Em estudo inédito, Reino Unido vai contaminar voluntários com covid-19

Em busca de uma melhor compreensão sobre o novo coronavírus, um estudo científico britânico infectará intencionalmente voluntários com o patógeno da covid-19, anunciou nesta quarta-feira (17/02) o governo do Reino Unido, após aprovação pelo órgão do país responsável por questões éticas envolvendo ensaios clínicos.

Com isso, o Reino Unido se tornou o primeiro país do mundo a dar o aval para que voluntários sejam deliberadamente expostos à covid-19. A medida visa impulsionar a pesquisa científica sobre a doença causada pelo coronavírus Sars-Cov-2.

Os testes devem começar dentro de um mês e contar com até 90 voluntários saudáveis com idades entre 18 e 30 anos. Eles serão expostos, em um ambiente seguro e controlado, à menor quantidade do vírus necessária para causar uma infecção, conforme explicaram os cientistas responsáveis pelo projeto em comunicado.

O objetivo é descobrir como o sistema imunológico responde ao vírus e identificar os fatores que influenciam a forma como uma pessoa infectada transmite a doença. Para tornar o teste o mais seguro possível, não serão usadas novas variantes do coronavírus mais contagiosas.

“A segurança dos voluntários é primordial, o que significa que este estudo de caracterização do vírus usará inicialmente a versão do vírus que circula no Reino Unido desde março de 2020 e tem se mostrado de baixo risco em adultos jovens saudáveis”, diz o comunicado.

R$ 650 por dia para ser infectado

Os voluntários serão examinados quanto a possíveis riscos à saúde antes de serem autorizados a participar e serão mantidos em quarentena e acompanhados de perto por pelo menos 14 dias por uma equipe médica numa unidade especializada no Hospital Royal Free, em Londres.

Os participantes terão permissão para retornar às suas casas após os 14 dias iniciais apenas se exames extensivos apontarem que eles não são mais capazes de transmitir a doença. Os voluntários receberão uma compensação de cerca de 88 libras esterlinas (R$ 650) para cada dia dedicado ao estudo, que também envolverá monitoramentos periódicos por um ano.

Participam do estudo a força-tarefa de vacinas do governo britânico, o Imperial College de Londres, a Royal Free London NHS Foundation Trust – fundação ligada ao Serviço Nacional de Saúde (NHS) – e a empresa clínica hVIVO, que já conduziu estudos semelhantes.

Cientistas utilizam testes do tipo em humanos há décadas para aprender mais sobre doenças como malária, gripe, febre tifoide e cólera, e para desenvolver e aprimorar tratamentos e vacinas.

Ativistas de um grupo chamado 1Day Sonner, que tem pressionado governos em todo o mundo para realizar testes em humanos com o novo coronavírus, parabenizaram a iniciativa do Reino Unido e afirmaram que o projeto irá acelerar a pesquisa de vacinas e tratamentos contra a covid-19.

Por Deutsche Welle

pv/lf (Reuters, DPA)

Alzheimer: Cientistas brasileiros identificam células cerebrais mais vulneráveis

(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Um estudo inédito sobre a vulnerabilidade seletiva no nível dos neurônios individuais e com o mapeamento das primeiras células acometidas pela doença de Alzheimer foi publicado na revista científica Nature Neuroscience, no dia 27 de janeiro de 2021, com o título “Markers of vulnerable neurons identified in Alzheimer disease”. O trabalho foi realizado por um grupo de pesquisadores, composto por cinco brasileiros da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com cientistas da University of California San Francisco (UCSF), dos Estados Unidos.

A autora-sênior, Profa. Lea Tenenholz Grinberg, do Departamento de Patologia da FMUSP e associada ao Departamento de Neurologia da UCSF, diz que “alguns neurônios sucumbem à doença anos antes dos primeiros sintomas aparecerem, enquanto outros parecem impermeáveis à degeneração que as cerca e perduram até os estágios finais da doença. Tornou-se uma questão premente para nós entender os fatores específicos que tornam algumas células seletivamente vulneráveis à patologia de Alzheimer, enquanto outras se mostram capazes de resistir a ela por anos”.

“A crença inicial era que, uma vez que essas proteínas tóxicas associadas à doença de Alzheimer se acumulam em algum neurônio, é sempre ‘fim de jogo’ para a célula, mas nosso laboratório tem descoberto que esse não é o caso”, afirmou a Profa. Lea T. Grinberg.

Durante a pesquisa foram estudados tecidos cerebrais de pessoas que morreram em diferentes estágios da doença de Alzheimer, obtidos no Biobanco para Estudos do Envelhecimento da FMUSP e no Banco de Cérebro de Doenças Neurodegenerativas da UCSF com técnicas de análise de RNA nuclear e neuropatologia quantitativa.

“As descobertas sustentam a ideia de que o acúmulo de proteína é um impulsionador crítico de neurodegeneração, mas nem todas as células são igualmente suscetíveis. Planejamos continuar estudando os fatores de vulnerabilidade seletiva, uma abordagem nova que pode direcionar para o desenvolvimento de terapias para retardar ou prevenir a propagação do Alzheimer”, explica a Profa. Lea T. Grinberg.

