Tornado provoca estragos na Amazônia

(Iury Lima/Agência Cenarium)

Uma forte ventania, chuva intensa, raios e granizo assustaram os mais de 500 mil moradores da capital de Rondônia, Porto Velho, na última quinta-feira, 28. O temporal acabou classificado como um tornado pelo Centro Gestor e Operacional de Proteção da Amazônia (Censipam). 

Na Escala Fujita, que classifica a intensidade dos tornados, o fenômeno obteve o nível mais brando, que vai de “F0” a “F5”. De acordo com o Censipam, os ventos ficaram em uma média de 50 km/h, mas foram suficientes para destelhar casas, prédios comerciais, derrubar árvores e causar alagamentos. Os momentos de terror duraram poucos minutos. Parte da cidade chegou a ficar sem energia elétrica, pois, segundo a concessionária Energisa, fios de alta tensão foram rompidos.

Força dos ventos destelhou casas e arrancou árvores. (Reprodução/ Redes sociais)

Por meio de nota, a Defesa Civil Municipal disse que apesar dos estragos, não houve vítimas e que os danos materiais foram identificados entre duas avenidas da região central e em bairros da Zona Leste de Porto Velho. “A Defesa Civil faz o acompanhamento nos locais afetados, incluindo com serviços de psicólogos e assistentes sociais, e está sendo feito um levantamento dos danos causados durante o temporal para verificar de que forma o município pode ajudar essas famílias”, destacou outro trecho. 

Há relação com a emergência climática?

Apesar de incomum para o Estado de Rondônia, bem como a região amazônica, a ocorrência de tornados, segundo o meteorologista do Censipam, Marcelo Gama, nada tem a ver com os efeitos das mudanças climáticas debatidas na 26ª Conferência das Nações Unidas, em Glasgow. Ele explica que o fenômeno se deu, apenas, por condições favoráveis.

“O tornado nada mais é do que um grande redemoinho. Ele não é comum aqui na nossa região, apesar de existir, mas não com certa frequência. Ele é mais comum nas regiões Sul, Sudeste e na região central do País. Ele ocorre, geralmente em função do encontro de duas massas: uma massa de ar quente e uma massa de ar frio, e sempre ele se desenvolve em nuvens de extensão vertical, que são as nuvens cumulonimbus, que são muito comuns aqui na nossa região”, detalhou o especialista, referindo-se a um tipo de nuvem que se forma em posição vertical, podendo atingir 10 mil metros de altura desde sua base.

O meteorologista do Censipam, Marcelo Gama, em entrevista à Cenarium. (Iury Lima/Cenarium)

“No momento em que tivermos condições meteorológicas favoráveis para que ocorra esse evento, ele pode voltar. Agora, dependendo da área onde ele atingir, ele pode causar mais ou menos danos”, complementou Gama.

Outro episódio

Esta não é a primeira vez que um fenômeno como este assusta os rondonienses. Em setembro de 2007, outro tornado com ventos de 150 km/h atingiu o município de Ji-Paraná, a 372 quilômetros da capital. O fenômeno causou destruição em uma faixa de dois quilômetros.

Tornado em Ji-Paraná (RO), em 2007. (Reprodução/ Internet)

“Infelizmente, nós não temos um estudo, uma característica, que você mostre ou que você possa se prevenir e prognosticar a chegada de um tornado. Importante é que as pessoas tentem se proteger, dentro de casa, ou em um espaço em que se sintam seguras. A recomendação é evitar sair à rua nessa hora, evitar estar próximo de redes elétricas, porque dependendo da intensidade do tornado, pode haver quedas de postes ou de fios de alta tensão”, alertou Marcelo Gama. 

Por Iury Lima, da Agência Cenarium

Como fabricantes de escavadeiras alimentam garimpo ilegal na Amazônia

Uma balsa desliza pelas águas de um rio na Amazônia carregando, para dentro da floresta, uma escavadeira hidráulica da marca Hyundai que pesa pelo menos 15 toneladas. A cena foi registrada por indígenas e enviada por WhatsApp junto com um pedido de ajuda para autoridades. Em outra situação, uma frota de pás carregadeiras abre caminho em meio à mata densa, na terra indígena Munduruku, no Pará, enquanto, no céu, um helicóptero parece escoltar o deslocamento ilegal das máquinas.

Comuns em canteiros de obras da construção civil, onde facilitam o trabalho pesado de revirar a terra com seu braço mecânico articulado, escavadeiras hidráulicas e pás carregadeiras se tornaram aliadas de primeira hora de garimpeiros ilegais que avançam sobre a Amazônia. 

Equipadas com uma pá de grandes proporções, uma cabine capaz de girar para ambos os lados e rodas ou esteiras que avançam sobre qualquer terreno, esses equipamentos conseguem cavar enormes buracos em poucos dias no meio da floresta, agilizando o serviço para garimpeiros e multiplicando suas chances de lucro. Também são empregados na derrubada da mata para abrir as clareiras onde vai se instalar a atividade ilegal. Uma máquina dessas pode custar até R$ 1 milhão.

Ibama flagrou máquina da New Holland em garimpo ilegal na TI Kayapó em 2017
(Felipe Werneck/Ibama/via Repórter Brasil)

“É a máquina mais relevante no garimpo atualmente. O ouro geralmente está em uma camada no subsolo, então o principal trabalho da escavadeira é remover a camada superior de terra. O resto do serviço no garimpo é feito com jatos de água, motores e bombas de sucção de lama”, explica o perito da Polícia Federal Gustavo Caminoto Geiser.

Não à toa, na primeira semana de outubro, quando uma megaoperação da Polícia Federal, Ibama e Funai estava planejada para agir em Jacareacanga, no Pará, garimpeiros ilegais correram para esconder as máquinas na floresta, longe dos olhos dos fiscais e das câmeras dos drones.

Uma consulta no banco de dados abertos do Ibama demonstra que agentes encontraram, apreenderam e destruíram dezenas de escavadeiras hidráulicas e pás carregadeiras atuando em garimpos ilegais em terras indígenas e áreas protegidas nos últimos anos. 

“Fabricantes precisam sair de uma postura de cegueira deliberada e adotar mecanismos mais rigorosos no controle de vendas”.
Ana Carolina Haliuc, do MPF do Amazonas

Nem sempre o registro é feito pelos fiscais de forma completa, mas em pelo menos 17 casos a Repórter Brasil conseguiu identificar os fabricantes dos equipamentos encontrados por autoridades em atividades ilícitas. São multinacionais que assumiram compromissos socioambientais, como o enfrentamento do aquecimento global, mas pouco fazem para impedir que as máquinas sejam usadas pelo crime. O uso irregular desses equipamentos acaba provocando graves danos ao meio ambiente e à saúde humana.

