Quadrilha aterroriza e furta banco em Ourinhos, SP

Criminosos usaram fuzis, metralhadoras e granadas no roubo, finalizado com refém feito de escudo humano

Grupo fez refém de escudo humano (à esq.) para fugir da cidade | Foto: Arquivo/Ponte

Ao menos 40 ladrões armados de fuzis e metralhadoras explodiram a única agência do Banco do Brasil em Ourinhos, cidade no interior de São Paulo, a 370 km da capital, na madrugada deste sábado (2/5). O bando fugiu levando dinheiro dos caixas eletrônicos. A quantia roubada não foi divulgada.

população acordou assustada com a saraivada de balas. Eram 2h. Os criminosos, encapuzados, chegaram em dez veículos. Eles atiravam para o alto para intimidar moradores e policiais militares. Bases da PM acabaram cercadas e foram alvos de disparos. Vizinhos da agência filmaram a ação.

Os assaltantes fizeram seis reféns. Uma pessoa foi baleada na perna, mas, segundo a Polícia Civil, ela foi socorrida num hospital da cidade e não corre riscos.

A quadrilha era bem organizada. Além das armas de grosso calibre – uma delas metralhadora ponto 50, capaz de derrubar até helicóptero –, os criminosos também utilizaram granadas, coletes à prova de bala e um drone para monitorar a chegada de policiais militares.

Mesmo assim, segundo a Polícia Civil, houve confronto entre ladrões e PMs. Os criminosos fugiram em direção ao Paraná. Um dos reféns foi colocado em cima de um veículo da quadrilha. A vítima foi usada como escudo para por fim ao tiroteio. Minutos depois ela foi liberada.

Os ladrões deixaram para trás três granadas: uma ficou dentro da agência bancária, outra na rua da instituição financeira e a terceira foi colocada em frente ao batalhão da Polícia Militar.

Homens do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), unidade de elite da Polícia Militar, especializada em explosivos, foram acionados para desarmar os artefatos.

Até às 13h deste sábado, nenhum criminoso havia sido preso. O roubo em Ourinhos foi semelhante a outro realizado em Botucatu, também no interior do estado, em dezembro do ano passado, quando um bando atacou a agência da Caixa Econômica Federal.

Na ocasião, os ladrões encapuzados também usaram armas de grosso calibre, explosivos e diversos veículos. As ruas nas proximidades do banco foram bloqueadas pela quadrilha. 

Na fuga, eles usaram “miguelitos”, espécie de pregos de ferro entrelaçados utilizados para furar pneus, evitando assim uma possível perseguição policial.

A Polícia Civil investiga se esses dois assaltos foram feitos pela mesma quadrilha e se os criminosos têm alguma ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Preso suspeito de matar jornalista brasileiro

Waldemar Pereira Rivas, o Cachorrão, é suspeito de matar Lourenço Veras em fevereiro; veículo supostamente usado no crime estava em sua casa

Léo Veras escrevia em um portal sobre o crime organizado | Foto: Reprodução/TV Record

Policiais do Paraguai prenderam Waldemar Pereira Rivas, chamado de Cachorrão, suspeito de ter participado do assassinato do jornalista Lourenço Veras, o Léo Veras, 52 anos. Em 12 de fevereiro, o repórter foi morto em sua casa na cidade paraguaia Pedro Juan Caballero, na divisa com o Brasil.

De acordo com informações do jornal local ABC Color, o departamento de investigações trata Cachorrão como o autor do assassinato. Ele está preso na sede da polícia em Pedro Juan. Os policiais sustentam que Waldemar ameaçou Léo antes de sua morte.

A Justiça havia determinado a prisão de Cachorrão após a polícia local ter encontrado uma caminhonete branca, modelo Jeep Renegade, supostamente usada no crime, na casa dele.

Além do carro, os oficiais encontraram no local quatro pistolas, celulares, computadores e outros quatro carros. O suspeito morava em San Antonio, bairro a metros da divisa com Ponta Porã, cidade brasileira localizada no Mato Grosso do Sul e onde vivia Léo Veras.

Os policiais prenderam Cachorrão quando abordaram um veículo e o carro atrás, modelo Kia Picanto, tentou dar marcha à ré. Waldemar Pereira Rivas dirigia o veículo e foi pego.

Além dele, outras dez pessoas foram presas ligadas ao crime: os brasileiros Luís Fernando Leite Ninez, Sanção de Souza e Leonardo de Souza Concepción; os paraguaios Arnaldo Colmán, Anderson Rios Vihalva, Paulo Cespedes Oliveira, Oscar Duarte, Marcos Aurélio Vernequez Santacruz e Cynthia Raquel Pereira de Leite; e o boliviano Juan Vicente Jaime Camaro.

Lourenço Veras era fundador do portal Porã News, no qual escrevia, entre outros assuntos, sobre o crime organizado local. O PCC (Primeiro Comando da Capital) assumiu o controle da região com a morte de Jorge Rafaat, em junho de 2016.

Na noite do dia 12 de fevereiro, Léo Veras jantava com sua família no Jardim Aurora, em Pedro Juan Caballero, quando três homens invadiram sua casa. Ele foi morto no quintal com ao menos 12 tiros.

Em 22 de fevereiro, a polícia encontrou uma pistola modelo Glock 9 mm quando prendeu os outros dez suspeitos de participação no crime. 

Segundo investigação do Programa Tim Lopes, da Abraji (Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos), a arma apreendida tem ligação com ao menos sete mortes relacionadas ao PCC na região. A confirmação veio por meio de confronto balístico em cartuchos recolhidos na casa do jornalista. 

Léo é o 18º jornalista assassinato no Paraguai desde 1997, conforme levantamento do Sindicato dos Jornalistas do Paraguai. A maioria dos crimes ocorre em cidades próximas da fronteira, com seis crimes em Pedro Juan Caballero.

O jornalista brasileiro reconhecia ser ameaçado. Em entrevista para a Abraji em 2017, Léo Veras comentou sobre as ameaças de morte que sofria. “A gente tem que morrer um dia, né?”, disse.

