Líderes mundiais cumprimentam novo governo dos EUA

Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos durante a cerimônia de posse (WhiteHouse/Reprodução)

Momentos após Joe Biden prestar nesta quarta-feira (20/01) o juramento como 46º presidente dos Estados Unidos, vários líderes internacionais saudaram o novo chefe de Estado americano e a vice-presidente Kamala Harris.

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, disse que “hoje é um bom dia para a democracia” e expressou “alívio”. “Estou aliviado que Joe Biden tomou posse como presidente hoje e está entrando na Casa Branca. Sei que esse sentimento é compartilhado por muitas pessoas na Alemanha.”

“Apesar de toda a alegria que temos hoje, não devemos esquecer que o populismo seduziu a democracia mais poderosa do mundo. Devemos nos opor resolutamente à polarização, proteger e fortalecer o espaço público de nossas democracias e moldar a política com base na razão e nos fatos”, completou Steinmeier.

“Esperamos ter os EUA novamente ao nosso lado no futuro como um parceiro indispensável em muitas questões: na luta conjunta e solidária contra a pandemia de covid-19, na proteção climática global, em questões de segurança, incluindo controle de armas e desarmamento, e em muitos conflitos urgentes no mundo.”

Já o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, declarou: “Rituais como a posse de hoje mostram que as instituições democráticas nos EUA funcionam – apesar das dificuldades dos últimos dias e da polarização na sociedade americana.” 

Em seu discurso nesta quarta-feira, Biden mencionou que pretende colocar os EUA novamente no caminho do multilateralismo, após quatro anos de política isolacionista promovida por seu antecessor, Donald Trump. “Vamos restaurar nossas alianças e nos reunir com o mundo novamente, não para enfrentar os desafios de ontem, mas os de hoje e de amanhã”, disse o novo presidente.

Macron celebra volta ao Acordo de Paris

O presidente da França, Emmanuel Macron, também se manifestou. “Muitas felicidades neste dia tão significativo para o povo americano! Estamos juntos”, afirmou, em mensagem a Biden e Kamala Harris.

Macron ainda saudou o plano já anunciado de Biden de retornar ao Acordo Climático de Paris, após Trump ter determinado a saída em 2017. “Estaremos mais fortes para enfrentar os desafios do nosso tempo. Mais fortes para construir nosso futuro. Mais fortes para proteger nosso planeta. Bem-vindo de volta ao Acordo de Paris!”, escreveu no Twitter o presidente francês.

Um dos primeiros líderes a felicitar Biden foi o primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, que se referiu ao novo presidente dos EUA como um “verdadeiro amigo” do país, lembrando as raízes irlandesas do político democrata.

“Ao fazer o juramento, sei que o presidente Biden sentirá o peso da história, a presença dos seus ancestrais irlandeses que deixaram Mayo e Louth em tempos de fome em busca de vida e de esperança”, disse Martin, afirmando ainda que pretende “aprofundar a cooperação” entre os dois países.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, também felicitou Biden e a vice-presidente Kamala Harris, declarando estar “ansioso para trabalhar” com o novo chefe de Estado americano.

“Parabéns a Joe Biden por ter tomado posse como presidente dos Estados Unidos e a Kamala Harris [a primeira mulher no cargo] pela sua posse histórica. A liderança americana é vital em questões que preocupam a todos, desde as mudanças climáticas até a covid-19, e estou ansioso para trabalhar com o presidente Biden”, escreveu o britânico no Twitter.

Reação de Israel e Irã

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, também felicitou o novo presidente e aproveitou para tentar convencer o democrata a abraçar a política externa do governo israelense.

“Estou ansioso para trabalhar com vocês para fortalecer a aliança EUA-Israel, para continuar a expandir a paz entre Israel e o mundo árabe e para enfrentar os desafios mútuos, começando pela ameaça representada pelo Irã”, afirmou o primeiro-ministro num vídeo publicado momentos depois de Biden assumir o cargo.

Irã também reagiu à posse. Embora o país não tenha parabenizado o democrata, o governo fundamentalista de Teerã manifestou que espera que o governo americano volte ao acordo nuclear de 2015, que foi abandonado pelo agora ex-presidente Donald Trump.

“A bola está na quadra dos EUA agora. Se Washington voltar ao acordo nuclear de 2015 com o Irã, também respeitaremos totalmente nossos compromissos sob o pacto”, afirmou o presidente iraniano, Hassan Rouhani, em uma reunião de gabinete transmitida pela televisão.

