CPI da covid-19 quebra sigilo de Pazuello, Ernesto e membros do “gabinete paralelo”

A CPI da Pandemia aprovou nesta quinta-feira (10/06) a quebra do sigilo telefônico e telemático dos ex-ministros Eduardo Pazuello, da Saúde, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e de outros alvos da investigação. Também foi autorizada a quebra do sigilo bancário e fiscal de quatro empresas.

A comissão no Senado atua desde 27 de abril e visa investigar ações e omissões do governo do presidente Jair Bolsonaro durante a gestão da pandemia de covid-19.

A transferência de sigilo telefônico e telemático dá aos senadores acesso, por exemplo, aos registros de conversas telefônicas, conversas por aplicativos de mensagens, históricos de pesquisas na internet e registros de locais visitados por meio de aplicativos de localização, como o Google Maps.

Entre os alvos da quebra de sigilo há uma série de pessoas ligadas ao Ministério da Saúde, como o ex-secretário executivo Élcio Franco, que atuava como número dois de Pazuello, e a secretária Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã cloroquina”. Ambos já prestaram depoimento à CPI.

A lista também inclui o assessor internacional da Presidência da República, Filipe Martins, e o ex-secretário de Saúde do Amazonas Marcellus Campêlo, que pediu exoneração do cargo no início desta semana após ser alvo de uma operação da Polícia Federal que mira a alta cúpula do governo estadual por desvios na saúde durante a pandemia.

Outro nome do Amazonas é Francisco Ferreira Filho, que coordenou o comitê de crise do estado durante a catástrofe da falta de oxigênio hospitalar no início deste ano.

Também tiveram os sigilos telefônico e telemático quebrados pessoas ligadas ao suposto “gabinete paralelo”, uma espécie de centro de aconselhamento para temas da pandemia à parte da estrutura do Ministério da Saúde. O grupo é suspeito de assessorar Bolsonaro de maneira extraoficial na tomada de decisões sobre a crise do coronavírus.

Entre os nomes relacionados ao gabinete estão o empresário bilionário Carlos Wizard e os médicos Luciano Dias Azevedo, defensor da cloroquina, e Paolo Zanotto.

Em reunião com Bolsonaro, Zanotto teria recomendado “tomar um extremo cuidado” com o uso de vacinas. Segundo senadores da CPI, o virologista também admitiu ter enviado uma carta a Arthur Weintraub, ex-assessor do presidente, sugerindo a formação de um “shadow cabinet” (gabinete das sombras) para orientar o Palácio do Planalto na pandemia.

Outro nome que teve a quebra de sigilo aprovada foi o auditor afastado do Tribunal de Contas da União (TCU) Alexandre Figueiredo Costa e Silva. Ele produziu um estudo paralelo afirmando que metade dos óbitos por covid-19 no Brasil não teria ocorrido. A informação falsa foi citada por Bolsonaro para minimizar o impacto do coronavírus. Depois, o presidente se desculpou por divulgar o dado incorreto.

Confira a lista de quem teve a transferência de sigilo telefônico e telemático aprovada:

  • Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde;
  • Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores;
  • Filipe Martins, assessor internacional da Presidência da República;
  • Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas;
  • Francisco Ferreira Filho, coordenador do comitê de crise do Amazonas;
  • Francieli Fontana Fantinato, coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI);
  • Élcio Franco, ex-secretário executivo do Ministério da Saúde;
  • Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde;
  • Zoser Hardman, ex-assessor especial do Ministério da Saúde;
  • Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde;
  • Flávio Werneck, ex-assessor de Relações Internacionais do Ministério da Saúde;
  • Camile Giaretta Sachetti, ex-diretora do departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde;
  • Arnaldo Correia de Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde;
  • Francisco Emerson Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos, que representa a vacina Covaxin no Brasil;
  • Túlio Silveira, representante da Precisa Medicamentos;
  • Carlos Wizard, empresário;
  • Paolo Zanotto, médico;
  • Luciano Dias Azevedo, médico;
  • Alexandre Figueiredo Costa e Silva Marques, auditor do TCU.