Por Gov. do Estado de SP

Leia o artigo na íntegra publicado pela Nature Neuroscience em https://www.nature.com/articles/s41593-020-00764-7

Pesquisadores testam vacina genética contra zika

Aposta da ciência contemporânea, vacinas de RNA nunca foram aprovadas para uso humano. Mas há muitos pesquisadores pelo mundo debruçados sobre essa tecnologia. E um estudo publicado nesta sexta (07/08) pela revista Science Advances dá esperanças neste sentido, principalmente para o Brasil — bastante atingido pelo vírus da zika nos últimos anos.

(TV Brasil/Reprodução)

A pesquisa, realizada por um grupo de cientistas de diversas instituições americanas, conseguiu resultados efetivos com vacinas genéticas em animais — primeiro em camundongos, depois em macacos-rhesus. Com uma das duas versões desenvolvidas, o índice de proteção foi total quando os animais, 49 dias depois de serem imunizados, foram submetidos ao vírus da zika.

Um dos pesquisadores envolvidos, o biólogo molecular e bioquímico Dong Yu, diretor do setor de identificação de antígenos da unidade Estados Unidos da GSK Vaccines, afirma à DW Brasil que essa tecnologia “tem o potencial de impactar significativamente o futuro da ciência das vacinas”, por sua capacidade de provocar uma “resposta imunológica forte e sustentada” no organismo. “Os dados pré-clínicos mostram que o método é promissor”, ressalta.

Tanto os envolvidos na pesquisa quanto cientistas brasileiros consultados pela reportagem, contudo, lembram que é preciso cautela. São vacinas ainda em início de desenvolvimento — e há um longo caminho até que possam ser comprovadamente consideradas seguras e eficientes para uso humano.

“Nunca foi feita nenhuma vacina por RNA ainda porque não houve oportunidade”, comenta o o médico infectologista Celso Granato, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É verdade que se trata de uma tecnologia nova e sua vantagem, em tese, seria um desenvolvimento um pouco mais rápido. Mas vamos ver se funciona, já houve tentativas que não deram certo.”

“Em teoria, qualquer técnica para fazer vacinas pode ser aplicada para qualquer doença ou contra qualquer patógeno”, diz o médico Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina. “Tudo precisa de teste: funciona? Não funciona? É viável economicamente? É o mínimo que precisa ser respondido na hora de pensar em fazer uma potencial vacina.”

Historicamente o RNA é uma molécula bem mais difícil de trabalhar no laboratório. De acordo com Zárate-Bladés, nos anos 1990, havia uma expectativa de que todas as novas vacinas fossem genéticas, mas baseadas em DNA, “mais estável e fácil de manipular” — contudo a técnica se mostrou pouco efetiva. Isso fez com que até hoje não exista vacina do tipo para uso humano. De DNA, há algumas de uso veterinário.

Covid

Mas veio a pandemia do novo coronavírus e a corrida é mundial pela descoberta, em tempo recorde, de um imunizante capaz de fazer o planeta voltar ao normal. Dentre as pesquisas mais avançadas em desenvolver a vacina, há exemplos que usam a ideia do RNA.

Conforme explica o médico Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), a técnica consiste em fazer com o RNA mensageiro entre na célula com uma mensagem da proteína imunogênica, desencadeando sua produção e exportação para fora da célula. O sistema imunológico, consequentemente, reconheceria isso como uma proteína estranha.

“Existem várias candidatas a vacinas [contra a covid-19] sendo testadas atualmente que funcionariam assim. Dentre elas, duas das mais avançadas”, comenta ele.

No caso da vacina contra zika cujo artigo foi publicado nesta sexta, Dong Ju e sua equipe fizeram adaptações na técnica para que o RNA se autoamplificasse. Esse foi o pulo do gato para que a imunização, ao menos nos testes com animais, fosse eficaz. Ele reconhece que em condições normais o desenvolvimento de uma vacina deve levar anos. Mas acha que as pesquisas urgentes que vêm sendo realizadas por conta do coronavírus podem ajudá-lo.

“Temos esperança de que a aceleração da tecnologia, por meio do processo colaborativo [com os pesquisadores de coronavírus], possa impactar os prazos de desenvolvimento de potenciais vacinas baseadas em RNA”, afirma o biólogo. “Mas isso precisa ser analisado à medida que formos acompanhando o progresso feito com as vacinas contra covid-19.”

Brasil

Depois do boom entre 2015 e 2016, os casos de zika no Brasil caíram significativamente. Se ao longo de 2016 foram registrados 215 mil infectados pelo vírus no país, nos primeiros seis meses de 2020 os dados do Ministério da Saúde indicam apenas 5 mil.

