Na ONU, Bolsonaro volta a defender ineficaz “tratamento precoce”

(Alan Santos/PR)

O presidente Jair Bolsonaro usou nesta terça-feira (21/09) seu discurso de abertura da 76ª Assembleia-Geral das Nações Unidas para defender o desacreditado “tratamento precoce” promovido pelo seu governo, que consiste num coquetel de drogas ineficazes contra a covid-19, e para atacar o passaporte sanitário.

“Não entendemos porque muitos países se colocaram contra o tratamento precoce. A história e a ciência saberão responsabilizar a todos”, disse Bolsonaro na sede da ONU, em Nova York, num discurso que pareceu voltado para sua base radical e que teve tom similar ao que o presidente usa em sua lives na internet.

“Desde o início da pandemia apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce”, prosseguiu Bolsonaro. “Eu mesmo fui um desses que fez tratamento inicial”, completou.

O Brasil é um dos poucos países do mundo cujo governo ainda promove o desacreditado “tratamento precoce”, que consiste em drogas ineficazes contra a covid-19, como cloroquina e ivermectina, em detrimento das vacinas. Bolsonaro segue defendendo essas drogas mesmo após diversos estudos mostrarem sua ineficácia. Nos EUA, o governo do presidente Donald Trump chegou a promover a cloroquina em 2020, mas logo abandonou políticas nesse sentido e investiu pesadamente em vacinas. Hoje, o “tratamento precoce” só é defendido mundo afora em círculos conspiracionistas e de extrema direita.

Na ONU, Bolsonaro, que afirma não ter tomado vacina, também atacou iniciativas para instituir o passaporte de vacinação para viajantes e consumidores frequentarem espaços fechados. “Apoiamos a vacinação, mas nosso governo tem se posicionado contra o passaporte sanitário e qualquer obrigação relacionada à vacinação”, disse o brasileiro.

Por outro lado, o presidente ainda elogiou a gestão brasileira da pandemia, destacando números da vacinação no país, que vem avançando, apesar de ele mesmo continuar a estimular a paranoia contra os imunizantes e se recusar a dar o exemplo ao evitar ser imunizado. O Brasil já registrou mais de 580 mil mortes por covid-19, a segunda maior marca oficial entre todos os países do mundo.

Ao longo da crise, Bolsonaro reiteradamente minimizou a gravidade da pandemia de covid-19, doença que chamou de “gripezinha”. Ele também atuou sistematicamente para sabotar medidas de isolamento social e participou de eventos públicos nos quais abraçou e cumprimentou apoiadores. Ainda promoveu tratamento ineficazes e alimentou paranoia sobre vacinas. Seu governo também foi amplamente criticado por demorar para comprar imunizantes de laboratórios conceituados ao mesmo tempo em que abria as portas para empresas de fachada suspeitas de participação em esquemas de corrupção. Dois ministros da Saúde deixaram o governo por causa de divergências com o presidente.

Essa é a terceira vez que Bolsonaro discursa na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas.

Política ambiental, corrupção e “socialismo”

Bolsonaro abriu seu discurso afirmando que pretendia “mostrar um Brasil diferente daquilo publicado em jornais e mostrado em televisões”. Ele prosseguiu com elogios ao seu próprio governo, afirmando que sua administração não registrou casos de corrupção – o que é desmentido pelas denúncias envolvendo compras suspeitas de vacinas e negócios envolvendo aliados e sua própria família

Ele ainda descreveu falsamente que o Brasil era um país “à beira do socialismo” antes do seu governo.

“O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e seus militares, valoriza a família e deve lealdade a seu povo. Isso é muito, é uma sólida base, se levarmos em conta que estávamos à beira do socialismo. Nossas estatais davam prejuízos de bilhões de dólares, hoje são lucrativas. Nosso Banco de Desenvolvimento [BNDES] era usado para financiar obras em países comunistas, sem garantias. Quem honrava esses compromissos é o próprio povo brasileiro. Tudo isso mudou. Apresento agora um novo Brasil, com sua credibilidade já recuperada”, disse Bolsonaro no início do discurso, que ocorre duas semanas após ele fazer ameaças golpistas ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Bolsonaro também descreveu os atos de seus apoiadores no 7 de Setembro como a “maior manifestação de nossa história”, embora o país tenha sido palco de manifestações bem maiores nas últimas décadas, como entre 2015 e 2016 contra o governo Dilma Rousseff, ou nos comícios das Diretas Já nos anos 1980.

O presidente ainda listou investimentos, mencionou leilões de aeroportos e construção de ferrovias e abordou os atos antidemocráticos do Sete de Setembro, que reuniram sua base nas ruas.

Bolsonaro também exaltou sua política ambiental e repetiu afirmações que já havia feito em discursos anteriores na ONU, como o Brasil ter “66% do seu território” ocupado por vegetação nativa.

As falas de Bolsonaro sobre meio ambiente ocorrem um dia após a divulgação de que a Amazônia perdeu uma área equivalente a cinco vezes o tamanho de Belo Horizonte apenas em agosto, o maior índice para o mês em dez anos. O desmatamento acumulado desde janeiro de 2021 também é o pior em uma década, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O brasileiro ainda fez uma menção indireta ao marco temporal, ao mencionar que terras indígenas ocupam 14% do território nacional. Segundo ele, “indígenas cada vez mais desejam usar suas terras para a agricultura”, o que é contestado por liderança indígenas que temem a destruição de suas terras. No Brasil, Bolsonaro já chamou as terras indígenas de “zoológicos humanos” e reclamou de indígenas que “vivem na idade da pedra”.

O STF está analisando o marco temporal desde o dia 26 de agosto. O mecanismo estabelece que índios só podem reivindicar a demarcação de terras já ocupadas por tribos antes da data de promulgação da Constituição de 1988. A tese é amplamente contestada por representantes indígenas e organizações ambientais e de defesa dos direitos humanos.

Isolamento

O discurso ocorreu em um momento de intensificação do isolamento internacional do governo Bolsonaro. Em 2019 e 2020, o presidente brasileiro já havia falado em ocasiões delicadas, marcadas pelo derretimento da imagem do país por causa do desmonte de políticas ambientais e queimadas, mas em 2021 Bolsonaro se vê na arena internacional sem aliados, como o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu, que deixaram o poder no primeiro semestre. Nos EUA, o presidente já não conta com a mesma proximidade com a Casa Branca, agora comandada pelo democrata Joe Biden, que já sinalizou adotar uma posição mais incisiva em temas ambientais.

