PMs são denunciados pelas mortes durante baile em Paraisópolis

(Arquivo/Ponte/Reprodução)

O Ministério Público de São Paulo denunciou 13 policiais militares que participaram de uma operação na comunidade de Paraisópolis, em dezembro de 2019, que resultou na morte de nove jovens. Desses, 12 foram denunciados por homicídio e um por colocar pessoas em perigo com uma explosão.

A chamada Operação Pancadão tinha como objetivo interromper um baile funk que ocorria naquela noite. No entanto, de acordo com a promotoria, os policiais agrediram os participantes com golpes de cassetete, bastões de ferro e gás de pimenta. Um dos policiais é acusado de tetr lançado um morteiro contra multidão.

Vídeos feitos na ocasião e os relatos dos moradores da comunidade, localizada na região do Morumbi, zona sul paulistana, indicam que os jovens foram encurralados em vielas, morrendo pisoteados e asfixiados durante o tumulto.

Os promotores Neudival Mascarenhas Filho, Luciana André Jordão Dias e Alexandre Rocha Almeida de Moraes pedem ainda a fixação de um valor de reparação pelos danos físicos e morais causados pela ação.

Defesa

Responsável pela defesa de parte dos policiais acusados, o advogado Fernando Capano afirma, por nota, que não há conexão entre as ações dos policiais naquela noite e as mortes dos jovens.

“Fartas são as provas obtidas nos inquéritos que nos conduzem para conclusões muito distintas e, segundo pensamos, forçar uma ‘narrativa’ no sentido da prática do homicídio, é prestar um desserviço para a apuração dos verdadeiros responsáveis pela tragédia havida naquela oportunidade”, ressaltou o advogado.

Por Daniel Mello – Repórter da Agência Brasil

MP pede informações sobre aumento de mortes por Covid-19 em Paraisópolis

Comunidade de Paraisópolis (Rovena Rosa/Agência Brasil)

A Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo da Capital pediu à Prefeitura de São Paulo esclarecimentos a respeito de medidas eventualmente adotadas para enfrentar o aumento de mortes decorrentes da covid-19 em Paraisópolis. Estudo recentemente divulgado apontou incremento de quase 240% no número de óbitos por 100 mil habitantes naquela comunidade. 

Em ofício, a Promotoria requisita informações a respeito de ações planejadas ou em andamento para concreto enfrentamento ao problema, e se há levantamentos que sejam de conhecimento do Poder Executivo municipal que possam esclarecer, inclusive em caráter preventivo, se o aumento substancial no número de mortes em favelas e comunidades mais carentes pode estar ocorrendo em outros pontos da cidade. 

No mesmo documento, o MPSP questiona se o programa de testagem para covid-19 anunciado para a comunidade de Paraisópolis tem a participação do município, solicitando, em caso positivo, detalhes a respeito, inclusive no que diz respeito ao cronograma respectivo e ações planejadas com base nos resultados.

Para o caso de não haver disponibilidade das informações solicitadas, a Promotoria recomenda a adoção das providências necessárias para a coleta dos dados.

Por MP-SP

Metade de Paraisópolis pode ter sido infectada pela Covid-19, indica testagem

Levantamento aponta que proporção de moradores da favela contaminados pode ser cinco vezes maior que a observada na capital paulista como um todo. Alta densidade populacional contribui para disseminação da covid-19.

Enfermeiros e técnicos de enfermagem saíram pela favela abordando moradores e perguntando se gostariam de fazer teste

Não fazia nem uma semana que a moradora de Paraisópolis, Stephani Figueira havia enterrado o pai, vítima de covid-19, quando ela mesma começou a sentir febre, dor no corpo e fadiga. Mesmo doente, continuou trabalhando no movimentado bar que toca com o marido, dentro da comunidade.

“Eu não aguentava ficar parada em casa, só sofrendo pela morte do meu pai. Era doloroso demais, além de ter que trazer dinheiro para casa”, conta a pequena empresária de 27 anos.

