‘A última floresta’ vence mostra de cinema em Berlim com voto do público

(Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

O Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale) premiou neste domingo (20/06), por escolha do público, o filme A Última Floresta, do cineasta brasileiro Luiz Bolognesi, sobre o povo Yanomami.

O roteiro do filme, único brasileiro a integrar a mostra Panorama da Berlinale deste ano, foi escrito em conjunto com o xamã Davi Kopenawa. Em entrevista à DW Brasil em março, Bolognesi afirmou que seu objetivo era registrar o ponto de vista dos yanomami sobre a sua vida em comunidade.

A obra mescla trechos de documentário com sequências encenadas para recriar a existência da cultura e da língua yanomami. O filma conta diversos mitos do povo Yanomami, com eles próprios representando seus deuses fundadores, no seu ambiente natural na Floresta Amazônica, que está sob constante ameaça do garimpo ilegal. Bolognesi já havia sido premiado na Berlinale antes, com o longa Ex-pajé, em 2018.

Em segundo lugar, ficou a produção hispano-libanesa Miguel’s War, dirigida por Eliane Rahed, sobre um homossexual que cresceu num meio ultra-conservador libanês e que se afastou do país durante a guerra civil. Os dois filmes foram os vencedores do voto do público na categoria Panorama, a segunda mais importante do festival alemão. 

Esta foi uma edição atípica da Berlinale, dividida entre uma versão virtual e outra presencial, separadas por três meses de distância, devido à pandemia de covid-19. 

Ao todo, foram exibidos 126 filmes nesta edição de verão, em 16 espaços distribuídos pelo centro da capital alemã e dos seus bairros, sendo a maior parte espaços já destinados ao cinema de verão. 

Prêmio principal foi anunciado em março

Os prêmios do público foram entregues neste domingo, último dia do chamado Festival de Verão que a Berlinale realizou neste ano, pela primeira vez.  

Os vencedores dos prêmios oficiais já haviam sido anunciados em março, após a edição virtual de apenas cinco dias, reservada ao setor profissional do cinema e à crítica. 

O longa-metragem Bad Luck Banging or Loony Porn, do diretor romeno Radu Jude, venceu o Urso de Ouro da Berlinale, o prêmio máximo da competição. 

Coprodução da Romênia com Luxemburgo, Croácia e República Tcheca, a comédia, escrita pelo diretor, que a definiu como um “cartoon político”, teve estreia internacional em Berlim e esteve no centro das atenções ao visar a corrupção e os vícios do país de origem, em forma de sátira. 

A segunda maior distinção, o Grande Prêmio do Júri, foi para o japonês Ryusuke Hamaguchi por Roda da Fortuna e Fantasia, enquanto o Urso de Prata pela melhor contribuição artística foi conquistado pelo mexicano Um filme policial, dirigido por Alonso Ruizpalacios. 

Por Deutsche Welle

bl (Lusa, ots)

‘A Última Floresta’ é um olhar de urgência pela proteção dos Yanomami, diz diretor

Depois de ser exibido em março no Festival de Berlim, filme sobre o povo Yanomami estreia no Brasil, neste domingo (18). A imagem acima é uma foto still do filme (Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

Um jovem Yanomami se sente atraído pela sedução do minério e do ouro, ao encontrar um amigo na floresta. De volta à aldeia, fica pensativo e quieto, e Davi Kopenawa Yanomami logo percebe. Com tranquilidade e com a força de uma história de décadas de luta em defesa do território de seu povo e calejado por anos de ameaças e perseguições e perdas de muitos outros jovens para o garimpo, explica ao rapaz, tendo como companhia apenas o silêncio e a escuridão da noite, dentro da maloca:

“As mercadorias deles podem enfeitiçar a gente. Eles parecem bons. Querem ajudar. Mas quando você fica sozinho, ninguém se importa com você, e você passa fome. Tem fome e não tem o que caçar. Não te dão um lugar para dormir. Somente na nossa floresta você pode dormir em paz”. Esta declaração de alerta é um dos momentos mais fortes do filme “A Última Floresta”, dirigido por Luiz Bolognesi (de “Ex-Pajé”).

Depois da estreia mundial, no início de março, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, exibido na mostra Panorama, “A Última Floresta” será exibido pela primeira no Brasil neste domingo (18), na 26ª edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, às 19h (horário de Brasília), transmitido gratuitamente pela plataforma de streaming Looke. A exibição online é limitada para 2 mil espectadores.

Nesta segunda-feira (19), para marcar o Dia do Índio, a produção do filme promoverá um debate transmitido pelas redes sociais da ong Instituto Socioambiental, a partir de 19h30 (horário de Brasília), com as presenças de Davi Yanomami, Ailton Krenak, Sonia Guajajara e Luiz Bolognesi.