“Eu sempre peço que não seja tão violenta a minha morte, com tantos disparos de fuzil. Aqui, se um pistoleiro quer te matar ele vem até sua porta, manda você abrir e ele vai te dar um disparo”, disse, antes de brincar que esperava “somente um disparo para não estragar tanto”.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

PMs mexeram em câmera que gravou David sendo colocado na viatura

David Nascimento foi encontrado baleado e morto horas após ser filmado entrando em uma viatura do Baep; policiais estão afastados, sem redução de salário

Um dia após serem filmados abordando o vendedor David Nascimento dos Santos, 23 anos, que foi encontrado morto pouco depois, policiais militares voltaram ao local da abordagem, na Favela do Areião, no Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo, e mexeram na câmera que os tinha flagrado. 

As imagens do segundo vídeo, a que a Ponte teve acesso, foram gravadas às 19h06 de 25 de abril, no dia seguinte à morte de David. 

O jovem aguardava a entrega de um lanche, comprado no aplicativo de entregas Ifood, quando foi abordado por uma viatura do Baep (Batalhão de Operações Especiais), considerado uma tropa “estilo Rota”, em referência ao batalhão mais mortal da PM paulista. O relógio marcava 19h48.

Em vez de colocarem o vendedor no porta-malas do veículo, onde normalmente os PMs transportam pessoas suspeitas, eles colocaram David no banco de trás da viatura, conforme as imagens. 

Horas mais tarde, já na madrugada do dia 25 de abril, os familiares encontraram o corpo de David. Segundo a família, tinha sinais de tortura e tiros no peito e na cabeça.

Quase 24 horas após a abordagem, um novo vídeo mostra três policiais militares aparecendo no mesmo local em que David havia sido levado pela viatura do Baep. Eles rondam o local com os cassetetes nas mãos.

David foi morto depois de abordagem policial em São Paulo| Foto: Arquivo/Ponte

Um minuto mais tarde, o trio retorna de onde veio sem ninguém abordado. Passam atrás do equipamento que registrou a ação. Às 19h09, a gravação da câmera começa a mudar de direção, quando a câmera é manipulada por u dos policiais. A pessoa que a segura estava na mesma posição para onde os PMs voltaram depois de vistoriar o local.

A mãe do rapaz, Cilene Geraldina dos Santos, 38 aos, diz que o filho foi encontrado com uma roupa diferente da que vestia quando saiu de casa. “Meu filho sumiu de bermuda e chinelo. Quando mataram eles trocaram a roupa. Foi a polícia que trocou a roupa. A calça do Corinthians nunca foi dele, nem aquele sapato”, disse à Ponte.

PMs alegam troca de tiros

O 5º DP de Osasco, cidade na Grande São Paulo, registrou a ocorrência como morte decorrente de intervenção policial, resistência e excludente de ilicitude. Os policiais alegaram que trocaram tiros com David.

Na versão oficial, policiais do Baep perseguiram quatro homens em um veículo modelo Onix na avenida Presidente Altino. Eles teriam abandonado o veículo na favela em que David morava.

Os policiais explicaram à delegada Maria Cristina da Silva Sá que foram a pé atrás dos quatro e que um deles, que estava atrás de uma moita na rua Manoel Antônio Portela, atirou depois deles se identificarem.

Este homem seria David, atingido por cinco tiros. Socorrido ao Hospital Regional de Osasco, ainda de acordo com os PMs, ele não resistiu e já chegou morto por volta das 21h35. Os PMs asseguraram que David estava uma pistola 9 mm. 

Câmera é mexida um minuto e meio depois de PMs passagem | Foto: Reprodução

A delegada apreendeu a suposta arma do jovem, além do fuzil calibre 5.56 usado pelo sargento Carlos Antonio Rodrigues do Carmo, 42 anos, e as pistolas calibre .40 dos PMs Vagner da Silva Borges, 32 anos, e Lucas dos Santos Espíndola, 33 anos.

David tinha o sonho de ser cantor de funk. Sua inspiração era o MC Kauan Coringa, que prestou uma homenagem ao saber da morte do rapaz.

Enquanto não vivia do funk, onde era conhecido como Dede ou MC 2Dêeh, ele tinha como ganha pão vender balas e doces na Marginal Pinheiros, via próxima à Favela do Areião. 

“Mataram ele pela aparência. Não procuraram saber se realmente ele tinha feito algo de errado naquela noite, e pegaram o primeiro que viram”, lamenta uma amiga de infância de David. Por medo ela não quis ser identificada. 

A deputada estadual Erica Maluguinho (Psol) anunciou em suas redes sociais que solicitou informações ao governo paulista se identificou a viatura e os PMs que abordaram David. “Está na conta do Estado mais uma morte de um jovem negro!”, disse a parlamentar.

Afastamento de 12 PMs

Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, administrada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre as novas imagens e aguarda um posicionamento.

Anteriormente, a InPress, assessoria de imprensa terceirizada da SSP, informou à reportagem que mantinha o mesmo posicionamento dado anteriormente, no qual afirma que o vídeo “está sob análise e a Corregedoria da PM acompanha o andamento das investigações”.

David era fã do MC Kauan Coringa e sonhava ser funkeiro | Foto: Arquivo/Ponte

Na nota, a pasta afirma que 12 PMs foram afastados da função após a morte de David – eles seguem recebendo seus salários normalmente, apenas atuando em setor administrado e não nas ruas enquanto durar a investigação do caso.

“Todas as circunstâncias relacionadas aos fatos são investigadas por meio de inquérito policial instaurado pelo 93º DP (Jaguaré), responsável pela área e por meio de IPM instaurado pela Polícia Militar”, diz a SSP.

Após questionamento da Ponte, a Ouvidoria de Polícias de SP disse que foi informada sobre o caso e abrirá procedimento para acompanhar as investigações da Corregedoria da PM e da Polícia Civil.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Veja quem é o rapaz morto após abordagem da PM

David dos Santos foi encontrado morto, segundo a família, com sinais de tortura, horas depois que policiais o colocaram dentro de uma viatura em São Paulo

David e o ídolo, MC Kauan Coringa | Foto: Reprodução/Facebook

Fã do MC Kauan Coringa e com o sonho de se tornar cantor de funk, David Nascimento dos Santos, 23 anos, era brincalhão e muito focado em conquistar seu dinheiro honestamente, conforme contam amigos e familiares. Ele saía diariamente da comunidade onde morava, na região do Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo, e caminhava por alguns metros até chegar na Marginal do Pinheiros, onde trabalhava vendendo balas e doces.