Já as empresas que tiveram sigilo bancário e fiscal quebrado são:

  • Associação Dignidade Médica de Pernambuco;
  • Empresa PPR – Profissionais de Publicidade Reunidos;
  • Calya/Y2 Propaganda e Marketing;
  • Artplan Comunicação;

Novas convocações

Nesta quinta-feira, os senadores da comissão aprovaram ainda a convocação do ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário, para prestar depoimento.

Também foram autorizados convites (quando o comparecimento não é obrigatório) ao presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Fernando Pigatto, e um representante do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), a ser definido. Os depoimentos serão agendados pelo presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM).

Ausência do governador do Amazonas

Além das votações sobre as quebras de sigilo, também estava programado para esta quinta-feira o depoimento do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). Mas o político não compareceu à sessão, depois que a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber concedeu habeas corpustornando facultativa sua presença.

Lima havia acionado o Supremo alegando que a convocação é inconstitucional e viola o princípio da separação de Poderes. O argumento foi aceito por Rosa Weber, que observou que o governador já foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por suspeita de desvio de recursos da saúde no estado e que ele, por isso, não é obrigado a produzir prova contra si mesmo. Se comparecesse, ele teria o direito de permanecer em silêncio.

Apesar do argumento de inconstitucionalidade apresentado por sua defesa, Lima afirmou mais tarde que não foi à CPI devido à onda de ataques cometidos por criminosos ocorrida no fim de semana no estado.

A comissão de senadores afirmou que vai recorrer da decisão de Rosa Weber. “Acredito que o governador do estado do Amazonas perde uma oportunidade ímpar de esclarecer ao Brasil e, principalmente, ao povo amazonense, o que aconteceu no estado do Amazonas. Não é uma coisa rotineira: faltou oxigênio, pessoas perderam vidas”, disse o senador Omar Aziz.

Por Deutsche Welle

ek (Agência Senado, ots)

Na CPI, ministro da Saúde compara Bolsonaro a fumante incorrigível

Marcelo Queiroga, ministro da Saúde (Jefferson Rudy/Agência Senado)

Em seu segundo depoimento à CPI da Pandemia, nesta terça-feira (08/06), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, insistiu na tecla de que tem autonomia em sua pasta, mas que isso não significa “carta branca” e que ele não atua como um “censor” do presidente Jair Bolsonaro.

A questão da autonomia de Queiroga se tornou central para os senadores na CPI em meio às suspeitas de que haja um “gabinete paralelo”, uma espécie de centro de aconselhamento para temas da pandemia à parte da estrutura do Ministério da Saúde.  

Nesse contexto, Queiroga foi seguidas vezes indagado, por exemplo, a explicar por que Bolsonaro continua a se recusar a usar máscaras e a evitar aglomerações, embora tratem-se de medidas simples, segundo infectologistas e o próprio ministro, para evitar a propagação do vírus.

Queiroga, então, disse que não é “um censor do presidente e que “as recomendações sanitárias estão postas, cabe a todos aderir”a elas. Depois, comparou o presidente a um fumante incorrigível.  

“Tem paciente, como cardiologista, que eu já orientei o sujeito a parar de fumar de maneira reiterada. E o camarada não deixa de fumar. Ele morre fumando e eu não abandono ele. Então eu vou ficar insistindo até o final do meu mandato”, afirmou.

Questionado se faz orientações a Bolsonaro, o ministro disse que já falou com ele sobre o assunto, mas que a forma como ele age é “individual”. “As imagens falam por si só”, afirmou, após assistir a imagens de Bolsonaro, sem máscara, gerando aglomeração.

Um ministério sem infectologistas

Os senadores também interrogaram Queiroga sobre a demissão da médica Luana Araújo, apenas dez dias após ser anunciada como secretária de enfrentamento à pandemia.

Queiroga admitiu não ter médicos infectologistas na sua equipe direta, mas alegou que isso vem de gestões anteriores. 

Ele disse, então, que não nomeou Luana Araújo porque suas posições não contribuíam para “harmonizar” as diferenças na classe médica sobre medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19.

