Feridos na invasão ao Capitólio, policiais processam Trump

(Bryan Myhr/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

Dois policiais que trabalham no Capitólio abriram um processo contra o ex-presidente Donald Trump nesta terça-feira (30/03), por incitar a invasão à sede do Congresso americano, em 6 de janeiro. Ambos alegam que tiveram ferimentos “físicos e emocionais” durante o ataque, que culminou com a morte de cinco pessoas, entre elas um policial.

James Blassingame e Sidney Hemby pedem uma indenização de, ao menos, 75 mil dólares cada um.

“Os insurgentes foram incitados pelo comportamento de Trump, que por vários meses fez seus seguidores acreditarem que ele estava prestes a ser removido à força da Casa Branca por fraude eleitoral em massa”, diz o processo movido na corte federal em Washington.

“A turba de insurgentes que Trump inflamou, encorajou, estimulou, dirigiu e incitou, entrou à força e passou por cima dos demandantes e seus colegas, perseguindo-os e atacando-os”, afirma o documento.

Blassingame, um afroamericano que trabalha há 17 anos no Capitólio, disse que teve ferimentos na cabeça e nas costas e sofre emocionalmente com o evento. Ele também alega ter sofrido ataques racistas pelos simpatizantes de Trump.

Hemby, que trabalha há 11 anos no local, teve ferimentos nas mãos e nos joelhos, depois de ser esmagado contra as portas do prédio e foi borrifado no rosto e no corpo com spray químico. “O oficial Hemby normalmente tem uma atitude calma, mas tem lutado para controlar as consequências emocionais de ser atacado implacavelmente”, diz o processo, que compila vários exemplos de ocasiões em que Trump encorajou a insurreição.

Na época, o ex-presidente negou responsabilidade pelos distúrbios.

O processo também afirma que Trump alimentou a violência durante a campanha presidencial de 2020, vencida pelo democrata Joe Biden, e disseminou a falsa afirmação de que a eleição havia sido fraudada.

“Durante sua campanha de 2016, e durante sua presidência, Trump ameaçou usar violência contra seus oponentes, encorajou seus seguidores a cometer atos de violência e tolerou atos de violência por parte de seus seguidores, incluindo supremacistas brancos e grupos de ódio de extrema direita”, diz o documento.

O processo também cita momentos em que Trump incentivou seus apoiadores a marcharem até o Capitólio, incluindo um tweet de 19 de dezembro: “Grande protesto em DC em 6 de janeiro. Esteja lá, será selvagem”.

“O tweet de Trump em 19 de dezembro sobre o comício de 6 de janeiro foi considerado por muitos de seus apoiadores como um apelo literal às armas”, consta no processo.

Em 6 de janeiro, apoiadores de Trump descontentes com a vitória de Biden invadiram o Capitólio durante a sessão conjunta do Congresso que certificaria a vitória do democrata nas eleições presidenciais, forçando a saída abrupta de parlamentares e a interrupção da cerimônia.

Militantes que defendem Trump conseguiram romper diversas barreiras erguidas pela polícia, invadiram o prédio do Congresso e foram vistos em diversos locais do edifício. Um dos manifestantes sentou-se na cadeira da presidência do Senado e passou a gritar “Trump venceu essa eleição!”

Por incentivar a insurreição, Trump sofreu um processo de impeachment. No entanto, ele foi absolvido no Senado

Por Deutsche Welle
le (reuters, afp)

Banido do Twitter, Trump vai criar a própria rede social, diz assessor

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, banido do Twitter desde janeiro, pode regressar às redes sociais “com a sua própria plataforma”. A afirmação foi feita neste domingo (21/03) por um ex-assessor do antigo chefe de Estado americano.

“Penso que vamos ver o presidente Trump de volta às redes sociais provavelmente daqui a dois ou três meses, com a sua própria plataforma”, afirmou Jason Miller à emissora de televisão Fox News.

O ex-assessor de Trump não deu mais informações sobre a plataforma, adiantando apenas que estão sendo realizadas várias reuniões em Mar-a-Lago, residência do milionário na Flórida. “Não há apenas uma empresa que contactou o presidente, há várias”, completou Miller, acrescentando que “esta nova plataforma será qualquer coisa de grande e vai atrair milhões e milhões de assinantes”.

O Twitter, principal meio de comunicação de Trump durante seu mandato, baniu a conta @realDonaldTrump, com seus 88 milhões de seguidores, após o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro. Na ocasião, o então presidente foi acusado de insuflar seus apoiadores a invadirem a sede do Congresso americano, que ratificava a vitória do candidato democrata Joe Biden nas eleições presidenciais de novembro.

Trump, que deixou a Casa Branca em 20 de janeiro, foi também banido de forma temporária ou definitiva da maioria das outras grandes redes sociais ou plataformas da internet, como o Facebook, Instagram, Youtube e Snapchat.

Há especulações de que o ex-presidente pode tentar criar sua própria rede de TV, mas Miller garantiu que a mídia social é o alvo imediato do republicano. “O presidente está fora da mídia social há um tempo”, disse. “Mas seus comunicados à imprensa, suas declarações, têm recebido mais atenção do que ele jamais teve no Twitter antes.”

