Em estudo inédito, Reino Unido vai contaminar voluntários com covid-19

Em busca de uma melhor compreensão sobre o novo coronavírus, um estudo científico britânico infectará intencionalmente voluntários com o patógeno da covid-19, anunciou nesta quarta-feira (17/02) o governo do Reino Unido, após aprovação pelo órgão do país responsável por questões éticas envolvendo ensaios clínicos.

Com isso, o Reino Unido se tornou o primeiro país do mundo a dar o aval para que voluntários sejam deliberadamente expostos à covid-19. A medida visa impulsionar a pesquisa científica sobre a doença causada pelo coronavírus Sars-Cov-2.

Os testes devem começar dentro de um mês e contar com até 90 voluntários saudáveis com idades entre 18 e 30 anos. Eles serão expostos, em um ambiente seguro e controlado, à menor quantidade do vírus necessária para causar uma infecção, conforme explicaram os cientistas responsáveis pelo projeto em comunicado.

O objetivo é descobrir como o sistema imunológico responde ao vírus e identificar os fatores que influenciam a forma como uma pessoa infectada transmite a doença. Para tornar o teste o mais seguro possível, não serão usadas novas variantes do coronavírus mais contagiosas.

“A segurança dos voluntários é primordial, o que significa que este estudo de caracterização do vírus usará inicialmente a versão do vírus que circula no Reino Unido desde março de 2020 e tem se mostrado de baixo risco em adultos jovens saudáveis”, diz o comunicado.

R$ 650 por dia para ser infectado

Os voluntários serão examinados quanto a possíveis riscos à saúde antes de serem autorizados a participar e serão mantidos em quarentena e acompanhados de perto por pelo menos 14 dias por uma equipe médica numa unidade especializada no Hospital Royal Free, em Londres.

Os participantes terão permissão para retornar às suas casas após os 14 dias iniciais apenas se exames extensivos apontarem que eles não são mais capazes de transmitir a doença. Os voluntários receberão uma compensação de cerca de 88 libras esterlinas (R$ 650) para cada dia dedicado ao estudo, que também envolverá monitoramentos periódicos por um ano.

Participam do estudo a força-tarefa de vacinas do governo britânico, o Imperial College de Londres, a Royal Free London NHS Foundation Trust – fundação ligada ao Serviço Nacional de Saúde (NHS) – e a empresa clínica hVIVO, que já conduziu estudos semelhantes.

Cientistas utilizam testes do tipo em humanos há décadas para aprender mais sobre doenças como malária, gripe, febre tifoide e cólera, e para desenvolver e aprimorar tratamentos e vacinas.

Ativistas de um grupo chamado 1Day Sonner, que tem pressionado governos em todo o mundo para realizar testes em humanos com o novo coronavírus, parabenizaram a iniciativa do Reino Unido e afirmaram que o projeto irá acelerar a pesquisa de vacinas e tratamentos contra a covid-19.

Por Deutsche Welle

pv/lf (Reuters, DPA)

Alzheimer: Cientistas brasileiros identificam células cerebrais mais vulneráveis

(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Um estudo inédito sobre a vulnerabilidade seletiva no nível dos neurônios individuais e com o mapeamento das primeiras células acometidas pela doença de Alzheimer foi publicado na revista científica Nature Neuroscience, no dia 27 de janeiro de 2021, com o título “Markers of vulnerable neurons identified in Alzheimer disease”. O trabalho foi realizado por um grupo de pesquisadores, composto por cinco brasileiros da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com cientistas da University of California San Francisco (UCSF), dos Estados Unidos.

A autora-sênior, Profa. Lea Tenenholz Grinberg, do Departamento de Patologia da FMUSP e associada ao Departamento de Neurologia da UCSF, diz que “alguns neurônios sucumbem à doença anos antes dos primeiros sintomas aparecerem, enquanto outros parecem impermeáveis à degeneração que as cerca e perduram até os estágios finais da doença. Tornou-se uma questão premente para nós entender os fatores específicos que tornam algumas células seletivamente vulneráveis à patologia de Alzheimer, enquanto outras se mostram capazes de resistir a ela por anos”.

“A crença inicial era que, uma vez que essas proteínas tóxicas associadas à doença de Alzheimer se acumulam em algum neurônio, é sempre ‘fim de jogo’ para a célula, mas nosso laboratório tem descoberto que esse não é o caso”, afirmou a Profa. Lea T. Grinberg.

Durante a pesquisa foram estudados tecidos cerebrais de pessoas que morreram em diferentes estágios da doença de Alzheimer, obtidos no Biobanco para Estudos do Envelhecimento da FMUSP e no Banco de Cérebro de Doenças Neurodegenerativas da UCSF com técnicas de análise de RNA nuclear e neuropatologia quantitativa.

“As descobertas sustentam a ideia de que o acúmulo de proteína é um impulsionador crítico de neurodegeneração, mas nem todas as células são igualmente suscetíveis. Planejamos continuar estudando os fatores de vulnerabilidade seletiva, uma abordagem nova que pode direcionar para o desenvolvimento de terapias para retardar ou prevenir a propagação do Alzheimer”, explica a Profa. Lea T. Grinberg.

Por Gov. do Estado de SP

Leia o artigo na íntegra publicado pela Nature Neuroscience em https://www.nature.com/articles/s41593-020-00764-7

Descoberta de cientistas brasileiros pode levar a remédios mais eficientes contra HIV

A descoberta de um potencial “calcanhar de aquiles” da proteína Nef, crucial na virulência do HIV e em sua capacidade de desencadear a Aids, abre caminhos para a busca de uma nova classe de medicamentos contra o vírus. Pesquisadores conseguiram demonstrar uma estrutura que liga essa proteína a outra, chamada AP-2, e cuja função é regular a entrada na célula.