“Hoje, esperamos que a próxima administração dos EUA retorne ao Estado de direito e se comprometa e, se puder, nos próximos quatro anos, remova todas as manchas dos quatro anos anteriores”, disse ele.

Também a Rússia declarou que espera trabalhar “de forma mais construtiva” com a nova administração americana liderada por Biden, especialmente na prorrogação do tratado de desarmamento nuclear New START, que expira em 5 de fevereiro. “Esperamos que a nova administração americana mostre uma posição mais construtiva no diálogo conosco”, indicou a diplomacia russa num comunicado.

“Grande dia para a democracia”

O chefe de governo da Itália, Giuseppe Conte, também se juntou às felicitações a Joe Biden e Kamala Harris, afirmando que esta quarta-feira é “um grande dia para a democracia”. Já o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, ofereceu apoio à nova administração americana.

papa Francisco dirigiu igualmente algumas palavras ao novo presidente americano, encorajando Biden a promover a “reconciliação e a paz” nos Estados Unidos e entre as nações do mundo, com o objetivo de “promover o bem comum universal”. Biden é o segundo presidente católico da história dos EUA.

Bolsonaro se manifesta após Maia e Alcolumbre publicarem felicitações

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, publicou uma mensagem de felicitações horas depois de os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, terem parabenizado Biden. Em uma carta de três páginas reproduzida no Twitter, Bolsonaro expôs sua “visão de um excelente futuro para a parceria Brasil-EUA”.

Em tom moderado, em contraste com suas declarações anteriores hostis ao democrata, Bolsonaro listou uma série de pontos em que o Brasil e os EUA podem buscar cooperação. “É minha convicção que, juntos, temos todas as condições para seguir aprofundando nossos vínculos e agenda de trabalho, em favor da prosperidade e do bem-estar de nossas nações”, diz a carta assinada por Bolsonaro.

“Ao desejar a Vossa Excelência pleno êxito no exercício de seu mandato, peço que aceite, Senhor Presidente, os votos de minha mais alta estima e consideração”, finaliza o documento.

O tom do documento também contrasta com as atitudes de Bolsonaro nos últimos meses. Após o anúncio da vitória de Biden, em novembro, o brasileiro deixou claro que não ficou contente com o resultado e a consequente derrota do seu ídolo e aliado Donald Trump. Bolsonaro demorou mais de um mês para reconhecer a vitória de Biden e chegou a endossar as acusações infundadas de Trump de que o pleito havia sido fraudado.

O ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, outro fã de Trump, também não escondeu sua insatisfação com a vitória democrata. Nos últimos dias, ele tem usado o Twitter para reclamar da exclusão do ex-presidente republicano de várias redes sociais.

Mais cedo, o vice-presidente, Hamilton Mourão, mencionou a posse, mas se limitou a falar de sua expectativa sobre as futuras relações entre EUA e Brasil. “A relação Brasil-EUA é uma relação que vem desde a nossa independência, é uma relação de Estado para Estado e, desta maneira, ela vai continuar. É um parceiro comercial importante, é um parceiro tecnológico importante. E sempre colocando que os Estados Unidos, o modelo democrático americano, é um farol para o mundo ocidental e, desta forma, ela vai prosseguir”, afirmou o vice.

Os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, haviam parabenizado Biden e a vice Kamala Harris de maneira mais direta, antes da manifestação de Bolsonaro. “Que as duas nações atuem em conjunto em favor do fortalecimento da democracia, do combate ao radicalismo e da proteção do meio ambiente”, escreveu Maia no Twitter.

“Que os nossos países possam manter abertos os canais do diálogo e do entendimento, sempre buscando o equilíbrio”, escreveu Alcolumbre.

Por Deutsche Welle

JPS/lusa/ots

“Hoje celebramos a vitória não de um candidato, mas de uma causa: a democracia”, diz Biden

O democrata Joe Biden assumiu nesta quarta-feira (20/01) a presidência dos Estados Unidos. Ele foi empossado como o 46º presidente americano numa cerimônia realizada em frente ao Capitólio, em Washington.

Kamala Harris também foi oficializada como a 49ª vice-presidente do país, a primeira mulher e a primeira pessoa de ascendência negra e indiana no cargo.

O democrata prestou o juramento de posse perante o presidente da Suprema Corte dos EUA, John Roberts, colocando a mão em um enorme exemplar da Bíblia que está na família Biden há mais de um século.