“A Última Floresta” retrata a vida e os costumes do grupo Yanomami, e mostra como a presença ilegal da exploração do ouro no território, que voltou a crescer nos últimos dois anos, está colocando em risco a população indígena e a floresta. Desde 2019, os líderes Yanomami alertam para um novo e ameaçador aumento de garimpeiros no território. Somente em 2020, foram identificados 500 hectares de degradação ambiental causado pela atividade ilegal de extração de ouro.

Em entrevista à Amazônia Real, na última sexta-feira (16), Davi Yanomami, que assina a coautoria do roteiro junto com Bolognesi, disse que o propósito de ter aceitado que a história de seu povo fosse levado ao cinema foi chamar atenção para “o erro do povo da cidade”. “Quero mostrar para a sociedade não-indígena que nunca viu o povo Yanomami, de Roraima e do Amazonas, que nunca conheceu, nunca andou ou viu de perto, a realidade como vivemos”, disse ele. 

No filme, Davi Yanomami faz o mesmo alerta. “Os brancos não nos conhecem. Seus olhos nunca nos viram. Seus ouvidos não entendem nossas falas. Por isso, eu preciso ir lá onde vivem os brancos.”

Davi Kopenawa em foto de still do filme ‘A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, sobre os Yanomami
(Pedro J Márquez/via Amazônia Real)

Davi Kopenawa Yanomami, que ficou a maior parte do período da pandemia da Covid-19, na aldeia Watoriki, está passando uma temporada em Boa Vista (RR), depois de tomar as duas doses da vacina contra a doença. Ele disse à reportagem que não pretende viajar ou participar de lançamentos presenciais.

O longa-metragem, de pouco mais de uma hora, costura uma narrativa que mistura o cotidiano do tempo presente, as ameaças do garimpo, a sedução do ouro e vai até às origens do povo, quando o criador Omama pescou com cipó Thuëyoma, um peixe em forma de mulher, e se apaixonou por ela. O casal gerou os Yanomami.

Aliás, a presença feminina é forte na produção. Em certo momento, uma das “personagens”, em trabalho coletivo de confecção de cestarias, diz às outras mulheres Yanomami: “Os antepassados não ensinam à toa. Criar uma associação de mulheres seria bom. Poderíamos trocar mais cestos por alimentos. Os cestos ensinados por Mamurona. Assim, poderemos depender menos dos homens. Nós, mulheres, podemos tecer mais, se estivermos juntas”, diz ela.

No trecho “fictício” do filme, o marido da jovem mulher Yanomami ‘desaparece’ na águas enquanto caçava, levado por um ser sobrenatural. Angustiada, pede ajuda dos pajés para resgatá-lo. “Os espíritos malignos têm muitas formas. Yawarioma , peixe em forma de mulher, pode ter atraído ele para o rio. Mas também pode ter sido levado pelo espírito maléfico do minério. Muitos foram embora assim”, diz Davi, enquanto conversa com um xamã mais idoso.

A ideia de levar para as telas a vida dos Yanomami partiu de Bolognesi, enquanto ele filmava com povo Paiter Suruí, em Rondônia, o filme “Ex-Pajé”. 

Filme sobre a força dos xamãs

  • O diretor de fotografia de Pedro J. Márquez durante às filmagens (Foto: Instagram de Luiz Bolognesi) 
  • O diretor de fotografia de Pedro J. Márquez durante às filmagens (Foto: Instagram de Luiz Bolognesi) 
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Davi Kopenawa em foto de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)
  • Fotos de still do filme ‘A Última Floresta” de Luiz Bolognesi sobre os Yanomami (Foto: Pedro J Márquez)

“Eu estava fazendo um filme que mostrava o pajé oprimido pela igreja evangélica, destituído de sua potência, de seu poder político, científico e mitológico. E eu sei que em muitas aldeias, nações indígenas, há muita resistência e muito força dos xamãs, e concluí que eu precisava fazer um filme que mostrasse um lado oposto desse pajé, um lugar onde os xamãs estão potentes, no epicentro político, filosófico, científico e cosmológico daquele povo”, conta o diretor.

As filmagens aconteceram em cinco de semanas de imersão na comunidade Watoriki, na região do Demini, localizada no município de Barcelos (norte do Amazonas), na Terra Indígena Yanomami, antes da pandemia do novo Coronavirus.

A agência Amazônia Real também entrevistou o diretor que contou mais detalhes sobre o desenvolvimento do longa. Leia a seguir a entrevista na íntegra:

Luiz Bolognesi e Davi Kopenawa, durante as filmagens de “A Última Floresta” (Foto: reprodução Instagram)

Amazônia Real – Quais foram suas referências para criar o roteiro? 