Em uma de suas músicas que compunha na esperança de viver do funk, Dede, ou MC 2Dêeh, como era conhecido, relatava um pouco de sua história e seu sonho: 

“Ficava no farol só para ganhar um trocado 
Hoje eu estou suave, uma fiel tenho ao meu lado 
Fui criado pela minha coroa desde um ano de idade 
Sei que a vida não é fácil 
Meu castelo de madeira era um barraco 
E voando baixo, condição para minha família 
Ajudar quem passa dificuldade 
Sei que são altos e baixos 
Mas por dia vários leões são degolados” 

https://www.facebook.com/100008841312923/videos/2226828400955182/

Na noite da última sexta-feira (24) ele foi abordado por policiais militares na entrada da rua onde morava, enquanto esperava um lanche que pediu pelo aplicativo de comida iFood. Na mesma noite, o rapaz foi encontrado morto e, segundo a família, tinha sinais de tortura. 

Dede era jovem, preto e da favela. “Mataram ele pela aparência. Não procuraram saber se realmente ele tinha feito algo de errado naquela noite, e pegaram o primeiro que viram”, afirma uma amiga de infância do rapaz que, por medo, não quis ser identificada.

Em rede social, o jovem dividia suas publicações entre demonstrações do quanto que era fã do MC Kauan Coringa, o desejo de se tornar MC, além de informações sobre os novos produtos que comprava para vender no farol e textos sobre a pandemia do novo coronavírus. 

Quando soube da morte do vendedor ambulante, Mc Kauan usou o Instagram para prestar homenagem ao fã. “Mais um moleque firmeza que foi morar com Deus”, disse o cantor. 

Na homenagem de mais de cinco minutos na ferramenta story (de publicações que ficam por 24 horas), Kauan terminou com uma rima: “Se liga rapaziada, escuta o que vou dizer. Hoje o Coringa chora, com saudade do Dede”.

Em um dos shows de MC Kauan que David foi, o vendedor ambulante foi ao camarim do cantor para tirar foto. O MC, então, fez uma brincadeira com o rapaz, fingindo que ia tirar foto enquanto gravava o momento (vídeo abaixo)

O vendedor ambulante estava prestes a completar nove meses de namoro. No Facebook, a namorada publicou um trecho de uma música que o rapaz havia feito para ela. David deixa dois filhos de outros relacionamentos. 

Ponte questionou, na noite de sábado (25/4), a Polícia Militar sobre a abordagem ao rapaz e a morte logo depois. Na manhã deste domingo, a Secretaria de Segurança Pública enviou uma nota dizendo que “todas as circunstâncias relacionadas aos fatos são investigadas por meio de inquérito policial instaurado pelo 93º DP, responsável pela área e por meio de IPM instaurado pela Polícia Militar”. 

Sobre o vídeo que mostra David sendo abordado por policiais militares pouco antes de ser encontrado morto, a secretaria afirma que “está sob análise e a Corregedoria da PM acompanha o andamento das investigações”. 

Procurada pela reportagem, a Ouvidoria de Polícias de São Paulo disse que está ciente do caso e vai abrir procedimento para acompanhar as investigações da corregedoria da PM e da Polícia Civil.

Por Maria Teresa Cruz – Repórter da Ponte

Rapaz encontrado morto foi levado pela PM enquanto esperava comida

Imagens de câmera de segurança mostram policiais militares colocando rapaz no banco de trás da viatura, em comunidade na zona oeste de SP

Local onde rapaz aguardava chegada de lanche | Foto: Reprodução/Google Street View

O vendedor ambulante David Nascimento dos Santos, 24 anos, saiu de casa no início da noite da última sexta-feira (24/4) para esperar a chegada de um lanche que pediu no iFood na entrada da viela onde morava, na região do Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo, conforme conta a família. Enquanto aguardava, um carro da Polícia Militar se aproximou, realizou uma rápida abordagem e o colocou no banco de trás da viatura. 

O rapaz, que estava em contato com a namorada porque estava baixando filmes na internet para assistir com ela, ficou sem sinal no celular após a abordagem. Horas depois, ainda na noite de sexta-feira, o corpo do rapaz foi encontrado em uma comunidade próxima. 

Segundo um amigo de David, o corpo do jovem estava com sinais de tortura, além de tiros no peito e na cabeça. Somente no início da madrugada de sábado (25/4) os familiares o encontraram, depois que o corpo já havia sido retirado do local. 

Ponte questionou a Polícia Militar sobre o procedimento de abordagem a David. A PM foi indagada sobre o motivo de o jovem ter sido colocado na viatura policial e para onde foi levado. Até a publicação desta reportagem, no entanto, não houve retorno. 

Na tarde deste sábado, familiares e amigos se manifestaram pedindo justiça. Eles fecharam uma rua próxima à marginal do Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, e de onde o rapaz foi abordado por policiais militares antes de morrer. 

Segundo a família, David trabalhava como vendedor ambulante em trens e na marginal do Pinheiros, próximo de onde morava com a família. O enterro do rapaz aconteceu na manhã deste sábado, no Cemitério Municipal de Osasco (Grande São Paulo). Ele deixa dois filhos.

Por Maria Teresa Cruz – Repórter da Ponte

Confirmada 4ª morte em presídios de SP

Vítima estava presa em Lucélia, no interior paulista, onde 14 pessoas morreram em 44 dias de causas diversas; seis detentos estão infectados no estado

Confirmada 4ª morte em presídios de SP
Pátio de presídio de Lucélia após rebelião em abril de 2018 | Foto: Arquivo/Ponte

Num intervalo de 44 dias, 14 presos morreram na Penitenciária de Lucélia, destinada a autores de crimes sexuais e situada na região oeste do estado de São Paulo, distante 607 km da capital. Um deles, Idenyldo Silva, 76 anos, é a 4ª vítima da Covid-19 no sistema prisional paulista. 