“Ainda que juridicamente haja um debate a respeito da responsabilidade dos fabricantes, é fato que esses agentes precisam ser chamados a conferir sustentabilidade aos seus negócios, saindo de uma postura de cegueira deliberada e adotando mecanismos mais rigorosos no controle de vendas”, sinaliza Ana Carolina Haliuc, procuradora do Ministério Público Federal (MPF) no estado do Amazonas e coordenadora da força-tarefa Amazônia.

TI Kayapó sob pressão

Há registros de apreensões, nos últimos anos, nas TIs Paucalirajausu, dos Nambikwara, Sete de Setembro, habitada pelos Surui Paiter na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, Evaré, no Amazonas, área dos índios Ticuna, entre outras. Na maior parte dos casos, a marca dos equipamentos não é mencionada nos registros. Mas, em setembro de 2018, agentes do Ibama apreenderam a retroescavadeira Caterpillar 3200 SBS 120, com número de série XA325228, dentro da TI Sararé, do povo Nambikwara

Nenhuma área se repete tanto na lista pública do Ibama como a TI Kayapó, no sudeste do Pará. Segundo um levantamento do Instituto Socioambiental feito em 2020, essa é a terra indígena mais impactada pelo garimpo na bacia do rio Xingu. Além do ouro, lideranças indígenas denunciam extração ilegal de manganês em suas terras, como a Repórter Brasil mostrou no ano passado.

A TI Kayapó, no sudeste do Pará, é a mais impactada pelo garimpo na bacia do Xingu
(Felipe Werneck/Ibama/via Repórter Brasil)

Coincidentemente, diversos registros sobre operações nesta localidade expõem os fabricantes. Foi dentro da TI Kayapó que, em 2017, fiscais do Ibama apreenderam duas escavadeiras hidráulicas da Volvo, duas da marca Sany, outras duas da Komatsu e três máquinas Hyundai. O Ibama inclusive fotografou uma escavadeira da New Holland em uso no  garimpo ilegal. 

Procuradas, Hyundai, New Holland e Sany disseram que não iriam se manifestar. A Caterpillar não respondeu aos e-mails enviados pela Repórter Brasil

A Volvo se limitou a dizer que “é um fabricante de máquinas, comercializadas por meio de uma rede de distribuidores para centenas de clientes” e que não tem conhecimento do caso mencionado nesta reportagem.

Soluções para a falta de controle

Alguns fabricantes argumentam que impõem barreiras na hora da venda, mas que não são capazes de controlar o destino das máquinas. A Link Belt, por exemplo, checa a existência de licença de operação em nome do comprador, enquanto a Komatsu faz um estudo sobre as práticas ambientais dos clientes antes de fechar negócio. 

Porém, em ambos os casos, as empresas dizem que não têm controle sobre o que o dono faz com o equipamento depois que sai da loja. “Não é possível acompanhar todo o ciclo de vida útil de uma máquina, que pode durar décadas, quando ela passa a ser revendida por terceiros”, defende-se a Komatsu.

“Ao adquirir a escavadeira, o cliente torna-se o principal responsável pela operação em que ela será alocada”, complementa Matheus Fernandes, Business Manager da Operação Link-Belt Latin America. Em modelos novos de escavadeiras, a companhia instalou um sistema que emite um sinal e permite localizar o equipamento. Porém, ele pode ser desligado pelo operador. Veja a íntegra das respostas.

A situação de uma revendedora da Hyundai, a BMC Máquinas — que se auto-intitula “maior parceira” da marca sul-coreana no Brasil — ilustra essa dificuldade de monitoramento. A representante já teve prejuízos em vendas parceladas nas quais uma máquina usada foi dada como garantia da compra de uma zero quilômetro. Mais de uma vez em que precisaram resgatar escavadeiras para saldar as dívidas, os vendedores não conseguiram porque “estavam sendo utilizadas em garimpos clandestinos, inacessíveis em meio a mata fechada”, segundo disse o CEO da BMC, Felipe Sica Soares Cavalieri. 

Para tentar superar essa limitação, o Ministério Público Federal sugere a criação de um cadastro técnico federal que credencie e acompanhe individualmente o uso de equipamentos de mineração. A medida, defendida no manual de combate ao garimpo ilegal da instituição, permitiria avaliar o potencial de dano das máquinas a partir do porte e da quantidade de equipamentos previstos para uso em cada lavra. “Além disso, cabe exigir a presença, nos equipamentos, de aparelhagem de GPS e/ou localizador, o que colaboraria para a prevenção à atuação fora dos limites das permissões de lavra garimpeira ou das áreas licenciadas”, recomendam os autores do texto.

Projetos que utilizam a tecnologia como aliada no combate ao garimpo ilegal já existem. Em um relatório sobre ouro contrabandeado no Brasil, o Instituto Igarapé lista sistemas de alerta que detectam, através do som, atividade humana na floresta provocada, por exemplo, por motosserras, escavadeiras e motores de barcos.

Outra dessas soluções inovadoras foi desenvolvida no Brasil. O Código da Consciência é um programa que, uma vez inserido no computador de bordo de uma máquina, emite um alerta ou mesmo desliga o motor do veículo quando ele se aproxima de uma área protegida. Por estar gravado na memória da máquina, não é possível que o operador desligue seu funcionamento, como ocorre com a tecnologia de telemetria disponibilizada pelos fabricantes.

“É muito difícil fazer com que os humanos parem de destruir as florestas, mas achamos que poderíamos parar as máquinas se construíssemos uma espécie de escudo digital de proteção para áreas naturais”, justifica Hugo Veiga, diretor criativo global da AKQA, empresa que desenvolveu o software.

A companhia está implementando um projeto piloto junto, mas reconhece que o processo é mais lento do que gostaria. “Para as mudanças acontecerem, é preciso que o sistema todo adote o código. Quando uma empresa perder um negócio por causa disso, a mudança terá começado”, afirma.

Poder e lucro são barreiras

É justamente no mercado bilionário que orbita em torno do garimpo ilegal que esbarram as iniciativas de maior controle da cadeia. Segundo cálculos do próprio Ministério de Minas e Energia, esse mercado ilícito fatura entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões ao ano no Brasil.