O caso de Stephani é apenas mais um em Paraisópolis, favela na zona sul de São Paulo onde um levantamento concluído nesta terça-feira (12/08) apontou que 49% dos adultos testados já foram infectados pelo novo coronavírus, e que 23% dos casos ainda estão ativos, podendo transmitir o vírus.

A enorme concentração da população, a falta de alternativa de renda para além do trabalho fora de casa e a pouca consciência de alguns moradores pode explicar a contaminação de quase metade dos adultos da comunidade onde vivem mais de 100 mil pessoas.

Os dados sobre a covid-19 foram obtidos por meio da testagem de mais de 500 residentes promovida pela Associação de Moradores entre terça-feira passada e esta segunda-feira. Enfermeiros e técnicos de enfermagem saíram pela favela abordando moradores maiores de 18 anos de idade e perguntando se gostariam de fazer o teste.

Uma das maiores favelas do país, Paraisópolis abriga mais de 100 mil pessoas

Foram feitas coletas de sangue para a realização de testes rápidos com plasma centrifugado, usados para ajudar no mapeamento da população que já foi infectada. O exame detecta quem tem anticorpos do tipo IgM (contato recente com o vírus) e do tipo IgG (contato previamente), ou seja, indica tanto quem ainda pode contaminar outras pessoas quanto aqueles como Stephani, que já estiveram infectados e possivelmente estão imunes contra o coronavírus.

“É um resultado muito impressionante, e muito acima do que esperávamos”, afirma o biomédico Lucimario Moreira, coordenador da testagem. “Vale ressaltar, no entanto, que as pesquisas não definiram por quanto tempo dura a imunidade ao vírus por aqueles que já tiveram a doença”, pondera.

Os dados indicam que a proporção de infectados em Paraisópolis pode ser cinco vezes maior do que a observada na capital paulista como um todo. Desde junho, a prefeitura de São Paulo vem realizando um inquérito epidemiológico, que até o momento apontou 1,2 milhão de infectados, o que corresponde a cerca de 10% da população da cidade. 

Como se isolar?

A dona de casa Vanessa Souza, de 29 anos, suspeitava ter sido infectada no mês passado e transmitido o coronavírus para o marido e os filhos. Sem receber o auxílio emergencial do governo federal, apesar da baixa renda e de solicitá-lo, seu marido, que é motoboy, teve que continuar trabalhando como entregador de pizza, apesar das dores no corpo, falta de ar e febre alta.

“Ele ganha por dia. Se faltar por causa de doença, o patrão chama outro, quem sabe não chama nunca mais. Então, ele foi obrigado a continuar trabalhando para alimentar nossa família”, narra resignada.

Entre vielas, ruas estreitas onde se concentram o comércio e casas de um dormitório onde muitas vezes se espremem quatro ou cinco pessoas, é difícil manter o isolamento social em Paraisópolis. Os mais de 100 mil moradores da favela, uma das maiores do Brasil, vivem amontoados. A densidade populacional é de 45 mil habitantes por quilômetro quadrado. Pequenos imóveis são construídos uns sobre os outros na tentativa de aproveitar ao máximo o limitado espaço. Ao redor, prédios de luxo e mansões contêm a expansão da favela.

“Quando se pensou em quarentena, isolamento social, não levaram em conta a lógica da favela. Como se isolar quando as próprias casas não estão isoladas?”, questiona a produtora audiovisual Renata Alves, de 39 anos, que desde abril é a ponte entre moradores e o serviço de ambulância contratado pela comunidade para suprir o Samu oficial. “Meu telefone virou o 192 da comunidade”, diz, fazendo referência ao número do socorro hospitalar brasileiro.

A reportagem da DW Brasil vem desde aquele mês acompanhando o trabalho das lideranças locais na tentativa de conter o avanço do novo coronavírus. Apesar dos esforços de conscientização, no entanto, pouco havia mudado na rotina das movimentadas ruas e dos comércios da comunidade, que, apesar da quarentena decretada em 24 de março, permaneceram, com poucas exceções, abertos durante a pandemia.