Outros três presos morreram desde o início da pandemia: dois na P2 de Sorocaba e um na P1 de Mirandópolis, ambas unidades prisionais do interior do estado. No país, 5 presos já morreram por coronavírus em presídios. Até a publicação da reportagem, o monitoramento do Depen (Departamento Penitenciário Nacional) não havia atualizado esse número.

Entre os outros 13 presos mortos em Lucélia, cinco tiveram como causa do óbito insuficiência respiratória. Outros seis a causa da morte ainda é indeterminada.

Um preso morreu de arritmia cardíaca, distúrbio metabólico e colite. Outro foi vítima de infarto agudo do miocárdio.

As mortes em Lucélia  aconteceram entre os dias 4 de março e 17 de abril deste ano. Os presidiários mortos tinham entre 48 e 93 anos. A maioria dos óbitos ocorreu neste mês: 10 casos.

O medo de morrer da Covid-19 ronda as celas lotadas da Penitenciária de Lucélia. O presídio tem capacidade para 1.440 presos e abriga 2.315. Na ala onde o preso morreu de coronavírus, ao menos 40 prisioneiros foram isolados do restante da população carcerária.

Ponte enviou nesta quinta-feira (23/4) e-mail para a assessoria de imprensa da SAP-SP (Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo), pedindo o número de presos mortos em Lucélia nos meses de fevereiro, março e abril deste ano.

A SAP não divulgou os dados alegando que o mês de abril não havia terminado. A reportagem apurou o nome e a idade de cada um dos 14 mortos no período de 44 dias em Lucélia.

Condenado a oito anos por estupro de vulnerável, o presidiário José Vicente Lima é o mais idoso da lista. Ele tinha 93 anos e morreu no dia primeiro de abril. No atestado de óbito dele consta como causa da morte arritmia cardiaca, distúrbio metabólico e colite.

O enterro de Aparecido Firmino dos Santos não contou com a presença de nenhum parente. Segundo o Serviço Funerário de Lucélia, ele foi sepultado no cemitério da cidade como “indigente”.

O caixão era do tipo mais simples. No túmulo não havia nenhuma coroa de flores. Aparecido era o segundo mais idoso na lista de mortos de Lucélia.

O preso tinha 86 anos e faleceu no dia 6 de abril. A causa da morte ainda é indeterminada, segundo o atestado de óbito. Com medo da Covid-19, os funcionários do serviço funerário usaram roupas especiais no sepultamento de Aparecido.

Idenyldo Silva, de 76 anos, condenado a 36 anos por estupro, vítima da Covid-19 em Lucélia morreu no dia 13 de abril. No atestado de óbito consta que ele sofreu insuficiência respiratória, síndrome do desconforto respiratório e pneumonia.

No atestado de óbito de Idenyldo foi mencionada ainda a seguinte observação: “Aguardando exames laboratoriais”. O exame chegou nesta sexta-feira (24/4). 

A mesma frase foi escrita no atestado de óbito do preso Hélio Paiva de Oliveira, de 58 anos, morto no dia 16 de abril. A causa da morte: insuficiência respiratória, síndrome do desconforto respiratório e pneumonia.

Os presidiários Antonio Rodrigues Jardim, 63 anos, morto no dia 2 de abril; Mário Nogueira dos Santos, 63 anos, falecido no dia 2 de abril; Carlos Mendonça, 71 anos, morto em 6 de abril, e Luiz Carlos de Lima Ferreira, 50 anos,  morto em 13 de abril, também faleceram de insuficiência respiratória.

Os outros presos que tiveram a causa da morte apontada por enquanto como indeterminada são Lourival Rodrigues de Oliveira, 71 anos, morto em 9 de março; Benedito Sérgio Ferreira, 61 anos, morto em 24 de março; Carlos José Gomes, 48 anos, falecido em 29 de março, e Josias Carvalho, 62 nos, morto em 11 de abril.

O detento Severino Francisco Barbosa, de 48 anos, morreu em 4 de março e a causa da morte, a princípio, é infarto agudo do miocárdio.

Em nota divulgada às 17h54 desta sexta-feira, a SAP informou que “seis presos foram confirmados para Covid-19 no estado e que quatro faleceram”. Ainda segundo a SAP, entre os servidores, seis agentes contraíram Covid-19 e dois morreram.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Presídio ignorou mandado de prisão ao soltar chefe do PCC

Valacir de Alencar foi para prisão domiciliar por ser hipertenso e fazer parte do grupo de risco da Covid-19; poucas horas depois de ser solto, fugiu

Valacir de Alencar, apontado como liderança do PCC no Paraná, fugiu horas depois de ser beneficiado pela prisão domiciliar | Foto: Reprodução/TJ-PR

Poucas horas depois de a Justiça do Paraná conceder prisão domiciliar a Valacir de Alencar, 38 anos, liderança do PCC (Primeiro Comando da Capital) no estado, o detento rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu. De acordo com o sistema eletrônico da Justiça do Paraná, o aparelho perdeu a comunicação com a central de monitoramento às 15h33 do dia 17/4.

Alencar é hipertenso e, portanto, considerado dentro do grupo de risco na pandemia do coronavírus. Condenado a 76 anos por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e porte de armas, ele cumpria pena na PEP (Penitenciária Estadual de Piraquara).

A decisão do juiz Diego Paolo Barausse foi baseada na recomendação 62/2020 do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), referendada pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas).

Em julho de 2019, Alencar já havia fugido da PEP e foi recapturado dois meses depois. Usando corda feita de lençóis, ele e outro detento escalaram o muro e escaparam da prisão. 

A direção do presídio, porém, ignorou um mandado de prisão contra Alencar. Em 2 de abril de 2020, Ana Carolina Bartolamei Ramos, juíza da 1ª Vara de Execuções Penais de Curitiba, mandou revogar o mandado e recolher Alencar por “restabelecimento direito beneficício execução penal”.