Por Deutsche Welle

md/ek (Lusa, ots)

EUA pressionaram Brasil a não comprar Sputnik V, diz relatório do governo Trump

(Arquivo/Alan Santos/PR)

Os Estados Unidos teriam persuadido o Brasil durante a gestão de Donald Trump a não comprar a vacina contra a covid-19 Sputnik V. A informação está em um documento do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS, na sigla em inglês), publicado em 17 de janeiro, três dias antes da posse do presidente Joe Biden.

No entanto, não há detalhes de como essa “persuasão” teria sido exercida sobre o governo de Jair Bolsonaro.

O documento é um balanço sobre as atividades do departamento em 2020. Em uma parte do texto, que aborda como “combater as influências malignas nas Américas”, o Escritório de Assuntos Globais (OGA, na sigla em inglês) do HHS diz que “usou as relações diplomáticas na região para mitigar os esforços” de Cuba, Venezuela e Rússia, “que estão trabalhando para aumentar sua influência na região em detrimento da segurança dos Estados Unidos”. O trecho está assinado pelo então secretário de Saúde Alex Azar. Os países citados eram constantes alvos de ataque do governo Trump.

“O OGA coordenou esforços com outras agências governamentais dos EUA para fortalecer os laços diplomáticos e oferecer serviços técnicos e assistência humanitária para dissuadir os países da região de aceitar ajuda desses estados mal-intencionados”, diz o relatório.

Nesta segunda-feira (15/03), o perfil oficial da Sputnik V no Twitter criticou o documento. “Os esforços para minar as vacinas são antiéticos e estão custando vidas”, diz a postagem.

Na sexta-feira passada, diante da escassez de vacinas e da lenta vacinação no Brasil, o Ministério da Saúde anunciou a compra de 10 milhões de doses da Sputnik V. Até abril, o Brasil deve receber 400 mil doses – o restante deve chegar até junho.

Também na sexta-feira, o Consórcio de estados do nordeste anunciou que negocia com a Rússia a compra de 39 milhões de doses da vacina, que ainda não tem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

De acordo com estudo divulgado na revista médica The Lancet em fevereiro, a Sputnik V tem eficácia de 91,6% para evitar casos sintomáticos de covid-19. 

Na semana passada, o chefe da Comissão Permanente de Vacinação da Alemanha, Thomas Mertens, elogiou a Sputnik V e disse confiar na aprovação dela pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

“É uma boa vacina, que provavelmente será em breve aprovada também na União Europeia”, declarou ao jornal alemão Rheinische Post. “Os pesquisadores russos têm muita experiência com vacinas. A Sputnik V é construída de forma inteligente”, acrescentou.

Vários países já estão utilizando a vacina russa, entre eles a Argentina. 

Por Deutsche Welle

le (ots)

Republicanos propõem adiar julgamento de impeachment de Trump no Senado

O líder republicano no Senado dos Estados Unidos, Mitch McConnell, sugeriu nesta quinta-feira (21/01) que o julgamento de impeachment do ex-presidente Donald Trump seja iniciado apenas em meados de fevereiro na casa parlamentar. Segundo ele, isso possibilitaria que todos os partidos tivessem tempo para se preparar para o julgamento e que o ex-presidente pudesse organizar sua defesa. O pedido foi enviado ao líder democrata no Senado, Chuck Schumer, que recusou a

Em 13 de janeiro, a Câmara dos Representantesaprovou a abertura de um novo processo de impeachment de Trump, desta vez por “incitação a insurreição”, por causa do episódio que culminou com ainvasão do Capitólio quando o Congresso realizava a sessão para certificar a vitória do presidente Joe Biden na eleição presidencial de novembro. Cinco pessoas morreram, entre elas um policial.

Biden assumiu o poder nesta quarta-feira. No entanto, mesmo longe do cargo de presidente, se condenado, Trump pode sofrer outras punições, como a proibição de ocupar cargos públicos, o que lhe impediria de se candidatar novamente. Ele ainda pode perder privilégios reservados a ex-mandatários, como segurança, plano de saúde e aposentadoria.

McConnell propôs que a Câmara dos Representantes encaminhe formalmente suas acusações contra Trump para o Senado apenas em 28 de janeiro. A partir daí, ambas as partes teriam duas semanas para apresentar seus respectivos documentos. Só então teria início a audiência no Senado, o que ocorreria por volta da metade de fevereiro.

Democratas divididos

O adiamento divide opiniões dentro do partido democrata. Alguns parlamentares acreditam que um início mais tardio poderia beneficiar Biden, já que o Senado precisa aprovar os membros de seu gabinete e outras nomeações importantes, o que seria impossível em meio a discussões sobre impeachment.

Por outro lado, vários parlamentares democratas defendem que o capítulo Trump deva ser encerrado de vez para que Biden possa começar seu governo sem a sombra do republicano.

O poder máximo sobre a data do julgamento está nas mãos da presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, que pode desencadear o início do processo a qualquer momento, enviando ao Senado a acusação. Ela ainda não disse quando fará isso, mas afirmou que será em breve.

McConnell afirmou em que os senadores republicanos “estão fortemente unidos no princípio de que a instituição do Senado, o gabinete da presidência e o próprio ex-presidente Trump merecem um processo completo e justo, que respeite seus direitos e as sérias questões factuais, jurídicas e constitucionais em jogo”.

Embora agora os democratas controlem o Senado – com 48 cadeiras, o apoio de dois senadores independentes e o voto de minerva da vice-presidente, Kamala Harris –, eles ainda precisariam do apoio de pelo menos 17 republicanos para condenar Trump, já que são necessários dois terços dos votos. Na Câmara, dez republicanos votaram com os democratas, a favor do impeachment.