Importante fonte de informação

O infectologista e membro da força-tarefa de contingência do novo coronavírus no estado de São Paulo Marcos Boulos alerta para a limitação dos dados obtidos a partir da testagem em Paraisópolis.

“Um levantamento feito desse modo [aleatório] não tem poder estatístico, mas é importante como fonte de informação para entender a dispersão do vírus pela cidade. Não é inesperado, com a concentração de casas e a aglomeração de pessoas, que Paraisópolis observe essa alta contaminação”, afirma.

Leonardo Runyo mora há quatro anos em Paraisópolis e se voluntariou como guia da equipe de testagem para conhecer melhor a comunidade onde mora. “Muitas vezes ficamos no nosso pedaço e acabamos não conhecendo. Aqui é grande demais, mas tem sido um aprendizado”, conta o vendedor enquanto tenta convencer outro morador, Luís Felipe Ramos, a se testar.

“Tenho muito medo, claro. Meu primo morreu de covid-19, uma outra tia também, todos moradores daqui”, lamenta ele com o filho de um ano no colo. O medo da doença, no entanto, não foi maior que a resistência ao exame. Luís Felipe, não saberá, ao menos não pelas próximas semanas, de qual metade dos moradores faz parte.

Por Gustavo Basso 

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

Moradores de Heliópolis fazem testes rápidos para Covid-19

Uma ação social oferta neste sábado (8) testes rápidos de detecção da covid-19 para 250 moradores de Heliópolis, favela localizada na zona sul de São Paulo, considerada a maior da capital. A HCA, startup de saúde, é a responsável pela operacionalização dos testes, doados pela Officer, empresa de tecnologia, à Central Única das Favelas (Cufa).

A empresa de tecnologia fez a doação de mil testes rápidos de coronavírus para a Cufa, que optou por distribuir a aplicação dos exames em quatro favelas. No sábado passado, aconteceu a primeira testagem no Parque Santo Antônio. Moradores de Paraisópolis e Brasilândia também serão contemplados, nos dias 15 e 16 de agosto, respectivamente.

A aplicação dos testes nas favelas é mais uma ação da campanha Cufa Contra o Vírus, que já realizou diversas lives e ações sociais, recebeu mais de 11 mil toneladas de alimentos e R$ 150 milhões em doações, além de álcool em gel, máscaras e muito mais.

A entidade informou que mantém parceria com centenas de organizações para combater o coronavírus nas favelas do Brasil. São, aproximadamente, 15 milhões de moradores em todo o território nacional e muitos deles não podem deixar de trabalhar e transitam pelas ruas se expondo ao risco do contágio. 

Para saber mais sobre os projetos, se voluntariar ou fazer alguma doação, acesse o site da Cufa.

‘Padaria’ do PCC embalava até 900 papelotes por minuto

A Polícia Militar encontrou um galpão usado para produção e comercialização de drogas na zona sul da cidade de SP

Galpão clandestino era usado para produzir 900 papelotes de cocaína por minuto| Foto: Arquivo Ponte

Um maquinário avaliado em R$ 3,7 milhões, capaz de embalar 900 papelotes de cocaína por minuto, foi um dos maiores e mais modernos investimentos feitos pelo PCC (Primeiro Comando da Capital) para produzir e comercializar a droga em São Paulo.

O sofisticado equipamento industrial foi descoberto na quinta-feira (16/4) pela Polícia Militar em um galpão clandestino na rua Engenheiro Artur de Miranda, 171, no Jardim Juçara, nas proximidades da Favela Paraisópolis, na zona sul da cidade.

Policiais militares da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Moto), do 2º Batalhão de Choque prenderam três pessoas e apreenderam 712 kg de cocaína refinada, além de 60 kg de pasta base.

