Maia recebe apoio de ex-integrantes do Itamaraty

Seis ex-ministros das Relações Exteriores do Brasil publicaram neste domingo (20/09) uma nota de apoio ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que na última sexta-feira criticou a visita do chefe da diplomacia dos EUA, Mike Pompeo, ao estado de Roraima.

Na ocasião, o secretário de Estado americano visitou um centro de acolhida de refugiados em Boa Vista e fez um discurso linha-dura contra o regime chavista, chamando Nicolás Maduro de “traficante de drogas”. Ele ainda se encontrou com Ernesto Araújo, o ultraconservador ministro das Relações Exteriores de Jair Bolsonaro.

A nota de apoia a Maia é assinada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (que chefiou o Itamaraty no governo Itamar Franco) e pelos ex-ministros Francisco Rezek (governo Collor), Celso Lafer (governos Collor e FHC), Celso Amorim (governos Itamar e Lula), José Serra e Aloysio Nunes Ferreira (governo Temer).

No texto, eles compartilham a opinião de Maia, que havia criticado especialmente o timing da visita – menos de seis semanas antes da eleição presidencial dos EUA. O deputado ainda afirmou que permitir a presença de Pompeo junto à fronteira com a Venezuela – com quem os EUA mantêm uma relação hostil – estava em desacordo “com a boa prática diplomática internacional e afronta as tradições de autonomia e altivez” das “políticas externa e de defesa” do Brasil.

A nota do ex-ministros elogia Maia pelo tom crítico, e afirma que o deputado agiu como “intérprete dos sentimentos do povo brasileiro”.

“Responsáveis pelas relações internacionais do Brasil em todos os governos democráticos desde o fim da ditadura militar, os signatários se congratulam com o deputado Rodrigo Maia, Presidente da Câmara dos Deputados, pela nota de 18 de setembro, pela qual repudia a visita do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a instalações da Operação Acolhida, em Roraima, junto à fronteira com a Venezuela”, diz o texto.

“Conforme salientado na nota do presidente da Câmara, temos a obrigação de zelar pela estabilidade das fronteiras e o convívio pacífico e respeitoso com os vizinhos, pilares da soberania e da defesa. Nesse sentido, condenamos a utilização espúria do solo nacional por um país estrangeiro como plataforma de provocação e hostilidade a uma nação vizinha”, completa o texto.

No sábado, o atual titular do Itamaraty, Ernesto Araújo, que serviu como anfitrião de Pompeo, reagiu à nota de Maia e disse que a opinião do presidente da Câmara “baseia-se em informações insuficientes e em interpretações equivocadas”.

Em um longo texto disponibilizado no site do ministério, Araújo

“Buscar a paz não significa acovardar-se diante de tiranos e criminosos. A independência nacional não significa rejeitar parcerias que nos ajudem a defender nossos interesses mais urgentes e nossos valores mais caros. Promover a integração latino-americana não significa facilitar a integração dos cartéis da droga”, escreveu Araújo num texto disponibilizado no site do Itamaraty.

Sem citar nomes, ele ainda criticou a atuação dos seus antecessores à frente do ministério nos últimos 20 anos, afirmando que eles alternaram um “silêncio cúmplice” ou “colaboração descarada” em relação ao regime chavista. “A triste história da diplomacia brasileira para a Venezuela entre 1999 e 2018 constitui exemplo de cegueira e subserviência ideológica, altamente prejudicial aos interesses materiais e morais do povo brasileiro e a toda a América Latina.”

A visita de Pompeo a Roraima na sexta-feira foi a terceira etapa de um giro pela América do Sul. Na quinta-feira, ele já havia visitado Georgetown, a capital da Guiana, e Paramaribo, no Suriname, e se reunido com os presidentes desses países. Nas duas etapas anteriores, ele também fez pesadas críticas a Maduro. Parte da imprensa americana interpretou o giro como um gesto para conquistar votos entre o eleitorado de origem latina do estado americano da Flórida, considerado decisivo nas eleições presidências dos EUA, previstas para o início de novembro.

JPS/ots

Por Deutsche Welle

Em Boa Vista, Pompeo faz discurso linha-dura contra Maduro

Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores do Brasil, ao lado de Mike Pompeo, chefe da Diplomacia dos EUA (Min. Rel. Exteriores/Reprodução)

O secretario de Estado dos EUA, Mike Pompeo, fez duras críticas a Nicolás Maduro nesta sexta-feira (18/09), durante visita a Boa Vista, Roraima. O chefe da diplomacia dos EUA chamou o líder venezuelano de “traficante de drogas” que “destruiu” seu país. Ele ainda afirmou que não pode responder quando Maduro vai cair, “mas que esse dia vai chegar”.