Em cidades onde o ouro é o principal motor da economia, há representantes de marcas famosas de maquinário pesado e lojas onde é fácil achar o modelo desejado. “Em Itaituba, no Pará, não tem construção civil que justifique as várias lojas especializadas em escavadeiras. O único edifício da cidade é o hospital”, ilustra o perito da PF Gustavo Caminoto Geiser, referindo-se aquela que é considerada a capital do ouro na Amazônia, também conhecida como “cidade pepita”.

De fato, o representante da Hyundai em Itaituba, Roberto Katsuda, não esconde a identidade de seus clientes. Em uma audiência pública realizada na Câmara Municipal, que a Repórter Brasil acompanhou em 2019, Katsuda agradeceu “à classe garimpeira” as 600 escavadeiras hidráulicas vendidas no município entre 2013 e 2019. “Vocês é que colocam comida na mesa da minha família”, comentou. 

“Vocês garimpeiros é que colocam comida na mesa da minha família”.
Roberto Katsuda, representante da Hyundai em Itaituba


Uma das empresas da qual é sócio, a World Tractor Comercial e Importadora, está sendo investigada em um inquérito civil aberto pelo MPF do Pará para apurar a responsabilidade de fornecedores de máquinas pelos danos provocados pelo garimpo.

Procurado pela reportagem, Katsuda não quis comentar o inquérito e desconversou: “Vendemos equipamentos para todo o Brasil e somos gratos a quem acredita no nosso produto, seja garimpeiro legalizado ou empresa da construção civil, de mineração”.

Caterpillar, Volvo, Sany, Komatsu, New Holland e Hyundai são algumas das multinacionais que abastecem o garimpo ilegal na Amazônia com máquinas pesadas (Vinícius Mendonça/Ibama/via Repórter Brasil)

O investimento para comprar uma escavadeira hidráulica é alto. Na tabela do Ibama a que a reportagem acessou, os agentes de fiscalização estimaram valores entre R$ 50 mil e R$ 500 mil para os veículos apreendidos. Mas um grupo garimpeiro investigado pela PF no Pará pagou R$ 1 milhão em uma dessas máquinas e gastou quatro vezes mais em duas escavadeiras do que na compra de um avião.

Por isso, o MPF diz que garimpeiros não teriam como comprar esse maquinário pesado, porque são essencialmente pessoas pobres. “As pessoas que atuam hoje no garimpo não deveriam ser chamadas de garimpeiros. São empresários que se valem de mecanismos empresariais para organizar de maneira ordenada a extração do bem mineral com um grande aporte de capital”, diz a procuradora Haliuc.

Movidos pelo lucro da atividade, ao invés de se afastarem de áreas protegidas, como desejam as autoridades, os infratores querem mudar a lei. As autoridades estão apurando de onde saíram os recursos que financiaram uma viagem de indígenas favoráveis à abertura de seus territórios ao garimpo para Brasília, onde pressionaram parlamentares a aprovarem o PL 191/2019, que libera a exploração mineral em terras indígenas. Formulado pelo governo do presidente Jair Bolsonaro, o texto ignora a proibição constitucional para atividade de extração mineral em territórios protegidos e legaliza o garimpo nessas áreas, mesmo contra a vontade de parte dos indígenas.

A Associação Nacional do Ouro (Anoro) entregou ao vice-presidente da República, Hamilton Mourão, uma proposta em que empreendedores da mineração e agentes financeiros se comprometem a combater a mineração ilegal desde que o governo federal garanta o fim da destruição de equipamentos e que promova a regularização da mineração em terras indígenas.

Para o Instituto Igarapé, sistemas de alerta, rastreamento por GPS, e tecnologia de som seriam aliados acessíveis no combate aos danos do garimpo ilegal. Mas a barreira é de outra ordem: falta de vontade política, extensivo lobby da mineração e conflitos de interesses “que se estendem do nível municipal ao federal”.

Por Naira Hofmeister, da Repórter Brasil

Greenpeace diz que Brasil fez lobby para mudar relatório climático

Trecho do relatório que incomodou Brasil e Argentina cita o consumo de carne como alto carbono
(Arquivo/Bruno Cecim/Agência Pará)

Vários países, entre eles o Brasil, tentaram fazer mudanças em um crucial relatório da ONU sobre como combater o aquecimento global, afirmou o Greenpeace nesta quinta-feira (21/10), citando um grande vazamento de documentos.

Os documentos aos quais a equipe jornalística do projeto Unearthed, do Greenpeace, teve acesso consistem de comentários feitos por governos e outras entidades relativos ao rascunho de um relatório elaborado por um grupo de trabalho internacional do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O relatório deverá ser divulgado no ano que vem.

Embora a maioria dos comentários encaminhados ao IPCC por governos tenham tido como intenção melhorar o relatório, diversos grandes produtores de carvão, petróleo, carne bovina e ração animal pressionaram por mudanças para satisfazer seus interesses econômicos, relatou o Greenpeace.

As tentativas de lobby foram reveladas a poucos dias da abertura das negociações climáticas no âmbito da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP26, a ser realizada em Glasgow, na Escócia, a partir de 31 de outubro. O encontro é visto por muitos como crucial para determinar se o aquecimento global causado pelo homem causará danos irreparáveis ao planeta.

Brasil, Argentina e o lobby da carne

(Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Em comentários vistos pela equipe do Greenpeace, o Brasil e a Argentina, dois dos maiores produtores de carne bovina e ração animal do mundo, fizeram lobby junto ao IPCC para que fossem removidas menções a dietas baseadas em vegetais e à redução do consumo de carne e laticínios como benéficas para o clima.

Segundo o Greenpeace, ambos os países também pediram aos autores do relatório que fossem removidas passagens que descrevem a carne bovina como um alimento de “alto carbono”.

Apesar das evidências científicas, o Brasil, “onde o desmatamento da Amazônia relacionado à agricultura está aumentando acentuadamente sob o presidente próximo ao agronegócio Jair Bolsonaro”, tentou fazer com que o IPCC retirasse do relatório a ser divulgado no ano que vem conexões diretas entre o consumo de carne e o aquecimento global, diz a ONG.

“Por exemplo, em comentários registrados em março deste ano, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro tenta remover do rascunho formulações que afirmam que uma transição para dietas com maior proporção de ‘proteínas baseadas em vegetais’ em regiões onde pessoas ingerem um excesso de calorias e alimentos baseados em animais poderia levar para uma redução substancial das emissões de gases de efeito estufa e fornecer benefícios à saúde”, aponta o Greenpeace.

A ONG diz ainda que o Brasil pediu que fosse deletado o seguinte trecho: “Dietas com pouca carne e laticínios já são prevalentes em muitos países e culturas e sua aceitação está aumentando em relação aos atuais níveis baixos em outros lugares. Dietas baseadas em vegetais podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 50% em comparação à dieta média ocidental, intensiva em emissões.”