No local foram encontradas também seis máquinas industriais de produção em larga escala da droga, cada uma avaliada em R$ 450 mil, e outra no valor de R$ 1 milhão. Os equipamentos estavam funcionando “em pleno vapor” quando os policiais chegaram.

Segundo a Polícia Militar, a droga produzida na “padaria” (nome dado por traficantes ao local onde a droga é preparada e embalada) do PCC era distribuída em toda a zona sul.

O oficial afirmou que os “padeiros” do PCC produziam, diariamente, R$ 300 mil em papelotes com a droga. Ainda de acordo com a PM, os policiais faziam patrulhamento na região e suspeitaram de um homem saindo do galpão, que se assustou quando viu os policiais e tentou entrar em um carro, mas acabou abordado.

Os outros dois traficantes foram presos dentro do galpão. Os PMs informaram que os três homens ofereceram R$ 163 mil aos policiais para não serem presos.

O dinheiro também foi apreendido. Os traficantes foram levados para o 34° DP (Morumbi) e autuados em flagrante por tráfico de drogas, associação à organização criminosa e corrupção ativa.

Eles foram identificados como Renaldo Ribeiro Moreno, Raphael Francisco da Silva e Paulo Henrique Rodrigues de Oliveira. A Ponte não conseguiu localizar os advogados dos acusados.

A mulher de um dos presos também foi detida para averiguação. O dinheiro que os traficantes queriam utilizar para corromper os PMs foi encontrado na casa dela, de acordo com um dos policiais que participou da ação. “As apreensões e as prisões representaram, sem dúvida, um duro golpe para essa facção criminosa”, comentou.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Jovem que ganhou bolsa para estudar no Mackenzie é sequestrado e morto

Mateus Oliveira, 17 anos, estava comendo pastel com um amigo quando foi abordado por um homem encapuzado e armado; corpo foi encontrado neste domingo (15/3)

Mateus tinha 17 anos e tinha acabado de ganhar uma bolsa para cursar Administração no Mackenzie (arquivo pessoal/via Ponte)

Eram por volta das 14h deste sábado (14/3), quando o estudante Mateus Gomes Oliveira, 17 anos, estava com um amigo na rua Manoel Antônio Pinto, conhecida como rua do Bega, na favela Paraisópolis, na zona sul da cidade de São Paulo. Em fevereiro, três jovens foram sequestrados e mortos no local.

Quando saiu da feira de rua onde estava comendo pastel com o amigo, Mateus foi sequestrado por um carro. Por volta das 11h deste domingo (15/3), um corpo foi encontrado na avenida Hebe Camargo e, segundo a polícia, foi reconhecido como sendo Mateus. 

Última foto publicada por Mateus minutos antes de ser sequestrado
(arquivo pessoal/via Ponte)

Mateus vivia para estudar, como contou à Ponte um parente que pediu para não ser identificado por medo. Morador do Jardim Irene, no Capão Redondo, no extremo sul de SP, o jovem era bolsista do Colégio Visconde de Porto Seguro, no Morumbi. 

Tinha acabado de ser efetivado na empresa onde trabalhou como jovem aprendiz e recebido a notícia de que ganhara uma bolsa para cursar Administração na Faculdade Mackenzie.

Segundo relatos de moradores aos familiares, Mateus foi abordado por um carro, um Honda Civic branco, que subiu a rua Rua Ernest Renan em velocidade normal. 

Um homem encapuzado, vestido de preto, saiu do carro, sacou a arma e disparou 5 vezes. Em seguida, colocou Mateus no carro. “Era um carro que pessoas ricas costumam ter”, disse a testemunha aos familiares.

“O celular dele estava desligado, mas às 18h as mensagens chegaram”, disse o familiar do jovem. “Todos os amigos dele estudavam na mesma escola, eles se reuniam em Paraisópolis para fazer trabalhos e jogar bola no fim de semana”, continuou. 