No documento emitido nesta quarta-feira (22/4), cinco dias depois da fuga de Alencar, a juíza Ana Carolina apontou que “constata-se a existência de mandado de prisão preventiva cumprido e vigente em favor do reeducando, o qual não foi observado no momento do cumprimento do mandado de monitoração, apesar de ser impeditivo ao cumprimento da ordem pela unidade prisional”.

Covid-19 nos presídios brasileiros

No início da tarde desta quinta-feira (23/4), o Depen (Departamento Penitenciário Nacional), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, contabilizava 130 suspeitas e 96 detecções de coronavírus nas unidades prisionais do país. Dessas confirmações, 72 são do Distrito Federal. Nenhuma no Paraná.

Três pessoas já morreram em decorrência da Covid-19. A primeira morte foi de um detento de 73 anos, em 15 de abril, no Rio de Janeiro. A segunda foi de José Iran Alves da Silva, 67 anos, quatro dias depois, em Sorocaba, interior de São Paulo. A terceira morte foi de Alberto Saad Sobrinho, 54 anos, também em São Paulo, registrada na Penitenciária de Mirandópolis. 

O que diz o governo do Paraná

A reportagem procurou o Depen-PR (Departamento Penitenciário do Paraná), assim como a direção da PEP e a SESP-PR (Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná), mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

Por Paloma Vasconcelos – Repórter da Ponte

PCC: Parceiro de Marcola, Fuminho é trazido ao Brasil

Preso em Moçambique, na África, no último dia 13, Fuminho saiu do aeroporto de Maputo na madrugada deste domingo (19/4)

Fuminho é extraditado para o Brasil | Foto: Arquivo Ponte

O megatraficante Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, 49 anos, preso no último dia 13 em Moçambique, na África, foi extraditado hoje para o Brasil.

Ele embarcou 1h30 (horário local) da madrugada deste domingo (19/4) no aeroporto de Maputo, capital moçambicana, em um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) e estava algemado e com correntes nos pés.

TRAFICANTE FUMINHO SEGUE PARA O BRASIL

FUMINHO EXTRADITADO PARA O BRASIL Procurado pela justiça brasileira há 21 anos, Gilberto Aparecido dos Santos, ou simplesmente Fuminho, já está a caminho do Brasil. O presumível traficante de droga foi expulso administrativamente do território nacional por ordens do Ministro do Interior, Amade Miquidade que fundamenta a expulsão com “ imigração ilegal”. O processo foi gerido de forma ultra secreta, até a confirmação da saída de Fuminho do território nacional, através de uma aeronave da Força Aérea Brasileira. A Miramar sabe que Fuminho saiu da Penitenciária de Máxima Segurança, vulgo BO durante a madrugada de hoje e foi conduzido ao Aeroporto Internacional de Mavalane, donde partiu para o Brasil.Fuminho chegou no aeroporto com uma corrente que isolava as mãos e os pés, tudo para evitar a fuga. Um esquema de segurança desenhado ao detalhe para garantir a expulsão de Moçambique.O Ministro do Interior diz que aquando da entrada no território nacional, o cidadão Luiz Gomes de Jesus, também conhecido por Gilberto Aparecido dos Santos, não obedeceu os procedimentos migratórios e a entrada irregular é fundamento para expulsão administrativa.Alguns juristas esperavam ver o indiciado julgado e condenado em Moçambique e depois expulso, dado que se aventava a possibilidade de ter cometido crimes no território nacional.Fuminho foi detido na tarde da última terça-feira, em Maputo, num hotel de luxo, no bairro Sommerchield.O Ministro da Justiça do Brasil, Sérgio Moro, afirmou que a prisão do traficante, que estava há 21 anos foragido, foi um “golpe poderoso” na organização criminosa que ele fazia parte.A operação da prisão de Fuminho foi uma acção de cooperação policial internacional entre o Serviço Nacional de Investigação Criminal (Moçambique), a Polícia Federal (Brasil) e a DEA (Drug Enforcement Administration), órgão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos responsável pelo combate às drogas.Fuminho é apontado como responsável pelo fluxo de dinheiro e da logística necessária para o tráfico internacional de drogas na região da Bolívia e Paraguai.A carreira no crime ganhou relevância quando fugiu da prisão, no Carandiru, em São Paulo em janeiro de 1999. Desde então, era procurado pela polícia brasileira.Em abril de 2019, Fuminho teria dado o aval para membros da facção criminosa fazer o resgate de Marcola , líder máximo da facção criminosa, do Presídio Federal de Brasília. Dois aviões e um helicóptero, que seriam caracterizados como da Polícia Militar de São Paulo, seriam usados no plano.Aos órgãos de comunicação assegurou não conhecer Marcola.Posted by TV Miramar on Sunday, April 19, 2020

Considerado o maior traficante de cocaína do Brasil e o principal fornecedor de drogas para o PCC (Primeiro Comando da Capital), Fuminho acabou preso em um hotel de luxo quando estava com dois nigerianos.

Há suspeitas de que os nigerianos não eram amigos de Fuminho, mas homens infiltrados pela DEA (Drug Enforcement Administration), a Polícia Federal dos Estados Unidos, responsável pela prisão do brasileiro.

Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, 49 anos, é apontado como braço direito de Marcola, líder do PCC (Reprodução)

Ainda não se sabe para qual presídio Fuminho será removido. A expectativa é de que ele seja encaminhado para uma das cinco penitenciárias federais do país: Brasília (DF), Porto Velho (RO), Mossoró (RN), Catanduvas (PR) ou Campo Grande (MS).

Fuminho estava foragido desde janeiro de 1999, quando escapou da Casa de Detenção, no Carandiru, zona norte de São Paulo, junto com Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC.

O advogado de Fuminho, Eduardo Dias Durante, contratou dois escritórios de advocacia para auxiliá-lo na defesa de seu cliente em Moçambique. Um deles é ligado à Sara Mandela, filha do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que acompanhou todo o processo desde a prisão de Fuminho até a extradição dele.

Em Maputo, Fuminho ficou preso em uma cela monitorada por diversas câmeras de segurança. Ele permaneceu o tempo todo vigiado por agentes da DEA.

Os policiais norte-americanos caçavam Fuminho desde 2014, período em que ele morou na Flórida, nos EUA, com o parceiro do PCC Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, 42 anos. Ambos escaparam de um cerco e conseguiram fugir para o Panamá.