Luiz Bolognesi – Eu acho que foi um filme meio anti-referências, eu quis esquecer todas as minhas referências e seguir o caminho que os Yanomamis e que o tempo indígena propõe. Talvez o que eu tinha de referência na cabeça um pouco é o “Esculpir o Tempo”, de Andrei Tarkovski [escritor russo], que justamente fala de olhar o tempo de um modo menos linear. O próprio livro “A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, me inspira muito e algumas reflexões antropológicas do [antropólogo francês] Pierre Clastres (1934-1977), me inspiravam, mas eu estava justamente procurando trabalhar em um ambiente de anti referência de partir de um ponto de vista indígena da narrativa oral, de que eles se apropriassem do filme e não o contrário.

Amazônia Real – Como aconteceu essa parceria de escrever o roteiro junto com o Davi Yanomami?

Luiz Bolognesi – E eu li “A queda do Céu” e já conhecia o Davi Kopenawa de entrevista, mas não pessoalmente, e eu decidi que seria com ele o filme, que eu gostaria que fosse com ele. A partir dali, quando eu terminei o “Ex-Pajé”, eu procurei o Davi e contei para ele eu queria fazer o filme, que eu gostaria que ele fosse protagonista, e mais que isso, que ele fizesse o roteiro comigo. Foi aí que ele me chamou para passar duas semanas lá em Watoriki, no território Yanomami, e a gente iniciou um relacionamento de muita troca, em uma busca juntos de uma dramaturgia. E esse foi o processo, uma abertura, eu me abrindo para ele e ele se abrindo para mim, e assim a gente construiu o filme.

Amazônia Real – Nos últimos anos os indígenas têm sofrido diversas ameaças, por conta de todo cenário político que o Brasil vive atualmente. Neste contexto, qual a importância do filme? O que você pretende com ele?

Luiz Bolognesi – O Davi sempre dizia que esse não é um filme de denúncia, é um filme de reconhecimento, de conexão. Ele dizia: ‘os brancos não nos conhecem, nos olham com preconceito. Eu queria que o filme fosse uma maneira de eles conhecerem mais os Yanomami, nos verem de dentro para fora, para poder estabelecer uma conexão’. Então é um filme de conexão, para apresentar a potência Yanomami. Mas também faz parte do dia a dia deles enfrentar esse momento político que é marcado por uma invasão de mais de 20 mil garimpeiros no território Yanomami, uma invasão ilegal, já que o território é legalmente constituído.

Tudo isso está no filme e a gente acha que como o filme está tendo uma carreira, e esse é o nosso objetivo. [Uma carreira] internacional muito forte e uma carreira muito potente no Brasil. Vai ser importante para conectar a opinião pública, os brancos, os não-indígenas, a mídia, inclusive o poder público, o Congresso, o Executivo e a Justiça com a verdade Yanomami, com a potência dos Yanomami, com a necessidade de preservar os territórios deles.

Amazônia Real – Por que o nome “A Última Floresta”? Qual o significado dessa escolha?

Luiz Bolognesi – É um nome que a gente acha que vende a urgência e a importância desse filme. Nós sabemos que recentemente a gente está tendo vários retrocessos na política ambiental, a gente acabou de ver um chefe da polícia federal [delegado Alexandre Saraiva, da PF do Amazonas] ser demitido porque ele se lançou em defesa das florestas da Amazônia, do meio ambiente e dos biomas amazônicos, e a gente está vivendo um governo que está atropelando tudo isso. “A Última Floresta” traz poeticamente um olhar de urgência. Precisamos olhar para os Yanomami, não tem floresta preservada sem povos indígenas dentro dela.

Amazônia Real – Quando será a estreia oficial? Será exibido em alguma plataforma de streaming?

Luiz Bolognesi – A pré-estreia acontece neste domingo (18), às 19h (horário de Brasília), no Festival É Tudo Verdade. Depois disso a gente não sabe ainda, provavelmente em junho e julho, vamos ter algumas sessões em cinema, se a pandemia permitir. Se não, o caminho do filme terá que ser streaming. Já tem canais com interesse em fazer um lançamento mundial do filme, afinal, ele está indo para muitos festivais fora do Brasil. Ele estreou no Festival de Berlim, um dos festivais mais importantes do mundo. Ele está em Visions du Rée, na Suíça, em seguida em vai para o Hot Docs, em TorontoJá tem convites para festivais de Barcelona, na Índia, África do Sul, Coreia do Sul e Áustria, o filme está rodando o mundo. (Colaborou Elaíze Farias)

Assista ao trailer do filme:

Por Luana Piotto, da Amazônia Real