Como justificativa para as exclusões propostas, o revisor do Brasil escreveu: “Não se pode pressupor que dietas vegetais e dietas saudáveis são a mesma coisa, que ambas terão um baixo impacto ambiental ou que uma dieta sustentável será saudável”, segundo o Greenpeace.

O revisor brasileiro argumenta então que a sustentabilidade “depende da realidade local”, que é influenciada pelo solo e as condições climáticas locais e, portanto, pela “aptidão agrícola da região para produzir alimentos”, de acordo com os documentos vazados.

A Argentina, por sua vez, também pressionou pela exclusão de referências a impostos sobre carne bovina e até à campanha internacional Segunda-feira sem Carne, que encoraja as pessoas a adotarem uma dieta vegetariana um dia por semana, aponta a ONG.

De olho no petróleo

Em outro comentário vazado, um integrante do governo da Austrália questionou a conclusão do relatório, considerada indiscutível por cientistas, de que o fechamento de usinas a carvão é um grande passo para reduzir as emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. Grande parte da renda nacional da Austrália provém das exportações de carvão.

Segundo o Greenpeace, comentários também mostraram a Arábia Saudita, o Irã, a Austrália, o Japão e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opec) argumentando que a captura e a armazenagem de carbono poderiam ser usadas para evitar as emissões de gases de efeito estufa pela indústria, em vez de acabar com a produção de CO2.

O argumento contradiz estudos que apontam que métodos para manter o CO2 longe da atmosfera já empregados foram em grande parte malsucedidos.

O que dizem cientistas climáticos?

A grande maioria dos cientistas climáticos afirma que descontinuar rapidamente o uso de combustíveis fósseis é necessário para que o mundo não sofra os efeitos catastróficos do aquecimento global, muitos dos quais já vêm dando sinais nos últimos anos.

No rascunho do documento “Resumo para formuladores de políticas”, que também vazou no início deste ano, o IPCC afirma que limitar o aquecimento global a 2 °C, idealmente a 1,5 °C, deverá “envolver reduções substanciais do uso de combustíveis fósseis, grandes investimentos em formas de energia de baixo carbono, transição para veículos movidos a energia de baixo carbono e esforços para eficiência energética e conservação [ambiental]”.

Por Timothy Jones e Luisa Frey, da Deutsche Welle

Desmatamento na Amazônia é o maior em agosto dos últimos dez anos

Segundo uma pesquisa realizada pelo Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), o desmatamento na Amazônia em agosto de 2021 foi o maior em 10 anos. O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do instituto apontou que foram mais de 1,6 mil km² desmatados.

O levantamento mostrou que a destruição do bioma subiu 7% em relação ao mesmo mês de 2020. A área desmatada de janeiro a agosto deste ano equivale a 7.715 km², com alta de 48% em relação ao mesmo período de 2020.

Entretanto, os dados do Imazon divergem dos divulgados pelo sistema DETER do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Segundo dados do governo, o território desmatado em agosto de 2021 foi de 918 km².

Com relação ao período entre janeiro e agosto, os dados do Inpe registraram 6.026 km² desmatados.

Por TV Cultura

“Vergonhoso” o que estão fazendo com povos indígenas e com a natureza no Brasil, diz Greta Thunberg

(Pedro França/Agência Senado)

A ativista sueca Greta Thunberg classificou como “extremamente vergonhosa” a postura das autoridades brasileiras diante da questão ambiental. Greta participou, nesta sexta-feira (10), de audiência pública no Senado Federal para falar sobre o tema.

Thunberg também destacou o tratamento dado a população indígena no país. “É extremamente vergonhoso o que eles estão fazendo com os povos indígenas e com a natureza”, disse. Atualmente, diversas etnias e povos indígenas brasileiros protestam contra a aprovação do Marco Temporal para demarcação de terras pelo Supremo Tribunal Federal.

“O que os líderes do mundo falharam não tem desculpa, o Brasil não tem desculpa para não assumir sua responsabilidade”, continuou Greta. “A Amazônia, os pulmões do mundo, está no limite e vemos que agora está emitindo mais carbono que consumindo por conta do desmatamento e das queimadas. Isso está sendo alimentado diretamente pelo seu governo”. A ativista optou por não citar o nome do presidente Jair Bolsonaro.

A audiência, promovida na Comissão de Meio Ambiente, tinha como objetivo debater os resultados do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas, em português). Entre outras informações, o documento divulgado em agosto apontou a responsabilidade do ser humano no aumento de temperatura do planeta.

‘A última floresta’ vence mostra de cinema em Berlim com voto do público

(Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

O Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) premiou neste domingo (20/06), por escolha do público, o filme A Última Floresta, do cineasta brasileiro Luiz Bolognesi, sobre o povo Yanomami.

O roteiro do filme, único brasileiro a integrar a mostra Panorama da Berlinale deste ano, foi escrito em conjunto com o xamã Davi Kopenawa. Em entrevista à DW Brasil em março, Bolognesi afirmou que seu objetivo era registrar o ponto de vista dos yanomami sobre a sua vida em comunidade.

A obra mescla trechos de documentário com sequências encenadas para recriar a existência da cultura e da língua yanomami. O filma conta diversos mitos do povo Yanomami, com eles próprios representando seus deuses fundadores, no seu ambiente natural na Floresta Amazônica, que está sob constante ameaça do garimpo ilegal. Bolognesi já havia sido premiado na Berlinale antes, com o longa Ex-pajé, em 2018.

Em segundo lugar, ficou a produção hispano-libanesa Miguel’s War, dirigida por Eliane Rahed, sobre um homossexual que cresceu num meio ultra-conservador libanês e que se afastou do país durante a guerra civil. Os dois filmes foram os vencedores do voto do público na categoria Panorama, a segunda mais importante do festival alemão. 

Esta foi uma edição atípica da Berlinale, dividida entre uma versão virtual e outra presencial, separadas por três meses de distância, devido à pandemia de covid-19. 

Ao todo, foram exibidos 126 filmes nesta edição de verão, em 16 espaços distribuídos pelo centro da capital alemã e dos seus bairros, sendo a maior parte espaços já destinados ao cinema de verão. 

Prêmio principal foi anunciado em março

Os prêmios do público foram entregues neste domingo, último dia do chamado Festival de Verão que a Berlinale realizou neste ano, pela primeira vez.  