“A gente não suspeita de nada porque ele era um menino super do bem. Estamos aflitos que tenha acontecido uma coisa dessas para um menino que só vivia para estudar”, desabafou.

Familiares estiveram na rua que Mateus sumiu atrás de alguma câmera de segurança, mas não conseguiram encontrar nenhum registro que pudesse ajudar a elucidar o caso.



Um dos amigos de Mateus, que estudou com ele no Colégio Porto Seguro, conversou com a Ponte e contou um pouco do amigo. “O Mateus não bebia, não usava droga, a maioria das vezes que a gente saia ele não ia junto, só saíamos para jogar bola ou ir na casa de alguém. Ele trabalhava de manhã e de tarde, ia pra faculdade e da faculdade ia pra casa”, detalhou. 

“O que a gente não entende é por que o Mateus, não entra na cabeça de ninguém. É muito confuso não saber o motivo disso ter acontecido. É algo que não tá entrando na nossa mente”, finalizou.

O caso foi encaminhado ao 89º DP (Portal do Morumbi) e será investigado pela Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa.

O que diz a SSP

Questionada pela reportagem, as assessorias da Secretaria da Segurança Pública e da Polícia Militar não se manifestaram até o momento de publicação.

Por Paloma Vasconcelos – Repórter da Ponte

Adolescente morto e deixado em carro foi sequestrado

Quatro pessoas armadas teriam gritado “polícia” antes de levar a vítima, Gustavo Oliveira Tavera, encontrado em carro com outros dois corpos

Gustavo tinha 16 anos e foi reconhecido pela camisa que dormia: um uniforme do Palmeiras | Foto: Arquivo pessoal

Quatro homens armados sequestraram um jovem na madrugada desta quinta-feira (6/2) em Paraisópolis, favela localizada na zona sul da cidade de São Paulo. Segundo relatos, o grupo se identificou como “polícia” antes de entrar na casa e levar Gustavo Oliveira Tavera, 16 anos. Horas mais tarde, o pai da vítima esteve no local em que três corpos foram encontrados em um carro na região de Santo Amaro, também na zona sul, e reconheceu seu filho como um dos mortos.

Gustavo estava na casa em que mora com a mãe e o irmão quando foi sequestrado. Segundo relato de uma familiar, homens bateram na porta, acordando a família. Disseram que eram “a polícia” e que entrariam de “qualquer jeito”. Eles buscavam um homem apelidado de Orelha, segundo os familiares. Um dos homens apontou uma arma para o rosto da mãe de Gustavo antes de levá-lo.

“Os caras se identificaram como policiais, estavam em um carro preto”, afirmou o parente de Gustavo, em entrevista para a Ponte, pedindo para não ser identificado, com medo de represálias.

O pai do adolescente, Thiago Tavera, afirmou que reconheceu o corpo do filho pela roupa que ele vestia: uma camisa do Palmeiras. “Eu estava trabalhando na hora, trabalho em posto de gasolina. O Gustavo não era de sair, era da escola para casa e igreja. Pegaram meu filho de forma errada”, lamentou à Ponte.

Além de Gustavo, o veículo tinha outros dois corpos, de um jovem de 18 anos, de nome Edinaldo, e uma outra pessoa ainda não identificada, segundo informação da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.

Thiago contou que o corpo do filho estava em um carro, junto de outros dois jovens mortos. O pai está no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), da Polícia Civil, responsável pelas investigações do caso.

A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos no governo de João Doria (PSDB), sobre o sequestro do jovem e aguarda um posicionamento oficial.

Por Arthur Stabile – Repórter da Ponte

Paraisópolis: Familiares pedem e Estado afasta 38 PMs

Por Elaine Patrícia Cruz

Beco é grafitado para homenagear os jovens mortos em Paraisópolis
(Rovena Rosa/Agência Brasil)

Lideranças comunitárias de Paraisópolisse reuniram no final da tarde de ontem (9) com o governador de São Paulo, João Doria, para cobrar transparência nas investigações sobre a morte de nove jovens durante ação policial em baile funk, no dia 1º de dezembro. 