Com isso, está ficando cada vez mais clara a forma como Nef consegue “burlar” os mecanismos de defesa das células humanas e, assim, permitir que o HIV avance e reduza o tempo em que os sintomas da doença possam aparecer.

No artigo Hijacking of endocytosis by HIV-1 Nef is becoming crystal clear,publicado em agosto na Nature Structural & Molecular Biology (NSMB), o doutorando Yunan Januário e o professor Luis Lamberti Pinto da Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), comentam a importância das recentes descobertas sobre essa proteína.

“Pesquisadores conseguiram obter a estrutura tridimensional entre Nef-CD4 e AP-2. Com isso, é possível ver as superfícies de contato, possibilitando outros estudos que gerem uma molécula para ocupar esse espaço e impeça o avanço dos efeitos da proteína. Essa ‘fotografia’ possibilita a busca de outras terapias anti-HIV”, explica Silva à Agência FAPESP.

Com mais de 15 anos de experiência na área, Silva foi convidado a comentar na publicação do grupo Nature o estudo Structural basis of CD4 downregulation by HIV-1 Nef, publicado na mesma edição da revista e cujo primeiro autor é a pesquisadora Yonghwa Kwon.

O painel A mostra a distribuição normal de CD4 (em verde) e MHC-I (HLA, em vermelho) em linfócitos T. O painel B mostra a mudança na distribuição dessas duas proteínas em um linfócito T que também expressa a proteína Nef do HIV. (imagem: Estela A. Pereira e Luis L. P. da Silva/FMRP-USP)

“Notavelmente, o estudo de Kwon e colaboradores mostra que Nef liga diretamente CD4 a AP-2. Também revela uma relação estrutural entre a regulação negativa de CD4 mediada por Nef e o antagonismo de Nef ao complexo principal de histocompatibilidade I (MHC-I)”, escrevem os dois brasileiros em seu artigo na NSMB.

Segundo Silva, já se sabe que Nef é fundamental para a progressão dos efeitos do HIV no desenvolvimento da Aids. Além disso, essa proteína pode continuar sendo produzida pelo organismo de pacientes em tratamento ou cujos níveis de vírus se mantenham abaixo dos detectáveis. “Isso tem sido relacionado com comorbidades da infecção. Nef é importante e não existe nenhuma droga para atacá-la”, completa o professor.

Ao longo dos últimos quase 40 anos, desde a descoberta do vírus da imunodeficiência humana como agente causador da Aids, as pesquisas vêm desvendando os intrincados mecanismos pelos quais o HIV ataca o sistema imunológico, invadindo e controlando as células. Mas até agora não foi possível bloquear diretamente a Nef, que já se mostrou uma proteína multifuncional e com intrincado sistema de funcionamento. Ela não faz parte da estrutura do HIV, mas modifica a célula para acomodar a replicação do vírus.

Atualmente, os medicamentos antirretrovirais, divididos em classes, agem no sistema imunológico do paciente, bloqueando as diferentes fases do ciclo de multiplicação do HIV, reduzindo a carga viral e até impedindo o desenvolvimento da doença.

Entre os antirretrovirais mais comuns estão, por exemplo, inibidores da transcriptase reversa (nucleosídeos e não nucleosídeos), que atuam nessa enzima para tornar defeituosa a cadeia de DNA que o vírus cria dentro da célula de defesa do organismo ou para bloquear diretamente sua multiplicação. Há também inibidores de protease e de integrase (proteína responsável pela integração do código genético do HIV ao da célula humana), além dos chamados inibidores de entrada, que bloqueiam receptores, como CCR5, e impedem o HIV de penetrar nas células de defesa.

A crescente resistência do HIV aos medicamentos atuais e os efeitos colaterais para pacientes, no entanto, têm feito com que cada vez mais se busquem novas formas de combater o vírus.

O Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) calcula que, em 2019, cerca de 38 milhões de pessoas viviam com o vírus em todo o mundo, dos quais 1,8 milhão de crianças com até 14 anos. Já o Ministério da Saúde estima que aproximadamente 866 mil brasileiros eram portadores do HIV no ano passado. Do total no mundo, 67% tinham acesso à terapia antirretroviral, segundo a Unaids.

Outras ligações

Por meio dos trabalhos com seu grupo de pesquisa na USP de Ribeirão Preto, Silva publicou no início do ano um estudo mostrando como Nef utiliza uma outra proteína celular, a AP-1G2, e o ponto entre essas duas vias. Esse trabalho teve o apoio da FAPESP.

Ao analisar os efeitos de Nef no sistema de endomembranas da célula hospedeira, o grupo descreveu os mecanismos pelos quais essa proteína utiliza uma outra, chamada AP-1G2, e manda o CD4 para os lisossomos – organelas com capacidade de degradar partículas –, retirando assim essas moléculas da superfície da célula. Essa ação de Nef facilita a saída de novos vírus da célula produtora, contribuindo para espalhar a infecção.

Isso porque o CD4 é o receptor usado pelo HIV para entrar na célula. Se ele permanece na superfície da célula produtora, esses novos vírus ficam presos e não se espalham tão facilmente. Por isso, Nef tira o CD4 da superfície da célula já infectada.

“Mostramos que há um ponto comum entre essas duas vias. Para mandar CD4 e MHC-I para o lisossomo, Nef sequestra uma terceira proteína da célula, comum às duas vias. Agora, com esse resultado, outros grupos podem mostrar a estrutura de Nef com a terceira proteína. Com isso, é possível obter um novo alvo, como foi feito com AP-2”, completa Silva.

Atualmente, o grupo de Silva trabalha em mais uma pesquisa, também com o apoio da FAPESP, cujo foco é descobrir novos alvos de Nef. “Vários ingredientes estão disponíveis. Agora tem de chegar alguém e costurar tudo isso para obter essa molécula capaz de inibir Nef”, conclui o pesquisador brasileiro.  