“Aprendemos novamente que a democracia é preciosa, que a democracia é frágil, e esta é a hora em que a democracia prevaleceu”, disse Biden em seu discurso. Ele relembrou a violenta invasão do Capitólio há duas semanas por uma turba de partidários do seu antecessor, Donald Trump. “Hoje celebramos a vitória não de um candidato, mas de uma causa: a democracia.”

Ao longo de seu discurso, Biden reforçou pedidos para que os americanos deixem as divisões de lado, após uma eleição dramática e caos político estimulado por seu antecessor.  “Falar sobre união parece bobagem. Mas sem unidade não há paz, apenas amargura e fúria”, disse.

“Política não tem que ser incêndio que destrói tudo a sua frente, tanta discórdia não precisa levar a guerras. Precisamos rejeitar a cultura em que fatos são manipulados e inventados. Caros americanos, temos que ser diferentes. Os EUA têm que ser melhores do que isso. E creio que os EUA são muito melhores do que isso.”

“Precisamos de união para lutar contra os inimigos que enfrentamos. Raiva, ressentimento e ódio, extremismo, ilegalidade, violência, doença, desemprego e desesperança. Com unidade podemos fazer grandes coisas, coisas importantes, e consertar erros”, acrescentou. “Lutarei tanto pelos que não me apoiaram quanto pelos que me apoiaram.” 

Biden também fez uma alusão às mentiras disseminadas nos últimos meses para minar a confiança no processo eleitoral americano, que provocaram uma das piores crises políticas no país em décadas. “Nas últimas semanas e meses, aprendemos uma lição dolorosa. Existe a verdade e existem as mentiras. Mentiras contadas em busca do poder e lucro. E cada um de nós tem o dever e a responsabilidade de defender a verdade e derrotar as mentiras.”

Biden ainda mencionou que pretende colocar os EUA novamente no caminho do multilateralismo, após quatro anos de uma política isolacionista. “Vamos restaurar nossas alianças e nos reunir com o mundo novamente, não para enfrentar os desafios de ontem, mas os de hoje e de amanhã”, disse o presidente.

Ao final de seu discurso, o presidente ainda pediu um minuto de silêncio em memória dos americanos que morreram ao longo da pandemia.

Posse com público limitado e temor de ataques

(Marc Loi/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

A cerimônia de posse teve público limitado, tanto por causa das restrições da pandemia quanto pela forte presença militar para garantir a segurança, diante do temor que apoiadores de Trump inconformados com a vitória democrata cometessem atos de violência ou atentados terroristas. Ao todo, 25 mil soldados da Guarda Nacional foram deslocados para Washington, uma quantidade nunca vista numa transição de governo nos EUA.

Entre os presentes na cerimônia estavam os ex-presidentes democratas Barack Obama e Bill Clinton e o republicano George W. Bush. Lady Gaga cantou o hino do país durante o evento.

Como parte dos eventos de posse, Biden compareceu pela manhã a uma missa na Catedral de São Mateus Apóstolo, na capital americana. Ele estava acompanhado de sua esposa Jill Biden, além da vice-presidente Kamala Harris. Biden é o segundo católico na história dos EUA a assumir a presidência, depois de John F. Kennedy.

Em vez de uma multidão de apoiadores, o parque National Mall, que ladeia os prédios do governo federal, foi coberto por quase 200 mil bandeiras e 56 pilares de luz destinados a representar pessoas dos estados e territórios dos EUA.

Outras etapas tradicionais de posses presidenciais americanas também foram deixadas de lado neste ano. Em vez do desfile pela Avenida Pensilvânia, haverá um memorial no Cemitério Nacional de Arlington. Já os bailes da posse deram lugar a festas pelo Zoom.

Posse num momento crítico

O democrata de 78 anos assume o governo num momento crítico para os EUA. O país passa por uma combinação sem precedentes de crise sanitária e econômica por causa da pandemia. Os EUA são o país que registraram mais mortes no mundo associadas à covid-19. O número de vítimas ultrapassou a marca de 400 mil na terça-feira.

Além disso, o país ainda lida com os efeitos da invasão do Capitólio por uma turba de apoiadores de Trump, que incluiu neonazistas e supremacistas brancos. Cinco pessoas morreram durante o ataque. O caso rendeu a abertura de um processo de impeachment contra Trump, e a ação deve ter continuidade mesmo com a saída do republicano do poder.