Não há uma explicação clara para o fenômeno. Segundo Granato, as hipóteses são de que o zika “perdeu na competição com outros vírus, como o da dengue, que segue firme e forte”; que a infecção tenha se tornado mais branda, do ponto de vista clínico; ou, menos provável para o médico, que nos locais onde o vírus teve mais impacto “a população de suscetíveis saturou”.

Se por um lado os dados indicam um bom cenário, por outro isso dificultaria a aprovação de uma vacina definitiva. Isto porque a fase 3 dos testes de um imunizante, segundo os protocolos, são os testes em massa. “O grande problema de uma vacina contra zika hoje é que não se pode chegar a essa fase, porque ela exige a doença ativa”, diz Kalil.

Isso não significa, de forma alguma, a interrupção das pesquisas. Conforme explica o médico, o melhor a ser feito é evoluir nas fases anteriores a essa final, deixando as vacinas “prontas”. “Então, se por acaso vier a começar algum novo surto de zika em qualquer lugar do mundo, é possível testá-la”, explica.

Por Edison Veiga

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Droga contra o zika previne microcelafia em camundongos

Um grupo internacional de pesquisadores descobriu que a inibição de uma proteína chamada AhR (receptor para aril hidrocarboneto) permite ao sistema imune combater com muito mais eficácia a replicação do vírus zika no organismo. Em experimentos feitos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), a terapia antiviral se mostrou capaz de prevenir o desenvolvimento de microcefalia e outras malformações em fetos de camundongos cujas mães foram infectadas durante a gestação.

Os resultados da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(Fapesp), foram divulgados nesta segunda-feira (20) na revista Nature Neuroscience.

“Usamos nos testes uma droga experimental capaz de inibir a AhR e observamos diminuição na replicação tanto do zika como do vírus da dengue. Agora pretendemos testar o efeito da terapia contra o novo coronavírus”, conta à Agência Fapesp o professor do ICB Jean Pierre Peron, que coordenou a investigação ao lado dos pesquisadores Cybele Garcia (Universidad de Buenos Aires, na Argentina) e Francisco Quintana (Harvard Medical School, nos Estados Unidos).

Modelo experimental

O modelo experimental usado no trabalho foi o mesmo que permitiu ao grupo de Peron comprovar, em 2016, a relação causal entre o zika e a microcefalia. Naquela ocasião, fêmeas de camundongo da linhagem SJL – bem mais suscetível à infecção do que outras normalmente usadas em laboratório – foram infectadas com o vírus entre o 10º e o 12º dia de gestação.

Quando os filhotes nasceram, os pesquisadores notaram uma redução significativa na espessura do córtex cerebral, além de alterações na quantidade e na morfologia das células neuronais. Observaram ainda que o vírus estava se replicando na placenta e no cérebro dos roedores recém-nascidos em quantidades muito maiores do que em outros órgãos.

“Repetimos agora esse experimento, mas com uma diferença. Pouco antes de infectar as fêmeas prenhas com o zika nós começamos a administrar o inibidor de AhR. O tratamento foi feito por via oral até o fim da gestação. Ao nascerem, os filhotes apresentaram cérebros com tamanho e peso normais e uma carga viral muito mais baixa que a do grupo não tratado, quase indetectável, tanto na placenta como no sistema nervoso central. Além disso, análises histopatológicas mostraram que não houve redução na espessura do córtex e que o número de células nervosas mortas pelo vírus foi muito menor”, relata Peron.

Segundo o pesquisador, os camundongos tratados com o inibidor de AhR não apresentaram efeitos adversos. Antes de se pensar em testes com humanos, porém, ele considera necessário replicar o experimento em macacos.

A pesquisa levou quatro anos para ser concluída e contou com a participação das doutorandas do ICB-USP Nagela Zanluqui e Carolina Polonio, ambas bolsistas da Fapesp.

Início

O laboratório coordenado por Quintana em Harvard é um dos principais centros mundiais de estudo da proteína AhR. Em entrevista à Agência Fapesp, o professor de neurologia conta que seu grupo descobriu há alguns anos que proteínas do tipo interferon, secretadas por células do sistema imune, controlam a ativação desse receptor celular.

“Como os interferons são moléculas centrais na resposta imune antiviral, postulamos – em conjunto com o grupo de Garcia – que a AhR poderia estar envolvida na supressão da imunidade contra vírus. Projetamos terapias anti-AhR e geramos nanopartículas e inibidores para uso nos experimentos”, diz.

Testes feitos in vitro e in vivo confirmaram que o vírus ativa a proteína AhR para suprimir a resposta imune do hospedeiro. Tal feito possivelmente ocorre quando o patógeno infecta o fígado e induz a liberação do metabólito quinurenina, um subproduto do aminoácido triptofano.

“Esse metabólito ativa a AhR que, por sua vez, inibe a expressão de uma outra proteína chamada PML [proteína leucemia promielocítica, muito importante para a resposta imune antiviral], permitindo que o zika se replique mais livremente nas células”, explica Peron.