A defesa de Trump

Sem os advogados da Casa Branca para defendê-lo, como ocorreu no primeiro processo de impeachment, em 2020, aliados de Trump têm buscado advogados para essa tarefa. Membros de suas equipes jurídicas anteriores indicaram que não planejam se unir ao esforço. A senadora republicana da Carolina do Sul, Lindsey Graham, disse a colegas na quinta-feira que Trump estava em contato com o advogado Butch Bowers, que foi conselheiro de George W. Bush e de dois ex-governadores da Carolina do Sul, Nikki Haley e Mark Sanford.

Trump foi alvo de um processo de impeachment em janeiro do ano passado, que chegou a ser aprovado na Câmara, mas foi rejeitado no Senado, na época de maioria republicana. Na ocasião, o presidente foi acusado de abuso de poder e obstrução do Congresso, no escândalo que envolveu a pressão exercida por Trump no governo da Ucrânia para que as autoridades do país europeu investigassem Biden, então pré-candidato à presidência dos EUA.

Por Deutsche Welle

LE/ap/dpa/ots

Novo presidente dos EUA toma posse hoje

Joe Biden com a vice Kamala Harris (Fotos Públicas/Reprodução)

Joe Biden assume nesta quarta-feira (20) como o 46º presidente dos Estados Unidos em uma cerimônia com limitações provocadas pela pandemia do novo coronavírus e com segurança reforçada, após o ataque ao Capitólio no início do mês. Acompanhado pela vice-presidente Kamala Harris eles tomam posse às 12h (14h no horário de Brasilia). 

Devido à pandemia, a cerimônia de posse do democrata terá poucos convidados e não terá público, ao contrário do que tradicionalmente ocorre.

A equipe de transição de Biden já previa um evento limitado devido à covid-19, que nos Estados Unidos matou mais de 400 mil pessoas, mas o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro fez com que a prefeitura de Washington reforçasse a segurança da cidade. Na tarde ontem, 25 mil membros da Guarda Nacional aguardavam a chegada de Biden, mais que o dobro do efetivo de cerimônias passadas.

(Marc Loi/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

A posse de Biden e Kamala Harris não terá desfile, multidões ou baile, mas estão previstos atos virtuais e televisionados para compensar a falta de público. O atual presidente, Donald Trump, não vai comparecer à posse e será substituído pelo vice, Mike Pence.

O número de convidados será limitado. Além de congressistas e dos membros do governo, estarão presentes os ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton, acompanhados de suas esposas, e o vice-presidente Mike Pence. Segundo os organizadores, serão colocadas 200 mil bandeiras dos estados para representar aqueles que não poderão participar do ato.

Biden fará o juramento em uma Bíblia que está com sua família desde o século 19 e o padre jesuíta Leo O’Donovan, amigo de Biden, fará a oração inaugural. O juramento à bandeira será feita por uma chefe dos bombeiros de South Fulton (Geórgia) e Lady Gaga vai cantar o Hino Nacional. 

Segundo a mídia local, a poetisa Amanda Gorman lerá um poema e haverá apresentações musicais de Jennifer López e de Garth Brooks. 

Na conclusão da cerimônia, Biben fará a tradicional inspeção das tropas como novo comandante-chefe do país. O desfile até a Casa Branca, no entanto, será substituído por um desfile virtual com a participação de pessoas de todo os EUA, segundo informaram os organizadores. Já o baile foi substituído por um especial de 90 minutos apresentado pelo ator Tom Hanks com a participação de vários artistas como Justin Timberlake, Bruce Springsteen, Bon Jovi e Demi Lovato. O evento será transmitido em vários canais, além das redes sociais.

Donald Trump

Ontem (19), Donald Trump exibiu um vídeo com seu discurso de despedida, divulgado no canal da Casa Branca no YouTube. Trump disse que encerra seu mandato como 45º presidente dos EUA orgulhoso de sua gestão. “Nós fizemos o que viemos aqui para fazer – e muito mais”.

Trump desejou que a administração de Joe Biden mantenha “a América a salvo e próspera”. “Nós estendemos nossos melhores desejos e também queremos que eles tenham sorte – uma palavra muito importante.”

O presidente também falou sobre o ataque ao Capitólio. “Todos os americanos ficaram horrorizados com o ataque ao nosso Capitólio. Violência política é um ataque a tudo que celebramos como americanos. Nunca pode ser tolerada.”

Invasão do Capitólio

(Bryan Myhr/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

A vitória de Biden foi confirmada pelo Congresso norte-americano no dia 7 de janeiro. Biden teve 306 votos confirmados contra 232 para Donald Trump. 

No dia anterior, logo após o início da sessão para confirmação dos votos, o Capitólio, sede do Parlamento norte-americano, foi invadido por manifestantes, em uma ação que resultou na morte de cinco pessoas, sendo uma delas um policial, e mais de 50 detidos. A Guarda Nacional precisou intervir para que a sessão conjunta entre Câmara e Senado, que foi suspensa com a invasão, pudesse ser retomada. Washington declarou toque de recolher.

Donald Trump chegou a afirmar por meio das redes sociais que a transição desta quarta-feira será pacífica, apesar de novamente falar em fraude no processo eleitoral. No dia 13, Trump foi acusado formalmente de incitar uma insurreição contra o governo dos Estados Unidos e a Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) abriu um processo de impeachment contra presidente sete dias antes dele deixar o cargo. 