No Brasil há dois mandados de prisão contra Fuminho. Um deles foi expedido pela Justiça do Ceará, em fevereiro de 2018. Ele foi acusado de comandar os assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca.

Ambos eram homens fortes do PCC, apenas abaixo de Marcola e foram executados sob a acusação de desviar dinheiro da facção criminosa. Os dois adquiriram imóveis de luxo no valor de R$ 8 milhões e veículos importados avaliados em R$ 2 milhões no Ceará.

O outro mandado de prisão refere-se a uma ocorrência de tráfico de drogas. Fuminho foi acusado pela Polícia Federal de guardar ao menos 18 armas de grosso calibre, como fuzis e submetralhadoras, e 470 kg de cocaína em um sítio em Juquitiba, na Grande São Paulo.

A droga e o armamento estavam escondidos em um bunker, um poço com mais de 30 metros de profundidade que contava até com um elevador hidráulico.

Além de Fuminho, foram acusados pelo crime Antonio Farias da Costa, Charles do Reis Araújo, Dirnei de Jesus Ramos, e Vanderlei José Ramos e Ailton José Oliveira, todos considerados megatraficantes.

Dirnei, Charles e Ailton foram condenados a 21 anos de prisão. Charles foi apontado como o dono do sítio de Juquitiba. Antonio recebeu uma pena de 24 anos e Vanderlei de 25 anos.

A Polícia Federal monitorava Fuminho há meses naquela época. Agentes o seguiram e o filmaram em diversas ocasiões, como na Favela Heliópolis, zona sul da cidade de SP, na Favela Pantanal, zona leste, e num posto de gasolina na região de Capivari, interior de São Paulo.

Os agentes federais já tinham montado um plano para prender Fuminho e sua quadrilha, mas policiais da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), invadiram o sítio de Juquitiba em março de 2013 e o bando conseguiu fugir.

A Rota alegou na época que havia recebido denúncia anônima sobre a existência do sítio, das armas e da droga apreendidos. Porém, a invasão ocorreu graças às escutas telefônicas feitas com autorização judicial por policiais militares do 18º Batalhão do Interior, em Presidente Prudente.

Segundo o advogado Eduardo Dias Durante, não há nada que comprove a participação de Fuminho com o tráfico de drogas e com o envolvimento dos assassinatos de Gegê do Mangue e de Paca.

Penitenciária federal de segurança máxima de Brasília (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Caso Fuminho seja mandado para a Penitenciária de Brasília, ele ficará mais perto de Marcola e de outros homens da cúpula do PCC, como Roberto Soriano, o Tiriça, Abel Pachedo de Andrade, o Vida Loka, Anderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, e Paulo Cesar Souza do Nascimento Júnior, o Neblina.

Histórico de Fuminho

Desses líderes do PCC, Fuminho cumpriu pena somente com Marcola, na Casa de Detenção do Carandiru. Esse presídio, palco do massacre de 111 preso pela PM em outubro de 1992, foi a “principal escola, a faculdade do crime” para Fuminho.

Ele foi preso pela primeira vez em 9 de abril de 1990, por uma simples contravenção penal. Foi condenado a pagar uma multa equivalente a 10 dias do salário mínimo da época.

Em 3 de julho de 1991 foi preso novamente, dessa vez por roubo, e pisou pela primeira vez na Casa de Detenção. Acabou condenado a quatro anos. Sobreviveu ao maior massacre da história prisional do país.

Em maio de 1993, três meses antes da fundação do PCC, Fuminho foi mandado para o regime semiaberto em Bauru, no interior paulista. Ele fugiu em 4 de janeiro de 1994.

Nas ruas voltou a roubar. Por um assalto realizado em dezembro de 1993 ele foi condenado a seis anos e oito meses. Em maio de 1998 foi preso e condenado a quatro anos e oito meses por tráfico.

Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola (Reprodução)

Em janeiro do ano seguinte, Fuminho escapou da Detenção com Marcola e não parou mais de traficar drogas. Ele é apontado pela Polícia Federal e Ministério Público Estadual como responsável pela exportação de ao menos uma tonelada de cocaína para a Europa por mês.

Agentes federais já interceptaram vários carregamentos de droga atribuídos a Fuminho, com apreensões inclusive de aeronaves. O advogado Eduardo Dias Durante ressalta que seu cliente jamais foi um narcotraficante.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Registrada 1ª morte por Covid-19 em presídios

Vítima tinha 73 anos e apresentava sintomas desde 9 de abril; caso não consta na estatística nacional da pandemia nas prisões, que indica mais de 50 infectados

Homem estava preso no Instituto Penal Cândido Mendes, unidade exclusiva para idosos | Foto: Reprodução/Google Street View 

O estado do Rio de Janeiro confirmou a primeira morte de preso por coronavírus no Brasil. Um homem de 73 anos, que se insere dentro do grupo de risco para a doença, não resistiu seis dias após apresentar os primeiros sintomas e morreu na quarta-feira (15/4). A morte não consta nos dados oficiais do governo sobre contaminações da Covid-19 nos presídios.

Segundo informações da Seap (Secretaria Estadual de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro), o homem se sentiu mal no dia 9 de abril e foi diagnosticado com quadro de hipertensão, sendo medicado e liberado. O atendimento aconteceu no Pronto Socorro Geral Hamilton Agostinho, no Complexo de Gericinó, em Bangu, centro da capital fluminense.

O quadro evoluiu para dores abdominais no dia 11 e, novamente atendido no Hamilton Agostinho, foi medicado e retornou mais uma vez ao Instituto Penal Cândido Mendes, unidade específica para presos acima de 60 anos. A penitenciária abriga 305 pessoas, 24% acima da capacidade total, de 246 presos. Dois dias depois, o idoso teve “sudorese fria e prostração”, segundo a Seap, e falta de ar.

Apesar de ter sido entubado no dia 14 e, portanto, estar com a ventilação mecânica, o homem morreu às 10h50 do dia seguinte. Os médicos haviam coletado material para o teste de coronavírus, que ficou pronto na quinta-feira (16/4) e deu resultado positivo para a doença.

