma mensagem de um diretor da Prevent orientando os coordenadores das unidades a alterarem o código de diagnóstico (CID) dos pacientes que deram entrada com covid-19 após algumas semanas de internação.

“Após 14 dias do início dos sintomas (pacientes de enfermaria/apto) ou 21 dias (pacientes com passagem em UTI/Leito híbrido), o CID deve ser modificado para qualquer outro exceto o B34.2 (código da Covid-19) para que possamos identificar os pacientes que já não tem mais necessidade de isolamento. Início imediato”, diz a mensagem.

A justificativa seria liberar os pacientes que não precisariam mais de isolamento, mas a alteração faria com que, caso o paciente viesse a falecer, o registro de óbito deixasse de indicar covid-19 como motivo.

A GloboNews identificou dois casos de pacientes da Prevent que contraíram covid-19 e morreram, mas a doença não constava em suas declarações de óbito. Um deles, além de receber medicamentos do “kit covid”, foi submetido a cerca de 20 sessões de ozonioterapia, uma terapia que só pode ser feita em pesquisas experimentais por instituições credenciadas, uma autorização que a Prevent não detém, segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A Conep chegou a autorizar a Prevent a realizar o estudo com a cloroquina e a ivermectina, mas suspendeu a pesquisa ao ser informada que ela havia sido iniciada antes da aprovação legal.

O Ministério Público estadual de São Paulo instaurou um inquérito em março para apurar denúncias de que profissionais da Prevent teriam sido forçados a receitar os medicamentos do “kit covid” mesmo antes da consulta e do resultado de exames dos pacientes. O inquérito investiga a recomendação de prescrição de outros medicamentos além daqueles do kit e também sem eficácia contra a doença, como a flutamida, usada no tratamento de câncer de próstata, e o etanercepte, para atrite. Profissionais ouvidos pela GloboNews relataram que sofriam risco de demissão se não seguissem a recomendação da empresa.

Em nota, a Prevent Senior afirma que “sempre atuou dentro dos parâmetros éticos e legais e, sobretudo, com muito respeito aos beneficiários”, que prestou todas as informações solicitadas pela CPI da Pandemia e que está à disposição dos senadores.

A empresa também afirmou que pedirá que o Ministério Público apure as denúncias “infundadas e anônimas” contra si, e que irá tomar medidas judiciais para pedir a punição de quem teria feito “denunciação caluniosa”.

“Os médicos da empresa sempre tiveram a autonomia respeitada e atuam com afinco para salvar milhares de vidas. Importante lembrar que números à disposição da CPI demonstram que a taxa de mortalidade entre pacientes de Covid 19 atendidos pelos nossos profissionais de saúde é 50% inferior às taxas registradas em São Paulo”, afirmou a Prevent.

Por Deutsche Welle
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CPI da covid-19 convoca ex-mulher de Bolsonaro para depor

Jair Bolsonaro, presidente da República (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A CPI da Pandemia no Senado aprovou nesta quarta-feira (15/09) a convocação de Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe de um dos filhos do presidente, Jair Renan Bolsonaro.

A decisão foi tomada na sessão do depoimento do lobista Marconny Albernaz de Faria, que atuou para a Precisa Medicamentos em tratativas para a venda de 12 milhões testes de covid-19 ao Ministério de Saúde, que não chegou a ser formalizada

Os senadores pretendem apurar qual é a relação entre Marconny e Ana Cristina. A comissão tem mensagens entre ambos mostrando que o lobista encaminhava à ex-mulher do presidente currículos de pessoas para serem indicadas a cargos no governo.

Uma dessa pessoas sugeridas por Marconny a Ana Cristina foi Leonardo Cardoso de Magalhães, para o cargo de defensor público-geral da União. A ex-mulher de Bolsonaro depois enviou e-mail ao então ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Jorge Oliveira, recomendando Magalhães ao cargo e afirmando que ele era um “candidato alinhado com os nossos valores, técnico e apoiador do Jair”.

Durante o depoimento, Marconny admitiu que conhece Ana Cristina, mas se manteve calado quando questionado sobre o encaminhamento de currículos. Apenas o senador Marcos Rogério (DEM-RO), que defende o governo Bolsonaro, foi contra a convocação dela para depor à CPI.

Amigo de Jair Renan

Aos senadores, Marconny confirmou também ser amigo de Jair Renan, e que ajudou o filho do presidente a abrir sua empresa. Ele disse ter conhecido Jair Renan há cerca de dois anos, por meio de amigos em comuns, e que ao saber que ele queria abrir “uma empresa de influencer” o apresentou a um advogado tributarista que poderia o ajudar.