As eleições americanas ocorreram no dia 24 de outubro, mas, este ano, a disputa foi acirrada e o resultado oficial ocorreu praticamente com a confirmação do resultado pelo Congresso. Nos Estados Unidos, cada estado tem autonomia e o anúncio oficial de cada uma das unidades federativas deve ser feito até dia 14 de dezembro, quando o Colégio Eleitoral confirma um vencedor a partir da somatória do número de delegados de cada estado – que varia de 3 a 55 – são esses delegados que escolhem o vencedor do pleito. Os votos de delegados vão para o partido que receber 50% dos votos mais um.

Tradicionalmente, os principais veículos de mídia dos Estados Unidos antecipam o vencedor e, normalmente, os próprios candidatos “confiam” nesta apuração informal e “aceitam” a derrota ou “comemoram” a vitória. 

Donald Trump sustentou desde a divulgação desse resultado preliminar que houve fraude nas eleições e apresentou diversos recursos e ações judiciais para recontagem em vários estados alegando, por exemplo, que os votos enviados pelo correio estariam sujeitos a adulterações. No entanto, Trump não conseguiu nem uma vitória nos tribunais.

Internacionalmente alguns chefes de estado preferiram esperar uma definição mais clara da situação eleitoral para cumprimentar Biden, como foi o caso da China, da Rússia e do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

O comunicado de Bolsonaro ocorreu um dia depois da votação do Colégio Eleitoral que confirmou a eleição do democrata como próximo presidente norte-americano. “Estarei pronto a trabalhar com vossa excelência e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos”, disse Bolsonaro.

Relação Brasil-EUA

Para o professor Relações Internacionais da UnB, Juliano Cortinhas, a vitória de Biden nos Estados Unidos representará mais pragmatismo na relação entre os dois países e mais cobrança em relação a temas como o meio ambiente e direitos humanos.

“O pragmatismo me parece, do lado dos Estados Unidos, que será a palavra chave para a gente entender como eles vão olhar o Brasil. O Brasil está longe de ser prioridade para os Estados Unidos e vai continuar longe de ser. E certamente haverá muito mais cobranças em relação ao meio ambiente e em relação a direitos humanos.”

Para Cortinhas, o Brasil precisa fazer a “lição de casa” para mostrar ao governo Biden que é um país importante com o qual os EUA tem interesse e legitimidade para negociar. “Hoje o que eu vejo nessa relação bilateral será muito mais cobranças vindas de lá. O foco [tende a ser] nos grandes parceiros dos Estados Unidos, [como] China, União Europeia principalmente, e outros países com os quais eles têm parcerias mais estratégicas.”

Para o professor o Brasil terá um cenário diferente e bastante difícil pela frente.

Por Agência Brasil

* Com informações de agências internacionais

Posses presidenciais excepcionais na história dos EUA

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante Reunião bilateral com Donald J. Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, em Osaka – Japão (Alan Santos/Presidência da República)

Quando a voz de Lady Gaga soar durante a posse de Joe Biden nesta quarta-feira (20/01), exatamente 14 dias depois de apoiadores de Donald Trump invadirem o Capitólio, o novo presidente dos Estados Unidos poderá começar sua tarefa de reconciliar um país que se encontra dividido como há muito tempo não se via.

“O significado clássico da cerimônia de posse presidencial é a transferência de poder em uma cerimônia pacífica”, ressalta Jürgen Martschukat, especialista em história americana da Universidade de Erfurt. Mas uma olhada nos livros de história serve para destacar o quanto a situação é diferente desta vez.

Desde que George Washington se tornou o primeiro presidente dos EUA a fazer seu juramento de posse, em 30 de abril de 1789, o sinal mais visível de uma transferência pacífica de poder é a presença do líder que se despede do cargo. Mas Trump anunciou repetidamente que não vai à cerimônia.

O ritual desta quarta-feira também permitirá pouco público no sentido clássico, pois devido à pandemia de coronavírus e o medo da violência, o evento ocorrerá na maior parte virtualmente.

Posse de Jefferson sem antecessor

Na sociedade americana, a anunciada ausência de Trump traz outras poucas lembranças. No século 19, três presidentes romperam a tradição de não comparecer à posse de seu sucessor eleito.

Em 4 de março de 1801, Thomas Jefferson, acompanhado por congressistas e oficiais de uma milícia de cidadãos, entrou no prédio do Parlamento de Washington – o Capitólio ainda estava em construção – e fez seu juramento de posse ao meio-dia em ponto. A banda dos fuzileiros navais tocou. Ambos os detalhes ainda são tradição. Foi a primeira posse presidencial na capital recém-fundada e também a primeira da qual o antecessor – no caso, John Adams – não participava.

Depois viriam o filho de Adams, John Quincy Adams, em 1829, e Andrew Johnson, em 1869. A ausência de antecessores na posse presidencial ainda se repetiria algumas vezes na história americana, mas por motivos de saúde ou pela morte súbita de um presidente.

Foi o que aconteceu em 22 de novembro de 1963 às 14h38 (horário local), quando Lyndon B. Johnson fez seu juramento a bordo do avião presidencial Air Force One, no aeroporto de Dallas. Duas horas antes, o presidente John F. Kennedy havia sido assassinado. Ao lado de Johnson estava a viúva de Kennedy, Jacqueline. O sangue de seu marido ainda manchava seu traje Chanel cor-de-rosa.