No dia 24 de março, a Defensoria Pública do estado entrou com pedido de habeas corpus coletivo para os presos provisórios com mais de 60 anos. De acordo com a entidade, a Justiça não deu nenhuma resposta até o momento.

“Não há o menor sentido em manter encarcerados os grupos vulneráveis, em especial idosos, grávidas e mulheres que estão amamentando, ainda mais quando os presídios estão superlotados”, critica Rodrigo Baptista, defensor-público geral do Rio de Janeiro, à Ponte. “O risco é para as pessoas presas, seus familiares e para quem trabalha no sistema prisional. Ainda há tempo de salvar vidas nos presídios”, argumenta.

Em nota, a Seap lamentou a morte e assegura que os presos que tiveram contato com o homem “estão isolados”. “A secretaria ressalta que os internos estão sendo acompanhados e todos os atendimentos médicos, quando necessários, estão sendo realizados no local”, afirma.

Em artigo escrito para a Ponte, Irmã Petra Silvia, coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, alertou para a tragédia que seria caso o coronavírus entrasse no sistema prisional.

“As prisões estão superlotadas. Exigir que presos que tenham suspeita de ter o vírus sejam isolados, ou que mantenham distância de dois metros dos outros presos dentro da cela é algo inviável, assim como a realização da higienização diária destas celas, lembrando que a água é racionada até para o consumo humano, e materiais de limpeza são escassos”, argumentou. 

Estatísticas desatualizadas

A informação da primeira morte dentro do sistema prisional brasileiro no Rio de Janeiro constou nas estatísticas oficiais do Depen (Departamento Penitenciário Nacional), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, liderada por Sérgio Moro, apenas horas após a confirmação do estado. O ministério criou uma espécie de painel de monitoramento para informar suspeitas, confirmações e óbitos no cárcere. 

Até as 14h30 desta sexta-feira (17/4), o site mantinha como zero o total de óbitos, enquanto soma 162 suspeitas de contaminação e 51 detecções da doença. Os dados específicos do Rio de Janeiro estavam zerados para todos os itens.

Em consulta às 17h50 desta sexta-feira, a morte do homem no Rio de Janeiro passou a constar no sistema do Depen. No entanto, o estado segue sem nenhum caso de presos com suspeita ou confirmação da doença, o único número apresentado é o da morte do senhor de 73 anos.

Distrito Federal divulgou, na segunda-feira (13/4), que havia 23 casos confirmados de presos com a doença em suas unidades. Além deles, 18 agentes penitenciários também haviam contraído a doença, segundo a administração penitenciária. 

No dia 7 de abril, o mesmo sistema do Depen apresentava 118 casos suspeitos de coronavírus nas prisões brasileiras e nenhuma morte. Porém, naquele momento, as bases de dados dos estados já apresentavam divergência com a do ministério.

No dia 8 de abril, o Pará confirmou a primeira contaminação de Covid-19 no sistema penitenciário nacional, informação que não constava até aquela data nas estatísticas nacionais.

Minas Gerais, por exemplo, tinha, pelas estatísticas nacionais, 34 casos suspeitos, enquanto os dados locais apontavam para “próximo de 50” presos com sintomas da Covid-19.

Em São Paulo, a Secretaria da Administração Penitenciária confirmou nesta sexta-feira (15/4) que quatro presos e dois agentes penitenciários estavam com coronavírus, todos em Sorocaba, no interior do estado – um a mais do que na quarta-feira (15/4), primeira confirmação oficial de casos nos presídios estaduais. Dos infectados, três estão em tratamento e um recebeu alta, estando em quarentena. Ao menos 48 presos estão isolados. 

Antes das confirmações e mortes, o ministro Sério Moro elogiou o monitoramento do Depen em artigo escrito para o jornal O Estado de São Paulo, em 30 de março, e disse que não havia motivo para alarde diante da possibilidade de a pandemia entrar nos presídios.

“Não existe nenhum motivo para um temor infundado em relação ao sistema penitenciário. Não existe um caso de infectado dentro do sistema penitenciário”, afirmou o ministro, em entrevista coletiva no dia 1º de abril, contrariando pedido de urgência cobrado pela Human Rights Watch, entidade internacional de direitos humanos, que alertou sobre a situação perigosa para “presos, funcionários e para a sociedade”.

À Ponte, o Depen explicou que os dados tem um delay (atraso) pois as informações são disponibilizadas pelos próprios estados e informou que irá apurar cada caso. “Para cada caso confirmado de Covid-19 nas unidades prisionais, o Depen vai abrir um processo no sistema SEI [Sistema Eletrônico de Informações] e fazer o monitoramento do caso a partir das ações da Unidade da Federação”. 

*Atualização às 17h52: atualização das estatísticas do Depen com inclusão da morte do homem no Rio de Janeiro. Soma de um caso de preso infectado com Covid-19 em São Paulo.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Covid-19: Justiça mantém preso homem forte do PCC

Preso no ano passado em uma casa de luxo em Arraial do Cabo (RJ), Décio Português era um dos homens mais fortes do PCC nas ruas

Décio Gouveia Luís, preso em 2019 ! Foto: Reprodução

A Justiça indeferiu o pedido de prisão domiciliar por conta do covid-19 para o preso Décio Gouveia Luís, 52 anos, brasileiro, mas conhecido como Décio Português, homem da cúpula da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

Já para o parceiro dele, Mauro Cláudio Monteiro Loureiro, o Murruga, esse sim português legítimo, apontado pela Polícia Civil como doleiro da facção paulista, a Justiça concedeu prisão domiciliar por conta da pandemia.

Décio Português responde a processo por tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, associação à organização criminosa e tentativa de homicídio contra policiais civis. Até agosto do ano passado, quando foi preso em uma casa de luxo em Arraial do Cabo, litoral norte do Rio de Janeiro, Décio Português era um dos homens mais fortes do PCC nas ruas.

No último dia 31, advogados de Décio Português solicitaram à Justiça a prisão domiciliar para o cliente, informando que ele é portador de hepatite, diabetes, pressão alta, trombose, problemas cardíacos e estomacais, toma remédios para tratar o câncer de pele e corre risco de contrair covid-19 na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde está preso.