Antes mesmo da posse, Biden já havia prometido reverter políticas de Trump, como a saída do Acordo Climático de Paris, o rompimento com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o veto à imigração de uma série de países de maioria muçulmana. Ele ainda prometeu reunir famílias de imigrantes ilegais que foram separadas em centros de detenção diferentes na fronteira com o México. Seu governo deve anunciar ainda nesta quarta-feira 17 decretos para reverter medidas de Trump.

Para limitar a propagação do coronavírus, o novo presidente anunciou que vai assinar um decreto para tornar obrigatório o uso de máscaras em prédios federais e para funcionários do governo central.

Trump fora da Casa Branca

(Shealah Craighead/Casa Branca)

Mais cedo, o agora ex-presidente Trump deixou a Casa Branca. Ele não compareceu à posse de Biden. Foi a primeira vez em 150 anos que um presidente dos EUA deliberadamente não compareceu à posse do sucessor. O último foi Andrew Johnson (1865-1869). Na posse de Biden, o governo Trump foi representado pelo agora ex-vice-presidente Mike Pence.

Ao deixar a sede do governo americano, Trump fez um discurso em tom de campanha, sinalizando que pretende permanecer ativo na política. “Eu sempre vou lutar por vocês. Vou estar vendo e ouvindo. Adeus, mas nós vamos voltar de algum jeito”, disse Trump para apoiadores na base aérea de Andrews, em frente ao Air Force One, o avião presidencial, antes de partir para a Flórida.

Sem citar Biden, Trump desejou sorte à nova gestão, mas aproveitou a ocasião para elogiar o seu próprio governo. “Como dizem os atletas, nós demos tudo em campo. Não poderíamos ter feito um trabalho mais duro. Eles [os democratas e Biden] terão uma boa base para fazer coisas. Nos próximos meses, haverá bons números na economia. Lembrem-se de nós”, disse o republicano.

Antes de deixar a presidência, Trump ainda concedeu mais de uma centena de perdões presidenciais. Entre os beneficiados estavam vários antigos aliados, como o seu ex-assessor e ideólogo da extrema direita Steve Bannon e Elliott Broidy, um doador da campanha de Trump que confessou ter conspirado para violar leis que regulam o lobby político.

Uma eleição dramática

A vitória de Biden ficou clara no dia 7 de novembro, quatro dias após o pleito, depois de o democrata conquistar os votos do estado da Pensilvânia. No total, ele recebeu 306 votos no Colégio Eleitoral, contra 232 de Trump.

Com o resultado, Trump se tornou o primeiro presidente americano no cargo a perder a reeleição desde George H. Bush, em 1992. O republicano também se recusou a aceitar a derrota, alegando ter sido vítima de fraude eleitoral, mesmo sem apresentar provas. A atitude de Trump gerou uma crise política nos EUA, que chegou ao ápice duas semanas atrás com a invasão do Capitólio, após um discurso incendiário do republicano.

Meio século na política

Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos, e Kamala Harris, vice-Presidente (RS/via Fotos Públicas)

Biden, de 78 anos, é de longe o candidato mais velho a tomar posse como presidente dos EUA. Católico de uma família de classe trabalhadora, Joseph Robinette “Joe” Biden Jr. tem uma carreira política que se entende por mais de meio século. Ele passou a disputar cargos em 1969, montando sua base eleitoral em Delaware. Entrou para o Senado em 1973, aos 30 anos, e até hoje detém o recorde de terceiro senador mais jovem da história dos EUA no século 20.

Ele também chegou à Casa Branca mais de três décadas depois de sua primeira tentativa de representar a legenda na disputa presidencial. Ele tentou duas vezes emplacar uma candidatura, em 1988 e 2008, mas em ambas falhou em conquistar a simpatia do eleitorado democrata.

Sem o dom para a oratória e o carisma de outros tantos políticos democratas, como Barack Obama ou John Kennedy, ou seguidores apaixonados como os de Bernie Sanders, Biden jamais foi o tipo de candidato capaz de entusiasmar o eleitorado. Muitos democratas admitiram no início da campanha que ele estava longe de ser o candidato ideal, especialmente para a ala que tenta puxar o partido para a esquerda. Seu carisma e personalidade amigável também costumam se manifestar melhor com pequenas plateias e contato direto – algo que foi bastante dificultado pela pandemia. Para piorar, ele sempre foi dado a gafes.