Na Universidad de Buenos Aires, Cybele Garcia coordenou experimentos em diversos tipos de linhagens celulares, entre elas hepatócitos e progenitoras neurais – um tipo de célula-tronco que pode se diferenciar em neurônios.

“Tratamos as linhagens celulares com compostos agonistas de AhR [que amplificam a ação da proteína] e também com antagonistas [que inibem]. Confirmamos assim que a modulação negativa desse receptor inibe a replicação do zika. Do mesmo modo, comprovamos que a modulação positiva aumenta a replicação viral nas células”, conta.

Fatores ambientais

Como ressalta a virologista da Universidad de Buenos Aires, o impacto causado pela epidemia de zika em 2015 foi bastante assimétrico. Em determinadas regiões e cidades, a incidência de síndrome congênita e microcefalia causada pelo vírus foi muito maior do que em outras.

Na avaliação da pesquisadora, isso pode indicar que nesses locais afetados com mais gravidade existia uma condição ambiental que favorecia a infecção ou então que aquelas populações eram mais suscetíveis. Os dois fatores também podem ter contribuído simultaneamente para aumentar o impacto do vírus.

“Coincidentemente, a AhR pode ser ativada por poluentes ambientais, bem como por uma certa dieta ou pela microbiota endógena. Nosso próximo desafio é descartar ou confirmar se existe uma relação entre a AhR, ambientes poluídos ou degradados socioeconomicamente e uma maior virulência do zika”, conta Garcia à Agência Fapesp.

O artigo (em inglês) pode ser lido em www.nature.com/articles/s41593-020-0664-0.

*com informações do Governo do Estado de SP

Estudo inédito encontra Coronavírus no esgoto

(Arquivo/Carolina Gonçalves/Agência Brasil)

Pesquisa inédita identificou a presença do novo coronavírus no esgoto despejado no Ribeirão Arrudas e no Ribeirão do Onça, nos municípios de Belo Horizonte e de Contagem, em Minas Gerais. Conforme coletas realizadas entre 13 a 24 de abril, o vírus causador do covid-19 foi encontrado em oito de 26 amostras examinadas, equivalente a 31%.

Das oito amostras positivas para o novo coronavírus, três foram coletadas na sub-bacia do Ribeirão Arrudas e cinco na sub-bacia do Ribeirão do Onça.

Não há evidências científicas de que a doença possa ser transmitida por água atingida pelo esgoto. O monitoramento fornece, no entanto, informação estratégica para os gestores da saúde pública sobre as áreas e regiões com risco de maior incidência de transmissão

A pesquisa terá duração de dez meses e envolve o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (UFMG), a Agência Nacional de Águas (ANA), o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG).

Cientistas brasileiros testam remédio que reduz 94% da carga viral do Coronavírus

(Anvisa/Reprodução)

Nos próximos dias, cientistas brasileiros vão iniciar os testes clínicos com um medicamento que apresentou 94% de eficácia em ensaios in vitro na redução da carga viral em células infectadas pelo novo coronavírus. De acordo com o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Marcos Pontes, os testes serão feitos em 500 pacientes internados com covid-19, em sete hospitais do país: cinco no Rio de Janeiro, um em São Paulo e um em Brasília.

O nome do medicamento só será divulgado após o fim do protocolo de pesquisa clínica, até que seja demonstrada a sua eficácia e segurança em pacientes, “para evitar uma correria em torno do medicamento”. Mas, de acordo com Pontes, é um remédio de baixo custo, bem tolerado e disponível inclusive em formulações pediátricas. “Por que isso é importante? Ele tem uma vantagem muito grande, tem pouco efeito colateral e pode ser empregado numa grande faixa da população”, explicou.

O ministro destacou a importância e o trabalho na ciência brasileira na busca por soluções contra a pandemia de covid-19. “Nós estamos falando de ciência feita no Brasil, uma ciência respeitada em todo o mundo. Os nossos cientistas são muito responsáveis, não só pelo conhecimento, mas pela atitude, esse pessoal tem trabalhado dia e noite. Muitos são bolsista e estamos conseguindo resultados por meio do trabalho desses pesquisadores”, disse o ministro. “Espero que vocês como brasileiros também tenham orgulho desses cientistas”, ressaltou.

Replicação viral

Foram realizados testes com dois mil medicamentos que já são comercializados em farmácias para verificar se existe algum capaz de se ligar ao vírus e de bloquear a replicação viral. A estratégia, chamada de reposicionamento de fármacos, foi adotada por cientistas do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), em Campinas, que integra o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Ao final, os pesquisadores identificaram seis moléculas promissoras que seguiram para teste in vitro com células infectadas com o novo coronavírus. Desses seis remédios pesquisados, os cientistas do CNPEM descobriram que dois reduziram significativamente a replicação do vírus. O remédio mais promissor apresentou 94% de eficácia em ensaios com as células infectadas.

O protocolo de ensaios clínicos foi aprovado nesta terça-feira (14) pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. O medicamento será ministrado por cinco dias nos pacientes e mais nove serão necessários para observação. Serão incluídos no estudo pessoas que chegarem aos hospitais com pneumonia e sintomas de covid-19: febre, tosse seca e as características da tomografia com vidro fosco.