“Não devemos esquecer que ele (Maduro) é um líder que destruiu o seu próprio país, mas também é um traficante de drogas, que envia drogas ilícitas para os EUA todos os dias, impactando americanos todos os dias”, disse Pompeo.

“A questão de quando Maduro partirá só pode ser respondida no dia em que ele partir”, disse Pompeo, comparando o venezuelano com antigos líderes da Alemanha Oriental e da Romênia comunista. “Ninguém pode prever quando será esse dia, mas esse dia vai chegar”, acrescentou.

O secretário do governo Donald Trump ainda afirmou que a missão dos EUA é “assegurar que a Venezuela tenha uma democracia” e que os americanos querem “representar as pessoas” no país sul-americano.

Pompeo deu as declarações durante uma visita a um centro de acolhida de refugiados venezuelanos na capital de Roraima. “As pessoas com que falei hoje estão desesperadas para voltar para casa”, disse o secretário.  Estimativas das Nações Unidas apontam que mais de 250 mil venezuelanos fugiram para o Brasil nos últimos anos, tentando escapar da ruína econômica e da turbulência política no país vizinho. Mas apenas um quinto desse total recebeu o status de refugiado. Dezenas de milhares de pedidos seguem em análise.

Numa etapa anterior da viagem, na Guiana, Pompeo já havia se referido ao líder venezuelano como um “traficante”.

“Nós sabemos que o regime de Maduro dizimou o povo da Venezuela, e que o próprio Maduro é um traficante de drogas que já foi denunciado judicialmente. Isso significa que ele tem que ir embora”, completou. Em março, promotores americanos apresentaram uma denúncia criminal contra Maduro e membros do seu círculo por conspiração de narcoterrorismo e tráfico de cocaína. 

O governo dos EUA também ofereceu uma recompensa de 15 milhões de dólares por informações que levem o venezuelano à prisão.

Durante a visita a Roraima, Pompeo também se encontrou com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo. Os EUA e o Brasil não reconhecem Maduro como presidente. Em 2018, o venezuelano foi reeleito para mais um mandato presidencial em um pleito marcado por acusações de fraude e intimidação. Em 2019, Brasil, EUA e dezenas de outros países reconheceram Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como líder do país. 

A visita de Pompeo foi a terceira etapa de um giro pela América do Sul. Na quinta-feira, ele já havia visitado Georgetown, a capital da Guiana, e Paramaribo, no Suriname, e se reunido com os presidentes desses países. Nas duas etapas anteriores, ele também fez pesadas críticas a Maduro. Parte da imprensa americana interpretou o giro como um gesto para conquistar votos entre o eleitorado de origem latina do estado americano da Flórida, considerado decisivo nas eleições presidências dos EUA, previstas para o início de novembro.

Depois de Roraima, Pompeo segue para Bogotá, onde deve se encontrar com o presidente colombiano, Ivan Duque.

A visita de Pompeo a Roraima foi alvo de críticas do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que apontou que a vinda do americano não era apropriada a menos de 46 dias da eleicao nos EUA.

“A visita do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, nesta sexta-feira, às instalações da Operação Acolhida, em Roraima, junto à fronteira com a Venezuela, no momento em que faltam apenas 46 dias para a eleição presidencial norte-americana, não condiz com a boa prática diplomática internacional e afronta as tradições de autonomia e altivez de nossas políticas externa e de defesa”, disse Maia, em nota.

“Como Presidente da Câmara dos Deputados, vejo-me na obrigação de reiterar o disposto no Artigo 4º da Constituição Federal, em que são listados os princípios pelos quais o Brasil deve orientar suas relações internacionais. Em especial, cumpre ressaltar os princípios da: (I) independência nacional; (III) autodeterminação dos povos; (IV) não-intervenção; e (V) defesa da paz.”

“Patrono da diplomacia brasileira, o Barão do Rio Branco deixou-nos um legado de estabilidade em nossas fronteiras e de convívio pacífico e respeitoso com nossos vizinhos na América do Sul. Semelhante herança deve ser preservada com zelo e atenção, uma vez que constitui um dos pilares da soberania nacional e verdadeiro esteio de nossa política de defesa”, concluiu o presidente da Câmara.

Já Maduro classificou o giro de Pompeo como uma viagem “bélica” que , segundo ele, “fracassou”.

“Mike Pompeo está em uma viagem de guerra contra a Venezuela, mas o tiro saiu pela culatra e Mike Pompeo falhou em todas as suas tentativas de organizar os governos do continente em uma guerra contra a Venezuela”, disse Maduro durante uma videoconferência com militares transmitida pela TV.

JPS/afp/ots/efe/lusa

Por Deutsche Welle