Em estudo inédito, Reino Unido vai contaminar voluntários com covid-19

Em busca de uma melhor compreensão sobre o novo coronavírus, um estudo científico britânico infectará intencionalmente voluntários com o patógeno da covid-19, anunciou nesta quarta-feira (17/02) o governo do Reino Unido, após aprovação pelo órgão do país responsável por questões éticas envolvendo ensaios clínicos.

Com isso, o Reino Unido se tornou o primeiro país do mundo a dar o aval para que voluntários sejam deliberadamente expostos à covid-19. A medida visa impulsionar a pesquisa científica sobre a doença causada pelo coronavírus Sars-Cov-2.

Os testes devem começar dentro de um mês e contar com até 90 voluntários saudáveis com idades entre 18 e 30 anos. Eles serão expostos, em um ambiente seguro e controlado, à menor quantidade do vírus necessária para causar uma infecção, conforme explicaram os cientistas responsáveis pelo projeto em comunicado.

O objetivo é descobrir como o sistema imunológico responde ao vírus e identificar os fatores que influenciam a forma como uma pessoa infectada transmite a doença. Para tornar o teste o mais seguro possível, não serão usadas novas variantes do coronavírus mais contagiosas.

“A segurança dos voluntários é primordial, o que significa que este estudo de caracterização do vírus usará inicialmente a versão do vírus que circula no Reino Unido desde março de 2020 e tem se mostrado de baixo risco em adultos jovens saudáveis”, diz o comunicado.

R$ 650 por dia para ser infectado

Os voluntários serão examinados quanto a possíveis riscos à saúde antes de serem autorizados a participar e serão mantidos em quarentena e acompanhados de perto por pelo menos 14 dias por uma equipe médica numa unidade especializada no Hospital Royal Free, em Londres.

Os participantes terão permissão para retornar às suas casas após os 14 dias iniciais apenas se exames extensivos apontarem que eles não são mais capazes de transmitir a doença. Os voluntários receberão uma compensação de cerca de 88 libras esterlinas (R$ 650) para cada dia dedicado ao estudo, que também envolverá monitoramentos periódicos por um ano.

Participam do estudo a força-tarefa de vacinas do governo britânico, o Imperial College de Londres, a Royal Free London NHS Foundation Trust – fundação ligada ao Serviço Nacional de Saúde (NHS) – e a empresa clínica hVIVO, que já conduziu estudos semelhantes.

Cientistas utilizam testes do tipo em humanos há décadas para aprender mais sobre doenças como malária, gripe, febre tifoide e cólera, e para desenvolver e aprimorar tratamentos e vacinas.

Ativistas de um grupo chamado 1Day Sonner, que tem pressionado governos em todo o mundo para realizar testes em humanos com o novo coronavírus, parabenizaram a iniciativa do Reino Unido e afirmaram que o projeto irá acelerar a pesquisa de vacinas e tratamentos contra a covid-19.

Por Deutsche Welle

pv/lf (Reuters, DPA)

Alzheimer: Cientistas brasileiros identificam células cerebrais mais vulneráveis

(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Um estudo inédito sobre a vulnerabilidade seletiva no nível dos neurônios individuais e com o mapeamento das primeiras células acometidas pela doença de Alzheimer foi publicado na revista científica Nature Neuroscience, no dia 27 de janeiro de 2021, com o título “Markers of vulnerable neurons identified in Alzheimer disease”. O trabalho foi realizado por um grupo de pesquisadores, composto por cinco brasileiros da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com cientistas da University of California San Francisco (UCSF), dos Estados Unidos.

A autora-sênior, Profa. Lea Tenenholz Grinberg, do Departamento de Patologia da FMUSP e associada ao Departamento de Neurologia da UCSF, diz que “alguns neurônios sucumbem à doença anos antes dos primeiros sintomas aparecerem, enquanto outros parecem impermeáveis à degeneração que as cerca e perduram até os estágios finais da doença. Tornou-se uma questão premente para nós entender os fatores específicos que tornam algumas células seletivamente vulneráveis à patologia de Alzheimer, enquanto outras se mostram capazes de resistir a ela por anos”.

“A crença inicial era que, uma vez que essas proteínas tóxicas associadas à doença de Alzheimer se acumulam em algum neurônio, é sempre ‘fim de jogo’ para a célula, mas nosso laboratório tem descoberto que esse não é o caso”, afirmou a Profa. Lea T. Grinberg.

Durante a pesquisa foram estudados tecidos cerebrais de pessoas que morreram em diferentes estágios da doença de Alzheimer, obtidos no Biobanco para Estudos do Envelhecimento da FMUSP e no Banco de Cérebro de Doenças Neurodegenerativas da UCSF com técnicas de análise de RNA nuclear e neuropatologia quantitativa.

“As descobertas sustentam a ideia de que o acúmulo de proteína é um impulsionador crítico de neurodegeneração, mas nem todas as células são igualmente suscetíveis. Planejamos continuar estudando os fatores de vulnerabilidade seletiva, uma abordagem nova que pode direcionar para o desenvolvimento de terapias para retardar ou prevenir a propagação do Alzheimer”, explica a Profa. Lea T. Grinberg.