Marconny reconheceu ainda que comemorou seu aniversário em um camarote no estádio Mané Garrincha, em Brasília, que pertence a Jair Renan.

Segundo troca de mensagens entre os dois relevada pelo jornal Folha de S.Paulo, Marconny escreveu para Jair Renan: “Bora resolver as questões dos seus contratos!! Se preocupe com isso. Como te falei, eu e o William estamos a sua disposição para ajudar te ajudar”. O filho do presidente, então, respondeu: “Show irmão. Eu vou organizar com Allan a gente se encontrar e organizar tudo.”

O lobista também disse ter uma relação de amizade com Karina Kufa, advogada de Bolsonaro.

Relação com a Precisa

Um dos focos do depoimento de Marconny foi a sua atuação para a Precisa Medicamentos em uma tentativa de venda de testes para detecção de covid-19 ao Ministério da Saúde.

Os senadores suspeitam que ele teria desenvolvido um método para tentar formalizar a venda ao governo dos testes por meio de fraude, em conluio com ex-funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde.

A empresa também está no alvo da CPI por ter fechado a venda de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin ao governo, no valor de R$ 1,6 bilhão, mas nenhuma dose chegou ao país, devido a dificuldades de aprovação e outros problemas. A compra foi cancelada posteriormente.

Marcony Faria durante depoimento à CPI da Covid-19 (TV Senado/Reprodução)

Marconny afirmou aos senadores que sua atuação profissional envolve a elaboração de “pareceres e estudos de viabilidade política e análise de cenário técnico-político”, e que manteve tratativas com a Precisa por cerca de 30 dias, sem contrato formal, no caso da negociação dos testes de covid-19, mas que não participou da preparação e apresentação das propostas da empresa ao governo. Ele disse ter se reunido duas vezes com Francisco Maximiano, dono da Precisa.

“No início da pandemia, fui sondado para assessorar politicamente e tecnicamente a Precisa em concorrência pública que já estava em andamento perante o Ministério da Saúde e que tinha como objetivo a aquisição de testes rápidos para detecção do covid-19. Como a concorrência já estava em andamento, não participei da análise do edital, habilitação ou apresentação de proposta da Precisa”, afirmou.

“O Ministério da Saúde cancelou essa concorrência em andamento e decidiu pela utilização de outros meios de testagem da população. Tendo aí terminado toda e qualquer participação no assunto, ou seja, tudo isso não passou de uma conversa de WhatsApp que durou aproximadamente 30 dias”, disse. Ele afirmou que não atuou com a Precisa na venda da vacina indiana Covaxin.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou ter informações de que Marconny teria atuado para fraudar a licitação da compra dos testes em associação com Maximiano e Roberto Dias, ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, também investigado pela CPI.

Recusa em identificar senador

Em um dos momentos crítico do depoimento, Marconny foi confrontado a respeito de uma mensagem que ele havia enviado a Ricardo Santana, ex-funcionário da Anvisa, obtida por meio da quebra de seu sigilo em outra investigação e compartilhada com a CPI pelo Ministério Público Federal.

Na mensagem, Marconny diz a Santana que estava em contato com um senador que poderia “desatar o nó” da venda de testes para detectar covid-19 ao Ministério da Saúde.

Indagado pelos integrantes da CPI, o lobista disse “não se lembrar” quem seria o parlamentar mencionado na mensagem e que não conhecia nenhum senador. O senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da comissão, reagiu dizendo que Marconny estava “faltando com a verdade”.

Em outra mensagem, Marconny afirmou a Santana que existiria uma “arquitetura ideal para o processo dos kits prosseguir” e fazia referência a “Bob ou sucessor”, no que alguns senadores interpretaram como uma referência a Dias.

A CPI aprovou requerimento para que a Polícia Legislativa do Senado forneça dados sobre eventuais visitas de Marconny ao Senado, indicando para qual gabinete ele se deslocou.

Ex-ativista do Vem Pra Rua

Antes de atuar como lobista, Marconny foi ativista do grupo Vem Pra Rua durante o movimento pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Questionado durante a CPI, ele disse que à época defendia, além da queda da petista, a moralidade, o combate à corrupção e pautas sobre a “família”.

Ele disse também que foi filiado por seis meses ao Patriota, mesmo partido do senador Flávio Bolsonaro.