Os vencedores dos prêmios oficiais já haviam sido anunciados em março, após a edição virtual de apenas cinco dias, reservada ao setor profissional do cinema e à crítica. 

O longa-metragem Bad Luck Banging or Loony Porn, do diretor romeno Radu Jude, venceu o Urso de Ouro da Berlinale, o prêmio máximo da competição. 

Coprodução da Romênia com Luxemburgo, Croácia e República Tcheca, a comédia, escrita pelo diretor, que a definiu como um “cartoon político”, teve estreia internacional em Berlim e esteve no centro das atenções ao visar a corrupção e os vícios do país de origem, em forma de sátira. 

A segunda maior distinção, o Grande Prêmio do Júri, foi para o japonês Ryusuke Hamaguchi por Roda da Fortuna e Fantasia, enquanto o Urso de Prata pela melhor contribuição artística foi conquistado pelo mexicano Um filme policial, dirigido por Alonso Ruizpalacios. 

Por Deutsche Welle

bl (Lusa, ots)

Força Nacional vai apoiar o Ibama em ações na Amazônia Legal

Diário Oficial da União publica, nesta quinta-feira (29), Portaria nº 197, de 27 de abril de 2021, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que dispõe sobre o emprego da Força Nacional de Segurança Pública, em apoio ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Ministério do Meio Ambiente, na Amazônia Legal.

De acordo com o documento, a Força Nacional  atuará em ações de fiscalização e de repressão ao desmatamento ilegal e demais crimes ambientais, e de combate aos incêndios florestais e queimadas, em atividades e serviços imprescindíveis à preservação da ordem pública e da proteção das pessoas e do patrimônio.

O apoio dos militares será em caráter episódico e planejado, por 260 dias, a contar de hoje, data da publicação da portaria.  A operação terá o apoio logístico do Ibama, que deverá dispor da infraestrutura necessária à Força Nacional.

Para o ministro da Justiça, Anderson Torres, ações com planejamento são cruciais para garantir a preservação da biodiversidade nacional. “Esse reforço é um grande diferencial nas ações em campo. O trabalho integrado garante mais assertividade no enfrentamento a qualquer tipo de atividade ilegal que atinja o meio ambiente”, disse.

Por Agência Brasil

Sob pressão, Bolsonaro promete zerar desmatamento ilegal

(Marcos Corrêa/PR)

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quinta-feira (22/04) na Cúpula dos Líderes sobre o Clima, organizada pelos EUA, que o Brasil está na “vanguarda do enfrentamento ao aquecimento global” e anunciou a meta de tornar a economia brasileira neutra até 2050 – uma antecipação em 10 anos em relação à meta brasileira anterior – e prometeu zerar o desmatamento ilegal até 2030 – uma promessa que já havia sido feita por Dilma Rousseff em 2015. 

Isolado no cenário internacional por causa da deterioração da imagem ambiental do Brasil e com a saída de cena de aliados como Donald Trump, Bolsonaro adotou um tom defensivo, mas um pouco mais conciliador do que em seus discursos anteriores para plateias no exterior. 

“Historicamente o Brasil é voz ativa na construção da agenda ambiental global. Renovo hoje essa credencial, respaldada tanto por nossas conquistas até aqui, quanto pelos compromissos que estamos prontos a assumir perante as gerações futuras”, disse o presidente.

O presidente afirmou de modo vago que é “preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta como forma de reconhecer o caráter econômico das atividades de conservação”. A fala seguiu a linha de planos do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que cobra recursos internacionais em troca de preservar a Amazônia. Bolsonaro, no entanto, evitou mencionar valores.

Em contraste com outros líderes que abriram seus discursos com planos para reduzir emissões ou falando sobre a importância de combater as mudanças cimáticas, Bolsonaro iniciou sua fala defendendo o que, na sua visão, são pontos fortes do Brasil na área ambiental, afirmando, por exemplo, que 84% da Amazônia estão preservados. Ele também se referiu ao Brasil como “potência agroambiental”. 

Ele ainda ressaltou que o Brasil é responsável por menos de 3% das emissões globais, “mesmo sendo uma das maiores economias do mundo”, embora o país tem cerca de 2,7% da população mundial. O presidente ainda disse que o Brasil tem “uma das matrizes energéticas mais limpas” e “uma das agriculturas mais sustentáveis do planeta”, em que “a partir de ciência e inovação, produzimos mais com menos recursos”.

Também de modo vago, Bolsonaro afirmou que, “apesar das limitações”, seu governo está “duplicando recursos destinados a ações de fiscalização ambiental”, deixando de mencionar que seu governo enfraqueceu órgãos como o Ibama nos últimos dois anos e que seu ministro do Meio Ambiente foi recentemente acusado por um delegado da Polícia Federal fazer lobby para madeireiros ilegais. 

“Há que se reconhecer que será uma tarefa complexa. Medidas de comando e controle são parte da resposta. Apesar das limitações orçamentárias do governo, determinei o fortalecimento dos órgãos ambientais duplicando os recursos destinados as ações de fiscalização, mas é preciso fazer mais”, disse Bolsonaro.

A conferência virtual Cúpula dos Líderes sobre o Clima, organizada pela Casa Branca  nesta quinta e sexta, conta com a participação de 40 lideranças internacionais. O presidente Joe Biden, organizador da cúpula, não acompanhou o discurso de Bolsonaro, tendo deixado pouco antes a sala onde eram transmitidos os discursos.

Corte de emissões dos EUA

Pouco antes da abertura do encontro, o governo dos EUA anunciou que se comprometeu a cortar entre 50% e 52% as emissões de gases de efeito estufa até 2030, com o objetivo de chegar à neutralidade das emissões de carbono até 2050.

Em seu discurso durante a cúpula, o presidente americano, Joe Biden afirmou que os EUA “não está esperando” para liderar o mundo em uma questão que é “imperativo moral e econômico”.

“Encontrar este momento é mais do que preservar nosso planeta”, disse Biden. “Trata-se de fornecer um futuro melhor para todos nós”, acrescentou, chamando a situação atual de “um momento de perigo, mas um momento de oportunidade”.

“Os sinais são inconfundíveis. a ciência é inegável. o custo de inação continua crescendo”, alertou.

A meta de redução de emissões dos EUA é quase o dobro da anterior, fixada por Barack Obama, em 2015, quando o país se comprometeu a cortar as emissões entre 26% e 28%. O anúncio é feito em momento em que Washington procura recuperar a liderança global na luta contra aquecimento climático depois que o ex-presidente Donald Trump retirou o país dos esforços internacionais para reduzir as emissões de poluentes.

