Mais da metade dos empresários nunca ouviu falar em fintechs

Danile Mello/Agência Brasil

(Antonio Cruz/Agência Brasil)

Em expansão no Brasil, as fintechs podem ajudar a reduzir as tarifas dos serviços financeiros, além de oferecer novas opções a pessoas e empresas. Apesar das possíveis facilidades, para uma parte significativa da população o tema ainda é desconhecido. Um levantamento divulgado nessa semana pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) revelou que 54,8% dos empresários ligados à entidade não tinham ouvido falar dessa modalidade de serviços financeiros.

Coordenador de um curso sobre o assunto na Fundação Getulio Vargas (FGV), o professor Marcelo Bradaschia explica que o termo pode se referir tanto a novas empresas como a inciativas dentro de empreendimentos consolidados. “São empresas ou iniciativas que trazem, muito baseadas em tecnologia, novos modelos de negócio financeiros”, ressalta.

“Na sua maioria, elas nascem muito voltadas para resolverem um problema específico. A partir daí, elas tentam fazer isso de uma forma excelente usando tecnologia”, acrescenta sobre como funcionam as fintechs.

De modo geral, essas iniciativas têm a capacidade, segundo o especialista, de crescer sem necessariamente aumentar a estrutura física na mesma proporção, tendo como base a otimização com base nas tecnologias digitais. “Como você está falando em tecnologia, muitas vezes você está falando em processos mais baratos. Você acaba trazendo um custo operacional menor do que os modelos tradicionais”, explica.

Perfis de atuação

As fintechs oferecem diversas possibilidades, como operadoras de cartões de crédito completamente digitais, empresas que gerenciam investimentos ou que fazem cotações de empréstimos no mercado. São novas opções que extrapolam as alternativas oferecidas pelos bancos ou que competem com mais foco e reduzindo custos em produtos consolidados.

Segundo pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Fintechs (ABFintech), 25% das iniciativas atuam em atividades ligadas a meios de pagamento, 21% em relação a crédito e negociação de dívidas e 8% a gestão financeira. Mais da metade (58%) desses negócios, está no estado de São Paulo.

Em geral, as iniciativas são extremamente jovens, 46% nasceram após 2016 e 51% estão no início das operações. Cerca de um terço (35%) tem faturamento de até R$ 350 mil, 21% entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões e 12% acima dessa faixa. A ABFintech tem 360 associados. Para a elaboração do estudo, foram ouvidas 224 inciativas.

Regulação

De forma a garantir o crescimento do setor com segurança, o Banco Central tem apresentado novas regulamentações sobre o tema. Em abril, foi editada uma norma que estabeleceu os termos para a atuação das fintechs no mercado de crédito, trazendo os critérios, inclusive, para o financiamento entre pessoas físicas por plataforma eletrônica.

“A gente tem visto um movimento muito positivo do regulador no sentido de entender a inovação e viabilizar, de uma forma segura e estruturada, o aumento da competitividade por meio da regulação”, destacou Bradaschia. O especialista ponderou, entretanto, que ainda existem zonas sem a mesma atenção das fintechs, como o mercado de seguros. De acordo com a pesquisa da ABFintech, 6% das inciativas atuam nesse ramo.

Expectativa do setor produtivo

No setor empresarial, há boas expectativas sobre a inovação, especialmente no mercado financeiro. “Esse movimento está vindo muito forte e, com certeza, ele vai forçar o mercado a se ajustar e melhorar a competitividade de bancos de fazer negócios, crédito e tarifas. É uma nova era para o sistema financeiro”, afirma o diretor-titular do Departamento de Micro, Pequena e Média Indústria da Fiesp, Sylvio Gomide.

O levantamento da federação mostrou que 56,1% dos industriais avaliam o atendimento relativo a crédito do mercado tradicional como insuficiente, enquanto 37,4% estão insatisfeitos com a gestão financeira oferecida pelas gestões tradicionais.

De acordo com a pesquisa, 28,5% das indústrias paulistas já buscaram crédito fora do setor bancário tradicional. No entanto, apenas 1,8% procurou fintechs. Entre os 67,2% que nunca tentaram obter outras formas de crédito além dos bancos, a principal razão, apontada por 42,4%, foi a falta de conhecimento de alternativas.