Participaram ainda do encontro familiares das vítimas, membros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Defensoria Pública e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). O secretário de Segurança Pública, general João Camilo Pires de Campos, também participou da reunião.

Gilson Rodrigues, da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, disse que a comunidade pediu o afastamento dos 38 policiais envolvidos na ocorrência e a ida do secretário de Segurança até a comunidade para conversar com os moradores. Segundo a defensora pública Ana Carolina Schwan, durante as investigações os policiais serão afastados das ruas, passando a desenvolver trabalhos administrativos

Segundo a procuradora-geral do Estado, Lia Porto, na reunião as famílias das vítimas cobraram transparência no inquérito policial que apura as causas das nove mortes.

“(Há) Transparência total em relação ao inquérito. A Defensoria já se colocou à disposição para acompanhar o inquérito. Rigor, rapidez, transparência e eficiência nas investigações (é o que as famílias pedem)”, disse ela..

Atendimentos

Segundo a defensora pública Ana Carolina Schwan, a Defensoria iniciou hoje o atendimento domiciliar das vítimas e dos parentes das vítimas. “A Defensoria esteve na comunidade de Paraisópolis na quinta e na sexta-feira fazendo atendimentos. Estamos organizando também outros pontos de atendimento na cidade a pedido da comunidade. Hoje iniciamos os atendimentos domiciliares das famílias das vítimas para colher a necessidade e individualidade deles”.

Dia de reuniões

Antes do encontro com Doria, as lideranças comunitárias de Paraisópolis se reuniram, pela manhã, com moradores do Morumbi, bairro vizinho de classe alta. Na reunião, eles decidiram pedir à prefeitura que seja criada uma subprefeitura de Paraisópolis/Morumbi. Hoje eles se submetem à subprefeitura do Campo Limpo.

Já a tarde, eles se reuniram com secretários municipais e estaduais na União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis. O secretário de Segurança Pública não participou. Nessa reunião, eles encaminharam uma lista de demandas aos governos municipal e estadual e ficou acertada a criação de seis grupos de trabalho para lidarem com os pedidos feitos pela comunidade.

Medo e luto: como foi o 1º baile funk de Paraisópolis após mortes

Por Arthur Stabile

Exatamente uma semana depois de 9 pessoas morrerem pisoteadas, fluxo lembra dos mortos em ação da PM e tem tamanho reduzido pelo medo

Primeira edição do baile da DZ7, logo após o massacre ocorrido na comunidade. Local: Paraisópolis-SP. Data: 08/12/2019. Foto: Sérgio Silva.

O funk toca nas caixas de som em cima dos carros ou improvisadas na calçada. A molecada curte seu rolê dando uns passinhos, tomando seus drinks e na função dos amores casuais. Assim foi o baile da DZ7, na favela de Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, na madrugada deste domingo (8/12). Porém, o baile não tinha a mesma pegada de uma semana atrás, quando nove pessoas morreram pisoteadas no massacre decorrente da ação da PM. 

Fluxo na rua Ernest Renan, coração de Paraisópolis e do Baile da DZ7
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Mateus dos Santos Costa, 23, Eduardo da Silva, 21, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Dennys Franca, 16, e Gustavo Cruz Xavier, 14, não resistiram aos ferimentos e morreram asfixiados ou pelos danos causados pelo pisoteamento. A PM argumenta que agiu após uma moto furar um bloqueio, entrar no baile e atirar contra os policiais, que teriam reagido.

Padre Luciano Borges, pároco da comunidade, acompanhou o baile pela primeira vez
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O tamanho do baile deste domingo era extremamente inferior ao comum, o clima ainda carregava o peso do luto. Frequentadores da DZ7 estimam que o público não seria nem 10% de dias normais antes do massacre. “Não tá normal, não. Essa rua aqui é lotada”, conta o DJ RK, apontando para a Rodolfo Lotze, uma das ruas que cruza a Ernest Renan, local onde é feito o baile. “Tem muita gente com medo, principalmente quem é de fora. Pelo acontecido, resolveram não colar”, prossegue. O baile rolou mais como homenagem às vítimas do que pela diversão individual de quem estava ali.