Por Luciana Constantino, da Agência FAPESP

Pesquisadores testam vacina genética contra zika

Aposta da ciência contemporânea, vacinas de RNA nunca foram aprovadas para uso humano. Mas há muitos pesquisadores pelo mundo debruçados sobre essa tecnologia. E um estudo publicado nesta sexta (07/08) pela revista Science Advances dá esperanças neste sentido, principalmente para o Brasil — bastante atingido pelo vírus da zika nos últimos anos.

(TV Brasil/Reprodução)

A pesquisa, realizada por um grupo de cientistas de diversas instituições americanas, conseguiu resultados efetivos com vacinas genéticas em animais — primeiro em camundongos, depois em macacos-rhesus. Com uma das duas versões desenvolvidas, o índice de proteção foi total quando os animais, 49 dias depois de serem imunizados, foram submetidos ao vírus da zika.

Um dos pesquisadores envolvidos, o biólogo molecular e bioquímico Dong Yu, diretor do setor de identificação de antígenos da unidade Estados Unidos da GSK Vaccines, afirma à DW Brasil que essa tecnologia “tem o potencial de impactar significativamente o futuro da ciência das vacinas”, por sua capacidade de provocar uma “resposta imunológica forte e sustentada” no organismo. “Os dados pré-clínicos mostram que o método é promissor”, ressalta.

Tanto os envolvidos na pesquisa quanto cientistas brasileiros consultados pela reportagem, contudo, lembram que é preciso cautela. São vacinas ainda em início de desenvolvimento — e há um longo caminho até que possam ser comprovadamente consideradas seguras e eficientes para uso humano.

“Nunca foi feita nenhuma vacina por RNA ainda porque não houve oportunidade”, comenta o o médico infectologista Celso Granato, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É verdade que se trata de uma tecnologia nova e sua vantagem, em tese, seria um desenvolvimento um pouco mais rápido. Mas vamos ver se funciona, já houve tentativas que não deram certo.”

“Em teoria, qualquer técnica para fazer vacinas pode ser aplicada para qualquer doença ou contra qualquer patógeno”, diz o médico Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina. “Tudo precisa de teste: funciona? Não funciona? É viável economicamente? É o mínimo que precisa ser respondido na hora de pensar em fazer uma potencial vacina.”

Historicamente o RNA é uma molécula bem mais difícil de trabalhar no laboratório. De acordo com Zárate-Bladés, nos anos 1990, havia uma expectativa de que todas as novas vacinas fossem genéticas, mas baseadas em DNA, “mais estável e fácil de manipular” — contudo a técnica se mostrou pouco efetiva. Isso fez com que até hoje não exista vacina do tipo para uso humano. De DNA, há algumas de uso veterinário.

Covid

Mas veio a pandemia do novo coronavírus e a corrida é mundial pela descoberta, em tempo recorde, de um imunizante capaz de fazer o planeta voltar ao normal. Dentre as pesquisas mais avançadas em desenvolver a vacina, há exemplos que usam a ideia do RNA.

Conforme explica o médico Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), a técnica consiste em fazer com o RNA mensageiro entre na célula com uma mensagem da proteína imunogênica, desencadeando sua produção e exportação para fora da célula. O sistema imunológico, consequentemente, reconheceria isso como uma proteína estranha.

“Existem várias candidatas a vacinas [contra a covid-19] sendo testadas atualmente que funcionariam assim. Dentre elas, duas das mais avançadas”, comenta ele.

No caso da vacina contra zika cujo artigo foi publicado nesta sexta, Dong Ju e sua equipe fizeram adaptações na técnica para que o RNA se autoamplificasse. Esse foi o pulo do gato para que a imunização, ao menos nos testes com animais, fosse eficaz. Ele reconhece que em condições normais o desenvolvimento de uma vacina deve levar anos. Mas acha que as pesquisas urgentes que vêm sendo realizadas por conta do coronavírus podem ajudá-lo.

“Temos esperança de que a aceleração da tecnologia, por meio do processo colaborativo [com os pesquisadores de coronavírus], possa impactar os prazos de desenvolvimento de potenciais vacinas baseadas em RNA”, afirma o biólogo. “Mas isso precisa ser analisado à medida que formos acompanhando o progresso feito com as vacinas contra covid-19.”

Brasil

Depois do boom entre 2015 e 2016, os casos de zika no Brasil caíram significativamente. Se ao longo de 2016 foram registrados 215 mil infectados pelo vírus no país, nos primeiros seis meses de 2020 os dados do Ministério da Saúde indicam apenas 5 mil.

Não há uma explicação clara para o fenômeno. Segundo Granato, as hipóteses são de que o zika “perdeu na competição com outros vírus, como o da dengue, que segue firme e forte”; que a infecção tenha se tornado mais branda, do ponto de vista clínico; ou, menos provável para o médico, que nos locais onde o vírus teve mais impacto “a população de suscetíveis saturou”.

Se por um lado os dados indicam um bom cenário, por outro isso dificultaria a aprovação de uma vacina definitiva. Isto porque a fase 3 dos testes de um imunizante, segundo os protocolos, são os testes em massa. “O grande problema de uma vacina contra zika hoje é que não se pode chegar a essa fase, porque ela exige a doença ativa”, diz Kalil.

Isso não significa, de forma alguma, a interrupção das pesquisas. Conforme explica o médico, o melhor a ser feito é evoluir nas fases anteriores a essa final, deixando as vacinas “prontas”. “Então, se por acaso vier a começar algum novo surto de zika em qualquer lugar do mundo, é possível testá-la”, explica.

