Após esfaquear jovem em abordagem, PMs ameaçaram a vítima, diz testemunha

Segundo a mãe, jovem de 18 anos levou 45 pontos após ser esfaqueado na mão por PMs na Favela do Moinho, centro de SP; Corregedoria investiga ação

Marca de sangue deixada quando a vítima apoiou para se jogar | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Moradores da Favela do Moinho, no centro da cidade de São Paulo, relatam ameaças de PMs enquanto médicos atendiam um jovem que foi esfaqueado em uma das mãos por um policial do 5º Batalhão do Canil, na tarde desta quinta-feira (2/7).

Os policiais teriam ido ao local para uma ação de rotina, como explica a Secretaria da Segurança Pública, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo João Doria (PSDB), e entrado em uma casa após um dos cães farejadores identificar droga. Na residência, sustentam, havia um homem que fugiu pelo telhado. 

A versão dos moradores é de que o rapaz estava dormindo, os PMs o acordaram e ameaçaram. Depois, ainda teriam ferido uma das mãos com um facão.

Os moradores tentaram socorrê-lo e levá-lo de carro até a Santa Casa, também localizada no centro da capital paulista, mas os policiais teriam atrasado o socorro. Minutos depois, conseguiram. Lá, conta um deles, os policiais ameaçaram o rapaz.

“Os PMs foram até ele no hospital, fizeram gesto e balançaram a cabeça como se dissessem ‘toma cuidado’. E ele pediu para os enfermeiros tirarem ele de lá”, conta o amigo. Sob condição de anonimato, familiares contaram que o jovem levou 45 pontos na mão direita e corre o risco de perder os movimentos dos dedos. 

O familiar conta que um PM estava no hospital também sendo socorrido e questiona a declaração da SSP de que ele tinha se machucado ao cair da casa ao se atirar junto do jovem morador do Moinho. “Um dos PMs estava machucado, mas acho que propositalmente. Era na boca, como se fosse um soco. Nenhum morador vai ter coragem de dar um soco em PM armado”, diz.

https://www.facebook.com/watch/live/?v=280274766513311&ref=watch_permalink&t=3

O amigo da vítima da agressão registrou parte da ação. Depois de ter sido agredido, o jovem teria se jogado do segundo andar da casa com medo dos policiais, conforme relata a testemunha.

Eram por volta de 17h quando os policiais invadiram a casa pelos fundos, como conta a moradora do local, Maria Cristina Goes dos Santos, 55 anos. O rapaz agredido é seu filho. “O menino estava dentro de casa. Vem aqui e querem matar meu filho sem ter feito nada? Pegaram ele dormindo. Não aceito isso”, lamenta a mãe. 

Uma hora depois da ação policial, a Ponte esteve no local e registrou sangue no chão e na parede em que o rapaz se apoiou antes de se jogar. O homem que registrou as cenas e o pedido de socorro teve o celular tomado por um policial. O PM teria apagado as imagens. 

Criança deficiente física foi mordida por cachorros da tropa | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Na tarde desta sexta-feira (3/7), policiais da Corregedoria da PM estiveram na Favela do Moinho para coletar relatos de moradores sobre ação do 5º Batalhão do Canil na quinta-feira (4/5).

“Estava dando depoimento e pediram para eu reconhecer, mas no vídeo que me mostraram não estava o policial que pegou meu celular”, conta o jovem, que terá a identidade preservada por questões de segurança. 

Ouvidoria pede que Corregedoria da PM investigue o caso

Ainda na noite de quinta-feira, o ouvidor da Polícia, Elizeu Soares Lopes, esteve na Favela do Moinho para ouvir os relatos dos moradores. Nesta sexta, Lopes solicitou à Corregedoria que o órgão de controle da ação policial fique responsável pela investigação do que ocorreu na favela e não o batalhão responsável pelos PMs que ali estiveram. 

“Há relatos de uma senhora que diz que seu filho estava dormindo quando policiais invadiram sua casa à procura de drogas […] Outra vítima seria uma criança cadeirante, que foi mordida por um cão da polícia”, diz documento da Ouvidoria encaminhado à Corregedoria.

Documento enviado pelo ouvidor da Polícia à Corregedoria da PM | Foto: Reprodução

A Favela do Moinho tem um histórico de rotina de violência policial. Em maio deste ano, policiais invadiram casas e agrediram moradores. Um mês antes houve um protesto contra agressões cometidas por policiais, tendo como resposta repressão por parte da tropa.