Às vésperas da cúpula, a União Europeia (UE) chegou a um acordo para reduzir em pelo menos 55% as emissões até 2030, em comparação com valores de 1990.

Brasil como vilão ambiental

Nos últimos dois anos, sob Bolsonaro, o Brasil passou a estampar uma imagem de vilão ambiental no exterior após o governo desmontar órgãos de fiscalização, criticar publicamente órgãos de monitoramento, reagir com agressividade a críticas sobre queimadas e paralisar o Fundo Amazônia.

Antes do discurso de Bolsonaro, o Brasil colecionou manchetes negativas sobre os problemas ambientais. No início da semana, 400 funcionários do Ibama declararam, em carta aberta, que as atividades de fiscalização estão paralisadas por causa de uma instrução normativa do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. A chefia do Ibama, segundo eles, não tem interesse em proteger o meio ambiente.

Poucos dias antes, a troca na Polícia Federal do Amazonas havia gerado manchetes, quando o superintendente Alexandre Saraiva enviou uma notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal, denunciando Salles por sabotagem da fiscalização ambiental. Além disso, o Imazon divulgou que o desmatamento na região amazônica chegou ao maior nível em dez anos para um mês de março.

Ainda nesta semana, o jornal O Globo noticiou um novo projeto do ministro do Meio Ambiente. Com dinheiro das nações industrializadas, ele pretende criar uma Força de Segurança Ambiental para substituir as atuais autoridades ambientais. ONGs ambientalistas reagiram negativamente, chegando a classificar a iniciativa de Salles como um projeto de “milícia ambiental”.

A abordagem ambiental de Bolsonaro e Salles também criou dificuldades para o Brasil no exterior, como o aumento à rejeição crescente do acordo entre o Mercosul e a União Europeia em diversos países europeus.  Num discurso que precedeu a fala de Bolsonaro, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou “devemos defender o meio ambiente em nossas relações comerciais”. Em 2019, Macron foi um dos principais críticos da abordagem ambiental de Bolsonaro, usando as queimadas e o aumento do desmatamento no Brasil como justificativa para retirar seu apoio ao acordo UE-Mercosul.

Protestos

(Arte TV Cultura/Reprodução)

Nos últimos dias, indícios de que o governo americano estaria negociando um acordo com Bolsonaro às vésperas da conferência de Biden provocaram reações em diversos meios. Uma carta assinada por artistas, incluindo Alec Baldwin, Leonardo Di Caprio, Mark Ruffalo, Kety Perry, Caetano Veloso entre outros, pediu ao presidente dos EUA que não se comprometa com o colega de cargo brasileiro.

Eles seguiram o apelo de um grupo de 199 organizações brasileiras da sociedade civil que havia se manifestado dias antes. “Não é sensato esperar que qualquer solução para a Amazônia resulte de reuniões a portas fechadas com seu pior inimigo”, diz o texto encaminhado a Biden.

Acordos do tipo devem ser construídos a partir do diálogo, defende o grupo. “Com a sociedade civil, governos subnacionais, academia e, principalmente, com as comunidades locais que sabem proteger a floresta e os bens e serviços que ela abriga”, diz sobre as demais partes que deveriam ser consideradas.

Nesta terça-feira, 24 dos 27 governadores brasileiros entregaram uma carta aberta ao embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, na qual defendem parcerias entre os EUA e seus estados para proteger o meio ambiente e o clima.

Antes de ser eleito, Biden havia mencionado que poderia destinar até 20 bilhões de dólares para salvar a Amazônia, mas ao mesmo tempo sinalizou que poderia impor sanções contra o Brasil caso a destruição da floresta persistisse. 

Por Deutsche Welle

md (Reuters, AFP, ots)

Em carta a Biden, 24 governadores pedem cooperação pró-clima

Antes da Cúpula de Líderes pelo Clima, convocada pelo presidente dos EUA, Joe Biden, 24 dos 27 governadores brasileiros entregaram, nesta terça-feira (20/04), uma carta aberta ao embaixador americano no Brasil, Todd Chapman, na qual defendem parcerias entre os EUA e seus estados para proteger o meio ambiente e o clima.

“A coalizão Governadores Pelo Clima, ampla e diversa, envolvendo progressistas, moderados e conservadores, de situação e de oposição, sinaliza o desejo do Brasil por união e construção colaborativa de soluções em defesa da humanidade e de todas as espécies de vida que estão ameaçadas pela degradação de ecossistemas”, diz o documento.

Em contraponto ao governo do presidente Jair Bolsonaro, que vem sendo alvo de críticas no cenário internacional devido à sua política ambiental e à gestão da pandemia, os governadores  afirmaram estar “conscientes da emergência climática global” e de sua responsabilidade na adoção de medidas de proteção ambiental.

Entre essas medidas, os gestores estaduais citaram: “a redução dos gases de efeito estufa, a promoção de energias renováveis, o combate ao desmatamento” e “a proteção e o bem-estar dos povos indígenas e demais comunidades tradicionais”.

Os governadores manifestaram interesse no “desenvolvimento de parcerias e de estratégias de financiamento, visando impulsionar o equilíbrio climático, a redução de desigualdades, a regeneração ambiental, o desenvolvimento de cadeias econômicas verdes e o estímulo à adoção de tecnologias para reduzir as emissões de atividades econômicas tradicionais nas Américas, além do esforço conjunto na construção de uma sociedade mais saudável e resiliente a pandemias”.

Os signatários destacam que representam 90% do território nacional. Os únicos três governadores que não assinaram o documento foram os de Santa Catarina, Daniela Reinehr, (interina, sem partido); de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (PSL); e de Roraima, Antonio Denarium (sem partido).

Cooperação

Os signatários da carta celebraram a decisão do governo Biden de retornar ao Acordo de Paris e “fortalecer a agenda ambiental internacional” e disseram ter intenção de promover a cooperação entre os Estados Unidos e governos estaduais brasileiros – “responsáveis pela maior parte da Floresta Amazônica, a mais extensa floresta tropical do mundo, e de outros biomas”.

“Nossa parceria pode somar rapidamente capacidade técnica, grandes áreas regeneráveis de terra e governanças locais, com a imensa capacidade de investimentos da economia americana, conectando políticas públicas, conhecimentos científicos, instrumentos inovadores e iniciativas empresariais”, diz a carta.

Os governadores defendem a integração das economias do Brasil e dos EUA “nos eixos de bioenergia, agricultura de baixo carbono, energias renováveis e bioeconomia de floresta em pé e manejada, com uso de modernas tecnologias para agregação de valor aos produtos da floresta, promovendo práticas sustentáveis de comércio internacional”.