Na semana passada, também à CPI, Araújo havia dito que Queiroga vetou seu nome porque ele não seria aprovado no governo. Nesta terça, Queiroga afirmou que a decisão foi totalmente sua.

“Eu entendi que, naquele momento, a despeito da qualificação que a dra. Luana tem, não seria importante a presença dela para contribuir para harmonização desse contexto. Então, no ato discricionário do ministro, decidi não efetivar a sua nomeação”, afirmou.

Em 26 de maio, na Câmara dos Deputados, Queiroga também havia se manifestado obre a dispensa de Luana Araújo. Na ocasião, ele disse que para uma pessoa ser efetivada eram necessárias a validação “técnica” e a “política”.

Ministro admite ineficácia da cloroquina

Queiroga afirmou que remédios como hidroxicloroquina e ivermectina “não têm eficácia comprovada” no tratamento da covid-19.

O relator da CPI, Renan Calheiros, perguntou então por que uma nota de 2020 que orienta sobre doses de cloroquina a serem usadas nos pacientes que contraíram o coronavírus não é retirada do ar.

“A nota informativa perdeu o objeto”, afirmou Queiroga, que, no primeiro depoimento, havia evitado se posicionar sobre o uso da cloroquina.

“Essas medicações não têm eficácia comprovada”, afirmou o ministro. “Se eu ficar discutindo a discussão do ano passado, eu não vou em frente”.

Apesar de vários estudos terem apontado sua ineficácia contra o coronavírus, a cloroquina foi não só defendida, como também promovida por Bolsonaro desde o início da pandemia.

Defesa da Copa América

O ministro da Saúde afirmou que as práticas esportivas estão liberadas no Brasil e que não existe provas que ele aumenta o risco de contaminação pela covid-19. Por isso, completou, não vê problemas na realização da Copa América do Brasil, decisão que foi criticada por epidemiologistas, políticos e que gerou mal-estar entre os próprios jogadores brasileiros.

“O esporte está liberado no Brasil e não existe provas de que essa prática aumenta o nível de contaminação dos atletas”, afirmou. “Não vejo do ponto de vista epidemiológico uma justificativa contrária à realização do evento. O risco de a pessoa contrair covid-19 será o mesmo com o jogo ou sem o jogo”, completou

Quando foi confirmada para o Brasil, a realização da Copa América foi amplamente criticada por epidemiologistas. Eles consideram que o risco de transmissão não está ligado diretamente aos atletas em campo, que são submetidos a testagem frequente, mas ao cenário em que mais pessoas estarão circulando nas ruas. E isso no momento em que deveria estar ocorrendo o contrário. A vacinação avança com dificuldade, e o próprio ministro Queiroga admitiu que o país pode estar diante de uma nova onda de infecções.

Por Deutsche Welle
rpr (ots)

Mourão define CPI da covid-19 como desorganizada

Hamilton Mourão, vice-presidente da República (Wilson Center/via TV Cultura)

O vice-presidente Hamilton Mourão, em entrevista ao jornalista Alexandre Paz, da TV Ulbra, de Canoas no Rio Grande do Sul, fez criticas a CPI da Covide diz que a comissão é desorganizada. Os senadores investigam a atuação do governo federal no combate a pandemia do coronavírus. 

“Eu acho que a CPI está muito desorganizada. O objetivo da CPI é verificar a atuação do governo diante da pandemia. Quando falo isso, quer dizer governo, não apenas a figura do presidente”, disse Mourão.

Para o vice-presidente, os senadores deveriam focar em três pontos: saúde, economia e social. Na análise dele, a missão do governo era dar condições para o sistema de saúde absorver os doentes, criar uma estrutura para a economia não ser tão afetada e ajudar a população durante a crise sanitária. 

O resultado da desorganização, segundo Mourão, será vista no relatório final da CPI, que é quando os senadores preparam o documento com as conclusões das investigações feitas na comissão. 

Relação com Bolsonaro 

Além da CPI da Covid, o vice-presidente também falou da sua relação com o presidente e admitiu que é pouco provável uma chapa nas eleições presidenciais de 2022. 