Por Edison Veiga

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Droga contra o zika previne microcelafia em camundongos

Um grupo internacional de pesquisadores descobriu que a inibição de uma proteína chamada AhR (receptor para aril hidrocarboneto) permite ao sistema imune combater com muito mais eficácia a replicação do vírus zika no organismo. Em experimentos feitos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), a terapia antiviral se mostrou capaz de prevenir o desenvolvimento de microcefalia e outras malformações em fetos de camundongos cujas mães foram infectadas durante a gestação.

Os resultados da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(Fapesp), foram divulgados nesta segunda-feira (20) na revista Nature Neuroscience.

“Usamos nos testes uma droga experimental capaz de inibir a AhR e observamos diminuição na replicação tanto do zika como do vírus da dengue. Agora pretendemos testar o efeito da terapia contra o novo coronavírus”, conta à Agência Fapesp o professor do ICB Jean Pierre Peron, que coordenou a investigação ao lado dos pesquisadores Cybele Garcia (Universidad de Buenos Aires, na Argentina) e Francisco Quintana (Harvard Medical School, nos Estados Unidos).

Modelo experimental

O modelo experimental usado no trabalho foi o mesmo que permitiu ao grupo de Peron comprovar, em 2016, a relação causal entre o zika e a microcefalia. Naquela ocasião, fêmeas de camundongo da linhagem SJL – bem mais suscetível à infecção do que outras normalmente usadas em laboratório – foram infectadas com o vírus entre o 10º e o 12º dia de gestação.

Quando os filhotes nasceram, os pesquisadores notaram uma redução significativa na espessura do córtex cerebral, além de alterações na quantidade e na morfologia das células neuronais. Observaram ainda que o vírus estava se replicando na placenta e no cérebro dos roedores recém-nascidos em quantidades muito maiores do que em outros órgãos.

“Repetimos agora esse experimento, mas com uma diferença. Pouco antes de infectar as fêmeas prenhas com o zika nós começamos a administrar o inibidor de AhR. O tratamento foi feito por via oral até o fim da gestação. Ao nascerem, os filhotes apresentaram cérebros com tamanho e peso normais e uma carga viral muito mais baixa que a do grupo não tratado, quase indetectável, tanto na placenta como no sistema nervoso central. Além disso, análises histopatológicas mostraram que não houve redução na espessura do córtex e que o número de células nervosas mortas pelo vírus foi muito menor”, relata Peron.

Segundo o pesquisador, os camundongos tratados com o inibidor de AhR não apresentaram efeitos adversos. Antes de se pensar em testes com humanos, porém, ele considera necessário replicar o experimento em macacos.

A pesquisa levou quatro anos para ser concluída e contou com a participação das doutorandas do ICB-USP Nagela Zanluqui e Carolina Polonio, ambas bolsistas da Fapesp.

Início

O laboratório coordenado por Quintana em Harvard é um dos principais centros mundiais de estudo da proteína AhR. Em entrevista à Agência Fapesp, o professor de neurologia conta que seu grupo descobriu há alguns anos que proteínas do tipo interferon, secretadas por células do sistema imune, controlam a ativação desse receptor celular.

“Como os interferons são moléculas centrais na resposta imune antiviral, postulamos – em conjunto com o grupo de Garcia – que a AhR poderia estar envolvida na supressão da imunidade contra vírus. Projetamos terapias anti-AhR e geramos nanopartículas e inibidores para uso nos experimentos”, diz.

Testes feitos in vitro e in vivo confirmaram que o vírus ativa a proteína AhR para suprimir a resposta imune do hospedeiro. Tal feito possivelmente ocorre quando o patógeno infecta o fígado e induz a liberação do metabólito quinurenina, um subproduto do aminoácido triptofano.

“Esse metabólito ativa a AhR que, por sua vez, inibe a expressão de uma outra proteína chamada PML [proteína leucemia promielocítica, muito importante para a resposta imune antiviral], permitindo que o zika se replique mais livremente nas células”, explica Peron.

Na Universidad de Buenos Aires, Cybele Garcia coordenou experimentos em diversos tipos de linhagens celulares, entre elas hepatócitos e progenitoras neurais – um tipo de célula-tronco que pode se diferenciar em neurônios.

“Tratamos as linhagens celulares com compostos agonistas de AhR [que amplificam a ação da proteína] e também com antagonistas [que inibem]. Confirmamos assim que a modulação negativa desse receptor inibe a replicação do zika. Do mesmo modo, comprovamos que a modulação positiva aumenta a replicação viral nas células”, conta.

Fatores ambientais

Como ressalta a virologista da Universidad de Buenos Aires, o impacto causado pela epidemia de zika em 2015 foi bastante assimétrico. Em determinadas regiões e cidades, a incidência de síndrome congênita e microcefalia causada pelo vírus foi muito maior do que em outras.

Na avaliação da pesquisadora, isso pode indicar que nesses locais afetados com mais gravidade existia uma condição ambiental que favorecia a infecção ou então que aquelas populações eram mais suscetíveis. Os dois fatores também podem ter contribuído simultaneamente para aumentar o impacto do vírus.

“Coincidentemente, a AhR pode ser ativada por poluentes ambientais, bem como por uma certa dieta ou pela microbiota endógena. Nosso próximo desafio é descartar ou confirmar se existe uma relação entre a AhR, ambientes poluídos ou degradados socioeconomicamente e uma maior virulência do zika”, conta Garcia à Agência Fapesp.

O artigo (em inglês) pode ser lido em www.nature.com/articles/s41593-020-0664-0.

*com informações do Governo do Estado de SP

Estudo inédito encontra Coronavírus no esgoto

(Arquivo/Carolina Gonçalves/Agência Brasil)

Pesquisa inédita identificou a presença do novo coronavírus no esgoto despejado no Ribeirão Arrudas e no Ribeirão do Onça, nos municípios de Belo Horizonte e de Contagem, em Minas Gerais. Conforme coletas realizadas entre 13 a 24 de abril, o vírus causador do covid-19 foi encontrado em oito de 26 amostras examinadas, equivalente a 31%.