“Juntos, podemos constituir com agilidade a maior economia de descarbonização do planeta, criando referências para impulsionar a transição da economia mundial para um modelo carbono neutro, orientando uma retomada verde pós-pandemia”, afirmam.

“A terrível pandemia atual, somada à urgência climática, exigem ações imediatas para evitar novas doenças em escala planetária, tendo como princípio a união de nações, conhecimentos, capacidades e, sobretudo, solidariedades e sonhos que nos elevem a um novo patamar de sabedoria coletiva”, concluem.

Bolsonaro sob pressão

Convocada por Biden, a Cúpula de Líderes sobre o Clima será realizada de maneira virtual nestas quinta e sexta-feira, 22 e 23 de abril.

Bolsonaro enviou na semana passada uma carta de sete páginas a Biden, na qual se comprometeu a acabar com o desmatamento ilegal no Brasil até 2030. O presidente também reiterou o pedido de apoio internacional para alcançar metas de redução de emissões. 

Na campanha eleitoral à Casa Branca, Biden propôs que países forneçam ao Brasil 20 bilhões de dólares para combater o desmatamento e disse que o país deve sofrer repercussões se falhar esse objetivo. Na época, Bolsonaro classificou os comentários de Biden como “lamentáveis” e “desastrosos”.

Na última sexta-feira, John Kerry, enviado para o clima do governo Biden pediu que Bolsonaro tome “ações imediatas” contra o desmatamento, e disse esperar que o governo brasileiro atue ao lado das comunidades indígenas e da sociedade civil nas questões ambientais.

Também na última sexta-feira, um grupo de senadores democratas enviou uma carta ao presidente americano criticando o péssimo histórico ambiental de Bolsonaro e pedindo a Washington que condicione qualquer ajuda financeira à redução do desmate na Amazônia.

Nesta semana, um levantamento do Imazon mostrou que o desmatamento da Floresta Amazônica em março foi o maior registrado para o mês em dez anos. Entre agosto de 2019 e julho de 2020, o desmatamento na Amazônia atingiu o maior patamar em mais de uma década, com 11.088 km² de devastação, segundo dados do Inpe.

Por Deutsche Welle

lf (ots)

‘A Última Floresta’ é um olhar de urgência pela proteção dos Yanomami, diz diretor

Depois de ser exibido em março no Festival de Berlim, filme sobre o povo Yanomami estreia no Brasil, neste domingo (18). A imagem acima é uma foto still do filme (Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

Um jovem Yanomami se sente atraído pela sedução do minério e do ouro, ao encontrar um amigo na floresta. De volta à aldeia, fica pensativo e quieto, e Davi Kopenawa Yanomami logo percebe. Com tranquilidade e com a força de uma história de décadas de luta em defesa do território de seu povo e calejado por anos de ameaças e perseguições e perdas de muitos outros jovens para o garimpo, explica ao rapaz, tendo como companhia apenas o silêncio e a escuridão da noite, dentro da maloca:

“As mercadorias deles podem enfeitiçar a gente. Eles parecem bons. Querem ajudar. Mas quando você fica sozinho, ninguém se importa com você, e você passa fome. Tem fome e não tem o que caçar. Não te dão um lugar para dormir. Somente na nossa floresta você pode dormir em paz”. Esta declaração de alerta é um dos momentos mais fortes do filme “A Última Floresta”, dirigido por Luiz Bolognesi (de “Ex-Pajé”).

Depois da estreia mundial, no início de março, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, exibido na mostra Panorama, “A Última Floresta” será exibido pela primeira no Brasil neste domingo (18), na 26ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, às 19h (horário de Brasília), transmitido gratuitamente pela plataforma de streaming Looke. A exibição online é limitada para 2 mil espectadores.

Nesta segunda-feira (19), para marcar o Dia do Índio, a produção do filme promoverá um debate transmitido pelas redes sociais da ong Instituto Socioambiental, a partir de 19h30 (horário de Brasília), com as presenças de Davi Yanomami, Ailton Krenak, Sonia Guajajara e Luiz Bolognesi.

“A Última Floresta” retrata a vida e os costumes do grupo Yanomami, e mostra como a presença ilegal da exploração do ouro no território, que voltou a crescer nos últimos dois anos, está colocando em risco a população indígena e a floresta. Desde 2019, os líderes Yanomami alertam para um novo e ameaçador aumento de garimpeiros no território. Somente em 2020, foram identificados 500 hectares de degradação ambiental causado pela atividade ilegal de extração de ouro.

Em entrevista à Amazônia Real, na última sexta-feira (16), Davi Yanomami, que assina a coautoria do roteiro junto com Bolognesi, disse que o propósito de ter aceitado que a história de seu povo fosse levado ao cinema foi chamar atenção para “o erro do povo da cidade”. “Quero mostrar para a sociedade não-indígena que nunca viu o povo Yanomami, de Roraima e do Amazonas, que nunca conheceu, nunca andou ou viu de perto, a realidade como vivemos”, disse ele. 

No filme, Davi Yanomami faz o mesmo alerta. “Os brancos não nos conhecem. Seus olhos nunca nos viram. Seus ouvidos não entendem nossas falas. Por isso, eu preciso ir lá onde vivem os brancos.”

Davi Kopenawa em foto de still do filme ‘A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, sobre os Yanomami
(Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

Davi Kopenawa Yanomami, que ficou a maior parte do período da pandemia da Covid-19, na aldeia Watoriki, está passando uma temporada em Boa Vista (RR), depois de tomar as duas doses da vacina contra a doença. Ele disse à reportagem que não pretende viajar ou participar de lançamentos presenciais.

O longa-metragem, de pouco mais de uma hora, costura uma narrativa que mistura o cotidiano do tempo presente, as ameaças do garimpo, a sedução do ouro e vai até às origens do povo, quando o criador Omama pescou com cipó Thuëyoma, um peixe em forma de mulher, e se apaixonou por ela. O casal gerou os Yanomami.

Aliás, a presença feminina é forte na produção. Em certo momento, uma das “personagens”, em trabalho coletivo de confecção de cestarias, diz às outras mulheres Yanomami: “Os antepassados não ensinam à toa. Criar uma associação de mulheres seria bom. Poderíamos trocar mais cestos por alimentos. Os cestos ensinados por Mamurona. Assim, poderemos depender menos dos homens. Nós, mulheres, podemos tecer mais, se estivermos juntas”, diz ela.