No dia 27 de junho de 2017, uma ação da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a tropa mais letal da PM, terminou com a morte de Leandro de Souza Santos, 18 anos.

Testemunhas relatam que dois policiais participaram da tortura e execução de Leandro. O ato de tortura teria durado cerca de 30 minutos, enquanto a PM sustenta que o rapaz teria trocado tiros com os policiais. 

Questionada pela reportagem, a Secretaria da Segurança Pública de SP, por meio de sua assessoria de imprensa terceirizada, a InPress, explicou que “a Corregedoria da Polícia Militar instaurou um IPM (Inquérito Policial Militar) para apurar a ocorrência na comunidade do Moinho, na última quinta-feira (2/7), e todos os fatos relacionados”.

A resposta dada à Ponte não responde quantas pessoas foram ouvidas e se a Corregedoria encontrou vestígios ou provas de irregularidades cometidas pelos policiais do 5º Batalhão do Canil. 

Por meio de sua assessoria, a PM confirmou a ação da Corregedoria no Moinho. “Se comprovada qualquer irregularidade, os envolvidos responderão por seus atos nos termos da lei”, assegura.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

PM usa cães em operação e criança deficiente é atacada

Polícia feriu profundamente a mão de um jovem na Favela do Moinho, em SP, e família teme que perca os movimentos

Um cordão de advogados da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) tentava conter um grupo de moradores. Eles tentavam avançar contra um grupo de policiais militares. A revolta é por terem invadido uma casa e cortado a mão de um morador de 18 anos na Favela do Moinho, centro da cidade de São Paulo, nesta quinta-feira (2/7).

Eram por volta de 17h quando os policiais do canil do 5º Batalhão invadiram a casa pelos fundos, como conta a moradora do local, Maria Cristina Goes dos Santos, 55 anos. Um dos seus cinco filhos dormia e foi abordado.

Ela trabalhava no bar que fica embaixo da residência. Em cima, os policiais ameaçavam o jovem. Segundo contam os moradores, eles estariam atrás de drogas, mas não tinha nada com ele.

“O menino estava dentro de casa. Vem aqui e querem matar meu filho sem ter feito nada? Pegaram ele dormindo. Não aceito isso”, lamenta a mãe. “Eu puxei carroça por mais de dez anos, criei meus filhos assim e nunca deixei roubar de ninguém”.

Marca de sangue na parede que o jovem se apoiou antes de se jogar | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Uma testemunha relatou a ação policial à Ponte. “Colocaram a faca na barriga dele. Como colocou a mão pra tirar, o policial puxou e fez um corte fundo”, conta. Ele viu o momento em que o jovem de 18 anos se jogou do segundo andar da casa depois de ter a mão cortada.

Ponte esteve na casa cerca de 1 hora depois da ação policial. Ainda havia marcas de sangue pelo local: várias gotas no chão, na cama e marcas nos pedaços de madeira da parede da casa. Duas marcas de mãos foram deixadas no momento em que o rapaz se jogou.

Um dos moradores da comunidade registrou a cena. No entanto, os policiais pegaram seu celular e apagaram parte dos vídeos.

https://www.facebook.com/325499670933452/videos/280274766513311

Imagens recebidas pela reportagem mostram o momento em que outros moradores confrontam um policial com o celular na mão. Ele diz que vai entregá-lo ao dono. Porém, já não estava lá o vídeo em que o jovem com a mão machucada aparece. 

“Estava aqui. Apagaram justamente o vídeo que mostra ele”, relata a testemunha, em conversa com a Ponte, mostrando os vídeos que fez da ação e do momento em que chegou e viu o amigo no chão.

Piso do quarto seguia com as fotas de sangue 1 hora após a ação policial | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Por volta de 17h30, os policiais do canil do 5º Batalhão deixaram a favela. A ação causou revolta na população e a reportagem presenciou a tentativa dos advogados da OAB de tentar evitar que algo pior acontecesse.

Os policiais, acuados, se juntaram e saíram com escudos. Passaram pela linha de trem que separa a entrada das casas do Moinho e, ali, jogaram bombas e balas de borracha. Revoltados, os moradores revidaram com pedras. Um trem passava na linha que corta a comunidade.