Das oito amostras positivas para o novo coronavírus, três foram coletadas na sub-bacia do Ribeirão Arrudas e cinco na sub-bacia do Ribeirão do Onça.

Não há evidências científicas de que a doença possa ser transmitida por água atingida pelo esgoto. O monitoramento fornece, no entanto, informação estratégica para os gestores da saúde pública sobre as áreas e regiões com risco de maior incidência de transmissão

A pesquisa terá duração de dez meses e envolve o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (UFMG), a Agência Nacional de Águas (ANA), o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).

Antiviral acelera recuperação de doentes com Covid-19

Os resultados de um ensaio clínico nos Estados Unidos (EUA), divulgados nessa quarta-feira (29), mostram que os pacientes que foram medicados com Remdesivir apresentaram recuperação mais rápida da infecção pelo novo coronavírus. A Administração Federal de Alimentos e Medicamentos estuda editar uma autorização de emergência para o uso desse fármaco.

O ensaio clínico, conduzido pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, estudou mais de mil pacientes gravemente infectados com o novo coronavírus em 75 hospitais em todo o mundo e concluiu que os doentes que foram tratados com Remdesivir apresentaram recuperação 31% mais rápida do que aqueles que apenas receberam um placebo.

O tempo de recuperação com Remdesivir – o antiviral desenvolvido contra o ébola – diminui de 15 para 11 dias. Os cientistas também sugerem que o medicamente pode ter influência na sobrevivência.
Segundo o estudo, no grupo de pessoas que recebeu a medicação, 8% morreram, menos 3% do que aqueles que receberam um placebo. Ainda não foi encontrada uma cura para a covid-19 e, por isso, o Remdesivir – produzido pela farmacêutica norte-americana Gilead – poderá ser utilizado para ajudar em melhor e mais rápida recuperação.

Em comunicado, a Gilead Sciences disse ter “conhecimento dos dados positivos emergentes do estudo do Instituto Nacional das Alergias e Doenças Infecciosas” e que “o ensaio cumpriu os seus objetivos principais”.

Para o diretor do Instituto de Doenças Infecciosas, Anthony Fauci, os dados mostram que o Remdesivir tem efeito claro, significativo e positivo em diminuir o tempo de recuperação. Ele falou na Casa Branca, ao lado do presidente norte-americano, Donald Trump. Fauci considera que foi comprovado que um medicamente pode bloquear esse vírus”. “Esse será o padrão de tratamento”, afirmou.

Os especialistas também concordam que os resultados trazem esperança no combate à pandemia. “Esses resultados são realmente promissores. Eles mostram que esse medicamente pode melhorar claramente o tempo de recuperação”, disse o professor e diretor da Unidade de Ensaios Clínicos da Universidade de Londres, Mahesh Parmar, citado pelo jornal The Guardian.

O professor lembrou, no entanto, que é necessário garantir certos aspectos antes de disponibilizar amplamente o remédio.

“Os dados precisam ser revistos por entidades reguladoras, que avaliem se o medicamento pode ser licenciado e, em seguida, analisados pelas autoridades de saúde de vários países. Enquanto isso estiver sendo processado, obteremos mais dados a longo prazo desse e de outros estudos”.

Autorização de emergência

Na sequência dos resultados positivos, a Administração Federal de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) pretende emitir autorização de emergência para o fármaco Remdesivir. De acordo com o jornal The New York Times, essa autorização pode ser dada na próxima semana.

Em declarações à CNN, a FDA disse estar em negociações com a Gilead Sciences sobre a disponibilização do medicamento aos pacientes:

“Como parte do compromisso da FDA em acelerar o desenvolvimento e a disponibilidade de possíveis tratamentos para a covid-19, a agência tem estado envolvida em discussões com a Gilead Sciences a respeito da disponibilização do Remdesivir aos pacientes o mais rápido possível, conforme apropriado”, disse o porta-voz da FDA, Michael Felberbaum.

Uma autorização de emergência não é equivalente a uma aprovação formal. Significa que em casos de emergência sanitária nacional podem ser certos medicamentos, caso não existam alternativas.

Opiniões contraditórias

O Remdesivir está entre os vários medicamentos testados contra o novo coronavírus. Apesar desses resultados positivos, a eficácia do antiviral contra a covid-9 ainda tem informações contraditórias.

Os resultados do estudo, do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas, surgem depois de a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter publicado os resultados preliminares de um primeiro trabalho com esse fármaco, que estava sendo desenvolvido na China. Os resultados mostravam que o Remdesivir tinha fracassado nos primeiros testes, mas a OMS entretanto retirou o documento da internet.

A Gilead Sciences criticou o estudo da China, considerando que ainda é cedo para excluir totalmente o potencial do medicamento. Em declaração, Gilead lamentou os dados publicados, “uma vez que a pesquisa, devido à baixa amostra, foi insuficiente para permitir conclusões estatisticamente significativas. Como tal, os resultados são inconclusivos”.

No estudo realizado na China, entre 6 de fevereiro e 12 de março, em dez hospitais de Wuhan, participaram 237 doentes, dois terços dos quais foram tratados com Remdesivir.

A revista The Lancet publicou um resumo do trabalho, onde é declarado que “o tratamento com Remdesivir não acelera a cicatrização nem reduz a mortalidade da covid-19, em comparação com o placebo”.

“Infelizmente, o nosso ensaio mostrou que embora seguro e bem tolerado, o Remdesivir não mostrou nenhum benefício significativo em comparação ao placebo”, comentou o autor principal do estudo, o professor Bin Cao, citado em comunicado da The Lancet.

O principal pesquisador do ensaio clínico conduzido pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infeciosas disse à CNN que o medicamento “não é o fim da história” relativamente a possíveis tratamentos para a covid-19. “Temos muito trabalho pela frente. Estamos procurando outras terapias. Vamos continuar com o estudo”, disse Andre Kalil.

