PM e ex-pm agiram como ‘milícia’ ao matar Guilherme, defende MP

Adriano Fernandes de Campos e Gilberto Eric Rodrigues foram denunciados pelo homicídio qualificado de adolescente de 15 anos na zona sul de SP

Guilherme foi morto em 14 de junho | Foto: Arquivo pessoal

Para Ministério Público de São Paulo, o PM Adriano Fernandes de Campose o ex-PM Gilberto Eric Rodrigues são os responsáveis pela morte de Guilherme Silva Guedes, 15 anos, executado na madrugada do dia 14 de junho, na Travessa da Saúde, próximo a Avenida Alda, no bairro da Pedreira, na zona sul da cidade de São Paulo. 

É o que diz a denúncia feita pelo promotor Neudival Mascarenhas Filho, nesta sexta-feira (14/8), no mesmo dia em que o crime completa dois meses. Segundo o MP, Adriano e Gilberto agiram por “motivo torpe, com emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima, mediante disparos de arma”.Íntegra da denúncia PM Adriano e ex-PM GilbertoBaixar

O ex-PM Gilberto Eric Rodrigues é procurado pela Justiça desde que fugiu do Presídio Militar Romão Gomes, conforme revelou reportagem da Ponte em 2015. Ele respondia por participação na chacina do Jardim Rosana, quando 7 pessoas foram mortas em 4 de janeiro de 2013, em frente ao Bar do Rob.

Mascarenhas detalha como foi a noite que Guilherme foi sequestrado pelos, então, seguranças do canteiro de obras da rua Alvares Fagundes, que pertence à empresa Globalsan Saneamento e Construções, terceirizada da Sabesp. “Segundo o apurado, na noite do dia 13 de junho de 2020, alguns garotos entraram no canteiro de obras da empresa Globalsan”.

Gilberto Eric Rodrigues

O promotor também aponta que o PM Adriano é responsável pela empresa de segurança “Campos Forte Portarias Ltda”, contratada da Globalsan, e que foi até o local no dia do crime com Gilberto, ex-PM foragido do Presídio Romão Gomes, que usava o nome falso de Roberto.

Ponte antecipou, em junho, em reportagem exclusiva, que a empresa de Campos prestava o serviço de segurança à Globalsan de forma irregular, pois está registrada como empresa de zeladoria (portaria) e limpeza. Outra irregularidade apontada pela reportagem foi o fato de a empresa ser propriedade de um policial militar da ativa, o que é vedado pelo regulamento interno da PM paulista.

Segundo a denúncia, Adriano e Gilberto foram ao local em um veículo registrado em nome do filho do PM. Deixaram o carro no canteiro de obras e saíram a pé para localizar os garotos que teriam entrado no local. Abordaram Guilherme na rua Rolando Curti, quando ele havia acabado de sair de sua casa e não tinha a ver com a invasão na obra.

PM e ex-PM abordam Guilherme Silva Guedes

De lá, o PM e o ex-PM levaram Guilherme para a Travessa da Saúde, perto da avenida Alda, onde o executaram com dois tiros. Para Mascarenhas, o crime foi cometido por motivo torpe, “pois agiram os denunciados para se vingar dos invasores, sequestrando e matando o primeiro garoto que viram pela frente, para que servisse de exemplo”.

O emprego do meio cruel aconteceu “uma vez que os indiciados agiram com extrema violência, torturando Guilherme com um tiro na boca, atingindo-o no lábio, o que lhe causou sofrimento exacerbado, até o crime ser consumado com o disparo na cabeça”.

E, por fim, o emprego de arma de fogo “dificultou a defesa do ofendido, que foi surpreendido e subjugado por dois indivíduos armados, sendo levado a local ermo, onde foi executado de forma covarde”.

O promotor também aponta que os denunciados “atuaram como milícia privada, agindo sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, com intuito de impor, pelo medo, pelo terror, o domínio daquela comunidade próxima ao canteiro de obras”.

Completando que “ficou evidente, ainda, que utilizaram de seus conhecimentos sobre técnicas e táticas policiais para sequestrar, torturar e matar Guilherme”.

Procurados pela reportagem, os advogados Renato Soares do Nascimento e Mauro Ribas, que cuidam da defesa do PM Adriano, informaram que discordam da denúncia. “O Adriano não cometeu crime algum. A denúncia é absurda. O que tem nesse processo é uma imagem do Adriano no canteiro de obras, isso é fato, ele estava lá, mas ele não pegou o Guilherme, não colocou ele no carro, isso não existiu”, diz Nascimento. “No poder Judiciário, vamos provar isso”, completa.

A investigação da Polícia Civil

O caso foi investigado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) sob comando do delegado Rodolpho Chiarelli Junior. Em relatório final enviado à Justiça, o delegado pediu a prisão preventiva de Adriano e Gilberto pela morte de Guilherme.

No relatório, consta que a avó de Guilherme foi a primeira a depor no DHPP, informando que o neto estava em uma festa familiar e que voltou para casa por volta da meia-noite daquele dia, saiu para comprar coxinhas e voltou brevemente. Às 2h, a avó foi dormir e Guilherme disse que iria fechar o portão e que já dormiria também. Só no dia seguinte soube que Guilherme havia sido abordado por “supostos policiais”.

Uma testemunha que mora em frente ao canteiro de obras da Globalsan, que presta serviços para a Sabesp, disse que viu um carro preto entrar no local.

A tia de Guilherme também foi ouvida. Ela confirmou que o adolescente estava em uma reunião familiar e soube, no domingo, que a vítima teria sido presa. Joice Silva, mãe do adolescente, também foi ouvida e confirmou que o tempo que o filho ficou na reunião e que foi embora com a avó, com quem morava atualmente. Ficou sabendo no domingo da suposta prisão do filho e assistiu as imagens que mostraram Guilherme sendo abordado, quase em frente ao local onde morava.

Na versão da Polícia Civil consta que uma nota fiscal eletrônica, que aponta a Campos Forte Portarias como “prestadora de serviços” e a Globalsan como “tomadora de serviço”. O documento foi fornecido por um funcionário do canteiro de obras.

Diversas testemunhas que trabalhavam no canteiro de obras, inclusive o pai do PM Adriano, Sebastião Alberto de Campos, policial militar aposentado, que também é sócio da Campos Forte, confirmaram que Gilberto se apresentava como Roberto. Adriano está preso no Presídio Militar Romão Gomes e Gilberto está foragido.

O inquérito também aponta que uma amostra de DNA de Guilherme foi enviada para o Instituto de Criminalística para comparar com as digitais coletadas no carro de Adriano. Até o momento, a Polícia Civil não obteve nenhuma resposta conclusiva do material.

Outro lado

Ponte procurou as assessorias da Secretaria da Segurança Pública e da Polícia Militar para questionar a permanência do PM Adriano Campos na corporação e aguarda retorno.

Por Caê Vasconcelos – Repórter da Ponte

Ex-PM suspeito de matar Guilherme já é acusado de chacina

Gilberto Eric Rodrigues é apontado como comparsa do PM Adriano Campos no assassinato de adolescente em SP; em 2015, a PM mentiu sobre a fuga dele da prisão 

Gilberto é foragido desde 2015, quando fugiu de presídio militar | Foto: Reprodução

A Polícia Civil de São Paulo identificou o segundo policial militar suspeito de ter sequestrado e matado o jovem Guilherme Guedes, 15 anos, na Vila Clara, zona sul da cidade de São Paulo. O crime aconteceu no dia 14 de junho.

Guilherme estava na frente de sua casa quando dois homens o abordaram. Horas mais tarde o corpo do jovem foi encontrado em Diadema, cidade vizinha a São Paulo e que faz divisa com a zona sul da capital paulista.

(Reprodução)

Imagens de câmeras de segurança registraram dois homens se movimentando no beco em que Guilherme estava antes de sumir. Um deles já estava identificado: o PM Adriano Fernandes de Campos, dono de uma empresa irregular de segurança, que está preso.

Segundo o delegado Fábio Pinheiro, do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), o outro homem no vídeo é Gilberto Eric Rodrigues.

“Ele que pegou o Guilherme junto do Adriano e levou para matar”, resume o delegado, detalhando que Adriano dirigia o carro enquanto Gilberto estava no banco traseiro com o rapaz durante o transporte.

Guilherme estava em frente de casa quando foi sequestrado | Foto: Arquivo/Ponte

Gilberto é procurado pela Justiça desde que fugiu do Presídio Militar Romão Gomes, conforme revelou reportagem da Ponte em 2015. Ele respondia por participação na chacina do Jardim Rosana, quando 7 pessoas foram mortas em 4 de janeiro de 2013, em frente ao Bar do Rob. 

Cinco anos atrás, o ex-PM e outro militar preso pularam uma cerca do presídio. A PM mentiu sobre a fuga, dizendo em documento enviado à Ponte que, dois meses depois do desaparecimento, Gilberto ainda estava preso no local.

A corporação relatou a fuga à Polícia Civil somente 12 dias depois dos dois fugirem. Neste intervalo, os dados pessoas e fotos dos dois não foram inseridas no banco de dados dos procurados no estado.

“Está sendo procurado por chacina, é bandidão. Homicida”, resume o delegado Pinheiro à Ponte, sobre o perfil de Gilberto.

Inicialmente, o DHPP considerava que um vigia que trabalhava para o PM Adriano Campos teria participado do crime. No entanto, ele passou da condição de investigado para testemunha protegida após dar informações relevantes para a investigação.

O assassinato de Guilherme gerou comoção e grande revolta à zona sul da capital paulista. Ao menos três protestos cobraram respostas do Estado, o primeiro deles com ônibus incendiados. Em resposta, a PM realizou abordagens violentas e agrediu moradores da região da Vila Clara.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

DHPP descarta vigia na morte de Guilherme

Polícia Civil colheu detalhes da participação do PM Adriano Campos com funcionário da empresa de segurança privada comandada pelo militar

Guilherme estava na frente de sua casa quando foi sequestrado e morto | Foto: Arquivo/Ponte

A Polícia Civil de São Paulo descartou a participação de um vigia no sequestro e morte do adolescente Guilherme Guedes, 15 anos, no dia 14 de junho, na Vila Clara, zona sul da cidade de São Paulo. Ele era funcionário da empresa que cuidava da segurança de um terreno localizado no bairro e que foi invadido um dia antes do assassinato do estudante. 

Segundo as investigações do DHPP, havia suspeita de que auxiliado o patrão, o PM Adriano Campos, a cometer o crime. O policial está preso preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes e é considerado o principal suspeito da morte. Mesmo com imagens de câmeras de segurança usadas pela Polícia Civil, a defesa nega que Adriano tenha qualquer participação no crime.

No entanto, o profissional contratado pela empresa irregular de Campos detalhou visita do PM ao terreno na noite do crime. O delegado Fábio Pinheiro explicou à Ponte que o depoimento deixou clara a inocência do empregado do policial no crime.

“Ele se apresentou e contou tudo o que aconteceu, pedindo para ser incluído no programa de proteção à testemunha [Pró-Vita]. Confirmou que o Adriano esteve no canteiro e tinha uma segunda pessoa”, explica Pinheiro.

O delegado classifica o depoimento como suficiente para retirá-lo da lista de suspeitos, além de contribuir para a elucidação do crime. “Por isso, ele deixou de ser suspeito e virou testemunha protegida”, detalha.

Pinheiro explicou que ainda não há a definição de quem seria o ajudante de Adriano neste crime. Para ele, não há elementos suficientes neste momento para determinar que outro policial militar auxiliou Campos.

Está programada para este domingo uma missa de sétimo dia para Guilherme Guedes. O ato tem a participação da Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio e acontecerá na Vila Clara, onde o adolescente vivia, às 14h deste domingo (21/6). O ato é um pedido da família de Guilherme.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Identificado 2º suspeito de sequestrar e matar Guilherme

Polícia Civil aponta vigia de terreno contratado por Adriano Campos como possível parceiro do PM no crime ocorrido na zona sul de SP

Guilherme Guedes estava na frente de casa quando foi sequestrado | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A Polícia Civil do Estado de São Paulo identificou um segundo suspeito de ter participado do sequestro e morte do adolescente Guilherme Guedes, 15 anos, no domingo (14/6). Depois de ter prendido o PM Adriano Fernandes de Campos, o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) considera que um empregado do policial teria auxiliado no crime. Embora já identificado, ele ainda não se apresentou e, portanto, está sendo procurado pela polícia.

Imagens de câmera de segurança mostram dois homens na viela ao lado da casa em que Guilherme morava. Ele estava em frente ao local por volta de 2h, quando foi sequestrado. 

Homem que aparece no vídeo seria Adriano Campos, segundo investigação do DHPP | Foto: reprodução

Um desses homens seria Adriano, de acordo com o delegado Fábio Pinheiro, responsável pela investigação. O segundo seria um homem identificado apenas como Fábio, o vigia de um terreno de propriedade da Globalsan. A defesa do policial nega sua participação do crime.

À Ponte, Pinheiro confirmou que Fábio é suspeito de ter auxiliado Adriano no crime. O policial civil, no entanto, não deu a identidade completa de Fábio e nem detalhes sobre a sua atuação. De acordo com a investigação, uma chamada para registrar a tentativa de furto foi feita de um celular que está no nome do Adriano, mas que de identificou na ligação foi justamente Fábio. A invasão do local teria sido a motivação para o assassinato de Guilherme.

O homem trabalharia como porteiro contratado por Adriano através de sua empresa que seria de zeladoria, mas presta irregularmente o serviço de segurança particular, já que em seu registro, conforme revelado pela Ponte, estão as atividades de zeladoria e limpeza.

Adriano ainda não foi ouvido pelo DHPP, o que deve acontecer na próxima semana. Hoje o departamento apreendeu um veículo do policial, um Volkswagen Fox, de cor prata.

Segundo o Ministério Público, um veículo do mesmo modelo, mas de cor preta, teria sido usado na Avenida Cupecê no dia do crime. O veículo está registrado no nome do filho de Adriano.

O proprietário do terreno em que atua a empresa terceirizada contratada pela Sabesp, Oswaldo Marchetti, explicou à Ponte que houve uma tentativa de invasão ao local na noite de sábado (13/6).

Segundo o homem, um vigia evitou a entrada, mas não estava no local quando outros trabalhadores chegaram na manhã seguinte. Foi quando, segundo ele, moradores estiveram no local para tirar satisfação pelo desaparecimento de Guilherme.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Justiça decreta prisão de PM suspeito de matar Guilherme

Adriano Fernandes de Campos ingressou na PM paulista em 1999 e já respondeu por outros homicídios; ele é um dos suspeitos de matar Guilherme Guedes, 15 anos

PM Adriano Fernandes de Campos, 41 anos, é suspeito de participar da morte de Guilherme | Foto: reprodução

O sargento da PM paulista Adriano Fernandes de Campos, 41 anos, foi preso na noite desta quarta-feira (17/6) suspeito de participar do assassinato do estudante negro Guilherme Guedes, 15 anos. O adolescente foi sequestrado na Vila Clara, zona sul da cidade de São Paulo, e encontrado morto em Diadema, Grande São Paulo. Adriano está no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo.

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, que encabeça as investigações, pediu a prisão temporária ( por 30 dias, podendo ser prorrogável) nesta quarta-feira e a Justiça acatou. A Corregedoria da PM acompanha as investigações junto ao DHPP.

O sargento Adriano ingressou na PM paulista em 9 de agosto de 1999 e já respondeu por 6 homicídios, todos na Justiça comum. O último caso, de 2014, foi arquivado. Adriano integra o Batalhão de Operações Especiais da PM, o Baep, de São Bernardo do Campo.

A prisão foi um pedido do delegado Fábio Pinheiro, responsável pela investigação. A promotora Luciana Jordão Dias remeteu o pedido ao 1º Tribunal do Júri da Capital, que determinou a prisão.

Guilherme Silva Guedes, executado após rapto na zona sul (Arquivo familiar/via Ponte)

No pedido do Ministério Público, há confirmação da informação de que a família tem se sentido ameaçada. “A prisão é imprescindível às investigações do gravíssimo crime praticado, para a realização de interrogatório e apuração de outras testemunhas, que não se apresentam em razão do medo apresentado de represálias. Referido medo é reforçado pela presença de policiais militares próximos da residência da vítima logo após o homicídio”, escreveu a promotora.

“Até então, para nós, o autor do crime é o Adriano e mais um segundo”, definiu Pinheiro. O policial civil explica que há mais um suspeito pelo crime, ainda não identificado. O carro do filho de Adriano foi visto pelo sistema Detecta trafegando pelo local bem próximo da hora do desparecimento de Guilherme.

No local onde Guilherme foi sequestrado, um pedaço de tecido com a inscrição “SD PM Paulo” foi encontrado. Segundo o delegado, o homem foi ouvido, liberado e qualquer possível participação descartada, porque apresentou um “forte álibi”. A promotoria destaca no pedido de prisão que policiais estiveram na casa da família de Guilherme “exigindo a entrega de tarjeta de identificação de PM localizada por familiares da vítima”.

Para o pedido de prisão, o departamento se baseou em imagens de câmera de segurança em que dois homens aparecem no beco ao lado da casa de Guilherme no dia de seu sequestro e morte. Um deles seria Adriano, conforme explicou o delegado.

Até o momento, a linha principal da investigação sobre o que motivou o crime seria uma suposta tentativa de furto de um galpão na região da Vila Clara, cuja segurança era feita pela empresa de propriedade do policial militar.

Adriano e o pai dele, PM aposentado, Sebastião Campos, têm juntos uma empresa chamada Campos Forte Portaria Ldta. Conforme revelou reportagem exclusiva da Ponte, a empresa tem como registro as atividade de zeladoria e limpeza, além de outros serviços administrativos, mas não tem permissão para realizar segurança privada. Além disso, o regulamento interno da PM paulista proíbe que policiais da ativa tenham empresa com esse fim.

A reportagem procurou nesta quarta-feira a empresa de Adriano para tentar saber se ele queria se pronunciar sobre o caso, mas não conseguiu contato até o momento. A última nota enviada pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo sobre o caso não confirmava que havia um PM sendo investigado pelo crime e dizia apenas que tudo estava sendo apurado.

Por Maria Teresa Cruz e Paulo Eduardo Dias – Repórteres da Ponte

Polícia pede prisão de PM suspeito de matar garoto

Adolescente de 15 anos foi morto com tiro na cabeça; sargento Adriano Fernandes de Campos é dono de empresa que fazia segurança privada irregularmente 

Um dos suspeitos de sequestrar e matar Guilherme aparece na gravação de câmeras de rua | Foto: reprodução

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil de São Paulo pediu à Justiça a prisão do policial militar Adriano Fernandes de Campos. Ele é investigado pelo sequestro e morte de Guilherme Guedes, 15 anos, na Vila Clara, zona sul da cidade de São Paulo, no domingo (14/6).

A prisão foi um pedido do delegado Fábio Pinheiro, responsável pela investigação. A promotora Luciana Jordão Dias remeteu o pedido de prisão temporária (de 30 dias) ao 1º Tribunal do Júri da Capital e aguarda a decisão da Justiça. 

No pedido do Ministério Público, há confirmação da informação de que a família tem se sentido ameaçada. “A prisão é imprescindível às investigações do gravíssimo crime praticado, para a realização de interrogatório e apuração de outras testemunhas, que não se apresentam em razão do medo apresentado de represálias. Referido medo é reforçado pela presença de policiais militares próximos da residência da vítima logo após o homicídio”, escreveu a promotora. Íntegra pedido do MP de prisão de Adriano Campos Baixar

Guilherme Silva Guedes, executado após rapto na zona sul (Arquivo familiar/via Ponte)

“Uma questão de horas”, afirmou o delegado à Ponte. “Até então, para nós, o autor do crime é o Adriano e mais um segundo”, define Pinheiro. O policial civil explica que há mais um suspeito pelo crime, ainda não identificado. 

O carro do filho de Adriano foi visto pelo sistema Detecta trafegando pelo local bem próximo da hora do desparecimento de Guilherme. 

Ao lado do corpo de Guilherme um pedaço de tecido com a inscrição “SD PM Paulo” foi encontrado. Segundo o delegado, o homem foi ouvido, liberado e qualquer possível participação descartada, porque apresentou um “forte álibi”. A promotoria destaca no pedido de prisão que policiais estiveram na casa da família de Guilherme “exigindo a entrega de tarjeta de identificação de PM localizada por familiares da vítima”.

Para o pedido de prisão, o departamento se baseia em imagens de câmera de segurança em que dois homens aparecem no beco ao lado da casa de Guilherme no dia de seu sequestro e morte. Um deles seria Adriano, conforme explica o delegado.

Adriano e o pai dele, PM aposentado, Sebastião Campos, têm juntos uma empresa chamada Campos Forte Portaria Ldta. Conforme revelou reportagem exclusiva da Ponte, a empresa tem como registro as atividade de zeladoria e limpeza, além de outros serviços administrativos, mas não tem permissão para realizar segurança privada. Além disso, o regulamento interno da PM paulista proíbe que policiais da ativa tenham empresa com esse fim.

“Desconfiávamos que fosse esse soldado Paulo, mas o soldado Paulo não foi. Ele tem um álibi para o dia, muito forte”, explica. “Acreditamos que seja ou o Fábio, funcionário do Adriano, ou uma outra pessoa que o Adriano levou com ele. Pode ser até um outro policial militar”, prossegue. 

Adriano está na Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo onde espera a decisão da Justiça para o pedido de prisão. Caso acatado, ele será transferido para o Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. 

Enquanto o DHPP confirma que um policial está envolvido no sequestro e morte de Guilherme Guedes, até o momento, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, liderada pelo coronel João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), omite a informação.

Avó de Guilherme, dona Antônia vestia camisa com foto do neto | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Secretário-executivo da PM, o coronel Álvaro Camilo negou na terça-feira(16/6) que existisse qualquer suspeita de participação de policiais militares no desaparecimento e morte. 

“Não teve operação policial, não tem nenhum indicativo de que aquilo tenha sido cometido por policiais militares”, disse, em entrevista à TV Globo naquela manhã.

Sobre a identificação de um PM encontrada no beco em que o adolescente desapareceu, disse que “não tinha naquele momento nenhuma operação policial sendo realizada naquela região”.

Quando ainda era deputado estadual pelo PSD, Camilo homenageou Adriano Campos em 2018, segundo informou o Uol. Então integrante da cavalaria da PM, Adriano foi um dos 26 homenageados numa sessão solene de duas horas, que reuniu cerca de 200 pessoas na Assembleia Legislativa de São Paulo, na manhã de 16 de abril de 2018. Na ocasião, os presentes na cerimônia entoaram a “canção da Cavalaria” e Camilo (PSD) discursou que “sempre haverá uma Cavalaria”, diz a reportagem. 

Por pelo menos quatro vezes a assessoria de imprensa terceirizada da pasta, a InPress, mesmo questionada, deixou de informar que poderia haver policiais militares ligados ao caso, conforme solicitado pela Ponte.

A primeira omissão ocorreu em e-mail enviado às 19h28 de terça-feira (16/6), quando a reportagem perguntou sobre essa possibilidade e foi ignorada. Na mesma hora, veículos como o G1 e a TV Bandeirantes indicavam a suspeita de que dois PMs estariam ligados ao sequestro e morte.

O mesmo correu em três contatos feitos ao longo desta quarta-feira (17/6): às 13h26, 14h04 e 16h42. Em todas as mensagens, a Ponte questionou se policiais militares eram investigados e chegou a solicitar um posicionamento da PM sobre a suposta participação de Adriano Campos. 

Durante a tarde desta quarta, a Corregedoria da PM esteve na casa da família de Guilherme ouvindo testemunhas, entre elas a avó que morava com o garoto, suas tias e demais parentes.

Ao longo desta terça-feira, a mãe do jovem, Joyce da Silva dos Santos, depôs na sede da Corregedoria. Ela permaneceu entre 15h e 22h no local, segundo apurado pela reportagem.

Ainda na noite de terça-feira, a família de Guilherme notou que um viatura do Rocam ficou parada por algum tempo na frente do local onde ele foi sequestrado. Informaram também que policiais à paisana rondaram a região. 

De acordo com a avó do garoto, Antônia Arcanjo, a ação da Corregedoria é positiva. “Mostra que estão fazendo algo. Espero que tudo isso acabe logo. Que eu esqueça disso, mas que nunca me esqueça do Guilherme”, disse, vestindo uma camiseta com o rosto do rapaz. 

Na quarta-feira, a Corregedoria da PM foi novamente ao bairro e ouviu mais uma vez as possíveis testemunhas e os familiares. Procurado pela reportagem, o Tribunal de Justiça afirmou que “o caso está sob segredo de Justiça e, neste momento, não podemos fornecer informações.”

Por Arthur Stabile e Paulo Eduardo Dias – Repórteres da Ponte