Nas eleições de 2020, no entanto, essa personalidade moderada e pouco polarizadora acabou se mostrando uma receita vencedora diante do populismo de Trump, um dos presidentes mais divisivos da história americana. Trump, que deve parte de sua ascensão em 2016 aos ataques incendiários que distribuiu contra seus concorrentes, teve dificuldade de pintar “Joe sonolento” (como se referia a ele) como um vilão ou um “comunista”, ao contrário do que ocorreu com Hillary Clinton. O democrata também foi beneficiado por esta eleição ter sido transformada num plebiscito sobre a era Trump, que teve seu último ano marcado pela gestão errática da pandemia e o declínio da economia.

Em agosto, Biden resumiu a disputa como “uma batalha pela alma dos Estados Unidos”. Em março de 2020, Biden parecia liquidado em mais uma disputa pela indicação do Partido Democrata, mais viu sua então pré-candidatura ressurgir das cinzas na chamada primária da “Superterça” no sul do país.

Durante a pré-campanha e a disputa direta com Trump, ele apelou de maneira sistemática para seus oito anos de experiência como vice-presidente ao lado do “amigo” Barack Obama na Casa Branca, uma arma que se revelou determinante para conquistar o eleitorado negro do país.

Sua trajetória pessoal também contou com uma forma de angariar empatia entre o eleitorado. Biden tem uma vida marcada por tragédias. Menos de um mês após sua primeira eleição para o Senado em 1972, sua primeira esposa, Neilia Hunter, e sua filha de 1 ano morreram em um acidente de carro quando saíram para comprar uma árvore de Natal. Seus dois filhos ficaram gravemente feridos, mas sobreviveram ao acidente. O mais velho, Beau, morreu vítima de câncer em 2015.

Por Deutsche Welle

JPS/ots

Novo presidente dos EUA toma posse hoje

Joe Biden com a vice Kamala Harris (Fotos Públicas/Reprodução)

Joe Biden assume nesta quarta-feira (20) como o 46º presidente dos Estados Unidos em uma cerimônia com limitações provocadas pela pandemia do novo coronavírus e com segurança reforçada, após o ataque ao Capitólio no início do mês. Acompanhado pela vice-presidente Kamala Harris eles tomam posse às 12h (14h no horário de Brasilia). 

Devido à pandemia, a cerimônia de posse do democrata terá poucos convidados e não terá público, ao contrário do que tradicionalmente ocorre.

A equipe de transição de Biden já previa um evento limitado devido à covid-19, que nos Estados Unidos matou mais de 400 mil pessoas, mas o ataque ao Capitólio no dia 6 de janeiro fez com que a prefeitura de Washington reforçasse a segurança da cidade. Na tarde ontem, 25 mil membros da Guarda Nacional aguardavam a chegada de Biden, mais que o dobro do efetivo de cerimônias passadas.

(Marc Loi/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

A posse de Biden e Kamala Harris não terá desfile, multidões ou baile, mas estão previstos atos virtuais e televisionados para compensar a falta de público. O atual presidente, Donald Trump, não vai comparecer à posse e será substituído pelo vice, Mike Pence.

O número de convidados será limitado. Além de congressistas e dos membros do governo, estarão presentes os ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton, acompanhados de suas esposas, e o vice-presidente Mike Pence. Segundo os organizadores, serão colocadas 200 mil bandeiras dos estados para representar aqueles que não poderão participar do ato.

Biden fará o juramento em uma Bíblia que está com sua família desde o século 19 e o padre jesuíta Leo O’Donovan, amigo de Biden, fará a oração inaugural. O juramento à bandeira será feita por uma chefe dos bombeiros de South Fulton (Geórgia) e Lady Gaga vai cantar o Hino Nacional. 

Segundo a mídia local, a poetisa Amanda Gorman lerá um poema e haverá apresentações musicais de Jennifer López e de Garth Brooks. 

Na conclusão da cerimônia, Biben fará a tradicional inspeção das tropas como novo comandante-chefe do país. O desfile até a Casa Branca, no entanto, será substituído por um desfile virtual com a participação de pessoas de todo os EUA, segundo informaram os organizadores. Já o baile foi substituído por um especial de 90 minutos apresentado pelo ator Tom Hanks com a participação de vários artistas como Justin Timberlake, Bruce Springsteen, Bon Jovi e Demi Lovato. O evento será transmitido em vários canais, além das redes sociais.

Donald Trump

Ontem (19), Donald Trump exibiu um vídeo com seu discurso de despedida, divulgado no canal da Casa Branca no YouTube. Trump disse que encerra seu mandato como 45º presidente dos EUA orgulhoso de sua gestão. “Nós fizemos o que viemos aqui para fazer – e muito mais”.