A Justiça indeferiu o pedido por entender que não há confirmação de que Décio esteja em estado grave de nenhum doença e que o atendimento de saúde dispensado pelo poder público no sistema prisional não se demonstrou insuficiente.

Décio Português foi preso no ano passado por policiais civis do Deic (Departamento de Investigações Criminais). Segundo os investigadores, Décio Português liderava uma quadrilha de traficantes de drogas que integra o grupo criminoso na Cidade Tiradentes, extremo da zona leste de São Paulo, que faturava R$ 100 mil por dia com a venda de drogas.



O Deic apurou que Décio Português também lavava dinheiro para o PCC. Ele comprou uma adega e churrascaria na zona leste paulistana por R$ 1,25 milhão. Era também dono de uma empresa com capital inicial de R$ 500 mil em São Paulo.

No Rio de Janeiro, onde vivia, Décio Português comprou carros e imóveis luxuosos. O Deic descobriu que ele tinha um apartamento no Recreio dos Bandeirantes, área rica da zona sul carioca, avaliado em R$ 750 mil. O imóvel de 213 metros quadrados tinha vaga na garagem para três carros.

Ele também era proprietário de uma residência no valor de R$ 1 milhão em Búzios, litoral norte fluminense. E tinha ainda uma caminhonete Mitsubishi Triton.

Segundo a Polícia Civil, os bens de Décio Português foram comprados com documentos falsos em nome de Lucas de Souza Oliveira. Era assim que ele se apresentava.

O Deic fez um levantamento junto à SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) e apurou que Décio ficou preso quase dez anos com os principais líderes do PCC na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.

Ele cumpriu pena naquela unidade no período de 11 de maio de 2006 a 13 de janeiro de 2015. Também ficou com a liderança da facção na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, onde nasceu o PCC, entre 13 de novembro de 1999 a 19 de dezembro de 2000, quando o presídio foi destruído numa violenta rebelião que deixou nove mortos.

Em seu interrogatório de três páginas realizado no Deic em 21 de agosto de 2019, Décio disse que não faz parte de nenhuma organização criminosa.

Ele afirmou que conhece Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pela Polícia Civil como o número 1 da facção, porque ficou preso com ele quase dez anos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau.

Décio acrescentou que nos últimos anos não teve contato com Marcola e que nunca teve ligações com o PCC. Marcola também sempre negou ser integrante da organização.

Indagado por que usava documento falso. Décio Português alegou que fazia isso porque costumava ser hostilizado e maltratado durante blitze policiais em São Paulo. E afirmou que por esse motivo mudou-se para o Rio.

O preso contou ainda no Deic que havia recebido uma herança de R$ 300 mil, em 2018, e que passou a comprar e vender carros, conseguindo com isso uma renda mensal de R$ 30 mil a R$ 40 mil.

Outro português

Mais sorte teve o português Mauro Cláudio Monteiro Loureiro, o Murruga. Aos 43 anos e sem problemas graves de saúde, ele foi beneficiado pela Justiça para cumprir prisão domiciliar como medida preventiva contra o coronavírus.

Mauro Claudio, o Murruga, preso em dezembro | Foto: Reprodução

Murruga foi preso em dezembro do ano passado, na região de Campinas, no interior de São Paulo. Segundo o Deic, ele é o “cérebro” do PCC e a polícia chegou até ele graças aos desdobramentos das investigações de Décio Português.

No condomínio onde o português morava com a mulher, investigadores encontraram um tablete de cocaína e uma caixa de munição de pistola calibre 380.

Aviões da frota de Murruga, segundo a Polícia Civil | Foto: Arquivo/Ponte 

O Deic informou ainda que também foram apreendidos nove aeronaves e armas e que os aviões faziam parte de uma frota utilizada para o transporte de drogas do PCC para o exterior.

Em posse do português foram encontrados também oito veículos de luxo, incluindo duas BMW e caminhonetes importadas, e uma motocicleta Harley Davidson.



As informações sobre as atividades de Murruga surgiram após a prisão de Décio Português. A princípio, Murruga aparecia nas apurações como o doleiro da facção. 

Estrangeiro também seria dono de caminhonetes | Foto: Arquivo/Ponte 

Mas as investigações apontaram que Murruga era mais do que isso: cuidava da logística do tráfico, agenciando aviões para o transporte de drogas e cuidava da lavagem de capital, enviando remessas para o exterior e transferindo dinheiro de outros países para o Brasil.

Em um apartamento relacionado a Murruga, no Tatuapé, zona leste da capital paulista, policiais apreenderam computadores e documentos sobre transferências de valores. Ele responde a processo por associação ao tráfico, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

No dia 23 de março de 2020, o advogado de Murruga pediu à Justiça a concessão de alvará de soltura para seu cliente, argumentando que a prisão onde ele se encontrava oferece sérios riscos de propagação de coronavírus.

O pedido foi feito com base na Recomendação 62/20 do Conselho Nacional de Justiça, que prevê, no artigo 4, a reavaliação de prisões preventivas com mais de 90 dias decretadas para quem cometeu crime sem violência ou grave ameaça, para presos em situação de risco de contrair covid-19.

A Justiça deferiu o pedido. No último dia 27, o alvará de soltura foi cumprido na Penitenciária de Itaí, no interior, chamada de “Torre de Babel” porque é destinada a estrangeiros e abriga presos de mais de 90 nacionalidades.

O advogado de Murruga, Fábio Scalon, havia pedido simultaneamente ao alvará de soltura na 2ª Vara Criminal de Paulínia, um Habeas Corpus para seu cliente, no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, também por conta do coronavírus. 

Mas a 9ª Câmara de Direito Criminal do TJ negou o pedido no último dia 27 de março. Murruga foi solto nesse mesmo dia. 

Fábio Scalon disse que seu cliente não é integrante de facção criminosa nem traficante de drogas e armas, jamais foi doleiro do PCC, nunca fez lavagem de dinheiro  e também não é dono de aeronaves e carros de luxo. 

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte