Suspeito de atacar Porta dos Fundos é preso na Rússia

Eduardo Fauzi Richard Cerquise acusado de participar de atentado ao Porta dos Fundos (Reprodução)

Um dos suspeitos pelo ataque a bombas contra a sede da produtora do programa Porta dos Fundos foi preso pela Interpol nesta sexta-feira (4) em Moscou, na Rússia. A notícia da captura de Eduardo Fauzi foi divulgada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, que realizava a investigação.

O ataque foi praticado em 24 de dezembro de 2019, como represália a um especial de Natal do Porta dos Fundos sobre Jesus Cristo, que teria desagradado a setores radicais. Segundo a investigação da polícia, que obteve gravações de câmeras de monitoramento na região, o atentado contou com cinco pessoas, incluindo Fauzi, que aparece em uma das imagens.

Foram arremessados dois coquetéis-molotovs contra a produtora e o incêndio só não se propagou porque havia um vigia na empresa. De acordo com o delegado Marco Aurélio Ribeiro, titular da 10ª DP (Botafogo) à época, responsável pelas investigações, os agentes descobriram que Fauzi havia deixado o país com destino à Rússia, em 29 de dezembro.

Gregório Duvivier e Fábio Porchat protagonizam especial de Natal do Porta dos Fundos (Reprodução)

A delegacia realizou um pedido de captura com a colaboração da Interpol do Rio de Janeiro, incluindo o nome dele na lista dos foragidos do país. Fauzi já havia morado na Rússia, onde teria, segundo informações divulgadas à época, uma esposa e um filho.

Por meio de nota, o escritório ROR Advocacia Criminal, que defende Fauzi, informou que acompanha a situação.

“No tocante às informações de que Eduardo estaria preso, ressaltamos que não se trata de prisão e sim de uma apreensão realizada pelas autoridades russas, visando a averiguação da situação dele. Não há confirmação sobre o procedimento de extradição pelas autoridades brasileiras. Por fim, ressaltamos que há pendente a análise de pedido de habeas corpus, visando assegurar a integral liberdade de Eduardo, junto ao Superior Tribunal de Justiça. Por outro lado, a defesa lamenta a morosidade na conclusão das investigações, não se sustentando o decreto prisional, por total ausência de provas sobre a justa causa penal”, comentou a defesa.

Por Vladimir Platonow – Repórter da Agência Brasil 

Desembargador manda tirar do ar especial de Natal do Porta dos Fundos

Gregório Duvivier e Fábio Porchat protagonizam especial de Natal do Porta dos Fundos (Reprodução)


O desembargador Benedicto Abicail, da 6ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio, determinou ontem (8) que a Netflix retire do ar, imediatamente, em caráter liminar (provisório), Especial de Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo, assim como trailersmaking of, propagandas, ou qualquer alusão publicitária ao filme. A decisão manda ainda que a produtora e distribuidora Audiovisual Porta dos Fundos se abstenha de autorizar a exibição e/ou divulgação do especial por qualquer outro meio, sob pena de multa diária de R$ 150 mil.

A decisão é provisória, até que o mérito seja julgado, e atende a pedido da Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura. O especial do Porta dos Fundos dá a entender que Jesus Cristo teve uma experiência homossexual ao passar 40 dias no deserto.

Em um trecho da decisão, o desembargador Benedicto Abicair diz que as liberdades de expressão, artística e de imprensa são primordiais e essenciais na democracia.

“Entretanto, não podem elas servir de desculpa ou respaldo para toda e qualquer manifestação, quando há dúvidas sobre se tratar de crítica, debate ou achincalhe. O debate consiste na troca de opiniões. A crítica, na avaliação contrária a gostos ou princípios. Achincalhe consiste em desmerecer algo ou alguém por motivos subjetivos, sem medir consequências. Assim que interpreto. O que se pretende, nos autos, é apurar, dentro dos princípios morais, constitucionais e legais como caracterizar o procedimento da primeira agravada com sua obra de arte.”

O magistrado destaca, porém, que ainda não há subsídios suficientes para uma interpretação definitiva e acrescenta: “Sou cauteloso, seguindo a esteira da doutrina e jurisprudência, leia-se STF [Supremo Tribunal Federal], de que o direito à liberdade de expressão, imprensa e artística não é absoluto. Entendo, sim, que deve haver ponderação para que excessos não ocorram, evitando-se consequências nefastas para muitos, por eventual insensatez de poucos”.

“Princípios, ideias e pontos de vista, cada um pode ter os seus, mas deve-se respeitar os princípios, as ideias e os pontos de vista do outro”, afirma o desembarcador.

Abicalil diz ainda que as redes sociais são “incontroláveis” e que a Netflix está ao alcance de qualquer um que queira acessá-la, inclusive menores, e ressalta que o título da produção artística não reflete a realidade do que foi reproduzido.

Em nota, o Porta dos Fundos disse que ainda não foi notificado da decisão da Justiça.

*Por  Douglas Corrêa – Agência Brasil

Porta dos Fundos: PF pede a Interpol para prender suspeito de ataque

Por Alex Rodrigues



A Polícia Federal (PF) pediu apoio à Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) para prender Eduardo Fauzi Richard Cerquise, um dos suspeitos de atacar a sede da produtora Porta dos Fundos na véspera do Natal de 2019.

Segundo o diretor-geral substituto da corporação, Disney Rosseti, a PF formalizou ontem (7) o pedido para a Interpol emitir um alerta internacional, a chamada difusão vermelha, incluindo Cerquise entre as pessoas procuradas pela justiça criminal de seus países que fugiram para outras nações.

“Foi formalizado ontem [o pedido de] difusão vermelha. A gente pediu a cooperação e agora depende das autoridades [internacionais]”, disse Rosseti ao ser perguntado pela Agência Brasil.

Identificado como um dos cinco homens suspeitos de lançarem bombas caseiras contra a sede da produtora Porta dos Fundos, na zona sul do Rio, Cerquise viajou para Rússia dias após o ataque criminoso. Sua prisão temporária foi decretada e ele é considerado foragido da Justiça brasileira. Caso seja encontrado, Cerquise pode vir a ser extraditado, já que Brasil e Rússia têm acordo de cooperação na área.

A 10ª Delegacia de Polícia (DP) de Botafogo, no Rio de Janeiro já havia acionado as autoridades federais para que o nome de Cerquise fosse incluído na lista da Interpol. Na prática, como a organização internacional reúne polícias de vários países e sua lista de difusão vermelha é compartilhada entre os órgãos de segurança pública de todos os estados-membros, a emissão de um alerta internacional representa como que um mandado de prisão internacional que, quando cumprido, pode resultar na extradição do procurado.

Hoje, 98 brasileiros foragidos da Justiça constam da relação pública da Interpol. São 81 homens e 17 mulheres. Cerquise ainda não consta entre eles. A relação total de procurados, no entanto, pode ser maior, já que há uma segunda lista acessível apenas a pessoas autorizadas.

Identificação

A polícia do Rio apura também o motivo do ataque. De acordo com as investigações, vídeos gravados por câmeras de segurança registraram Cerquise deixando o local onde funciona a sede da produtora Porta dos Fundos momentos após o ataque. Segundo a Polícia Civil, ele é o homem que aparece nas imagens vestindo uma toca ninja e jogando fora um pedaço de fita adesiva usada para encobrir a placa do Eco Sport usado na ação em frente à produtora, junto com uma motocicleta.

“Durante a fuga, nós monitoramos toda a chegada e a fuga dos veículos utilizados no cometimento do delito. No momento do ato eles estavam encapuzados e não era possível através da imagem identificá-los, mas durante a fuga o [suspeito] sai de um dos veículos, continua a sua fuga por um trecho a pé. Nesse momento ele não está encapuzado. Conseguimos monitorar todo o trajeto até entrar em um táxi e fugir. Todo esse trecho conseguimos identificar o rosto, a fisionomia e conseguimos identificar o taxista que fez essa corrida”, disse o delegado responsável pelas investigações, Marco Aurélio de Paula Ribeiro, no último dia 31.

Em um vídeo que divulgou após ter deixado o Brasil, Cerquise critica os humoristas do Porta dos Fundos, a quem classifica como “intolerantes”. O suspeito pelo ataque diz que “quando o Porta dos Fundos escarnece do nome de nosso senhor Jesus Cristo ele pisa na esperança de milhões de pessoas que só têm Jesus Cristo como riqueza” – reforçando a tese de que o atentado contra a produtora pode ter sido motivado por um recente programa em que o grupo humorístico satiriza Jesus Cristo, sugerindo que este pode ter tido experiência homossexual.

“Quem fala mal do nome de Cristo prega contra o povo brasileiro. Esse é um crime de lesa-pátria. Eles são criminosos, são marginais, são bandidos”, acusou Cerquise no vídeo divulgado.

Grupo de extrema-direita reivindica ataque ao Porta dos Fundos

Por Leonardo Coelho e Maria Teresa Cruz

Em 2018, grupo de extrema-direita entrou na universidade e queimou bandeiras antifascistas; ataque à sede do Porta dos Fundos aconteceu na véspera de Natal

Símbolo é o mesmo que aparecia em vídeo após ataque à UniRio em dezembro do ano passado (Reprodução)


Um grupo de extrema-direita, que em dezembro do ano passado invadiu a UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), reivindicou a autoria do ataque à sede da produtora Porta dos Fundos na terça-feira (24/12). 

Em vídeo, o grupo de nome Comando de Insurgência Popular Nacionalista expõe cenas da noite em que lançaram coquetéis molotov e explicam o que teria motivado o ataque: o especial de Natal “A primeira tentação de Cristo”, feito pelo Porta dos Fundos, que retrata Jesus Cristo (Gregório Duvivier) como um gay, que namora Orlando (Fábio Porchat), e Deus (Antônio Tabet) como mentiroso. 

Em dezembro de 2018, reportagem da Ponte tratou pela primeira vez do grupo integralista, quando pelo menos 11 integrantes entraram em um dos campi da UniRio e queimaram três bandeiras antifascistas com a intenção de se colocarem contra o grupo que combate e denuncia o crescimento do discurso de ódio.

Uma das bandeiras na fachada da universidade que foi roubada e queimada por grupo integralista (arquivo pessoal)

O Comando se autodenomina integralista, pensamento com fundamento de ideais tradicionais e ligação com o fascismo na época da Segunda Guerra Mundial.  

As três bandeiras antifascistas foram criadas e colocadas por alunos do campus no dia 26 de outubro do ano passado como apoio e protesto contra uma série de ações policiais e dos TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) para fiscalizar supostas propagandas eleitorais irregulares em universidades. Na ocasião, a polarização estava colocada entre apoiadores de Jair Bolsonaro e quem era contrário ao agora presidente. 

Durante a semana que antecedeu o segundo turno das eleições, foram relatadas desde a invasão de espaços para o recolhimento de materiais considerados irregulares pelos TREs, como panfletos, até cancelamentos de eventos que tinham em seu nome ou teor relacionado ao combate ao fascismo, em pelo menos 26 universidades em 13 estados.

Na época, a Ponte conversou com o pesquisador Odilon Caldeira Neto, Phd da Universidade Federal de Santa Maria e autor da obra “Sob o Signo do Sigma: Integralismo, Neointegralismo e o Antissemitismo”, que ponderou que a ação na UniRio expunha um cenário mais agitado no campo da direita política, do qual o integralismo faz parte.

Ele explicou, à época, que o movimento político nasceu no período de entreguerras, como Ação Integralista Brasileira (AIB), e propunha uma plataforma autoritária, antidemocrática, nacionalista, corporativista e com algumas tendências antissemitas, com clara inspiração nos modelos e correntes intelectuais autoritárias, conservadoras e fascistas na Itália, Portugal e Alemanha.

“O neointegralismo é um fenômeno que acomete os tais grupos após a morte de de sua principal liderança, Plínio Salgado, em 1975. Após o falecimento, os militantes integralistas – e simpatizantes – passam a disputar essa herança política da liderança e também a divergir em termos de estratégias”, avalia o historiador. “Atualmente, existem dois principais grupos integralistas mais institucionalizados, que são a FIB (Frente Integralista Brasileira) e o MIL-B (Movimento Integralista e Linearista Brasileiro). Ambos estão presentes em diversas localidade do país, no entanto, a FIB é mais articulada, inclusive em torno de partidos políticos”, declarou à Ponte.

Ponte procurou a Polícia Federal e fez as seguintes perguntas:

  1. A investigação da PF sobre esses ataques na UFF e na UNIRIO chegou à alguma conclusão? Caso não, em que pé ela está e o que vocês podem compartilhar?
  2. A Polícia Civil do Rio de Janeiro entrou em contato com vocês para avaliar material captado pelos seus investigadores? 

Até a publicação da reportagem não havia retorno. 

Entenda o caso

O mesmo grupo que, no ano passado, invadiu e queimou bandeiras na UniRio afirma que foi o responsável pelo ataque ao Porta dos Fundos. No vídeo, eles usam expressões como “burguesia”, “antipatriótica” e “marxista” e se dizem integrantes da FIB (Família Integralista Brasileira).

“O Porta dos Fundos resolveu fazer um ataque direto contra a fé do povo brasileiro se escondendo atrás do véu da liberdade de expressão. Esses malditos servos do grande capital blasfemaram contra o espírito santo quando chamaram nosso Senhor Jesus Cristo de bastardo e Maria de prostituta e adúltera. Por isso não merecem perdão”, diz um dos trechos do manifesto lido no vídeo. 

Também criticam a Justiça do Rio que negou o pedido de liminar para tirar do ar o vídeo do Porta dos Fundos da plataforma Netflix. E concluem com o jargão “Deus, pátria, família e Cristo”. 

https://www.youtube.com/watch?v=sxCspqWMigg&feature=emb_title

Desde os ataques, manifestações de repúdio tem circulado no Twitter. O humorista Fábio Porchat, um dos criadores do Porta dos Fundos, escreveu duas mensagens sobre o caso: “Não vão nos calar! Nunca! É preciso estar atento e forte”, escreveu, reproduzindo trecho da letra da canção Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso.

E nesta quarta-feira (25/12) agradeceu o apoio que tem recebido: “Obrigado a todos que estão mandando mensagem de carinho e de apoio. Juntos somos mais fortes. Precisamos de todos lado a lado para vencermos o terror!”.

*Esta reportagem foi publicada originalmente pela Ponte.