Leia também: Arthur Weintraub nega organização de gabinete paralelo: “fazia contatos e trazia informações”

“Tudo indica que o presidente vai escolher outra pessoa (a vice) para sua candidatura a reeleição. Então, eu tenho dois caminhos a seguir. Um é eu cumprir o meu mandato até o último dia e cumprindo a missão que a população me deu. O outro, caso eu entenda, seria a candidatura ao senado”, revelou o vice-presidente. 

Um dos principais motivos para ele não continuar sua parceria com Bolsonaro é a visão de mundo de cada. De acordo com Mourão, os dois tem trajetórias muito diferentes. Enquanto ele foi do exército por quase toda a vida, o presidente foi político a maior parte do tempo. Por isso, ele encontram soluções diferentes para o mesmo problema.

Por TV Cultura

Senador diz que Governo Bolsonaro ignorou 53 e-mails da Pfizer

Randolfe Rodrigues (Rede-AP), senador (Leopoldo Silva/Agência Senado)

Randolfe Rodrigues, senador e atualmente vice-presidente da CPI da Covid, revelou em sua conta do Twitter, nesta sexta-feira (4), que o governo federal ignorou mais de 50 e-mails da Pfizer, empresa farmacêutica multinacional que produz vacinas contra a Covid-19. 

“CINQUENTA E TRÊS! Na investigação que estamos fazendo na CPI da Pandemia descobrimos que na verdade, foram 53 e-mails da Pfizer queficaram sem respostas”, escreveu Rodrigues.

Segundo suas postagens, o último contato, no início de dezembro, mostrava que a empresa estava desesperada para obter alguma resposta e informações do governo para que doses da vacina contra a Covid-19 fossem enviadas ao Brasil. Randolfe relatou ainda que enquanto os e-mails eram ignorados, o Itamaraty estava pressionando a Índia para que cargas de hidroxicloroquina fossem liberadas a uma empresa brasileira.

“A atuação do Ministério das Relações Exteriores se assemelha, claramente, à advocacia administrativa, em outras palavras: LOBBY! É isso mesmo, o Governo Brasileiro fazendo Lobby para uma empresa. Isso é CRIME de acordo com o Artigo 321 do Código Penal!”, termina.

Por TV Cultura

Infectologista diz à CPI que debate sobre cloroquina é “delirante”

Luana Araújo, médica infectologista (Leopoldo Silva/Agência Senado)

A CPI da Pandemia no Senado ouviu nesta quarta-feira (02/06) a médica infectologista Luana Araújo, que trabalhou por dez dias no Ministério da Saúde para elaborar uma estratégia de enfrentamento da pandemia de covid-19 e saiu do governo ao ter sua nomeação barrada.

Araújo havia sido anunciada em 12 de maio pelo ministro da Saúde Marcelo Queiroga como secretária extraordinária de enfrentamento à pandemia e atuou por breve período na pasta, mas não chegou a ser nomeada. Em 22 de maio, o ministério divulgou nota informando que ela não exerceria a função.

Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e mestre pela Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, Araújo é contra o uso da cloroquina e outros medicamentos sem eficácia comprovada no tratamento da covid-19 e defende o isolamento social e o uso de máscaras, posições diversas da do presidente Jair Bolsonaro, que promoveu a cloroquina em diversas ocasiões, é contra o isolamento social e questiona o uso de máscaras.

Após recuar da nomeação de Araújo, Queiroga disse que não tinha recebido pressão do Palácio do Planalto contra o nome dela e que buscaria outro especialista “técnico e baseado em evidências científicas” para o cargo. Alguns dias depois, porém, ele reconheceu que havia faltado “validação política” para a nomeação da médica.

Ao longo de seu depoimento, Araújo não fez críticas a Queiroga e disse que ele estaria empenhado em buscar soluções para a pandemia.

Passagem relâmpago pelo governo

Araújo afirmou que, antes de assumir o cargo, pediu a Queiroga autonomia para assumir a secretaria e avisou que basearia suas decisões na ciência, e que não foi informada por qual motivo o governo decidiu não nomeá-la.