Participantes cobravam paz na quebrada (Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

A vida na quebrada não parou por conta do massacre, mas quem esteve em Paraisópolis fez questão de lembrar dos seus que se foram. Era possível ver parte dos participantes da festa com camisetas pedindo paz na quebrada. Os modelos foram confeccionados especialmente para o evento em que se completa uma semana da tragédia.

Festa aconteceu com menor quantidade de pessoas, reflexo do medo causado pela ação da PM
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O MC GH transformou sua revolta em letra. Como publicado pela Ponte na sexta-feira (6/12), o músico criou uma letra para homenagear as vítimas do massacre e pedir paz. “Tive a ideia vendo comentários na internet sobre o que aconteceu. Diziam que, se eles não estivessem aqui ainda estariam vivos. Me revoltou e a letra saiu na hora”, explica GH.

MC GH, autor de funk de protesto após o massacre de Paraisópolis
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Além de funkeiros, o baile da DZ7 contou com a participação de religiosos neste domingo. Pároco de Paraisópolis, o padre Luciano Borges esteve pela primeira vez no baile. “É um momento em que nós precisamos pensar, a atuação como igreja, de prevenção de vidas. Quem vai à igreja, vai buscar a paz. Aqui é um espaço de cultura e deve ser respeitado pela polícia. Não deve ser marginalizado, como muitas vezes acaba sendo”, comentou.

Primeira edição do baile da DZ7, logo após o massacre ocorrido na comunidade. Local: Paraisópolis-SP. (Sérgio Silva/Ponte Jornalismo).

Assim como a letra do MC GH, os moradores deixam claro que as mortes não são um acidente de percurso. Ressaltam em suas falas que a ação da PM provocou as mortes e que era possível um final diferente do que aconteceu. “A gente vem para zuar, só isso. É a nossa diversão”, contra o estudante Pedro Henrique Dias, 17 anos.

Para MC RK, tamanho do baile deste domingo não era “10%” do que costuma ser
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O rapaz conversa com a reportagem mexendo em um guarda-chuva da marca Oakley. Segundo ele, é uma forma de chamar a atenção das garotas. E tem efeito, apesar do alto investimento. “Tem uns modelos que custam até R$ 5 mil. Esse aqui é menos, custa R$ 150, mas já dá uma moral”, continua. 

Beco em que sete das nove vítimas do massacre morreram pisoteadas
(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

O rolê é juntar os amigos, montar seu bonde e zuar na rua com o som alto, as bebidas, os passinhos e até com sinalizadores. A rua dá lugar a todo o contexto do funk, que cai a madrugada sendo a diversão da galera. “É bom demais, mano. Venho toda semana na DZ7, é de lei”, diz Thiago Lima, 20 anos, desempregado.

Mais do que zuação, o baile é um espaço para deixar os problemas de lado, como a própria falta de emprego. Dessa vez, no entanto, a DZ7 carregou consigo um teor diferente com as homenagens às nove vítimas. O funk do MC GH ressoou pela quebrada como forma de protesto, de nunca se esquecer dos que se foram.

(Sérgio Silva/Ponte Jornalismo)

Os momentos de memória revesavam com os de diversão. Afinal de contas, a DZ7 existe para isso: juntar gente da comunidade e de fora para aproveitar a vida, zuar. Não havia nenhuma viatura policial dentro da favela, apenas em seu entorno. Segundo os participantes, não tiveram nenhum problema para chegar ou ficar no baile.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/primeiro-baile-da-dz7-apos-massacre-de-paraisopolis-homenageia-vitimas/