Por Deutsche Welle
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Sem presença de convocados, CPI vota requerimentos nesta terça-feira

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia do Senado vai dedicar a reunião desta terça-feira (31) à votação de requerimentos. Na reta final dos trabalhos e com previsão de apresentação do relatório final pelo relator do colegiado, senador Renan Calheiros (MDB-AL), no dia 21 de setembro, a mudança da pauta veio depois que o motoboy Ivanildo Gonçalves da Silva, que prestou serviço à VTCLog, empresa responsável pela armazenagem e distribuição de medicamentos do Ministério da Saúde, ganhou na Justiça o direito de não comparecer ao depoimento marcado para hoje.

habeas corpus foi concedido ontem (30) à noite pelo ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), mas segundo o relator do colegiado, senador Renan Calheiros (MDB-AL), a comissão vai recorrer da decisão e insistir na vinda de Ivanildo.

A convocação de Ivanildo, considerada fundamental pelo comando da CPI, foi aprovada após um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicar que o motoboy teria sacado cerca de R$ 4,7 milhões a serviço da empresa de logística. Segundo a CPI, ao todo, a VTClog teria movimentado de forma suspeita R$ 117 milhões nos últimos dois anos.

Plano B

Diante da decisão de Nunes Marques, a CPI tentou, sem sucesso, um plano B de depoimento para hoje. A diretora-executiva da VTCLog, Andréia Lima, que teve a convocação aprovada pelos senadores em 7 de julho foi chamada ontem as 22h para vir a Brasília hoje.

Com a convocação feita em cima da hora, a empresária informou aos integrantes da Comissão que teria “compromissos inadiáveis” e que, por isso, não poderia comparecer à sessão de hoje.

Por Karine Melo – Repórter da Agência Brasil 

CPI quebra sigilo fiscal de Barros e do advogado de Bolsonaro

Ricardo Barros, deputado federal (PP-PR), após depoimento à CPI (Marcos Oliveira/Agência Senado)

A CPI da Pandemia aprovou nesta quinta-feira (19/08) uma série de requerimentos de quebra de sigilo, incluindo o sigilo fiscal do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, e do advogado Frederick Wassef, que trabalha para a família Bolsonaro.

Barros foi apontado como mentor de supostas irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin contra a covid-19, o que o levou a ser incluído na lista de investigados pela CPI na quarta-feira.

A comissão no Senado já havia determinado a quebra do sigilo fiscal do deputado a partir de 2018, mas agora estendeu esse período até 2016, incluindo assim o tempo em que ele foi ministro da Saúde durante o governo de Michel Temer.

O parlamentar foi implicado em outra suspeita de irregularidades quando estava à frente da pasta. Em 2018, o Ministério Público Federal instaurou uma ação de improbidade administrativa contra Barros pelo pagamento antecipado de R$ 20 milhões à empresa Global Gestão de Saúde por medicamentos que não foram entregues.

Nesta quinta-feira, a CPI da Pandemia aprovou a quebra de sigilos telefônico, fiscal, bancário e telemático da Global, bem como ampliou o prazo de quebra do sigilo fiscal de seu sócio, Francisco Emerson Maximiano. O empresário é dono também da Precisa Medicamentos, que representava o laboratório indiano Bharat Biotech nas negociações suspeitas da Covaxin no Brasil.

Além disso, a comissão no Senado vai pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal de Contas da União (TCU) informações sobre processos envolvendo Barros. Também foi aprovada a quebra do sigilo fiscal de 20 empresas que teriam ligações com o deputado.

Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro (Pedro França/Agência Senado)

Em relação a Frederick Wassef, a CPI aprovou a quebra de sigilo fiscal do advogado também nos últimos cinco anos. Os senadores buscam apurar se Wassef – que atua para o presidente Jair Bolsonaro e o filho mais velho dele, o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) – teve envolvimento no processo de compras de vacinas pelo governo federal.

Outros requerimentos aprovados

Outra figura ligada ao presidente que teve seu sigilo bancário e fiscal quebrado foi o blogueiro Allan dos Santos. Apoiador de Bolsonaro, ele é fundador do blog Terça Livre e dono de um canal no YouTube com o mesmo nome.

O blogueiro é alvo de dois inquéritos no STF, um sobre a disseminação de fake news e outro sobre financiamento de atos antidemocráticos, e na quarta-feira foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por proferir ameaças contra Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Ao todo, os senadores aprovaram nesta quinta-feira 187 requerimentos de quebra de sigilo, solicitações de relatórios de inteligência ao Coaf e convocações para depor.

Esses pedidos visam apurar, além de suspeitas na aquisição de vacinas pelo governo, também o uso de hospitais federais do Rio de Janeiro para desvio de verbas, bem como o financiamento e a divulgação de notícias falsas sobre a pandemia de covid-19. Vários canais de apoio a Bolsonaro tiveram seu sigilo quebrado.

Segundo o jornal O Globo, essa deve ser a última leva de requerimentos feita pela CPI, que tem previsão de encerrar seus trabalhos no próximo mês.

Por Deutsche Welle
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