Sem seus velhos aliados, o presidente se limitou, nesta segunda-feira, antes do discurso, a travar encontros bilaterais com o populista premiê britânico, Boris Johnson, e o ultraconservador presidente polonês, Andrezj Duda, que representam países que não aparecem em listas de principais parceiros econômicos do Brasil.

Jair Bolsonaro e Boris Johnson (Alan Santos/PR)

Por outro lado, a política externa de Bolsonaro também passou por mudanças de comando desde o discurso na Assembleia-Geral de 2020. O ultradireitista Ernesto Araújo, conhecido por adotar posições alimentadas por teorias conspiratórias, deixou o comando do Itamaraty em março. No seu lugar entrou Carlos França, que tem tido um comportamento mais discreto, embora não tenha alterado significativamente o rumo da pasta. Já o assessor especial para Assuntos Internacionais Filipe G. Martins, outro seguidor do guru de extrema direita Olavo de Carvalho, continua no cargo, mas enfraquecido. Segundo o jornal O Globo, Martins tem perdido espaço no Planalto. Ele também foi vetado da comitiva que viajou a Nova York. Em 2019, ele havia sido um dos responsáveis por redigir o discurso de Bolsonaro na ONU.  

O discurso de Bolsonaro nesta terça-feira também seguiu uma linha similar às falas do presidente nas aberturas da Assembleia-Geral da ONU em 2019 e 2020. No seu primeiro ano como presidente, Bolsonaro disse que era uma “falácia dizer que a Amazônia é um patrimônio da humanidade”, atacou o que chamou de “ambientalismo radical” e usou o palco internacional para falar de outros temas que têm apelo entre seus apoiadores brasileiros, entre eles membros da direita nacionalista e setores evangélicos. Na ocasião, ele mencionou o “Foro de São Paulo” – um tema que alimenta teorias conspiratórias nesses setores – e também afirmou falsamente que o Brasil estava “à beira do socialismo” antes do seu governo. Ele também reclamou dos seus antecessores e elogiou seu então ministro da Justiça Sergio Moro, com quem romperia poucos meses depois.

Em 2020, com a abertura ocorrendo de maneira virtual por causa da pandemia, Bolsonaro usou a ocasião para mais uma vez atacar ambientalistas. Ele disse que era vítima de uma campanha de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal e, sem apresentar provas, culpou indígenas e caboclos por incêndios nesses biomas. Ele ainda defendeu sua gestão da pandemia, evitando mencionar sua postura negacionista ao longo da crise. À época desse discurso, o Brasil acumulava 140 mil mortes por covid-19 e 4,6 milhões de casos, hoje os totais são 590 mil mortes e mais de 20 milhões de casos.

Tanto em 2019 quanto em 2020, as falas de Bolsonaro provocaram críticas de organizações ambientais.

Tradicionalmente, desde 1949 cabe ao Brasil fazer o discurso de abertura, seguido dos Estados Unidos. O primeiro chefe de Estado brasileiro a falar no encontro foi João Baptista Figueiredo. Desde então, somente Itamar Franco não chegou a discursar na Assembleia-Geral da ONU.

Vacina, pizza, protestos

O presidente chegou a Nova York no domingo, acompanhado de comitiva integrada, entre outros, por ministros, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o deputado Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro é o único líder de um país do G20 que declarou não ter se vacinado. O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, um costumaz crítico de Bolsonaro, aproveitou a ocasião para criticar a presença do brasileiro. O nova-iorquino também usou seu Twitter para indicar a Bolsonaro uma lista de postos de saúde da cidade que aplicam a vacina.

(Reprodução)

Sem um comprovante de imunização, o presidente se viu obrigado a comer em áreas externas de restaurantes – Nova York exige passaporte sanitário para frequentar espaços internos de estabelecimentos culinários. Ele ainda tentou tirar proveito midiático da situação ao comer pizza e se deixar fotografar com seus ministros numa calçada da cidade, no que foi encarado por críticos como uma tentativa de posar como “homem do povo”.

Já as horas seguintes da comitiva foram mais tensas. Manifestantes brasileiros protestaram contra Bolsonaro em frente ao hotel em que o presidente se hospedou. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, perdeu a compostura e mostrou o dedo médio para os manifestantes quando chegava ao local numa van com outros ministros. Já Carlos França, do Itamaraty, pareceu fazer um gesto imitando uma arma para os manifestantes. Outros manifestantes colocaram um caminhão com três telões para circular pelas ruas de Nova York, exibindo mensagens em inglês como “Bolsonaro está queimando a Amazônia”.

A viagem também foi marcada por um episódio similar ao que ocorreu durante o deslocamento presidencial aos EUA em março de 2020, quando boa parte da comitiva voltou infectada pelo coronavírus. Desta vez, um diplomata brasileiro do cerimonial do Itamaraty que viajou previamente para organizar a chegada do presidente testou positivo para o vírus.

O retorno da comitiva ao Brasil está previsto para esta terça-feira.

Por Jean-Philip Struck, da Deutsche Welle

Reprovação a Bolsonaro volta a subir, afirma Datafolha

O Instituto Datafolha apurou que a reprovação ao governo do presidente Jair Bolsonaro aumentou ainda mais, passando para 53% entre as pessoas consultadas, segundo uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (17/02) pelo jornal Folha de S. Paulo. É o pior nível desde o início do mandato.

No levantamento anterior, feito em julho, Bolsonaro era rejeitado por 51% dos inquiridos, que avaliaram o governo dele como ruim ou péssimo.

O novo levantamento, que foi realizado de forma presencial entre esta segunda e quarta-feiras, ouviu 3.667 pessoas com mais de 16 anos em 190 municípios e é o primeiro a ser divulgado depois dos atos antidemocráticos do Sete de Setembro, convocados por Bolsonaro e dos quais ele mesmo participou.

Naquele dia, Bolsonaro fez ameaças às instituições do país e, diante de milhares de apoiadores, incentivou à desobediência de ordens do Supremo Tribunal Federal (STF) e a decisões do Parlamento contrárias aos seus interesses.

O posicionamento causou uma imensa onda de críticas de parlamentares, do STF e até de partidos políticos da sua base aliada, levando o presidente a recuar, poucos dias depois, numa declaração à nação, em que assegurou que não teve a intenção de agredir os demais poderes da República.

Na sondagem do Datafolha, o presidente foi avaliado como bom ou ótimo por 22% dos inquiridos, uma oscilação negativa face aos 24% que obteve no levantamento anterior e que já então era o pior índice do seu mandato. 

A percentagem dos que o consideram regular ficou em 24%, o mesmo índice de julho.

A margem de erro da sondagem é de dois pontos percentuais, em ambos os sentidos.

A reprovação ao governo de Bolsonaro mantém uma tendência de alta desde dezembro do ano passado. E mesmo entre o segmento evangélico, uma das principais bases de apoio dele, a reprovação ao governo já subiu 11 pontos desde janeiro e está superior (41%) à sua aprovação (29%).

Eleição presidencial

O Datafolha também afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua liderando a disputa pela Presidência da República, em 2022, com larga vantagem sobre o atual chefe de Estado.

De um modo geral houve pouca alteração nos percentuais das possíveis candidaturas. Na resposta espontânea, quando o entrevistado diz em quem pretende votar, Lula alcança 38% e Bolsonaro, 20%. Em julho eles tinham 42% e 19%.

Nas simulações de primeiro turno, quando são apresentados ao entrevistado possíveis nomes de candidatos, Lula oscila entre 42% e 44%. Já o presidente tem entre 24% e 26%.

No segundo turno, Lula bateria Bolsonaro por ampla vantagem, afirma o Datafolha: 56% a 31%. Em julho os percentuais apurados eram 58% e 31%, também com vantagem para o petista.

Segundo a pesquisa, Lula também venceria um segundo turno contra o pedetista Ciro Gomes e o governador de São Paulo, João Doria, em ambos os casos com mais de 50% dos votos válidos.

Já tanto Ciro como Doria seriam vencedores numa disputa de segundo turno com Bolsonaro, por 52% a 33% e 46% a 34%, respectivamente.

Bolsonaro, Lula e Doria são ainda, nessa ordem, os candidatos com maior rejeição: 59%, 38% e 37%.

Entre os que votaram em Bolsonaro em 2018, 26% afirmam que não votariam nele de jeito nenhum de novo, 66% afirmam que não votariam de jeito nenhum em Lula, 46% descartam totalmente Ciro e 40%, Doria.

Por Deutsche Welle

CPI da covid-19 convoca ex-mulher de Bolsonaro para depor

Jair Bolsonaro, presidente da República (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

A CPI da Pandemia no Senado aprovou nesta quarta-feira (15/09) a convocação de Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro e mãe de um dos filhos do presidente, Jair Renan Bolsonaro.

A decisão foi tomada na sessão do depoimento do lobista Marconny Albernaz de Faria, que atuou para a Precisa Medicamentos em tratativas para a venda de 12 milhões testes de covid-19 ao Ministério de Saúde, que não chegou a ser formalizada

Os senadores pretendem apurar qual é a relação entre Marconny e Ana Cristina. A comissão tem mensagens entre ambos mostrando que o lobista encaminhava à ex-mulher do presidente currículos de pessoas para serem indicadas a cargos no governo.

Uma dessa pessoas sugeridas por Marconny a Ana Cristina foi Leonardo Cardoso de Magalhães, para o cargo de defensor público-geral da União. A ex-mulher de Bolsonaro depois enviou e-mail ao então ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Jorge Oliveira, recomendando Magalhães ao cargo e afirmando que ele era um “candidato alinhado com os nossos valores, técnico e apoiador do Jair”.

Durante o depoimento, Marconny admitiu que conhece Ana Cristina, mas se manteve calado quando questionado sobre o encaminhamento de currículos. Apenas o senador Marcos Rogério (DEM-RO), que defende o governo Bolsonaro, foi contra a convocação dela para depor à CPI.

Amigo de Jair Renan

Aos senadores, Marconny confirmou também ser amigo de Jair Renan, e que ajudou o filho do presidente a abrir sua empresa. Ele disse ter conhecido Jair Renan há cerca de dois anos, por meio de amigos em comuns, e que ao saber que ele queria abrir “uma empresa de influencer” o apresentou a um advogado tributarista que poderia o ajudar.

Marconny reconheceu ainda que comemorou seu aniversário em um camarote no estádio Mané Garrincha, em Brasília, que pertence a Jair Renan.

Segundo troca de mensagens entre os dois relevada pelo jornal Folha de S.Paulo, Marconny escreveu para Jair Renan: “Bora resolver as questões dos seus contratos!! Se preocupe com isso. Como te falei, eu e o William estamos a sua disposição para ajudar te ajudar”. O filho do presidente, então, respondeu: “Show irmão. Eu vou organizar com Allan a gente se encontrar e organizar tudo.”

O lobista também disse ter uma relação de amizade com Karina Kufa, advogada de Bolsonaro.

Relação com a Precisa

Um dos focos do depoimento de Marconny foi a sua atuação para a Precisa Medicamentos em uma tentativa de venda de testes para detecção de covid-19 ao Ministério da Saúde.

Os senadores suspeitam que ele teria desenvolvido um método para tentar formalizar a venda ao governo dos testes por meio de fraude, em conluio com ex-funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde.

A empresa também está no alvo da CPI por ter fechado a venda de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin ao governo, no valor de R$ 1,6 bilhão, mas nenhuma dose chegou ao país, devido a dificuldades de aprovação e outros problemas. A compra foi cancelada posteriormente.

Marcony Faria durante depoimento à CPI da Covid-19 (TV Senado/Reprodução)

Marconny afirmou aos senadores que sua atuação profissional envolve a elaboração de “pareceres e estudos de viabilidade política e análise de cenário técnico-político”, e que manteve tratativas com a Precisa por cerca de 30 dias, sem contrato formal, no caso da negociação dos testes de covid-19, mas que não participou da preparação e apresentação das propostas da empresa ao governo. Ele disse ter se reunido duas vezes com Francisco Maximiano, dono da Precisa.

“No início da pandemia, fui sondado para assessorar politicamente e tecnicamente a Precisa em concorrência pública que já estava em andamento perante o Ministério da Saúde e que tinha como objetivo a aquisição de testes rápidos para detecção do covid-19. Como a concorrência já estava em andamento, não participei da análise do edital, habilitação ou apresentação de proposta da Precisa”, afirmou.

“O Ministério da Saúde cancelou essa concorrência em andamento e decidiu pela utilização de outros meios de testagem da população. Tendo aí terminado toda e qualquer participação no assunto, ou seja, tudo isso não passou de uma conversa de WhatsApp que durou aproximadamente 30 dias”, disse. Ele afirmou que não atuou com a Precisa na venda da vacina indiana Covaxin.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), afirmou ter informações de que Marconny teria atuado para fraudar a licitação da compra dos testes em associação com Maximiano e Roberto Dias, ex-diretor de logística do Ministério da Saúde, também investigado pela CPI.

Recusa em identificar senador

Em um dos momentos crítico do depoimento, Marconny foi confrontado a respeito de uma mensagem que ele havia enviado a Ricardo Santana, ex-funcionário da Anvisa, obtida por meio da quebra de seu sigilo em outra investigação e compartilhada com a CPI pelo Ministério Público Federal.

Na mensagem, Marconny diz a Santana que estava em contato com um senador que poderia “desatar o nó” da venda de testes para detectar covid-19 ao Ministério da Saúde.

Indagado pelos integrantes da CPI, o lobista disse “não se lembrar” quem seria o parlamentar mencionado na mensagem e que não conhecia nenhum senador. O senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da comissão, reagiu dizendo que Marconny estava “faltando com a verdade”.

Em outra mensagem, Marconny afirmou a Santana que existiria uma “arquitetura ideal para o processo dos kits prosseguir” e fazia referência a “Bob ou sucessor”, no que alguns senadores interpretaram como uma referência a Dias.

A CPI aprovou requerimento para que a Polícia Legislativa do Senado forneça dados sobre eventuais visitas de Marconny ao Senado, indicando para qual gabinete ele se deslocou.

Ex-ativista do Vem Pra Rua

Antes de atuar como lobista, Marconny foi ativista do grupo Vem Pra Rua durante o movimento pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

Questionado durante a CPI, ele disse que à época defendia, além da queda da petista, a moralidade, o combate à corrupção e pautas sobre a “família”.

Ele disse também que foi filiado por seis meses ao Patriota, mesmo partido do senador Flávio Bolsonaro.

Por Deutsche Welle
bl (ots)

“Bolsonaro ameaça pilares da democracia”, diz Human Rights Watch

Jair Bolsonaro durante protesto neste 7 de setembro, em Brasília (Marcos Correa/PR)

Com suas tentativas de intimidar o Supremo Tribunal Federal (STF), ataques ao sistema eleitoral e violações da liberdade de expressão de críticos, o presidente Jair Bolsonaro ameaça os pilares da democracia brasileira, afirmou a ONG Human Rights Watch (HRW) em texto divulgado nesta quarta-feira (15/09), data em que se comemora o Dia Internacional da Democracia.

Citando como exemplo os recentes discursos de Bolsonaro em atos pró-governo no feriado de 7 de Setembro– em que mais uma vez fez ameaças ao STF e lançou dúvidas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral, sem apresentar provas –, a HRW aponta haver “um padrão de ações e declarações do presidente que parecem destinadas a enfraquecer os direitos fundamentais, as instituições democráticas e o Estado de Direito no Brasil”.

José Miguel Vivanco, diretor de Américas da Human Rights Watch, afirma que “o presidente Bolsonaro, um apologista da ditadura militar no Brasil, está cada vez mais hostil ao sistema democrático de freios e contrapesos”.

“Ele está usando uma mistura de insultos e ameaças para intimidar a Suprema Corte, responsável por conduzir as investigações sobre sua conduta, e com suas alegações infundadas de fraude eleitoral parece estar preparando as bases para tentar cancelar as eleições do próximo ano ou contestar a decisão da população se ele não for reeleito”, diz.

Ataques ao STF

A HRW aponta que o STF se tornou “um dos principais freios das políticas anti-direitos humanos de Bolsonaro” e que o presidente tem respondido com insultos e ameaças.

Novamente citando os discursos de Bolsonaro no 7 de Setembro, quando o presidente voltou a adotar um tom golpista, a ONG chama atenção para as investidas de Bolsonaro contra o Supremo, que recentemente prendeu vários de seus aliados e tem tomado algumas iniciativas para impedir que o governo tumultue as eleições de 2022.

Bolsonaro chegou a mencionar pelo nome o ministro Alexandre de Moraes, seu desafeto na Corte e responsável por inquéritos que afetam bolsonaristas. “Ou esse ministro se enquadra ou ele pede pra sair”, afirmou. “Não vamos admitir que pessoas como Alexandre de Moraes continuem a violar nossa democracia.”

“O presidente Bolsonaro frequentemente afirma defender a ‘democracia’, mas suas declarações levantam dúvidas sobre o que ele entende por democracia”, afirma a Human Rights Watch.

Também no 7 de Setembro, Bolsonaro afirmou, em recado direto ao presidente do STF, Luiz Fux, que se ele não “enquadrasse” Moraes, o Judiciário poderia “sofrer aquilo que nós não queremos”, sem explicar o que isso significaria, destacou a HRW.

Dois dias depois, Bolsonaro divulgou uma “Declaração à Nação”, em tom de recuo tático após a má repercussão de suas falas, que tiveram consequências negativas até mesmo na economia.

“Após inúmeras críticas nacionais e internacionais sobre seus posicionamentos, o presidente Bolsonaro disse em uma declaração escrita que nunca teve a intenção de ‘agredir quaisquer Poderes’. Mas ele não recuou em relação à afirmação infundada de que o sistema eleitoral brasileiro não é confiável, como repetiu em 7 de setembro”, diz a HRW.

Ameaças às eleições

Em relação às investidas de Bolsonaro ao sistema eleitoral, a Human Rights Watch cita a decisão de Moraes de incluir, em 4 de agosto, Bolsonaro como investigado no inquérito sobre fake news e atos democráticos que já tramitava na Corte.

A decisão foi tomada em resposta a um pedido do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que o presidente fosse investigado devido ao conteúdo de uma live em que exibiu teorias falsas, cálculos equivocados e vídeos antigos, já verificados e desmentidos, mas que ainda circulam na internet, como supostas evidências de fraude no sistema eleitoral.

A HRW destaca que, ao ser informado da decisão de Moraes, Bolsonaro ameaçou reagir “fora das quatro linhas” da Constituição e, dias depois, encaminhou ao Senado um pedido de impeachment do ministro.

“As ameaças do presidente Bolsonaro de cancelar as eleições e agir fora da Constituição em resposta às investigações contra ele são imprudentes e perigosas”, afirma Vivanco. “A comunidade internacional deve mandar uma mensagem clara ao presidente Bolsonaro de que a independência do Judiciário significa que os tribunais não estão sujeitos as suas ordens.”

A ONG cita ainda o fato de que o Congresso rejeitou a proposta de voto impresso e que, “ainda assim, em 7 de setembro, o presidente deu a entender que as eleições não podem ser realizadas a menos que as mudanças que ele defende sejam implementadas”.

“Essa ameaça é uma afronta ao direito dos brasileiros de eleger seus representantes, o que é protegido pela legislação internacional de direitos humanos”, diz a Human Rights Watch.

Violações da liberdade de expressão

A HRW afirma ainda que Bolsonaro tem violado a liberdade de expressão, “vital para uma democracia saudável”, ao bloquear seguidores que o criticam nas redes sociais.

Além disso, “seu governo requisitou a instauração de inquéritos criminais contra pelo menos 16 críticos, incluindo jornalistas, professores universitários e políticos”, aponta a HRW. “Mesmo que muitos desses casos tenham sido arquivados sem denúncias, as ações do governo mandam a mensagem de que criticar o presidente pode levar à perseguição”, diz a ONG.

A HRW destaca que o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP), ratificado pelo Brasil, inclui o direito ao voto e à liberdade de expressão. A independência do Judiciário também está protegida pelo direito internacional por meio Princípios Básicos das Nações Unidas sobre a Independência do Judiciário, cita a ONG.

Por Deutsche Welle
lf (ots)

Bolsonaro é alvo hoje de protesto convocado por ex-apoiadores

Avenida Paulista em maio deste ano (Allan White/Fotos Públicas)

Após as manifestações de esquerda de maio e junho que romperam o monopólio bolsonarista das ruas, neste domingo (12/09) é a vez de grupos de direita contrários a Jair Bolsonaro liderarem manifestações que pretendem ser o ensaio de uma “frente ampla” contra o presidente.

Os atos foram convocados pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem pra Rua, grupos de direita responsáveis pelas gigantescas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016. Posteriormente, os grupos apoiaram indireta ou abertamente a candidatura de Bolsonaro em 2018, mas romperam com o presidente depois da posse.

Atos contra Bolsonaro estão previstos em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e outras capitais. Eles ocorrem poucos dias após o presidente  instrumentalizar o feriado de 7 de Setembro para convocar manifestações antidemocráticas contra o Supremo Tribunal Federal e tentar demonstrar que seu governo combalido ainda tem alguma força.

Na ocasião, Bolsonaro fez discursos golpistas contra a Corte, que provocaram repúdio em boa parte da classe política e até consequências negativas na economia, reavivando discussões sobre o impeachment do presidente.

No dia seguinte, Bolsonaro publicou uma nota em tom de recuo – que foi recebida com ceticismo, considerando que o político já interrompeu ofensivas anteriormente para voltar à carga em momento mais oportuno.

Adesão de setores da esquerda

Os atos deste domingo ganharam a adesão de alguns partidos de centro-esquerda, como o PSB e o PDT. O PCdoB também declarou apoio, assim como as siglas de direita ou centro-direita Novo, Cidadania, PSL, PSDB e outras. Figuras da política, como o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM) e o e senador Álvaro Dias (Podemos-PR), também confirmaram presença. Algumas centrais sindicais aderiram.

“Irei à manifestação do dia 12 na Avenida Paulista e sempre tentarei ir a outras manifestações que forem convocadas contra Bolsonaro. Seja qual for o sacrifício e risco que isso represente, há algo maior que tudo: o futuro do Brasil e da nossa democracia”, escreveu Ciro Gomes no Twitter.

Para ampliar a participação nos protestos e conseguir a adesão de membros da esquerda, os organizadores abandonaram oficialmente um dos motes originais da convocação: “Nem Bolsonaro, nem Lula”, que defendia a aglutinação de forças numa “terceira via” que não contasse com nenhuma das duas figuras polítcas. Agora, os atos vão focar no “Fora Bolsonaro”.

No entanto, mesmo com o abandono oficial do “Nem Bolsonaro, nem Lula”, o histórico de grupos como o MBL afastou o PT, principal partido de esquerda do país e, segundo pesquisas, o favorito para derrotar Bolsonaro em 2022. Organizações aliadas da legenda, como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), também rejeitaram participar.

Além de ter liderado os protestos a favor do impeachment de Dilma Rousseff, o MBL tem um passado notório de espalhar boatos e fake news contra figuras de esquerda, incluindo a vereadora assassinada Marielle Franco, que foi pintada por páginas do MBL como uma figura “envolvida com bandidos”.

“Enquanto construímos esta grande manifestação de unidade pela democracia, pelo Brasil e pelos direitos do povo, incentivamos todos os atos que forem realizados em defesa do impeachment”, se limitou a afirmar a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, no Twitter, sobre os atos de domingo.

Críticos da posição do PT em não aderir aos protestos acusam o partido de não querer dividir protagonismo nem desejar genuinamente o impeachment de Bolsonaro, preferindo esperar o pleito de 2022 – que se desenha favorável a Lula. Já os defensores da posição petista apontam que são grupos enfraquecidos como o MBL que querem voltar a recuperar influência às custas de organizações de esquerda, e que os direitistas do MBL são ideologicamente indistinguíveis do bolsonarismo. Os defensores ainda duvidam da disposição de partidos como o PSDB de realmente apoiar um impeachment.

Frente ampla?

No entanto, algumas figuras da centro-esquerda e da esquerda favoráveis aos protestos afirmaram nas últimas semanas que a formação de uma “frente ampla” contra Bolsonaro precisa superar ressentimentos ou ambições eleitorais imediatas. Na história brasileira do pós-guerra, houve registro de vários episódios em que velhos ferrenhos adversários se uniram em prol de uma causa comum.

Na ditadura, o direitista Carlos Lacerda, o centrista Juscelino Kubitschek e o esquerdista João Goulart chegaram a formar um grupo político contra o regime. Às vésperas da redemocratização, vários políticos da antiga Arena (o partido de sustentação do regime) se aliaram com oposicionistas do PMDB para deter a candidatura à Presidência do populista de direita Paulo Maluf.

“É hora de unirmos forças da esquerda à direita pelo impeachment desse presidente tirano e incompetente. Todos aqueles que realmente querem a saída de Bolsonaro precisam estar juntos neste momento”, disse nesta semana o presidente do PDT São Paulo, Antonio Neto.

“O PCdoB decidiu participar também porque está empenhado em construir para mais adiante atos cívicos nacionais, suprapartidários, organizados pelo conjunto das oposições. Constituir uma frente ampla. E participar do dia 12 ajuda viabilizar esse projeto”, declarou o secretário nacional de comunicação do PCdoB, Adalberto Monteiro.
Por Jean-Philip Struck, da Deutsche Welle

Rodrigo Maia chama Bolsonaro de “Frouxo”

Ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia chamou Jair Bolsonaro de “frouxo” e “covarde” após o chefe do Executivo assinar nota em tom conciliatório sobre o Supremo Tribunal Federal. 

“O evento de terça foi um desastre pro Bolsonaro, e a nota agora uma humilhação”, completou o deputado federal, se referindo às manifestações de 7 de setembro, nas quais Bolsonaro voltou a atacar o STF, com foco no ministro Alexandre de Moraes.

No texto, o presidente afirma não ter “intenção nenhuma de agredir quaisquer dos Poderes” e que quem exerce o poder “não tem o direito de ‘esticar a corda’ a ponto de prejudicar brasileiros e economia”.

A divulgação da nota ocorre após uma reunião com o ex-presidente Michel Temer, que foi chamado a Brasília para discutir a crise entre os Poderes. À CNN Brasil, Temer afirmou que redigiu o texto assinado por Bolsonaro.

Por TV Cultura

Bolsonaro agora diz que não teve “intenção de agredir” STF

Jair Bolsonaro, presidente da República, durante discurso em que ataca o STF (Marcos Corrêa/PR)

Depois de ameaçar abertamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e pregar desobediência a decisões da Corte durante discursos nos atos de 7 de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro divulgou nesta quinta-feira (09/09) uma “Declaração à Nação”, em tom de recuo tático após a má repercussão de suas falas, que tiveram consequências negativas até mesmo na economia.

No texto, o presidente afirma agora que nunca teve “intenção de agredir quaisquer dos poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar”.

Bolsonaro decidiu divulgar a declaração após aconselhamento do ex-presidente Michel Temer. O presidente enviou um avião para buscar Temer em São Paulo, para que ambos pudessem discutir a crise institucional, que nas últimas horas foi agravada por bloqueios em estradas organizados por caminhoneiros bolsonaristas.

Segundo apurou a emissora CNN Brasil, o ex-presidente teria inclusive redigido ele próprio o texto, assinado por Bolsonaro. Temer teria promovido um contato telefônico entre Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes do STF, que nomeado para o tribunal durante o governo do emedebista.

Bolsonaro utilizou o termo “divergências” para expressar sua posição em relação a decisões de Moraes, mas ressalvou que essas questões devem ser resolvidas “por medidas judiciais que serão tomadas de forma a assegurar a observância dos direitos e garantias fundamentais previsto no Artigo 5º da Constituição Federal”.

“Sei que boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca das decisões adotadas pelo Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news”, observou. “Mas na vida pública as pessoas que exercem o poder, não têm o direito de ‘esticar a corda’, a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia.”

No ato pró-governo em São Paulo, Bolsonaro chegou a chamar Moraes de “canalha” e disse que não cumpriria mais as decisões do magistrado.

“Dizer a vocês que, qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá. A paciência do nosso povo já se esgotou, ele tem tempo ainda de pedir o seu boné e ir cuidar da sua vida. Ele, para nós, não existe mais”, disse o presidente.

“Calor do momento”

Entretanto, no texto divulgado nesta quinta-feira, o presidente afirma que suas palavras, “por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum”, relativizou.

Bolsonaro encerrou a nota com o lema “Deus, Pátria, Família”, originalmente um slogan da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento de viés fascista que atuou no Brasil na década de 1930. Recentemente, Bolsonaro e membros da sua família também usaram o slogan em publicações relacionadas à natimorta Aliança pelo Brasil, o partido que o presidente tentou criar em 2019 e que nunca saiu do papel.

A nota de Bolsonaro foi divulgada após reações enérgicas do presidente do STF, Luiz Fux, e do ministro Luís Roberto Barroso. Fux advertiu na quarta-feira que o desrespeito a decisões da Corte “configura crime de responsabilidade”. Ele também afirmou que a população deve estar atenta aos “falsos profetas do patriotismo” e que o Tribunal não aceitará ameaças. Já Barroso chamou Bolsonaro de “farsante” e disse que o Brasil é “alvo de chacota” no exterior por causa da falta de compostura de Bolsonaro.

Não é a primeira vez que Bolsonaro recua de uma ofensiva contra outros Poderes. Em maio de 2020, ele já havia dito “ordens absurdas [do STF] não se cumprem” durante outro episódio de tensão com o STF, quando o Tribunal apertava o cerco contra bolsonaristas suspeitos de atuarem como divulgadores e financiadores de fake news. Na ocasião, ele adotou um tom mais ameno no dia seguinte, diante da má repercussão das sua falas. O roteiro foi o mesmo em ofensivas contra o STF e governadores nos mais de dois anos de governo Bolsonaro, num padrão repetitivo de ataque e recuo tático, que mobilizou regularmente a base radical bolsonarista no decorrer das crises.

Desta vez, porém, a publicação do texto gerou má repercussão em redes sociais da base extremista do presidente, que esperava que Bolsonaro continuasse a manter a ofensiva contra o STF sem qualquer recuo. Após a publicação da nota, o comentarista bolsonarista Rodrigo Constantino escreveu em seu Twitter: “O sistema declarou guerra ao povo. O presidente sucumbiu ao sistema”. “Bandeira branca”, escreveu o influencer bolsonarista Leandro Ruschel. O mesmo tom se repetiu em publicações de outros ativistas bolsonaristas.

A nota também não convenceu membros da oposição. “Ou Jair Bolsonaro mentiu para seus seguidores no 7 de Setembro ou ele está mentindo para todos os brasileiros com a nota divulgada hoje. O fato é que o presidente não tem palavra, o Brasil não tem governo e Bolsonaro não pode continuar no Palácio do Planalto”, escreveu o deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ).

Enfrentando queda constante de aprovação, economia em crise, pandemia, o fantasma de um apagão energético, insatisfação crescente entre o empresariado e denúncias de corrupção, Jair Bolsonaro usou o 7 de Setembro como uma tenativa de demonstração de força, convocando sua base radical a tomar as ruas contra o STF.

O foco das falas do presidente durante os atos foi especialmente dirigido aos ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso – este também presidente do TSE –, que são com frequência tratados como inimigos pelo presidente e sua base.

Moraes é responsável por diversos inquéritos que afetam bolsonaristas e determinou a prisão de aliados do presidente, como o deputado Daniel Silveira e o presidente do PTB, Roberto Jefferson, que incitaram violência contra ministros do Supremo.

Já Barroso, na condição de presidente do TSE, se opõe à adoção do voto impresso, uma bandeira bolsonarista, encarada como uma forma de minar a confiança no processo eleitoral e tumultuar as eleições de 2022, que se desenham extremamente desfavoráveis para Bolsonaro, segundo pesquisas.

Por Deutsche Welle
rc/jps (ots)

Barroso rebate ameaças de Bolsonaro e o chama de “farsante”

Luís Roberto Barroso, ministro do STF (Tânia Rêgo/Agência Brasil)

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, rebateu as ameaças proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro nos atos do 7 de Setembro.

Barroso abriu a sessão desta quinta-feira (09/09) da corte eleitoral com um discurso duro, em que abordou a tentativa de Bolsonaro de minar a confiança no sistema eleitoral e os ataques pessoais lançados pelo governante.

“Todos sabem que não houve fraude e quem é o farsante nessa história”, afirmou Barroso. “Quando fracasso bate à porta, é preciso encontrar culpados.” O ministro afirmou que “o populismo vive de arrumar inimigos para justificar o seu fiasco. Pode ser o comunismo, pode ser a imprensa, podem ser os tribunais”.  

Barroso ressaltou também que “insulto não é argumento, ofensa não é coragem”. “A incivilidade é uma derrota do espírito. A falta de compostura nos envergonha perante o mundo”, afirmou.

Enfrentando uma crise ecônomica, aprovação em queda e denúncias de corrupção, além de correr o risco de perder as eleições de 2022, Bolsonaro tem concentrado esforços em desacreditar o sistema eleitoral, afirmando que a contagem de votos no país está sujeita a fraudes. Críticos do presidente apontam que tudo não passa de uma estratégia para estabelecer uma narrativa golpista no caso de uma derrota em 2022, que parece bem concrenta, segundo as últimas pesquias.

 Barroso, como presidente do TSE, acabou sendo escolhido como um dos principais alvos do presidente dentro dessa estratégia. Nos últimos meses, Bolsonaro tem feito regularmente ataques contra Barroso. O presidente já chamou o ministro de “filha da puta” e ameaçou pedir seu impeachment.

“Brasil é alvo de chacota” 

Barroso disse que “a marca Brasil” vive uma “desvalorização global” e que o país é atualmente alvo de chacota e desprestígio no exterior.

“Não é só o real que está desvalorizando. Somos vítima de chacota e de desprezo mundial. Um desprestígio maior do que a inflação, do que o desemprego, do que a queda de renda, do que a alta do dólar, do que a queda da Bolsa, do que desmatamento da Amazônia, do número de mortos pela pandemia, do que a fuga de cérebros e de investimentos”, alertou o presidente do TSE.

“Mas pior de tudo. A falta de compostura nos diminui perante nós mesmos. Não podemos permitir a destruição das instituições para encobrir o fracasso econômico, social e moral que estamos vivendo”, acrescentou.

De acordo com o magistrado, “começa a ficar cansativo para o Brasil ter que repetidamente desmentir falsidades, para que não sejamos dominados pela pós-verdade, pelos fatos alternativos, para que a repetição da mentira não crie a impressão de que ela é verdade”.

Ele afirmou ainda que a tática de desacreditar a votação é observada em vários países onde floresceram fenômenos como o populismo, o autoritarismo e o extremismo, e tem o objetivo de permitir a contestação dos resultados da eleição em caso de derrota. “Para maus perdedores, não há remédio na farmacologia jurídica.”

Alerta de Fux

No dia anterior, outra liderança do Poder Judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, respondeu as ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro durante os atos pró-governo do feriado de 7 de setembro e advertiu que o desrespeito a decisões da Corte “configura crime de responsabilidade”. Ele também afirmou que a população deve estar atenta aos “falsos profetas do patriotismo” e que o Tribunal não aceitará ameaças.

“Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do chefe de qualquer dos poderes, essa atitude, além de representar atentado à democracia, configura crime de responsabilidade, a ser analisado pelo Congresso Nacional”, afirmou Fux.

A fala foi uma resposta direta aos discursos de Bolsonaro no feriado, que ameaçou não obedecer mais a decisões que tenham sido proferidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que nos últimos dias determinou a prisão de aliados e apoiadores do presidente da República que ameaçaram a Corte.

Bolsonaro também disse para apoiadores que se Fux “não enquadrar” os membros do STF, o Tribunal poderá “sofrer aquilo que nós não queremos”. Descumprimento de medidas judiciais é crime, de acordo com o artigo 330 do Código Penal.

Por Deutsche Welle
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Falas golpistas fazem impeachment de Bolsonaro voltar à pauta

(Marcos Corrêa/PR)

As falas do presidente Jair Bolsonaro durante os atos pró-governo no feriado de 7 de setembro, que incluiram ameaças a instituições democráticas do país, fizeram que a discussão sobre o impeachment do mandatário voltasse à ordem do dia em Brasília.

Parlamentares de diversos partidos, incluindo alguns do chamado centrão, que constitui a base de Bolsonaro no Congresso, já discutem a possibilidade de apoiarem um impeachment do presidente, sendo que mais de uma centena de pedidos de afastamento já foram apresentados à Câmara dos Deputados.

As ameaças ao Supremo Tribunal Federal (STF), em especial, ao ministro Alexandre de Moraes, assim como as críticas ao sistema eleitoral e, de modo geral, o tom agressivo utilizado por Bolsonaro, parecem ter exacerbado os limites de alguns grupos políticos que se dividiam entre a neutralidade e o apoio ao presidente.

O PSDB anunciou para esta quarta-feira uma reunião extraordinária de sua Executiva para discutir a possibilidade do afastamento de Bolsonaro. Uma nota do partido afirma que Bruno Araújo, presidente da legenda, convocou a reunião após as “gravíssimas declarações” de Bolsonaro nos atos pró-governo em Brasília e São Paulo.

O governador de São Paulo, João Doria, que também foi alvo de ataques de Bolsonaro nas manifestações, se manifestou pela primeira vez a favor do impeachment. “Eu até hoje nunca havia feito nenhuma manifestação pró-impeachment, me mantive na neutralidade, entendendo que até aqui os fatos deveriam ser avaliados e julgados pelo Congresso Nacional”, afirmou.

“Mas, depois do que assisti e ouvi hoje, em Brasília, sem sequer estar ouvindo, ele, Bolsonaro, claramente afronta a Constituição, desafia a democracia e empareda a Suprema Corte brasileira”, completou o governador, também do PSDB.

Presidente cada vez mais acuado

O presidente do MDB, Baleia Rossi, disse que vai consultar os principais líderes de sua bancada no Congresso sobre a possibilidade de a legenda apoiar ou não o impeachment. O partido deve discutir também as posições de alguns de seus membros nas lideranças do governo no Congresso Nacional.

Partidos como o Solidariedade, PSD e PL também sinalizaram que vão discutir internamente sobre um possível apoio ao afastamento do presidente.

Os congressistas de oposição que lideram as minorias na Câmara e no Senado saíram em defesa do impeachment condenaram a atitude agressiva do presidente. O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) disse que Bolsonaro não só ataca as instituições democráticas como estimula a violência contra autoridades públicas.

“A agressividade do discurso na Paulista é a confissão do desespero de um presidente cada vez mais acuado. Ele mais uma vez deixou claro que não aceitará o resultado das eleições de 2022 e tenta preparar um motim como Donald Trump fez nos Estados Unidos”, disse o deputado.

O líder da minoria no Senado, Jean Paul Prates (PT-RN) disse que Bolsonaro “perdeu as condições de governar, de recuperar a economia e o país. Só restam duas alternativas para Bolsonaro depois do dia de hoje: renúncia ou impeachment. Como ele não é capaz deste gesto pela nação, cabe ao Congresso conduzir o processo de impeachment”.

Recordista em pedidos de impeachment

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), a quem cabe instaurar um processo de impeachment, ainda não se manifestou sobre a questão. Ele se mantém atrelado ao presidente, embora as desavenças entre ambos tenham aumentado nos últimos meses.

Até o momento, 130 pedidos de impeachment de Bolsonaro aguardam análise e outros 6 foram arquivados, o que faz dele o recordista em número de denúncias desse tipo. Michel Temer sofreu 31 pedidos de impeachment, Dilma Roussef, 68, Luiz Inácio Lula da Silva, 37, e Fernando Henrique Cardoso, 24, segundo levantamento feito pela Agência Pública.

A maioria dos pedidos se baseia na atuação do governo Bolsonaro frente à pandemia de covid-19, citada em pelo menos 75 denúncias.

Por Deutsche Welle
rc (ots)

Em discurso em São Paulo, Bolsonaro ameaça STF e diz que nunca será preso

Jair Bolsonaro durante protesto neste 7 de setembro, em Brasília (Marcos Correa/PR)

Em discurso na Av. Paulista nesta terça (7), o presidente Jair Bolsonaro fez novos ataques ao Supremo Tribunal Federal, em especial ao ministro Alexandre de Moraes, e às eleições. Ele também chamou o magistrado de “canalha” e afirmou que “nunca será preso”. 

A fala ocorreu durante a manifestação pró-governo convocada pelo próprio presidente na capital paulista, horas depois de outro discurso em Brasília.

“Ou esse ministro se enquadra ou ele pede para sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas, turve nossa liberdade”, ameaçou, citando Alexandre de Moraes. 

Ele também afirmou que “não cumprirá” ordens do ministro, que chamou de “canalha”: “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá. […] Sai, Alexandre de Moraes. Deixa de ser canalha. Deixa de oprimir o povo brasileiro”. 

O magistrado foi alvo de um pedido de impeachment entregue pelo próprio presidente, e está no centro de embates do bolsonarismo com o Supremo. Ele é relator dos inquéritos que investigam notícias falsas e atos antidemocráticos e incluiu Bolsonaro nas investigações. 

Bolsonaro também voltou a fazer ataques ao sistema eleitoral brasileiro, e chegou a chamar as eleições de “farsa”. “Não podemos admitir um sistema eleitoral que não oferece qualquer segurança por ocasião das eleições. […] Não é uma pessoa do TSE que vai nos dizer que esse processo é seguro e confiável”, afirmou. 

A segurança das urnas eletrônicas, entretanto, já foi atestada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Não há evidência de fraude desde a implementação do sistema, fato admitido pelo próprio presidente. 

Por fim, Bolsonaro repetiu que apenas Deus pode tirá-lo do poder. “Preso, morto ou com vitória. [Quero] dizer aos canalhas que eu nunca serei preso”, exclamou. 

Por TV Cultura