Comissão Interamericana condena mortes em Paraisópolis

Por Kaique Dalapola e Paulo Eduardo Dias

Entidade internacional de direitos humanos manifestou “preocupação” e cobrou investigação “séria, imparcial e eficaz” para identificar e punir os responsáveis 

Moradores de Paraisópolis protestam e cobram respostas após o massacre
(Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)

A CIDH (Comissão Interamericana de Direito Humanos), que faz parte da OEA (Organização dos Estados Americanos), publicou uma nota “manifestando preocupação” sobre a ação policial que resultou na morte de nove jovens, com idades entre 14 e 23 anos, na madrugada do último domingo (1º/12). O caso ocorrido durante o Baile da DZ7 ficou conhecido como massacre de Paraisópolis, pois ocorreu na comunidade localizada na zona sul da cidade de São Paulo. 

O texto critica a ação da PM comandada pelo governador João Doria (PSDB). “A Comissão condena categoricamente essa ação policial e insta o Estado a iniciar, sem demora, uma investigação séria, imparcial e eficaz dos fatos, orientada a determinar a verdade, assim como a individualização, julgamento e eventual sanção dos responsáveis por esses fatos”, afirmou a entidade.

De acordo com a organização, as informações obtidas apontam que a ação da Polícia Militar em Paraisópolis “teria gerado pânico e tumulto entre os frequentadores de uma festa popular de rua” e se baseia em informações públicas e vídeos disponíveis para definir que “os policiais cometeram maus tratos e abusos de maneira indiscriminada contra jovens que se dispersaram na área de atividades culturais”, detalhou. 

A organização internacional também aponta que teve conhecimento que o Corpo de Bombeiros, que é um braço da PM, cancelou o chamado de atendimento médico emergencial às vítimas, o que representa, segundo a entidade, “um forte indício de omissão que deve ser rigorosamente investigado”. 

Na nota, a OEA afirmou que chamou a atenção do estado por diversas vezes acerca da letalidade policial e uso da força policial em manifestações. A entidade diz que, desde a visita que fez ao Brasil em novembro do ano passado identificou violação de direitos humanos em ações policiais em bairros periféricos e contra negros. 

“Nesse sentido, a Comissão chama o Estado a adotar as medidas necessárias para reformar o direito interno, em âmbitos federal e estadual, e harmonizá-lo com os padrões interamericanos e universais de direitos humanos relativos ao uso da força em intervenções policiais, observando os princípios de excepcionalidade, necessidade, proporcionalidade e legalidade”, disse a nota.

A cobrança internacional é bem vista pela Coalizão Negra por Direitos, grupo que puxou manifestação contra o massacre e enviou uma denúncia justamente à CIDH. “Mandamos uma denuncia para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e protocolamos outra na ONU. Foram as duas internacionais que acionamos, informando sobre as mortes e pedindo para que cobrassem o Estado brasileiro”, explicou Bianca Santana, integrante da Coalizão.

Segundo ela, o coletivo também se mobilizou nacionalmente, cobrando respostas de nove órgãos brasileiros para denunciar o massacre e fazer com que o governo seja cobrado.

“No dia seguinte a essas denúncias e ofícios a Comissão Interamericana de Direitos Humanos se pronunciou. Por mais que não dê para estabelecermos uma relação direta, porque não foi uma resposta para nós, imaginamos que tenha uma relação”, afirmou Bianca.

Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana), a manifestação é “contundente” e fundamental para pressionar a ação.

“[A nota] Gera uma pressão para que o governo de São Paulo modifique urgentemente as formas de abordagem policial e as suas ações nas regiões periféricas em relação aos jovens que moram nesses locais ou que frequentam esses grandes eventos”, disse.

O conselheiro considera que a repercussão internacional das nove mortes na comunidade de Paraisópolis está “gerando grande constrangimento ao governo de São Paulo, que terá a partir daí, que dar respostas efetivas”.

*Este texto foi publicado originalmente neste link: https://ponte.org/comissao-interamericana-condena-governo-doria-por-massacre-em-paraisopolis/