“Fim do pesadelo”

Richard Nixon não estava presente quando seu vice, Gerald Ford, prestou juramento de posse em 8 de agosto de 1974 na Sala Leste da Casa Branca. Nixon havia anunciado sua renúncia em um discurso televisionado depois que ficou claro que o Congresso iria tirá-lo do poder por impeachment por causa do escândalo de Watergate. A primeira declaração pública de Ford soava otimista: “Meus queridos compatriotas, nosso longo pesadelo nacional terminou, nossa Constituição funciona”, disse.

Quase 50 anos depois e após quatro anos de gestão do republicano Donald Trump, Joe Biden poderia tomar as palavras de Ford como um exemplo. “A divisão do país, a crescente incompatibilidade dos dois partidos dos EUA, tudo isso vem se acirrando desde os anos 1970”, avalia o historiador Jürgen Martschukat, em entrevista à DW.

Ele vê Trump como o “efeito de um longo conflito latente entre os vários campos – entre a cidade e o campo, assim como entre vencedores e perdedores em um mundo cada vez mais globalizado”. Segundo Martschukat, isso é algo que foi ignorado “por muito tempo”.

Mas já houve dias em que um presidente americano assumia o cargo em meio a um país tão dilacerado quanto o atual. Foi o caso em 1869, após a Guerra Civil Americana, quando Andrew Johnson deixava a presidência e Ulysses Grant assumia. “Aquela mudança de cargo encerrou o que foi talvez a fase mais decisiva da história americana”, sublinha Martschukat. “O fato de o presidente que saía do poder não estar presente refletia a turbulência do país, como também desta vez.”

Racismo ainda divide os EUA

Antes da eclosão da Guerra Civil Americana (1861-1865), Abraham Lincoln havia declarado que não toleraria uma divisão. Em reação à eleição do oponente moderado da escravidão para presidente dos Estados Unidos, sete estados escravocratas deixaram a União no inverno de 1860/61 para formar os Estados Confederados da América. A guerra, com centenas de milhares de mortos, seguiu seu curso. Lincoln não chegaria a testemunhar a rendição dos confederados. Pouco depois de sua reeleição, ele morreu assassinado a tiros em 15 de abril de 1865.

A principal polêmica da guerra civil foi a escravidão. De fato, até hoje o racismo divide o país e, como afirma o historiador Martschukat, é “um fator central” no conflito político nos EUA. Isso, por si só, tornou Barack Obama um portador de esperança. Cerca de 1,8 milhão de pessoas foram à sua cerimônia de posse como primeiro presidente negro dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2009. Aquele evento se tornou uma demonstração do multiculturalismo dos EUA. Embora a banda de fusileiros navais tenha tocado como sempre, o que tocou o coração das pessoas foi a apresentação de Aretha Franklin. Ela cantou o hino nacional não oficial dos EUA: My country, ‘tis of thee.

É uma ode à liberdade. “Terra onde meus pais morreram”, diz a letra. “Terra do orgulho dos peregrinos, que o grito de liberdade ressoe de cada encosta da montanha!” A canção patriótica escrita por Samuel Francis Smith em 1831 lembra a maneira como os americanos se viam desde a Declaração da Independência em 1789.

“Ela fala de liberdade e busca da felicidade”, lembra Martschukat. “Essas promessas foram feitas a todos, mas desde o início houve pessoas que foram excluídas.” O historiador afirma que mulheres, afro-americanos e outras minorias tiveram que conquistar eles mesmos esses direitos. “O conflito permeia toda a história americana e chegou a um auge nos últimos anos”, ressalta. “Aquilo que une é o mesmo que separa.”

Joe Biden, Presidente eleito dos Estados Unidos, e Kamala Harris, vice-Presidente eleita (RS/via Fotos Públicas)

Para a posse do futuro presidente dos EUA, Joe Biden, e sua vice Kamala Harris nesta quarta-feira, muitas estrelas foram anunciadas. Além de Lady Gaga, a cantora e atriz Jennifer Lopez também participará. Já o ator Tom Hanks apresentará o especial de televisão Celebrating America, e uma instalação de arte deverá ser montada no parque National Mall diante do Capitólio.

Quatro anos após o anúncio de Donald Trump sobre “tornar a América grande novamente”, cabe ao presidente Biden cumprir essa promessa à sua maneira.

Por Stefan Dege, da Deutsche Welle

Biden vai manter restrição a viagens do Brasil

O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou nesta terça-feira (19/01) que vai manter as restrições de entrada no país para viajantes não americanos procedentes do Brasil e de grande parte da Europa, pouco depois de o presidente Donald Trump revogá-las.

As medidas estão em vigor desde o início do ano passado devido à pandemia do novo coronavírus. A decisão de suspender as restrições havia sido anunciada pouco antes por Trump e entraria em vigor em 26 de janeiro. Biden assume no dia 20.

“Sob conselho de nossa equipe médica, o governo Biden não planeja revogar essas restrições em 26 de janeiro. Na verdade, planejamos reforçar as medidas de saúde pública em viagens internacionais para mitigar ainda mais a disseminação da covid-19”, disse a porta-voz de Biden, Jen Psaki.

Ela argumentou que, com a pandemia se agravando, e com variantes mais contagiosas surgindo ao redor do mundo, este não seria o melhor momento para suspender as restrições às viagens internacionais.