O grupo de testagem será amplo, com qualquer pessoa maior de 18 anos, mas não para os casos muito graves. O paciente deverá assinar um termo de consentimento para participar do protocolo, que consiste na administração aleatória do medicamento ou de placebo. A expectativa é que o estudo seja concluído em quatro semanas. “Isso é feito de forma extremamente científica, usando todo o formalismo científico, para que a gente não tenha dúvidas”, destacou o ministro.

O desenvolvimento do estudo no LNBio ocorre no âmbito da Rede Vírus do MCTIC, responsável pela articulação dos laboratórios de pesquisa e especialistas na continuidade dos estudos com pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Testes e vacinas

O ministro também apresentou hoje o resultado do trabalho do CTVacinas, da Universidade Federal de Minas Gerais, que também por meio da Rede Vírus, desenvolveram um reagente nacional que tem a mesma performance de reagentes importados para testes diagnósticos de covi-19. “Isso dá autonomia para o país e a possibilidade de aumentar a produção para os tipos de teste que estão sendo feitos no Brasil”, explicou Pontes.

Outra pesquisa apresentada pelo ministro é o desenvolvimento de um teste para detecção do novo coronavírus que não precisa de reagente químico. “É um equipamento que faz reação com laser a partir da saliva da pessoa que está sendo testado”, explicou. O processamento do diagnóstico é feito por meio de inteligência artificial e o resultado fica pronto em menos de 1 minuto.

O sensor está sendo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Teranóstica e Nanobiotecnologia (INCT TeraNano), da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais. De acordo com Pontes, com a informatização das unidades de saúde, em 20 dias, será possível colocar um número considerável dessas máquinas no país, cerca de mil máquinas capazes de fazer até 500 testes por dia.

“Imaginando que tudo isso funcione [o remédio e os testes], em meados de maio teremos ferramentas muito efetivas para combater essa pandemia no Brasil e resolver todos esses problemas”, disse o ministro.

Por Andreia Verdélio – Repórter da Agência Brasil 

USP desenvolve ventilador pulmonar de baixo custo

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Protótipo de ventilador pulmonar desenvolvido por pesquisadores da USP é do tipo aberto, sem linhas de ar comprimido (Poli/USP/Divulgação)

Pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) estão desenvolvendo um ventilador pulmonar de baixo custo, que poderá ser fabricado apenas com componentes disponíveis no mercado brasileiro. Batizado de Inspire, o ventilador pretende suprir grande demanda do aparelho hospitalar devido à pandemia do coronavírus.

 “A cadeia de produção instalada atualmente deste tipo de equipamento talvez não consiga sustentar a demanda da população brasileira nas próximas semanas”, destacou um dos coordenadores do projeto, o professor Raul González Lima, especialista em Engenharia Biomédica e um dos coordenadores do projeto, titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli-USP .

“Esses equipamentos [hoje comercializados] dependem de muitos componentes importados, e nem todos estão em estoque na quantidade necessária. Os componentes podem não chegar a tempo para fazer essa produção”, acrescentou.

O aparelho, cujo protótipo já está em produção, é do tipo aberto. Ele não precisa de linhas de ar comprimido – que também poderão estar em falta nos hospitais brasileiros em razão do grande número de pacientes decorrentes da pandemia.

“Possivelmente faltarão linhas de ar comprimido nos leitos de hospital, o que torna necessário o bombeamento de ar para o paciente, na hipótese da indisponibilidade. É uma demanda crítica e pontual, e depois essa tecnologia pode ser usada em áreas remotas, em que um hospital não esteja próximo”, ressaltou o professor.

Robôs de telepresença



O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP já está testando três robôs para o teleatendimento de pessoas com suspeita de coronavírus e também para “televisitas”, quando o paciente está impossibilitado de receber visitas. 

“O departamento de gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP chegou para a gente com demanda de proteger colaboradores contra a possibilidade de contaminação daqueles pacientes que chegam da rua com sintomas. Procuramos uma solução colocando um funcionário ou enfermeira por trás de uma telepresença para fazer essa triagem”, explicou a coordenadora do projeto, a médica Lilian Arai.

De acordo com a médica, os aparelhos foram emprestados por uma empresa que está fazendo uma ação social durante a crise. De acordo com Arai, os equipamentos têm papel fundamental na humanização dos pacientes internados com coronavírus.

“Os pacientes que estão internados não tem acesso aos contatos com parentes, a atendimentos psicológicos. Então estamos buscando encontrar formas de dar um alento do lado mais humanitário.

É o robô que vai estar trazendo para a gente a possibilidade de humanização no atendimento desses pacientes”, destacou.

Por Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil 

Fapesp investirá R$ 30 mi em pesquisa sobre Coronavírus

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lança duas chamadas de propostas no valor de R$ 30 milhões para direcionar iniciativas de pesquisa ao combate à Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, e estimular micro e pequenas empresas a desenvolver projetos que resultem em inovações tecnológicas voltadas ao diagnóstico e tratamento dos doentes.