Por RTP – Emissora pública de televisão de Portugal

Cientistas brasileiros testam remédio que reduz 94% da carga viral do Coronavírus

(Anvisa/Reprodução)

Nos próximos dias, cientistas brasileiros vão iniciar os testes clínicos com um medicamento que apresentou 94% de eficácia em ensaios in vitro na redução da carga viral em células infectadas pelo novo coronavírus. De acordo com o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Marcos Pontes, os testes serão feitos em 500 pacientes internados com covid-19, em sete hospitais do país: cinco no Rio de Janeiro, um em São Paulo e um em Brasília.

O nome do medicamento só será divulgado após o fim do protocolo de pesquisa clínica, até que seja demonstrada a sua eficácia e segurança em pacientes, “para evitar uma correria em torno do medicamento”. Mas, de acordo com Pontes, é um remédio de baixo custo, bem tolerado e disponível inclusive em formulações pediátricas. “Por que isso é importante? Ele tem uma vantagem muito grande, tem pouco efeito colateral e pode ser empregado numa grande faixa da população”, explicou.

O ministro destacou a importância e o trabalho na ciência brasileira na busca por soluções contra a pandemia de covid-19. “Nós estamos falando de ciência feita no Brasil, uma ciência respeitada em todo o mundo. Os nossos cientistas são muito responsáveis, não só pelo conhecimento, mas pela atitude, esse pessoal tem trabalhado dia e noite. Muitos são bolsista e estamos conseguindo resultados por meio do trabalho desses pesquisadores”, disse o ministro. “Espero que vocês como brasileiros também tenham orgulho desses cientistas”, ressaltou.

Replicação viral

Foram realizados testes com dois mil medicamentos que já são comercializados em farmácias para verificar se existe algum capaz de se ligar ao vírus e de bloquear a replicação viral. A estratégia, chamada de reposicionamento de fármacos, foi adotada por cientistas do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas, que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Ao final, os pesquisadores identificaram seis moléculas promissoras que seguiram para teste in vitro com células infectadas com o novo coronavírus. Desses seis remédios pesquisados, os cientistas do CNPEM descobriram que dois reduziram significativamente a replicação do vírus. O remédio mais promissor apresentou 94% de eficácia em ensaios com as células infectadas.

O protocolo de ensaios clínicos foi aprovado nesta terça-feira (14) pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. O medicamento será ministrado por cinco dias nos pacientes e mais nove serão necessários para observação. Serão incluídos no estudo pessoas que chegarem aos hospitais com pneumonia e sintomas de covid-19: febre, tosse seca e as características da tomografia com vidro fosco.

O grupo de testagem será amplo, com qualquer pessoa maior de 18 anos, mas não para os casos muito graves. O paciente deverá assinar um termo de consentimento para participar do protocolo, que consiste na administração aleatória do medicamento ou de placebo. A expectativa é que o estudo seja concluído em quatro semanas. “Isso é feito de forma extremamente científica, usando todo o formalismo científico, para que a gente não tenha dúvidas”, destacou o ministro.

O desenvolvimento do estudo no LNBio ocorre no âmbito da Rede Vírus do MCTIC, responsável pela articulação dos laboratórios de pesquisa e especialistas na continuidade dos estudos com pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Testes e vacinas

O ministro também apresentou hoje o resultado do trabalho do CTVacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais, que também por meio da Rede Vírus, desenvolveram um reagente nacional que tem a mesma performance de reagentes importados para testes diagnósticos de covi-19. “Isso dá autonomia para o país e a possibilidade de aumentar a produção para os tipos de teste que estão sendo feitos no Brasil”, explicou Pontes.

Outra pesquisa apresentada pelo ministro é o desenvolvimento de um teste para detecção do novo coronavírus que não precisa de reagente químico. “É um equipamento que faz reação com laser a partir da saliva da pessoa que está sendo testado”, explicou. O processamento do diagnóstico é feito por meio de inteligência artificial e o resultado fica pronto em menos de 1 minuto.

O sensor está sendo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Teranóstica e Nanobiotecnologia (INCT TeraNano), da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. De acordo com Pontes, com a informatização das unidades de saúde, em 20 dias, será possível colocar um número considerável dessas máquinas no país, cerca de mil máquinas capazes de fazer até 500 testes por dia.

“Imaginando que tudo isso funcione [o remédio e os testes], em meados de maio teremos ferramentas muito efetivas para combater essa pandemia no Brasil e resolver todos esses problemas”, disse o ministro.

Por Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil 

Estudo relaciona Zika Vírus com água contaminada

A presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste, principalmente nos anos de 2015 e 2016. Essa é a conclusão da pesquisa desenvolvida em conjunto pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Os resultados do estudo mostram, de acordo com o professor titular da UFRJ e cientista do IDOR, Stevens Rehen, que é autor correspondente do trabalho, que o Brasil precisa rediscutir os níveis de toxinas e outras substâncias presentes na água considerados seguros para o consumo humano.

“A gente propõe nesse artigo que a água contaminada com saxitoxina deixou mais vulnerável uma determinada população do Nordeste e isso acabou levando ao nascimento de crianças com malformações graves no sistema nervoso. Talvez isso acabe se refletindo também em outras doenças. Então, o que a gente propõe é uma rediscussão em relação ao que é considerado seguro nas águas que são disponibilizadas para a população”, diz em entrevista à Agência Brasil.

A equipe foi uma das primeiras no mundo a provar a relação do vírus zika com os casos de bebês recém-nascidos com microcefalia – malformação congênita em que o cérebro não se desenvolve de maneira adequada. Após a comprovação, os pesquisadores começaram a investigar por que os casos eram mais frequentes no Nordeste do que em outras regiões do país.