Teste negativo de covid-19

A restrição para passageiros com embarque no espaço Schengen (que engloba vários países europeus), no Reino Unido e na Irlanda foi imposta pelos EUA em março do ano passado, e a para passageiros procedentes do Brasil, em maio. 

A regra determinou que somente americanos ou estrangeiros com residência permanente nos Estados Unidos que tivessem estado em algum dos locais afetados pela restrições nos 14 dias anteriores podiam entrar no país. 

A data escolhida por Trump, 26 de janeiro, coincide com a entrada em vigor da exigência de um teste negativo de covid-19 para todos os passageiros aéreos internacionais, incluindo cidadãos americanos, com destino aos Estados Unidos, anunciada pelos Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).

“Essa medida [teste] é o melhor caminho para continuar protegendo os americanos da covid-19 e, ao mesmo tempo, permitir uma retomada segura do tráfego aéreo”, comunicou a Casa Branca, ao justificar o fim das restrições.

Além de anunciar a suspensão das restrições para alguns países, Trump decidiu também manter a medida para passageiros vindos da China e do Irã por esses países “falharem em cooperar com as autoridades de saúde pública dos EUA e em compartilhar informações oportunas e precisas sobre a propagação do vírus”.

Os Estados Unidos são o país mais afetado pela pandemia, com mais de 24 milhões de contágios e quase 400 mil mortes por covid-19, de acordo com a contagem independente da Universidade Johns Hopkins. O combate à pandemia de covid-19 é uma das principais promessas de campanha de Biden.

Por Deutsche Welle

AS/efe/lusa/dpa

Invasores do Capitólio queriam ‘capturar e assassinar políticos’

Guardas fazem segurança da Câmara dos Representantes, o Capitólio americano (Bryan Myhr/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

Promotores de Justiça dos Estados Unidos acreditam que os apoiadores do presidente Donald Trump que invadiram o Capitólio na semana passada tinham como objetivo “capturar e assassinar políticos eleitos” durante o ataque, segundo documentos judiciais revelados nesta quinta-feira (14/01).

Com base nesta avaliação, promotores do Departamento de Justiça pediram a manutenção da prisão de Jacob Chansley, que vestia um capacete com chifres e pele de animal e carregava uma lança durante a invasão. Ele é adepto da teoria de conspiração de extrema direita QAnon.

“Há fortes evidências, incluindo as palavras e ações de Chansley no Capitólio, de que a intenção dos manifestantes era capturar e assassinar congressistas dos Estados Unidos”, escreveram os procuradores num memorado.

Os procuradores fazem ainda referência a uma nota deixada por Chansley ao vice-presidente, Mike Pence, alertando que “era só uma questão de tempo, a justiça vai chegar”.

O defensor público do extremistas não quis comentar as novas acusações. Chansley deve comparecer a um tribunal nesta sexta-feira.

A avaliação dos promotores surge no momento em que começam a fazer acusações mais graves contra os manifestantes que participaram da invasão diante da revelação de novos fatos. Entre eles estão o caso do bombeiro aposentado Robert Sanford, que bateu na cabeça de um policial com um extintor de incêndio, e de Peter Stager, que espancou um agente com um mastro de bandeira.

No caso de Chansley, os promotores afirmam que ele participação ativa na “insurreição que visava derrubar com violência o governo dos EUA” e alertam que “a insurreição continua em andamento” com mais protestos previstos para acontecer em Washington e outras cidades. Eles dizem ainda que o extremista sofre de abuso de drogas e problemas mentais.

“Chansley falou abertamente que acredita ser um alienígena, um ser superior, e que estaria na Terra para ascender a outra realidade”, revelam os promotores.

Investigação em curso

O Departamento de Justiça apresentou mais de 80casos criminais relacionados à invasão do Capitólio na semana passada, que terminou com cinco mortos. Apoiadores de Trump saquearam e destruíram diversos gabinetes, além de atacar a polícia.

A maioria dos acusados foi facilmente identificada pelo FBI, que já rastreou mais de 200 suspeitos a partir de vídeos e fotografias publicados em redes sociais.

Com o avanço das investigações, as autoridades têm recolhido provas de que alguns manifestantes desejavam matar congressistas, com a colaboração de grupos de ativistas altamente treinados.

Os procuradores descobriram a presença de vários membros atuais ou antigos das Forças Armadas dos EUA, que usaram táticas de guerrilha na invasão. Entre os elementos com este perfil mais proeminentes estão um tenente-coronel aposentado da Força Aérea e um veterano de combate condecorado do Texas, que foi detido depois de ser fotografado usando um capacete e uma armadura, segurando várias algemas que alegadamente serviriam para fazer reféns dentro do Capitólio.

Também dois polícias de uma pequena cidade do estado da Virgínia, ambos ex-soldados de infantaria, foram detidos pelo FBI, depois de terem compartilhado nas redes sociais imagens da sua atividade dentro do Capitólio.

Igualmente sob investigação está um militar da Carolina do Norte que organizou a viagem de dezenas até Washington e é suspeito de ser um dos mentores de atividades violentas dentro do Capitólio.

As imagens do ataque mostram dezenas com equipamento de estilo militar, incluindo capacetes, coletes à prova de bala, mochilas e ‘walkie talkies’, enquanto outros usaram tacos de beisebol e bandeiras pró-Trump amarradas a mastros robustos para atacar as forças de segurança.