“O combate a epidemias e doenças em geral é sempre um processo complexo, que exige ações técnicas, pessoal treinado e decisões políticas, fundamentadas na ciência. Os dois editais emergenciais da Fapesp se destinam a financiar o desenvolvimento de boas ideias para o combate à epidemia, tanto no que diz respeito ao conhecimento científico relativo ao agente, seus efeitos no organismo e tratamentos, como em seus aspectos tecnológicos, em especial, à criação de produtos e serviços que melhorem a nossa capacidade de reação”, disse Marco Antonio Zago, presidente da Fapesp.

Detalhes

Na primeira chamada, a Fapesp disponibilizará R$ 10 milhões suplementares para redirecionar projetos de pesquisa já em andamento, nas modalidades Temático e Jovens Pesquisadores e em Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) e Centros de Pesquisa em Engenharia (CPEs), para a compreensão, redução de risco, gestão e prevenção da Covid-19 e do coronavírus.

A expectativa é mobilizar pesquisadores do Estado de São Paulo em torno dos estudos das características epidemiológicas da enfermidade, no desenvolvimento de testes diagnósticos, terapias e procedimentos terapêuticos, nos estudos sobre aspectos críticos da infecção viral, na pesquisa em procedimentos clínicos, na identificação e avaliação das respostas imunes, nas investigações epidemiológicas e na pesquisa sobre a contenção e minimização de comportamentos contraproducentes para a epidemia, entre outros desafios que cercam a Covid-19.

Os projetos de pesquisa devem ter duração de 24 meses e o valor máximo de cada proposta será de R$ 200 mil. O prazo para submissão de projetos vai até 22 de junho de 2020.

Linha especial

Na segunda chamada, a Fapesp oferece uma linha especial de financiamento, no âmbito do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE – Fase III), em parceria com Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no valor de R$ 20 milhões, para apoiar micro e pequenas empresas e startups dispostas a aplicar ou escalonar processos ou produtos inovadores relacionados à doença, a exemplo de kits diagnósticos, ventiladores pulmonares, equipamentos de proteção aos profissionais da saúde, soluções de tecnologias digitais e inteligência artificial para os serviços de saúde ou atendimento aos pacientes.

No PIPE-Fase III, resultado de um acordo entre a Fapesp e a Finep, as empresas devem realizar, em até 24 meses, o desenvolvimento comercial e industrial de produtos ou processos. Nesta chamada, cada projeto aprovado contará com até R$ 1,5 milhão.

O prazo para submissão de propostas é 6 de abril de 2020, podendo ser republicado por mais 15 dias, caso a demanda das propostas submetidas seja inferior aos recursos disponíveis.

“Serão selecionados projetos apresentados por startups e empresas com até 250 empregados, de desenvolvimento processos e serviços inovadores, de forma que os produtos resultantes possam ser colocados no mercado em uma situação emergencial como esta. Refiro-me ao desenvolvimento de testes diagnósticos, ventiladores pulmonares portáteis, soluções digitais para controle da disseminação do vírus, entre outros”, disse Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico Administrativo da Fapesp.

Soluções

A expectativa é de que a comunidade de pesquisa e as empresas de base tecnológica de São Paulo ofereçam soluções que contribuam para o combate à Covid-19, com a mesma disposição e competência com que enfrentaram outras infecções emergentes, como a dengue, febre amarela, zika e chikungunya.

Chamada de propostas de pesquisa – Suplementos de Rápida Implementação contra Covid-19: Temáticos, Jovens Pesquisadores, CEPIDs e CPEs.

Edital de Pesquisa para o Desenvolvimento de Tecnologias para Produtos, Serviços e Processos para o Combate à Doença por Corona Vírus 2019: PAPPE-PIPE.

*Com informações do Governo do Estado de SP

Brasileiros trabalham em vacina contra Coronavírus

(Josué Damacena/IOC Fiocruz)

Cientistas do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvem uma vacina contra o Sars-CoV-2, variedade do coronavírus que provoca síndrome respiratória aguda grave. O diretor do laboratório e coordenador do projeto, Jorge Kalil, ressalta que a vacina não deverá ficar pronta logo, uma vez que o processo envolve rigorosos testes de segurança.

A equipe do laboratório do Incor ainda realizará testes em camundongos para comprovar a eficácia da vacina. Em seguida, buscará firmar colaborações com outras instituições de pesquisa para finalizar o desenvolvimento da substância e produzir uma candidata a vacina contra Covid-19.



Em entrevista à Agência Brasil, Jorge Kalil disse que não é possível precisar quando a vacina será lançada, devido à série de protocolos que devem ser seguidos à risca. Ele ponderou, ainda, que “fazer uma vacina não significa produzir a vacina”, mas sim “o conceito da vacina e como ela vai funcionar”.