Trump desejou que a administração de Joe Biden mantenha “a América a salvo e próspera”. “Nós estendemos nossos melhores desejos e também queremos que eles tenham sorte – uma palavra muito importante.”

O presidente também falou sobre o ataque ao Capitólio. “Todos os americanos ficaram horrorizados com o ataque ao nosso Capitólio. Violência política é um ataque a tudo que celebramos como americanos. Nunca pode ser tolerada.”

Invasão do Capitólio

(Bryan Myhr/Guarda Nacional dos EUA/via Fotos Públicas)

A vitória de Biden foi confirmada pelo Congresso norte-americano no dia 7 de janeiro. Biden teve 306 votos confirmados contra 232 para Donald Trump. 

No dia anterior, logo após o início da sessão para confirmação dos votos, o Capitólio, sede do Parlamento norte-americano, foi invadido por manifestantes, em uma ação que resultou na morte de cinco pessoas, sendo uma delas um policial, e mais de 50 detidos. A Guarda Nacional precisou intervir para que a sessão conjunta entre Câmara e Senado, que foi suspensa com a invasão, pudesse ser retomada. Washington declarou toque de recolher.

Donald Trump chegou a afirmar por meio das redes sociais que a transição desta quarta-feira será pacífica, apesar de novamente falar em fraude no processo eleitoral. No dia 13, Trump foi acusado formalmente de incitar uma insurreição contra o governo dos Estados Unidos e a Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) abriu um processo de impeachment contra presidente sete dias antes dele deixar o cargo. 

As eleições americanas ocorreram no dia 24 de outubro, mas, este ano, a disputa foi acirrada e o resultado oficial ocorreu praticamente com a confirmação do resultado pelo Congresso. Nos Estados Unidos, cada estado tem autonomia e o anúncio oficial de cada uma das unidades federativas deve ser feito até dia 14 de dezembro, quando o Colégio Eleitoral confirma um vencedor a partir da somatória do número de delegados de cada estado – que varia de 3 a 55 – são esses delegados que escolhem o vencedor do pleito. Os votos de delegados vão para o partido que receber 50% dos votos mais um.

Tradicionalmente, os principais veículos de mídia dos Estados Unidos antecipam o vencedor e, normalmente, os próprios candidatos “confiam” nesta apuração informal e “aceitam” a derrota ou “comemoram” a vitória. 

Donald Trump sustentou desde a divulgação desse resultado preliminar que houve fraude nas eleições e apresentou diversos recursos e ações judiciais para recontagem em vários estados alegando, por exemplo, que os votos enviados pelo correio estariam sujeitos a adulterações. No entanto, Trump não conseguiu nem uma vitória nos tribunais.

Internacionalmente alguns chefes de estado preferiram esperar uma definição mais clara da situação eleitoral para cumprimentar Biden, como foi o caso da China, da Rússia e do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

O comunicado de Bolsonaro ocorreu um dia depois da votação do Colégio Eleitoral que confirmou a eleição do democrata como próximo presidente norte-americano. “Estarei pronto a trabalhar com vossa excelência e dar continuidade à construção de uma aliança Brasil-EUA, na defesa da soberania, da democracia e da liberdade em todo o mundo, assim como na integração econômico-comercial em benefício dos nossos povos”, disse Bolsonaro.

Relação Brasil-EUA

Para o professor Relações Internacionais da UnB, Juliano Cortinhas, a vitória de Biden nos Estados Unidos representará mais pragmatismo na relação entre os dois países e mais cobrança em relação a temas como o meio ambiente e direitos humanos.

“O pragmatismo me parece, do lado dos Estados Unidos, que será a palavra chave para a gente entender como eles vão olhar o Brasil. O Brasil está longe de ser prioridade para os Estados Unidos e vai continuar longe de ser. E certamente haverá muito mais cobranças em relação ao meio ambiente e em relação a direitos humanos.”

Para Cortinhas, o Brasil precisa fazer a “lição de casa” para mostrar ao governo Biden que é um país importante com o qual os EUA tem interesse e legitimidade para negociar. “Hoje o que eu vejo nessa relação bilateral será muito mais cobranças vindas de lá. O foco [tende a ser] nos grandes parceiros dos Estados Unidos, [como] China, União Europeia principalmente, e outros países com os quais eles têm parcerias mais estratégicas.”

Para o professor o Brasil terá um cenário diferente e bastante difícil pela frente.