Alguns destes elementos pertencem ao grupo de extrema-direita Proud Boys e muitos outros integram milícias que, de acordo com serviços de informação, têm se armadofortemente ao longo dos últimos anos.

Por Deutsche Welle

 CN/rtr/afp/lusa

CEO do Twitter defende banimento de Trump da rede social

O CEO da rede social Twitter, Jack Dorsey, defendeu a decisão de sua empresa de banir um de seus mais populares usuários, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Trump é acusado de insuflar seus apoiadores a invadirem o Capitólio na semana passada, naquilo que muitos consideram como uma “insurreição” ou tentativa de golpe de Estado por parte do presidente. O republicano, inclusive, se tornou o primeiro ocupante da Casa Branca a sofrer dois impeachments durante seu mandato, pela Câmara dos Representantes.

Após o ataque à sede do Congresso, Trump continuou a postar conteúdos potencialmente inflamatórios no Twitter, que, segundo afirmou Dorsey, representavam um risco à segurança pública  e criaram “circunstâncias extraordinárias e inadmissíveis” para a rede social. 

Depois de suspender temporariamente o perfil do presidente logo após a invasão do Capitólio, a plataforma decidiu na última sexta-feira bani-lo de forma permanente, além de derrubar suas tentativas de driblar a proibição ao utilizar outras contas na rede social. 

“Não comemoro e tampouco sinto orgulho de banir Donald Trump do Twitter”, afirmou Dorsey, ao expressar o posicionamento da empresa em uma série de postagens na plataforma nesta quinta-feira (14/01).

“Depois de um claro alerta de que nós iriamos agir, tomamos a decisão”, disse, antes de acrescentar que “injúrias offline como resultado de discursos online são comprovadamente reais, e é isso que orienta a nossa política”.

“Fracasso em promover diálogo saudável”

“Sinto que essa proibição resulta do nosso fracasso em promover o diálogo saudável. É hora de refletirmos sobre nossas operações e o ambiente que nos cerca”, afirmou.

Dorsey admitiu que o banimento de Trump abre um precedente perigoso, no que diz respeito ao que chamou de “poder que um indivíduo ou corporação possui sobre parte da conversa global pública”.

“Ter de adotar essa ações é algo que fragmenta o diálogo público. Elas nos dividem. Limitam o potencial para esclarecimento, redenção e aprendizado.”

“A verificação e prestação de contas sobre esse poder sempre foi o fato de que um serviço como Twitter é uma pequena parte de uma conversação pública maior que acontece na internet. Se as pessoas não concordarem com nossas regras e suas aplicações, elas podem simplesmente buscar outros serviços na internet,”, disse o CEO.

O acesso de Trump às mídias sociais, que ele utilizou como seu principal meio de comunicação durante sua presidência – com uma clara predileção pelo Twitter – foi, na maior parte, cortado após os distúrbios em Washington.

Outras plataformas como o Facebook, Instagram, Twitch e Snapchat  também o baniram, enquanto o Youtube suspendeu temporariamente a sua conta. As empresas afirmam que o presidente em fim de mandato poderia utilizá-las para incitar novos atos de violência até a posse do presidente eleito Joe Biden, no da 20 de janeiro.

Apoiadores de Trump abandonam Twitter

Nesta segunda-feira, o Twitter foi ainda mais longe e anunciou a suspensão de mais de 70 mil perfis ligados à teoria da conspiração Qanon, seguida por apoiadores de Trump. O movimento de extrema direita baseado numa teoria da conspiração segundo a qual o presidente combate secretamente uma seita mundial composta por pedófilos satanistas, a maioria deles democratas.

Desde o banimento de Trump, cada vez mais seguidores do presidente abandonam o Twitter e tentam boicotar outras gigantes da internet, como a Apple, Google e Amazon. Essas empresas fecharam o acesso à plataforma Parler. As empresas acusam a rede social utilizada por apoiadores de Trump  e grupos de direita de ser leniente demais com conteúdos de incitação à violência.

Marco Verweij, professor de Ciência Política da Universidade Jacobs, de Bremen, observa que as pessoas que acreditam na existência de um “Estado oculto” que atua contra Trump se sentem agora empoderadas pelas suspensões e banimentos.

Ele afirma que a debandada do Twitter e outros meios deve fortalecer plataformas alternativas como o Rumble, concorrente do Youtube, ou o Gab, uma rede social semelhante ao Twitter utilizada por conservadores, entre estes, o senador republicano Ted Cruz.

Por Deutsche Welle

RC/ap/afp/dw

Câmara dos EUA aprova novo impeachment de Trump

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou nesta quarta-feira (13/01) a abertura de um novo processo de impeachment contra o presidente Donald Trump. Desta vez, o republicano é acusado por “incitação a uma insurreição”.

Eram necessários 217 votos na Câmara para aprovar o impeachment. Nos debates que precederam a votação, representantes democratas afirmaram que Trump cometeu “traição” e que as ações do presidente foram uma “tentativa de golpe” e uma “ação terrorista”.

Na semana passada, o presidente instigou num discurso uma turba de apoiadores a marcharem em direção ao Capitólio, em Washington, a sede do Congresso americano, para pressionar legisladores. A ação ocorreu ao mesmo tempo que a Câmara e o Senado se reuniam para oficializar a vitória do democrata Joe Biden nas eleições presidenciais de novembro – e consequentemente a derrota de Trump no mesmo pleito.