“Mesmo as vacinas que estão sendo feitas no exterior, mesmo que comecem a testar em humanos daqui a dois, três meses, dificilmente isso vai estar disponível antes de um ano e meio, dois anos, porque você tem que testar, ter a capacidade de produzir essa vacina industrialmente. Tem, primeiro, que ver se não é tóxica, depois tem que ver se ela induz, realmente, anticorpos neutralizantes em humanos, porque, às vezes, modelos animais que a gente usa não representam exatamente o que a gente encontra em humanos. Então, tem uma série de etapas que precisam ser feitas”, explicou Kalil, que foi ex-diretor do Instituto Butantan.

“É claro que, hoje em dia, nós temos várias tecnologias com as quais a gente consegue ir muito rápido, mas, mesmo assim, a gente não pode passar todos os testes de segurança, para que não cause mais problemas do que ajude as pessoas”, disse.

Proposta diferente

De acordo com o pesquisador, a proposta dessa vacina é diferente da que vem sendo apresentada por especialistas de outros países. A expectativa é que o método escolhido permita que o corpo da pessoa vacinada tenha uma resposta de defesa melhor, ou seja, imunológica, a partir do reconhecimento de partículas semelhantes ao vírus (em inglês virus like particles). As VLP imitam o vírus, mas não têm, como ele, capacidade de se multiplicar, de acordo com Kalil.

Kalil explicou que junto com os antígenos, cuja função é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos, serão inoculadas VLPs no corpo da pessoa imunizada. “Quando nós construirmos essa partícula viral, vamos colocar nela fragmentos da proteína mais importante para neutralizar o vírus, que é a proteína da espícula viral, parte externa do vírus que parece uma flor e que é a que gruda na célula”, disse Kalil, em referência à coroa que os coronavírus possuem e que definiu seu nome.

“Tem várias tipos de vacina que são utilizadas hoje em dia nos programas de saúde. Por exemplo, a vacina de sarampo é uma vacina com o vírus atenuado, ou seja, você deixa o vírus fraquinho e injeta na pessoa, que produz anticorpo contra aquele vírus fraquinho e aqueles anticorpos o neutralizam. Na vacina contra a gripe, a gente usa uma contra-técnica. A gente produz uma grande quantidade de vírus, como aqui no Brasil, no Instituto Butantan, e depois a gente mata esse vírus, inativa-o, e faz pequenos fragmentos do vírus, destrói o vírus, inclusive, e injeta nas pessoas, que produzem anticorpos contra as partículas. Esses anticorpos vão neutralizar o vírus e ele não ataca”, explicou.

“Eu posso também fazer uma vacina como a da hepatite, que é só a proteína principal do vírus que a gente injeta. E a gente pode fazer, ainda, vacina em que a gente dá a informação para o organismo da proteína principal do vírus para neutralizá-lo e, dentro do organismo, esses ácidos nucleicos se expressam, fazem a proteína e a gente faz anticorpo contra. A nossa proposta é diferente”.

Articulação de enfrentamento

Para Jorge Kalil, os países que têm encarado mais habilmente a pandemia de coronavírus são a China, Singapura e a Coreia do Sul, esta “porque fez diagnóstico de pessoas em massa e conseguiu isolar infectados”.

O diretor disse que o governo italiano permitiu que a transmissão se tornasse “uma catástrofe” e atingisse um “nível exponencial”, que, segundo ele, pode se repetir no Brasil, caso as autoridades governamentais não tomem providências. Já no caso dos Estados Unidos, a avaliação é que o governo foi “negligenciando o perigo”, embora tenha chance de mitigar parte dos danos, por ser detentor de um volume expressivo de verbas.

“O que seria importante é a gente desbloquear recursos – está muito difícil recurso para a ciência, no Brasil –, para que a gente possa trabalhar e também facilitar a importação de todos os reagentes, para que a gente não perca tempo com muita burocracia e consiga trazer o que for necessário para o Brasil, para gente trabalhar, seja na vacina, seja no diagnóstico, seja para obter resultado de outras drogas, o que for”, ressaltou Kalil.

Por Letycia Bond – Repórter da Agência Brasil

USP produz Coronavírus em laboratório e reduz custo com testes

À esquerda célula humana não infectada e à direita o Coronavírus se multiplicando em célula cultivada em laboratório (ICB/Reprodução)

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) conseguiram isolar e cultivar em laboratório o coronavírus SARS-CoV-2 obtido dos dois primeiros pacientes brasileiros diagnosticados com a doença no Hospital Israelita Albert Einstein.

Os vírus serão distribuídos para grupos de pesquisa e laboratórios clínicos públicos e privados em todo o país com o objetivo de ampliar a capacidade de realização de testes diagnósticos e avançar em estudos sobre como a doença é causada e se propaga.

“A disponibilização de amostras desse vírus cultivados em células permitirá aos laboratórios clínicos terem controles positivos para validar os testes de diagnóstico, de modo a assegurar que realmente funcionem”, disse à Agência FAPESP Edison Luiz Durigon, professor do ICB-USP e coordenador do projeto, apoiado pela FAPESP.