“Pleiteei autonomia, não subordinação ou anarquia, mas para atingir objetivos precisaria ter autonomia necessária para agir (…) Explicitei a ele, aceitaria o convite para essa posição se me fossem garantidas a autonomia necessária e sempre, sempre fossem respeitadas a cientificidade e tecnicidade”, afirmou.

Araújo disse que ouviu de Queiroga apenas que seu nome “não passaria” pela análise da Casa Civil. “Ele [Queiroga] me disse isso. Que lamentava, mas que o meu nome não ia passar pela Casa Civil. (…) Me chamou ao final e disse que lamentava, mas que a minha nomeação não sairia e que meu nome não teria sido aprovado”.

Ela afirmou aos senadores que, nesses dez dias na pasta, trabalhou normalmente e não recebeu “nenhum centavo” por esse período.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro tomou diversas decisões para que o Ministério da Saúde permanecesse alinhado às suas preferências. O ex-ministro Nelson Teich, que ficou apenas 29 dias na pasta, era contra o uso de cloroquina no tratamento de covid-19 e deixou o cargo por não possuir autonomia suficiente para tomar decisões que achava necessárias. O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta caiu do cargo por motivo semelhante.

Em seu depoimento à CPI, Queiroga disse que havia recebido autonomia de Bolsonaro para montar sua equipe “conforme critérios técnicos” e que a gestão da pasta era “autônoma”. O ministro prestará um novo depoimento à CPI da Pandemia em 8 de junho e deverá ser questionado sobre o tema. Os senadores querem saber se Queiroga teria mentido ao dizer que tinha autonomia para montar a sua equipe.

Debate sobre cloroquina é “delirante”

Araújo reforçou em diversos momentos a importância do método científico para embasar a tomada de decisões sobre o uso de medicamentos e a formulação de políticas públicas.

“Ciência não tem lado. Ciência é bem ou mal feita. Ciência é ferramenta de produção e conhecimento para servir a população priorizando a vida e a qualidade de vida”, disse.

Ela afirmou que o atual debate sobre o uso de cloroquina e de um pretenso “tratamento precoce” sem eficácia comprovada, tema de diversos momentos da CPI da Pandemia, é algo “delirante”. ‘

O uso da cloroquina ocupou boa parte do depoimento desta terça da CPI, da médica Nise Yamaguchi , e o de Mayra Pinheiro, em 25 de maio, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde e conhecida como “capitã cloroquina”.

“Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. (…) “Todos nós somos a favor de uma terapia precoce que exista. Mas se ela não existe, não pode ser tornada saúde pública. Tratamento precoce é estupidez.  É como se a gente estivesse escolhendo de que lado da borda da terra plana a gente vai pular”, afirmou Araújo, que classificou a defesa do chamado “tratamento precoce” como um “iluminismo às avessas”. “Autonomia médica faz parte da nossa prática, mas não é licença para experimentação”, frisou.

“Falta informação de qualidade”.

Ela afirmou que a estratégia de combate à pandemia no Brasil precisa melhorar a comunicação pública sobre distanciamento social, o uso da máscara e a transmissão do vírus e implementar um programa de testagem em massa para identificar e rastrear as transmissões – tema ao qual ela se dedicou na sua passagem pelo governo.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, exibiu um vídeo com diversas declarações feitas por Bolsonaro que minimizavam a pandemia, como as que o presidente usou o termo “gripezinha” para se referir à covid-19, ou de que a doença era uma “chuva que vai atingir você”, e perguntou a ela qual era a sua avaliação.

Araújo respondeu que era impossível, para quem trabalha com saúde pública, não sofrer um “impacto” diante desse tipo de fala. “Não é possível ouvir um conjunto de declarações, de quem quer que seja (…) sem sofrer um impacto quase que emocional, além do racional. A mim, como médica, infectologista, educadora em saúde, isso me suscita a ideia de que eu preciso trabalhar mais, que preciso informar melhor as pessoas, pois me parece que falta informação de qualidade”, disse. “É uma situação muito complexa e triste.”