Os procedimentos foram interrompidos quando centenas de manifestantes, entre eles neonazistas e supremacistas brancos, invadiram o prédio. Eles vandalizaram gabinetes e agrediram policiais. Cinco pessoas morreram, incluindo um agente de segurança, que foi agredido com um extintor de incêndio.

O episódio foi a conclusão de dois meses de tentativas de Trump de minar a confiança no sistema eleitoral e reverter sua derrota nas eleições presidenciais de 2020, alegando ter sido vítima de fraude, mesmo sem apresentar provas.

Segundo o pedido de impeachment, Trump “deliberadamente, fez declarações que encorajaram ações ilegais” e “continuará sendo uma ameaça à segurança nacional, à democracia e à Constituição se for autorizado a permanecer no cargo”. O documento ainda cita outras ações de Trump, como a pressão exercida sobre uma autoridade eleitoral da Geórgia, a quem Trump pediu para que “encontrasse votos” para mudar o resultado no estado.

Após o ataque ao Congresso, Trump não demonstrou arrependimento, e disse que seu discurso para apoiadores foi “totalmente apropriado”.

Processo segue para o Senado

Apesar de o processo ter sido aprovado, Trump não será afastado do cargo, como ocorre pelas regras brasileiras de impeachment. Nos EUA, o presidente só é afastado após o aval do Senado, responsável pelo julgamento do caso.

No entanto, o processo não deve ser concluído até o fim do mandato de Trump. O republicano vai deixar o cargo no dia 20 de janeiro. A ação contra o republicano está sendo encarada como uma forma de excluir Trump da política.

Se condenado, ele pode ser impedido, numa votação separada no Senado, de se candidatar novamente a cargos políticos. Ele ainda pode perder privilégios reservados a ex-mandatários, como segurança, plano de saúde e aposentadoria.

Com a votação desta quarta-feira, Trump se tornou o primeiro presidente da história dos EUA a enfrentar dois processos de impeachment. Em dezembro de 2019, a Câmara, que conta com maioria democrata, já havia votado pelo afastamento de Trump no caso conhecido como a “pressão na Ucrânia”, que envolveu manobras do presidente para intimidar o governo ucraniano a iniciar uma investigação contra o então ex-vice-presidente e agora presidente eleito Joe Biden e seu filho, Hunter, que era membro do conselho de uma empresa ucraniana. O episódio rendeu a Trump duas acusações: abuso de poder e obstrução dos poderes investigativos do Congresso.

No entanto, o processo anterior acabou sendo barrado em fevereiro de 2020 pelo Senado, que conta com maioria republicana. Apenas um senador republicano, Mitt Romney, votou contra o presidente em relação a uma das acusações.

Dúvidas sobre a postura republicana

No novo processo de impeachment aprovado nesta quarta, os democratas ainda continuam em desvantagem no Senado para condenar o presidente. São necessários dois terços dos votos dos senadores para uma condenação. Os democratas contam com 50 dos 100 senadores – e a partir de 20 de janeiro com mais o voto de minerva da vice-presidente eleita Kamala Harris, que vai ocupar paralelamente a presidência do Senado.

Ainda não se sabe como parte dos senadores republicanos vão se comportar nesse novo processo. Especialistas especulam que eles podem se sentir mais inclinados a abandonar Trump sem a pressão de uma Casa Branca republicana. Por outro lado, Trump ainda mantém uma base de apoiadores fiel e capital político, apesar do ataque ao Congresso.

Mesmo com as dúvidas sobre como os senadores republicanos vão se comportar, o cenário é bem diferente do impeachment de Trump em 2020. Há mais sinais de fissuras na bancada do partido e a imprensa americana aponta que o influente senador Mitch Mcconnell não deve se esforçar para salvar Trump desta vez.

Inicialmente, o novo processo de impeachment contra Trump foi apresentado na segunda-feira pelos democratas como forma de aumentar a pressão sobre o vice-presidente, Mike Pence, para que ele invocasse a 25ª Emenda, um dispositivo constitucional que prevê que um presidente pode ser removido do cargo sob a justificativa de incapacidade. No entanto, Pence se recusou. Dessa forma, os democratas colocaram o pedido de impeachment em votação nesta quarta-feira.

Uma pesquisa de opinião divulgada no domingo apontou que a maioria dos americanos quer que Trump deixe o cargo antes da posse de seu sucessor, em 20 de janeiro. Segundo o levantamento feito pela ABC News e o instituto Ipsos, 56% dos entrevistados disseram que o presidente deveria ser removido do posto antes do fim do mandato.

Um percentual ainda maior, 67%, enxerga Trump como responsável pela violência no Capitólio na última quarta-feira.

O impeachment nos EUA

Esta foi a quarta vez na história dos EUA que a Câmara dos EUA aprovou o impeachment de um presidente ao longo dos seus 230 anos. Em 1868, Andrew Johnson foi acusado de remover um ministro sem autorização do Senado. Em 1998, foi a vez de Bill Clinton ser acusado de perjúrio e obstrução da Justiça. Os dois, porém, foram absolvidos no Senado. Em 2019, foi a vez de Trump no caso da Ucrânia, com o processo sendo barrado depois pelo Senado.

Um quarto presidente, Richard Nixon, renunciou em 1974 pouco antes de a Câmara votar acusações de obstrução da Justiça e abuso de poder.

Por Deutsche Welle

JPS/ots