Janela pela qual os PMs teriam invadido a casa sem mandado judicial | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Os policiais deixaram o local, mas, antes disso, dispararam balas de borracha contra a multidão. Antes de entrar na viatura, um dos PMs se exaltou quando viu que estava sendo filmado pela Ponte. “Mostra que eles estão atacando pedra, mostra!”, disse, tentando direcionar para onde o celular que registrava a cena devia filmar.

Menos de dez minutos depois chegou reforço da PM. Eram cerca de dez viaturas, entre veículos de patrulhamento padrão, do Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) e da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a tropa mais letal da PM.

Garoto cadeirante com deficiência mental foi mordido no cotovelo pelo cachorro da PM | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo 

Os policiais militares dispararam mais tiros de balas de borracha, forçando os moradores a retornarem à Favela do Moinho. Atiravam da avenida Rio Branco, cerca de 100 metros da entrada da favela.

Comandante da ação, o tenente Farina explicou que a intenção era “acalmar os ânimos desse lado”, disse, apontando para os moradores, e também “daqui”, ao se referir aos seus policiais.

Questionado pela Ponte sobre o homem ferido, Farina explicou que a ação anterior não estava sob seu comando e que não tinha nenhuma informação sobre isso. 

Moradores são contidos por advogados para não irem em direção aos PMs | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Em nota, a InPress, assessoria de imprensa terceirizada da SSP (Secretaria da Segurança Pública), não confirmou que havia moradores feridos. Segundo a pasta, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), somente um policial ficou ferido.

A secretaria sustentou que a ação do 5º Batalhão feita no local era “de rotina” e que os cães farejadores apontaram “presença de droga em uma residência”.

“Neste momento, um homem fugiu da abordagem pelos telhados dos imóveis e algumas pessoas confrontaram os policiais”, afirma a SSP.

Os moradores rebatem. “Falaram que ele trocou tiros. Estava dormindo em casa, como ia pular de telhado por telhado dormindo?”, pergunta uma das testemunhas.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Caso de jovem morto por PMs na Favela do Moinho é arquivado

Camila Bohem/Agência Brasil

Moradores da comunidade protestaram quando o crime aconteceu (Arquivo/Rovena Rosa/Agência Brasil)

A juíza Renata Mahalem da Silva Teles acolheu decisão do Ministério Público (MP) do estado de São Paulo e arquivou a investigação da morte do jovem Leandro de Souza Santos, 18 anos, por policiais militares da Rota – batalhão de elite da Polícia Militar (PM) de São Paulo – durante operação na Favela do Moinho, região central da capital. O jovem de 18 anos chegou a ser socorrido na ocasião e levado para o Hospital Santa Casa, mas não resistiu e morreu ainda na entrada do pronto-socorro.

Para a promotoria, os dois policiais investigados que acertaram Leandro com quatro tiros dentro de uma casa na comunidade agiram em legítima defesa após disparos feitos pelo jovem. No entanto, o laudo residuográfico – que verifica restos de pólvora provenientes de disparos de arma de fogo – das mãos de Leandro deu resultado negativo.

Segundo o promotor Rubens Andrade Marconi, que pediu o arquivamento, as testemunhas reforçaram o depoimento dos policiais militares Pierre Alexandre de Andrade e José Carlos Paulino da Costa, que “agiram em estrito cumprimento do dever legal” ao atirarem contra Leandro.

Testemunhas ouvidas poucos dias depois da ocorrência afirmaram que os policiais ficaram mais de uma hora com Leandro dentro da casa onde ele foi atingido.

Impunidade

No entanto, para o advogado Ariel de Castro Alves, coordenador da Comissão da Infância e Juventude do Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana (Condepe), que acompanha o caso, havia desde o início muitos indícios de que o rapaz tivesse sido torturado e executado. Para ele, esse é “mais um caso de violência policial que fica impune”.

“Um caso exemplar do ciclo de impunidade que permeia esses casos. Fica a versão dos policiais de um lado e nenhuma versão do outro, já que a vítima dos disparos morreu. E como o suposto confronto ocorreu dentro da casa, entre quatro paredes, sob controle dos policiais envolvidos, que impediram as pessoas de se aproximarem, não existem outras testemunhas que contrariem a versão policial”, disse Ariel.

O irmão e a irmã da vítima relataram que foram agredidos pelos policiais militares ao tentarem entrar na casa no dia em que Leandro foi morto. “Nessas comunidades vigora a lei do silêncio, já que as pessoas temem os policiais e os traficantes”, acrescentou Ariel.