Por Deutsche Welle

bl (ots)

Dimas Covas diz à CPI que Bolsonaro foi entrave a vacina

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, durante depoimento na CPI da covid-19
(Jefferson Rudy/Agência Senado)

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse nesta quinta-feira (27) em seu depoimento à CPI da Pandemia no Senado que o Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a iniciar a vacinação contra a covid-19. Segundo ele, entretanto, isso não aconteceu por entraves para fechamento do contrato entre o instituto e o governo federal.

O Instituto Butantan produz no Brasil a vacina CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac e que é atualmente o imunizante contra coronavírus que mais foi aplicado no Brasil.

A CoronaVac foi alvo de intensa disputa política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria. O Butantan é ligado ao governo paulista. Bolsonaro atacou o inoculante diversas vezes em 2020, chegando a afirmar que seu governo não o compraria. O presidente chegou até a comemorar a suspensão de testes clínicos da vacina, que foram posteriormente retomados

Em seu discurso de abertura, Covas afirmou que o Butantan ofereceu 60 milhões de doses da CoronaVac ao Ministério da Saúde em julho 2020, mas que não obteve resposta, tendo feito uma nova oferta de 100 milhões de doses, com possível de entrega de 45 milhões até o final de 2020.

Conversas param após fala de Bolsonaro

Covas lembrou uma reunião em outubro com o então ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Na ocasião, o ministro anunciou que compraria doses da CoronaVac. O diretor do Instituto Butantan disse que as conversas não prosseguiram porque houve uma manifestação do presidente Jair Bolsonaro.

Um dia após o Ministério da Saúde afirmar que compraria 46 milhões milhões de doses da vacina produzida pelo Butantan, Bolsonaro desautorizou publicamente Pazuello e disse que a compra não seria realizada. Covas rebateu  declaração de Pazuello de que as ações de Bolsonaro em 19 de outubro contra a compra não teriam tido impacto na negociação.

“Após o dia 20 de outubro, isso foi absolutamente interrompido. De fato, nunca recebi um ofício dizendo que a intenção de compra feita no dia 19 [de outubro] não era mais válida, mas, na prática, não houve consequência. A consequência foi no dia 7 de janeiro, e mesmo assim em detrimento de outras iniciativas que não eram certo. A houve a tentativa de trazer vacina da Índia, que não foi bem sucedida. Houve a dificuldade da própria AstraZeneca [que produz vacina em parceria com a Fiocruz]. Naquele momento, a única vacina disponível era a do Butantan”, disse Covas.

Dimas Covas disse que a demora em um acordo contratual com o governo federal causou “frustração”, já que o governo federal é o único cliente do Instituto Butantan. O contrato para compra do imunizante acabou sendo firmado em janeiro de 2021, seis meses depois que o Butantan fez a primeira oferta.

“Óbvio que isso causa uma frustração da nossa parte. Voltamos ao Butantan e continuamos o projeto. Mas aí já com algumas dificuldades. A inexistência de um contrato com o ministério, que é nosso único cliente, colocava uma incerteza em termos de financiamento. E já tínhamos contratado com a Sinovac uma parte importante do projeto”, afirmou o diretor do Butantan.

“Butantan tinha 5,5 milhões de doses em dezembro” 

“O mundo começou a vacinar no dia 8 de dezembro. No final de dezembro, o mundo tinha aplicado mais de 4 milhões de doses, e tínhamos no Butantan 5,5 milhões, e mais 4 milhões em processamento. Sem contrato com o ministério” disse Dimas Covas. “Nos podíamos ter começando antes? O Brasil poderia ter sido o primeiro pais do mundo a iniciar a vacinação, se não fossem esses percalços, tanto contratuais como de regulamentação”, completou.

Dimas Covas disse também que o Instituto Butantan pediu apoio ao governo federal em julho para financiar testes de vacina e reformar uma fábrica, mas também ficou sem resposta. Ele ressaltou que o Butantan financiou sozinho o desenvolvimento do imunizante até outubro.

Por Deutsche Welle

md (ots)