De acordo com o Ministério da Saúde, entre 2015 e 2019, foram registrados 2.192 casos de microcefalia e outras malformações congênitas pelo vírus zika na Região Nordeste, o que corresponde a 62,5% dos casos do país nesse período. O Sudeste aparece em segundo lugar, com menos da metade dos casos do Nordeste, 709, ou 20,2% do total no Brasil.

“Surgiu a hipótese de que havia um cofator regional que fosse capaz de agravar as consequências da infecção. A nossa hipótese é que haveria um cofator ambiental evitável, capaz de exacerbar a toxidade do vírus zika sobre o sistema nervoso em desenvolvimento”, diz Rehen. Eles provaram que esse fator, que pode ser evitado, existe e está presente na água.

Presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste
Presença de toxinas na água consumida pela população nordestina contribuiu para aumentar o número de casos de microcefalia associados à epidemia do vírus zika na Região Nordeste (Arquivo/IDOR)

Leia os principais trechos da entrevista:

Agência Brasil: Por que vocês decidiram fazer este estudo?

Stevens Rehen: Desde o começo da epidemia de zika no Brasil, a nossa equipe, como várias outras, se interessou pelo assunto e pela própria gravidade do que era observado na relação da epidemia com o aumento de casos de microcefalia. O nosso grupo foi o primeiro no mundo a usar metodologia de biologia celular para explicar essa relação entre o vírus zika e as malformações do sistema nervoso em desenvolvimento. Mais recentemente, analisando a quantidade de casos e a gravidade de casos no Nordeste, comparando com outras regiões no país e no mundo, surgiu a hipótese de que havia um cofator regional que fosse capaz de agravar as consequências da infecção. A nossa hipótese é que haveria um cofator ambiental evitável, capaz de exacerbar a toxidade do vírus zika sobre o sistema nervoso em desenvolvimento.

Nós mapeamos a qualidade da água em diversos açudes no Nordeste e percebemos que, quando comparada a outras regiões do país, tinha uma incidência grande de alguns microrganismos chamados cianobactérias e também de uma toxina que é produzida por um desses microrganismos, a saxitoxina. A presença de saxitoxina nos alertou de que ela poderia estar envolvida com o agravamento do efeito do vírus zika no sistema nervoso.

Agência Brasil: Como conseguiram provar a relação da saxitoxina com o agravamento da microcefalia causada pelo vírus zika?

Stevens Rehen: Levamos essa toxina para o laboratório e fizemos um experimento simples, utilizando um modelo que a gente chama de organoides cerebrais. Nesse modelo, colhemos a urina ou um pedacinho de pele de qualquer indivíduo, de qualquer voluntário, que foi transformado em células do cérebro. A gente cria um modelo biológico vivo, quase como se fosse um avatar, que é nosso modelo para estudar. Foi em cima desse organoide, que a gente mostrou, em 2016, essa relação entre microcefalia e a infecção pelo vírus zika. Agora, recentemente, o que fizemos, utilizando esse mesmo modelo, foi combinar a exposição desse tecido nervoso humano à saxitoxina e ao vírus zika. Observamos então que, quando  fazíamos essa combinação, o efeito do vírus zika era ainda pior nesse tecido.

Para confirmar essa hipótese, a gente fez, em parceria com a UFRJ, o mesmo experimento utilizando camundongos. As fêmeas beberam água com a mesma quantidade de toxina observada na água do Nordeste por um determinado período e, depois, essas fêmeas ficaram grávidas. Então, nós observamos como se dava a malformação nas fêmeas que beberam água contaminada e que, também, estavam infectadas com zika. Comparamos com outro grupo que só foi infectado com zika e que bebeu água limpa. Na comparação, observamos que havia um aumento e um agravamento da microcefalia nos filhotes que nasceram dessas fêmeas.

Agência Brasil: Por que vocês decidiram observar a água?

Stevens Rehen: O que nos chamou atenção foi perceber que o Nordeste enfrentou, justamente no período de epidemia de zika, a maior seca da história. Então, pela carência de água, a gente começou a imaginar que quando há menos água, aumenta a proliferação de microrganismos por causa da própria falta de saneamento básico. Em virtude da seca, havia uma redução da qualidade da água onde ainda existia água e isso nos levou a tentar examinar essa água.

Agência Brasil: Diante desses resultados, o que pode ser feito?

Stevens Rehen: O que a gente observou nesse artigo é que a água contaminada com saxitoxina deixou mais vulnerável uma determinada população do Nordeste e isso acabou levando ao nascimento de crianças com malformações graves no sistema nervoso. Talvez isso acabe se refletindo também em outras doenças. O que a gente propõe é uma rediscussão em relação ao que é considerado seguro nas águas que são disponibilizadas para a população.

Em situações normais, o que hoje em dia é preconizado como seguro, talvez seja seguro, mas como a gente está vivendo uma série de  epidemias e agora, a pandemia do coronavírus [novo coronavírus (covid-19)], todos esses vírus acabam levando um agente que acaba alterando mais ainda esse equilíbrio. Assim, essa ingestão crônica de água com saxitoxina talvez possa deixar a população mais vulnerável a várias doenças.

Agência Brasil: Essa discussão dos parâmetros de qualidade da água está sendo feita?

Stevens Rehen: Tão logo a gente gerou esse resultado, ele foi levado ao Ministério da Saúde  e fomos muito bem recebidos, em 2018. Hoje há um grupo de trabalho coordenado pela Fiocruz, formado em 2019, do qual também participamos, que está justamente revendo o que é considerado seguro, principalmente, em situações de risco, como foi a época da epidemia pelo vírus zika.

Agência Brasil: Já existe alguma prévia desses novos parâmetros?

Stevens Rehen: Essa análise está em andamento.