Por Agência Brasil

* Com informações de agências internacionais

Posses presidenciais excepcionais na história dos EUA

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante Reunião bilateral com Donald J. Trump, Presidente dos Estados Unidos da América, em Osaka – Japão (Alan Santos/Presidência da República)

Quando a voz de Lady Gaga soar durante a posse de Joe Biden nesta quarta-feira (20/01), exatamente 14 dias depois de apoiadores de Donald Trump invadirem o Capitólio, o novo presidente dos Estados Unidos poderá começar sua tarefa de reconciliar um país que se encontra dividido como há muito tempo não se via.

“O significado clássico da cerimônia de posse presidencial é a transferência de poder em uma cerimônia pacífica”, ressalta Jürgen Martschukat, especialista em história americana da Universidade de Erfurt. Mas uma olhada nos livros de história serve para destacar o quanto a situação é diferente desta vez.

Desde que George Washington se tornou o primeiro presidente dos EUA a fazer seu juramento de posse, em 30 de abril de 1789, o sinal mais visível de uma transferência pacífica de poder é a presença do líder que se despede do cargo. Mas Trump anunciou repetidamente que não vai à cerimônia.

O ritual desta quarta-feira também permitirá pouco público no sentido clássico, pois devido à pandemia de coronavírus e o medo da violência, o evento ocorrerá na maior parte virtualmente.

Posse de Jefferson sem antecessor

Na sociedade americana, a anunciada ausência de Trump traz outras poucas lembranças. No século 19, três presidentes romperam a tradição de não comparecer à posse de seu sucessor eleito.

Em 4 de março de 1801, Thomas Jefferson, acompanhado por congressistas e oficiais de uma milícia de cidadãos, entrou no prédio do Parlamento de Washington – o Capitólio ainda estava em construção – e fez seu juramento de posse ao meio-dia em ponto. A banda dos fuzileiros navais tocou. Ambos os detalhes ainda são tradição. Foi a primeira posse presidencial na capital recém-fundada e também a primeira da qual o antecessor – no caso, John Adams – não participava.

Depois viriam o filho de Adams, John Quincy Adams, em 1829, e Andrew Johnson, em 1869. A ausência de antecessores na posse presidencial ainda se repetiria algumas vezes na história americana, mas por motivos de saúde ou pela morte súbita de um presidente.

Foi o que aconteceu em 22 de novembro de 1963 às 14h38 (horário local), quando Lyndon B. Johnson fez seu juramento a bordo do avião presidencial Air Force One, no aeroporto de Dallas. Duas horas antes, o presidente John F. Kennedy havia sido assassinado. Ao lado de Johnson estava a viúva de Kennedy, Jacqueline. O sangue de seu marido ainda manchava seu traje Chanel cor-de-rosa.

“Fim do pesadelo”

Richard Nixon não estava presente quando seu vice, Gerald Ford, prestou juramento de posse em 8 de agosto de 1974 na Sala Leste da Casa Branca. Nixon havia anunciado sua renúncia em um discurso televisionado depois que ficou claro que o Congresso iria tirá-lo do poder por impeachment por causa do escândalo de Watergate. A primeira declaração pública de Ford soava otimista: “Meus queridos compatriotas, nosso longo pesadelo nacional terminou, nossa Constituição funciona”, disse.

Quase 50 anos depois e após quatro anos de gestão do republicano Donald Trump, Joe Biden poderia tomar as palavras de Ford como um exemplo. “A divisão do país, a crescente incompatibilidade dos dois partidos dos EUA, tudo isso vem se acirrando desde os anos 1970”, avalia o historiador Jürgen Martschukat, em entrevista à DW.

Ele vê Trump como o “efeito de um longo conflito latente entre os vários campos – entre a cidade e o campo, assim como entre vencedores e perdedores em um mundo cada vez mais globalizado”. Segundo Martschukat, isso é algo que foi ignorado “por muito tempo”.

Mas já houve dias em que um presidente americano assumia o cargo em meio a um país tão dilacerado quanto o atual. Foi o caso em 1869, após a Guerra Civil Americana, quando Andrew Johnson deixava a presidência e Ulysses Grant assumia. “Aquela mudança de cargo encerrou o que foi talvez a fase mais decisiva da história americana”, sublinha Martschukat. “O fato de o presidente que saía do poder não estar presente refletia a turbulência do país, como também desta vez.”