De acordo com o pesquisador, a falta dessas amostras do vírus para serem usadas como controles positivos era um dos fatores que limitavam o diagnóstico de coronavírus no Brasil.

Como o SARS-CoV-2 surgiu no exterior, as amostras de vírus que têm sido utilizadas como controle positivo nas técnicas de diagnóstico empregadas por laboratórios brasileiros nesse início do surto no país são importadas da Europa e dos Estados Unidos, a um custo que varia entre R$ 12 mil e R$ 14 mil.

Por isso, o diagnóstico de casos da doença no país tem sido feito principalmente por laboratórios privados e laboratórios de referência no setor público que têm recebido os casos suspeitos.

Na rede pública, quatro laboratórios de referência nacional realizam os testes atualmente: Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo; Instituto Evandro Chagas, no Pará; Fiocruz, no Rio de Janeiro; e Laboratório Central de Goiás, que foi capacitado para realização do exame específico para coronavírus dos brasileiros repatriados da China.

O primeiro teste tem sido feito pelos hospitais de referência de cada estado e o material coletado é então encaminhado para um desses quatro laboratórios para contraprova.

“Os vírus que conseguimos cultivar em laboratório poderão ser usados em um kit para diagnóstico que o Ministério da Saúde distribuirá para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública [Lacens] em todo o país. Com isso, todos os estados estarão aptos a realizar o diagnóstico”, disse Durigon.

Os vírus serão distribuídos para os laboratórios clínicos inativados, ou seja, sem a capacidade de infectar células, e em temperatura ambiente. Os vírus importados hoje pelos laboratórios brasileiros têm de ser transportados sob refrigeração, em gelo seco, o que encarece muito o frete, explicou o pesquisador.

Os laboratórios clínicos receberão alíquotas com mais ou menos 1 mililitro (ml) de vírus inativado. O ácido nucleico dessas amostras será então extraído e usado como controle positivo em exame baseado na técnica conhecida como RT-PCR (reação em cadeia da polimerase em tempo real, na sigla em inglês).

Essa técnica permite amplificar o genoma do vírus em uma amostra clínica, aumentando em milhões o número de cópias do RNA do coronavírus. Dessa forma, é possível detectá-lo e quantificá-lo em uma amostra clínica.

“O PCR permite fazer o diagnóstico em até quatro horas. Mas ainda são poucos os laboratórios no país que têm o equipamento disponível”, disse Durigon.



A fim de superar essa limitação, os pesquisadores também pretendem desenvolver outros testes de diagnóstico baseados em outras técnicas mais acessíveis, como análise por imunofluorescência – método que permite visualizar antígenos em uma amostra por meio de corantes fluorescentes.

“Se conseguirmos validar um teste desse tipo específico para o coronavírus seria possível que outros laboratórios e hospitais que não têm o equipamento para o exame por RT-PCR também façam diagnóstico”, avaliou Durigon.

O legado do zika

Segundo o pesquisador, o isolamento e a reprodução do coronavírus em laboratório foram possíveis por meio de recursos obtidos da FAPESP para a instalação no ICB-USP de dois laboratórios de nível de biossegurança 3, destinados à manipulação de agentes com potencial de causar doenças graves ou infecção letal. A infraestrutura foi inicialmente criada para o cultivo do vírus zika.

A construção desses laboratórios no início de 2016, no auge da epidemia do vírus zika no país, tem permitido cultivar, agora, não só o coronavírus, mas também o influenza (causador da gripe) e outros, a fim de avançar no diagnóstico de vírus emergentes, ressaltou Durigon.

“Quando houve o surto de zika, no final de 2015, fomos pegos de surpresa e conseguimos, com recursos da FAPESP, também ser os primeiros a isolá-lo e cultivá-lo em laboratório para disponibilizá-lo para os laboratórios e grupos de pesquisa”, disse.

Por meio de um projeto denominado “Genoma Vírus”, também apoiado pela FAPESP, iniciado em 2003, foi possível formar e capacitar uma rede de 18 laboratórios no Estado de São Paulo para fazer diagnóstico de vírus respiratório por RT-PCR e sequenciamento de genoma.

Com o surgimento do vírus zika, a rede foi acionada e permitiu avançar no diagnóstico e na compreensão da doença no país, afirmou Durigon.

“Por isso o financiamento contínuo à pesquisa é importante. Em razão dos investimentos feitos no passado há uma infraestrutura de pesquisa em São Paulo que permitirá responder mais rapidamente às demandas, sem sair do zero”, disse. O grupo de pesquisadores da USP tem monitorado a circulação sazonal de quatro outros coronavírus nos país. Os resultados dos estudos indicaram que a circulação acontece principalmente no inverno.

“É provável que São Paulo e Rio Grande do Sul tenham maior número de casos de infecção no inverno porque são os estados mais frios”, afirmou Durigon.

Por Elton Alisson – Repórter da Agência Fapesp