No entanto, entre os que se aventuraram no crédito de outras fontes, como fundo de investimento em direitos creditórios e fintechs, nem sempre a experiência foi tão recompensadora. Ao todo, 27,1% das indústrias acharam as tarifas maiores do que o esperado. Por outro lado, 34,6% não viram desvantagem na nova modalidade.

“O desespero do empreendedor no Brasil é tão grande em relação a taxas de juros, burocracia e acesso a crédito que, quando aparece uma novidade, a gente acha que o que está vindo é o ideal”, justificou Gomide sobre as quebras de expectativa. Mesmo assim, ele continua otimista com as inovações que chegam ao ramo financeiro. “Quanto mais fintechs aparecerem, mais elas competiram entre elas, e os custos cairão. Ainda não é o cenário ideal, mas é melhor do que antes da existência delas”, diz.

Dia do Amigo: veja sócios que fizeram da amizade sucesso nos negócios

O Brasil tem 25,4 milhões de pessoas que são donas de negócios, sendo que 4,8 milhões são empreendedores do estado de São Paulo, 19% do total, segundo o Panorama dos Pequenos Negócios do Sebrae. O levantamento não indica quantos desses empresários tocam seus negócios em sociedade, mas o Sebrae calcula que duas em cada dez empresas são administradas por mais de um familiar, sem considerar a quantidade de amigos que empreendem juntos.

Ter um amigo na administração de uma empresa pode ser positivo, mas também há riscos, como alerta o especialista em franquias e varejo, José Carlos Fugice, que enxerga “mais desvantagens do que vantagens em sociedades entre amigos”. Para ele, é preciso separar a amizade do negócio e isso nem sempre é fácil.

“Se você tem opiniões profissionais divergentes do seu amigo, pode ser que ele entenda isso como pessoal. No final do dia, todo profissional é uma pessoa, então é comum que as pessoas confundam isso”, explica.

Fugice destaca que antes de abrir a empresa é preciso definir qual vai ser o papel de cada um na sociedade e colocar tudo no papel. Assim, é possível evitar conflito na hora de tomar decisões e também cumprir com as responsabilidades dos sócios.

“É muito importante decidir o ‘border line’ para que essa relação consiga fluir de forma saudável e que, de fato, ambos consigam colher frutos bons desse empreendimento”.

O especialista também vê pontos positivos. Por ter intimidade com o sócio, o relacionamento pode ser mais flexível.

“Para ter um sócio, um valor essencial é ter confiança mútua entre eles, para que o negócio possa fluir e caminhar no sentido desejado”.

Abaixo, listamos alguns exemplos de negócios que prosperaram nas mãos de amigos.

Marcos e Pedro, da Franquia de Precatórios (Divulgação)

 

Franquia de Precatórios e Franquia Tributária

Pedro Corino é fundador da Sociedade São Paulo de Investimentos, uma das maiores empresas de compra, venda e investimentos em precatórios e direitos creditórios, mas a transformação do negócio em franquia só veio com a chegada de seu amigo e administrador, Marcos Rozzato.

Juntos, a dupla fundou a Franquia de Precatórios, rede que trabalha a compra de precatórios e já conta com mais de 130 unidades pelo país. Fato interessante nesta história é a chegada de um terceiro amigo e a criação de mais um negócio. Os dois sócios se juntaram ao advogado Cristiano Maciel Carneiro Leão e, desta união, surgiu a Franquia Tributária, que trabalha venda de precatórios e direitos creditórios a empresas.

“Trazer para dentro do ambiente corporativo a ideia que é própria da amizade é muito bom. O amigo está lá no tempo bom e no tempo ruim, que ótimo seria se toda sociedade fosse assim”, comenta Cristiano a respeito do lado bom de se trabalhar com amigos.

Corino ressalta um dos pontos de atenção no trabalho entre amigos. “Quando se trata de um assunto mais grave o lado pessoal acaba entrando. Trabalho com amigos e família, então separo bem. Após uma cobrança, um amigo pode ficar mais chateado que um funcionário, que não levaria para o lado pessoal”.