No trecho “fictício” do filme, o marido da jovem mulher Yanomami ‘desaparece’ na águas enquanto caçava, levado por um ser sobrenatural. Angustiada, pede ajuda dos pajés para resgatá-lo. “Os espíritos malignos têm muitas formas. Yawarioma , peixe em forma de mulher, pode ter atraído ele para o rio. Mas também pode ter sido levado pelo espírito maléfico do minério. Muitos foram embora assim”, diz Davi, enquanto conversa com um xamã mais idoso.

A ideia de levar para as telas a vida dos Yanomami partiu de Bolognesi, enquanto ele filmava com povo Paiter Suruí, em Rondônia, o filme “Ex-Pajé”. 

Filme sobre a força dos xamãs

  • O diretor de fotografia de Pedro J. Márquez durante às filmagens (Foto: Instagram de Luiz Bolognesi) 
  • O diretor de fotografia de Pedro J. Márquez durante às filmagens (Foto: Instagram de Luiz Bolognesi) 
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Davi Kopenawa em foto de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)

“Eu estava fazendo um filme que mostrava o pajé oprimido pela igreja evangélica, destituído de sua potência, de seu poder político, científico e mitológico. E eu sei que em muitas aldeias, nações indígenas, há muita resistência e muito força dos xamãs, e concluí que eu precisava fazer um filme que mostrasse um lado oposto desse pajé, um lugar onde os xamãs estão potentes, no epicentro político, filosófico, científico e cosmológico daquele povo”, conta o diretor.

As filmagens aconteceram em cinco de semanas de imersão na comunidade Watoriki, na região do Demini, localizada no município de Barcelos (norte do Amazonas), na Terra Indígena Yanomami, antes da pandemia do novo Coronavirus.

A agência Amazônia Real também entrevistou o diretor que contou mais detalhes sobre o desenvolvimento do longa. Leia a seguir a entrevista na íntegra:

Luiz Bolognesi e Davi Kopenawa, durante as filmagens de “A Última Floresta” (Foto: reprodução Instagram)

Amazônia Real – Quais foram suas referências para criar o roteiro? 

Luiz Bolognesi – Eu acho que foi um filme meio anti-referências, eu quis esquecer todas as minhas referências e seguir o caminho que os Yanomamis e que o tempo indígena propõe. Talvez o que eu tinha de referência na cabeça um pouco é o “Esculpir o Tempo”, de Andrei Tarkovski [escritor russo], que justamente fala de olhar o tempo de um modo menos linear. O próprio livro “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, me inspira muito e algumas reflexões antropológicas do [antropólogo francês] Pierre Clastres (1934-1977), me inspiravam, mas eu estava justamente procurando trabalhar em um ambiente de anti referência de partir de um ponto de vista indígena da narrativa oral, de que eles se apropriassem do filme e não o contrário.

Amazônia Real – Como aconteceu essa parceria de escrever o roteiro junto com o Davi Yanomami?

Luiz Bolognesi – E eu li “A queda do Céu” e já conhecia o Davi Kopenawa de entrevista, mas não pessoalmente, e eu decidi que seria com ele o filme, que eu gostaria que fosse com ele. A partir dali, quando eu terminei o “Ex-Pajé”, eu procurei o Davi e contei para ele eu queria fazer o filme, que eu gostaria que ele fosse protagonista, e mais que isso, que ele fizesse o roteiro comigo. Foi aí que ele me chamou para passar duas semanas lá em Watoriki, no território Yanomami, e a gente iniciou um relacionamento de muita troca, em uma busca juntos de uma dramaturgia. E esse foi o processo, uma abertura, eu me abrindo para ele e ele se abrindo para mim, e assim a gente construiu o filme.

Amazônia Real – Nos últimos anos os indígenas têm sofrido diversas ameaças, por conta de todo cenário político que o Brasil vive atualmente. Neste contexto, qual a importância do filme? O que você pretende com ele?

Luiz Bolognesi – O Davi sempre dizia que esse não é um filme de denúncia, é um filme de reconhecimento, de conexão. Ele dizia: ‘os brancos não nos conhecem, nos olham com preconceito. Eu queria que o filme fosse uma maneira de eles conhecerem mais os Yanomami, nos verem de dentro para fora, para poder estabelecer uma conexão’. Então é um filme de conexão, para apresentar a potência Yanomami. Mas também faz parte do dia a dia deles enfrentar esse momento político que é marcado por uma invasão de mais de 20 mil garimpeiros no território Yanomami, uma invasão ilegal, já que o território é legalmente constituído.

Tudo isso está no filme e a gente acha que como o filme está tendo uma carreira, e esse é o nosso objetivo. [Uma carreira] internacional muito forte e uma carreira muito potente no Brasil. Vai ser importante para conectar a opinião pública, os brancos, os não-indígenas, a mídia, inclusive o poder público, o Congresso, o Executivo e a Justiça com a verdade Yanomami, com a potência dos Yanomami, com a necessidade de preservar os territórios deles.

Amazônia Real – Por que o nome “A Última Floresta”? Qual o significado dessa escolha?

Luiz Bolognesi – É um nome que a gente acha que vende a urgência e a importância desse filme. Nós sabemos que recentemente a gente está tendo vários retrocessos na política ambiental, a gente acabou de ver um chefe da polícia federal [delegado Alexandre Saraiva, da PF do Amazonas] ser demitido porque ele se lançou em defesa das florestas da Amazônia, do meio ambiente e dos biomas amazônicos, e a gente está vivendo um governo que está atropelando tudo isso. “A Última Floresta” traz poeticamente um olhar de urgência. Precisamos olhar para os Yanomami, não tem floresta preservada sem povos indígenas dentro dela.

Amazônia Real – Quando será a estreia oficial? Será exibido em alguma plataforma de streaming?

Luiz Bolognesi – A pré-estreia acontece neste domingo (18), às 19h (horário de Brasília), no Festival É Tudo Verdade. Depois disso a gente não sabe ainda, provavelmente em junho e julho, vamos ter algumas sessões em cinema, se a pandemia permitir. Se não, o caminho do filme terá que ser streaming. Já tem canais com interesse em fazer um lançamento mundial do filme, afinal, ele está indo para muitos festivais fora do Brasil. Ele estreou no Festival de Berlim, um dos festivais mais importantes do mundo. Ele está em Visions du Rée, na Suíça, em seguida em vai para o Hot Docs, em TorontoJá tem convites para festivais de Barcelona, na Índia, África do Sul, Coreia do Sul e Áustria, o filme está rodando o mundo. (Colaborou Elaíze Farias)

Assista ao trailer do filme:

Por Luana Piotto, da Amazônia Real