Agência Brasil: O que se pode fazer para melhorar a qualidade da água consumida pela população?

Stevens Rehen: Saneamento básico! É um problema crônico, histórico no Brasil, mas é importante poder fornecer à população uma água de melhor qualidade.

Agência Brasil: A má qualidade da água pode também fragilizar as pessoas em relação ao novo coronavírus (covid-19)?

Stevens Rehen: A gente não tem nenhum estudo consistente no caso do coronavírus. Falei isso mais do ponto de vista genérico, pensando em um organismo que está vulnerável devido à ingestão crônica de uma toxina. Nós estamos mostrando que isso afetou a gravidade e a toxicidade do zika vírus.

Por Mariana Tokarnia – Repórter da Agência Brasil

Brasileiros trabalham em vacina contra Coronavírus

(Josué Damacena/IOC Fiocruz)

Cientistas do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvem uma vacina contra o Sars-CoV-2, variedade do coronavírus que provoca síndrome respiratória aguda grave. O diretor do laboratório e coordenador do projeto, Jorge Kalil, ressalta que a vacina não deverá ficar pronta logo, uma vez que o processo envolve rigorosos testes de segurança.

A equipe do laboratório do Incor ainda realizará testes em camundongos para comprovar a eficácia da vacina. Em seguida, buscará firmar colaborações com outras instituições de pesquisa para finalizar o desenvolvimento da substância e produzir uma candidata a vacina contra Covid-19.



Em entrevista à Agência Brasil, Jorge Kalil disse que não é possível precisar quando a vacina será lançada, devido à série de protocolos que devem ser seguidos à risca. Ele ponderou, ainda, que “fazer uma vacina não significa produzir a vacina”, mas sim “o conceito da vacina e como ela vai funcionar”.

“Mesmo as vacinas que estão sendo feitas no exterior, mesmo que comecem a testar em humanos daqui a dois, três meses, dificilmente isso vai estar disponível antes de um ano e meio, dois anos, porque você tem que testar, ter a capacidade de produzir essa vacina industrialmente. Tem, primeiro, que ver se não é tóxica, depois tem que ver se ela induz, realmente, anticorpos neutralizantes em humanos, porque, às vezes, modelos animais que a gente usa não representam exatamente o que a gente encontra em humanos. Então, tem uma série de etapas que precisam ser feitas”, explicou Kalil, que foi ex-diretor do Instituto Butantan.

“É claro que, hoje em dia, nós temos várias tecnologias com as quais a gente consegue ir muito rápido, mas, mesmo assim, a gente não pode passar todos os testes de segurança, para que não cause mais problemas do que ajude as pessoas”, disse.

Proposta diferente

De acordo com o pesquisador, a proposta dessa vacina é diferente da que vem sendo apresentada por especialistas de outros países. A expectativa é que o método escolhido permita que o corpo da pessoa vacinada tenha uma resposta de defesa melhor, ou seja, imunológica, a partir do reconhecimento de partículas semelhantes ao vírus (em inglês virus like particles). As VLP imitam o vírus, mas não têm, como ele, capacidade de se multiplicar, de acordo com Kalil.

Kalil explicou que junto com os antígenos, cuja função é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos, serão inoculadas VLPs no corpo da pessoa imunizada. “Quando nós construirmos essa partícula viral, vamos colocar nela fragmentos da proteína mais importante para neutralizar o vírus, que é a proteína da espícula viral, parte externa do vírus que parece uma flor e que é a que gruda na célula”, disse Kalil, em referência à coroa que os coronavírus possuem e que definiu seu nome.

“Tem várias tipos de vacina que são utilizadas hoje em dia nos programas de saúde. Por exemplo, a vacina de sarampo é uma vacina com o vírus atenuado, ou seja, você deixa o vírus fraquinho e injeta na pessoa, que produz anticorpo contra aquele vírus fraquinho e aqueles anticorpos o neutralizam. Na vacina contra a gripe, a gente usa uma contra-técnica. A gente produz uma grande quantidade de vírus, como aqui no Brasil, no Instituto Butantan, e depois a gente mata esse vírus, inativa-o, e faz pequenos fragmentos do vírus, destrói o vírus, inclusive, e injeta nas pessoas, que produzem anticorpos contra as partículas. Esses anticorpos vão neutralizar o vírus e ele não ataca”, explicou.

“Eu posso também fazer uma vacina como a da hepatite, que é só a proteína principal do vírus que a gente injeta. E a gente pode fazer, ainda, vacina em que a gente dá a informação para o organismo da proteína principal do vírus para neutralizá-lo e, dentro do organismo, esses ácidos nucleicos se expressam, fazem a proteína e a gente faz anticorpo contra. A nossa proposta é diferente”.

Articulação de enfrentamento

Para Jorge Kalil, os países que têm encarado mais habilmente a pandemia de coronavírus são a China, Singapura e a Coreia do Sul, esta “porque fez diagnóstico de pessoas em massa e conseguiu isolar infectados”.

O diretor disse que o governo italiano permitiu que a transmissão se tornasse “uma catástrofe” e atingisse um “nível exponencial”, que, segundo ele, pode se repetir no Brasil, caso as autoridades governamentais não tomem providências. Já no caso dos Estados Unidos, a avaliação é que o governo foi “negligenciando o perigo”, embora tenha chance de mitigar parte dos danos, por ser detentor de um volume expressivo de verbas.

“O que seria importante é a gente desbloquear recursos – está muito difícil recurso para a ciência, no Brasil –, para que a gente possa trabalhar e também facilitar a importação de todos os reagentes, para que a gente não perca tempo com muita burocracia e consiga trazer o que for necessário para o Brasil, para gente trabalhar, seja na vacina, seja no diagnóstico, seja para obter resultado de outras drogas, o que for”, ressaltou Kalil.

Por Letycia Bond – Repórter da Agência Brasil