 GOU Odonto

Fundada em 2010, a GOU Odonto é uma rede de franquia odontológica que possui atualmente mais de 110 clínicas em funcionamento no país. Os serviços oferecidos vão desde tratamentos ortodônticos até estéticos, inclusive clareamentos com resultados em até três sessões, focados para as classes C e D.

Com um faturamento de R$ 50 milhões, a rede pretende abrir cerca de dez novas unidades, todas próprias, e mais 20 franquias em 2018. O negócio surgiu após Bruno Magalhães, formado em relações internacionais, notar que os consultórios de dois amigos dentistas, Paulo Sergio de Queiroz Gehrke e Celso Kasuo Minomi, tinham muitos clientes e pouca produtividade.

A união entre eles acabou com algumas premissas das clínicas tradicionais, que resultou em um novo modelo de negócio que permitiu atendimento mais rápido, sem perder a qualidade dos serviços.

Atualmente, são mais de 100 unidades da marca espalhadas pelo Brasil.

TFlow

A TFlow, rede de franquias de vestuário masculino, foi criada em 2012 por Luã Vignoli. Inicialmente, as peças eram vendidas em lojas multimarcas. Com o sucesso das vendas, Luã decidiu expandir. Sem conhecimento no mercado de franquias, procurou um grande amigo, Fernando Russo, e juntos franquiaram a marca.

Com o conhecimento comercial de Fernando e as criações de Luã, a rede fatura hoje mais de R$ 1 milhão e já vestiu celebridades como Fernando & Sorocaba; Jorge & Mateus e Matheus & Kauan.

“Trabalhar com aquilo que nos identificamos já é muito prazeroso, mas quando você chega à empresa e vê pessoas de confiança, amigos de tempos trabalhando com você, fazendo parte de todo processo, é fantástico”, conta Luã, sócio da TFlow.

SuperSeg Brasil

A SuperSeg Brasil é uma franquia especializada em segurança eletrônica que surgiu da amizade entre Heverton Guimarães e Evandro Machado. Heverton já trabalhava no ramo e Evandro tinha formação em marketing, sendo que a união dos dois permitiu a criação de uma empresa que faturou R$ 12 milhões em 2017.

“Ter um laço de amizade com o sócio lhe permite ter o dia a dia fluindo mais agradável e, de quebra, ainda ter com quem dividir as alegrias do resultado obtido”, desta Evandro.

Heverton, Evandro e Helton, sócios na SuperSeg Brasil (Léo Barrilari/Superseg)

Com a chegada de outro sócio, Helton Cézar, a rede entrou para o franchising em 2016 e já tem sete unidades em funcionamento, além de outras seis em negociação. A meta é atingir 30 lojas da SuperSeg até o final do ano, com foco nos estados do sudeste do Brasil.

“Acho que para a maior parte das sociedades as coisas acabam se confundindo, mas, se os amigos estiverem com os objetivos apontados para o mesmo alvo, só vejo vantagens”, finaliza.

Ceofood

Lançada em março de 2018, a Ceofood é uma franquia de aplicativo de delivery gastronômico focada em periferias e cidades do interior. A rede foi fundada por Kawel Lotti e Carlos Cipriano, amigos há mais de 15 anos.

Eles se conheceram ao trabalhar em outras empresas e decidiram empreender juntos.  “A amizade é tão forte que conseguimos repassar isso para o negócio e, em menos de seis meses, a Ceofood atingiu mais de 80 unidades franqueadas”, comemora Kawel.

Cada franqueado responde por uma região e tem como missão atrair restaurantes, que pagam mensalidade para estar no aplicativo. Com modelo exclusivamente home based, a franquia é ideal  para aqueles que buscam uma maior versatilidade de horários e qualidade de vida.

PremiaPão

Criada em 2015, por Raphael Mattos, Diego Castro e Pedro Machado, amigos de infância, a PremiaPão é uma rede de franquias que vende espaços publicitários em sacos de pão. “Como a gente se conhece há muito tempo, temos uma sinergia que impulsiona os negócios”.

Com mais de 250 unidades espalhadas por todo o país, a rede se destacou ao sortear prêmios por meio de aplicativos e redes sociais para quem compra pão nos estabelecimentos credenciados e leva para casa nos saquinhos da PremiaPão. Na prática, o franqueado deve buscar novas empresas para vender os espaços publicitários.