Racismo ainda divide os EUA

Antes da eclosão da Guerra Civil Americana (1861-1865), Abraham Lincoln havia declarado que não toleraria uma divisão. Em reação à eleição do oponente moderado da escravidão para presidente dos Estados Unidos, sete estados escravocratas deixaram a União no inverno de 1860/61 para formar os Estados Confederados da América. A guerra, com centenas de milhares de mortos, seguiu seu curso. Lincoln não chegaria a testemunhar a rendição dos confederados. Pouco depois de sua reeleição, ele morreu assassinado a tiros em 15 de abril de 1865.

A principal polêmica da guerra civil foi a escravidão. De fato, até hoje o racismo divide o país e, como afirma o historiador Martschukat, é “um fator central” no conflito político nos EUA. Isso, por si só, tornou Barack Obama um portador de esperança. Cerca de 1,8 milhão de pessoas foram à sua cerimônia de posse como primeiro presidente negro dos Estados Unidos, em 20 de janeiro de 2009. Aquele evento se tornou uma demonstração do multiculturalismo dos EUA. Embora a banda de fusileiros navais tenha tocado como sempre, o que tocou o coração das pessoas foi a apresentação de Aretha Franklin. Ela cantou o hino nacional não oficial dos EUA: My country, ‘tis of thee.

É uma ode à liberdade. “Terra onde meus pais morreram”, diz a letra. “Terra do orgulho dos peregrinos, que o grito de liberdade ressoe de cada encosta da montanha!” A canção patriótica escrita por Samuel Francis Smith em 1831 lembra a maneira como os americanos se viam desde a Declaração da Independência em 1789.

“Ela fala de liberdade e busca da felicidade”, lembra Martschukat. “Essas promessas foram feitas a todos, mas desde o início houve pessoas que foram excluídas.” O historiador afirma que mulheres, afro-americanos e outras minorias tiveram que conquistar eles mesmos esses direitos. “O conflito permeia toda a história americana e chegou a um auge nos últimos anos”, ressalta. “Aquilo que une é o mesmo que separa.”

Joe Biden, Presidente eleito dos Estados Unidos, e Kamala Harris, vice-Presidente eleita (RS/via Fotos Públicas)

Para a posse do futuro presidente dos EUA, Joe Biden, e sua vice Kamala Harris nesta quarta-feira, muitas estrelas foram anunciadas. Além de Lady Gaga, a cantora e atriz Jennifer Lopez também participará. Já o ator Tom Hanks apresentará o especial de televisão Celebrating America, e uma instalação de arte deverá ser montada no parque National Mall diante do Capitólio.

Quatro anos após o anúncio de Donald Trump sobre “tornar a América grande novamente”, cabe ao presidente Biden cumprir essa promessa à sua maneira.

Por Stefan Dege, da Deutsche Welle

Colégio Eleitoral confirma vitória de Joe Biden

Joe Biden com a vice Kamala Harris (Fotos Públicas/Reprodução)

O Colégio Eleitoral dos Estados Unidos confirmou nesta segunda-feira (14/12), como era previsto, a vitória do democrata Joe Biden na eleição presidencial frente ao atual presidente, o republicano Donald Trump.

Com a votação dos 55 delegados da Califórnia, onde Biden venceu com cerca de 63% de votos, o democrata superou amplamente a maioria de 270 votos necessária para chegar à Casa Branca, horas depois do início das votações do Colégio Eleitoral em cada estado.

Com isso, o democrata se aproximou de confirmar os 306 delegados do Colégio Eleitoral, contra 232 de Trump. Considerando o voto popular, Biden teve 81,3 milhões de votos (51,3%) contra 74,2 milhões (46,8%) de Trump.

A cerimônia de posse de Biden enquanto o 46.º Presidente dos Estados Unidos está agendada para o dia 20 de janeiro. 

No sistema eleitoral dos Estados Unidos, os delegados do Colégio Eleitoral confirmam, em suas reuniões em cada estado, o que foi votado nas urnas pelos milhões de americanos nas eleições, realizadas há um mês e meio.

A grande mídia já previa em 7 de novembro que Biden alcançaria 306 votos eleitorais e arrancaria a presidência de Trump, mas o atual presidente desde então se recusou a admitir a derrota, alegando, sem apresentar provas, ter ocorrido fraude eleitoral maciça, o que foi repetidamente refutado pelas autoridades eleitorais.

Essa campanha inédita realizada por Trump deu especial importância à votação no Colégio Eleitoral, a qual costuma ser um mero passo burocrático para ratificar um resultado já amplamente conhecido e aceito.

MD/efe/ap

Por Deutsche Welle