Por Gov. do Estado de SP

Leia o artigo na íntegra publicado pela Nature Neuroscience em https://www.nature.com/articles/s41593-020-00764-7

Quem teve covid-19 cria imunidade, mas pode transmitir vírus para outras pessoas

Pesquisadores do Reino Unido divulgaram nesta quinta-feira (14/01) um estudo que afirma que pessoas que já foram infectadas pelo coronavírus estão propensas a desenvolver imunidade contra a doença por pelo menos cinco meses.

Conclusões preliminares de cientistas da agência governamental Saúde Pública da Inglaterra (PHE) demostram que as são raras reinfecções em pessoas que tiveram anticorpos contra covid-19 depois de contraírem o vírus pela primeira vez. Foram observados apenas 44 casos em mais de 6 mil pessoas que já haviam sido infectadas.

Entre 18 de junho em 24 e novembro de 2020, os cientistas detectaram 44 potenciais reinfecções – duas “prováveis” e 42 “possíveis” – entre 6.614 profissionais de saúde que testaram positivo para anticorpos. Isso representa um índice de proteção às reinfecções de 83%.

“Imunidade natural” não impede transmissão do vírus

Os especialistas, porém, alertam que as pessoas que contraíram o coronavírus nos primeiros meses de 2020 já podem estar novamente vulneráveis à doença. Eles afirma que os que possuem a chamada “imunidade natural” – adquirida após a infecção – podem ainda estar aptos a transportarem o Sars-Cov-2 em seus narizes e gargantas, o que lhes deixaria capazes de transmitir o vírus.

“Sabemos que a maioria daqueles que tiveram o vírus e desenvolveram anticorpos está protegida da infecção, mas isso não vale para todos, e não sabemos ainda a duração dessa proteção”, afirma Susan Hopkins, consultora médica sênior do PHE e colíder do estudo.

“Isso significa que mesmo se você acreditar que está protegido porque já teve a doença, pode ser altamente improvável que vá desenvolver infecções graves. Mas, há o risco de que ainda possa adquirir uma infecção e transmiti-la aos outros”, alertou.

No estudo, intitulado Siren, os pesquisadores esclareceram que as conclusões não levam em conta os anticorpos ou outras reações de imunidade resultantes das vacinas. Estes efeitos serão incluídos nas pesquisas ainda este ano.

“Quadro mais claro até agora sobre proteção dos anticorpos”

“Esse estudo nos proporciona o quadro mais claro até agora sobre a natureza da proteção dos anticorpos contra a covid-19, mas é fundamental que as pessoas não compreendam equivocadamente essas conclusões preliminares”, observou Hopkins

Os pesquisadores continuarão a monitorar os participantes do estudo para avaliar se a imunidade natural pode durar mais tempo. Entretanto, resultados iniciais da fase seguinte da pesquisa sugerem que algumas pessoas consideradas imunes podem transportar cargas altas de coronavírus e serem capazes de transmitir a doença.

“Dessa forma, é crucial que todos continuem a seguir as regras e ficarem em casa, mesmo que já tenham sido infectadas com covid-19”, afirmam os cientistas britânicos. A pesquisa do PHE ainda não foi avaliada por cientistas de outras instituições, o que é uma etapa fundamental do processo científico.

Por Deutsche Welle

RC/rtr/afp

Descoberta de cientistas brasileiros pode levar a remédios mais eficientes contra HIV

A descoberta de um potencial “calcanhar de aquiles” da proteína Nef, crucial na virulência do HIV e em sua capacidade de desencadear a Aids, abre caminhos para a busca de uma nova classe de medicamentos contra o vírus. Pesquisadores conseguiram demonstrar uma estrutura que liga essa proteína a outra, chamada AP-2, e cuja função é regular a entrada na célula.

Com isso, está ficando cada vez mais clara a forma como Nef consegue “burlar” os mecanismos de defesa das células humanas e, assim, permitir que o HIV avance e reduza o tempo em que os sintomas da doença possam aparecer.

No artigo Hijacking of endocytosis by HIV-1 Nef is becoming crystal clear,publicado em agosto na Nature Structural & Molecular Biology (NSMB), o doutorando Yunan Januário e o professor Luis Lamberti Pinto da Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), comentam a importância das recentes descobertas sobre essa proteína.

“Pesquisadores conseguiram obter a estrutura tridimensional entre Nef-CD4 e AP-2. Com isso, é possível ver as superfícies de contato, possibilitando outros estudos que gerem uma molécula para ocupar esse espaço e impeça o avanço dos efeitos da proteína. Essa ‘fotografia’ possibilita a busca de outras terapias anti-HIV”, explica Silva à Agência FAPESP.

Com mais de 15 anos de experiência na área, Silva foi convidado a comentar na publicação do grupo Nature o estudo Structural basis of CD4 downregulation by HIV-1 Nef, publicado na mesma edição da revista e cujo primeiro autor é a pesquisadora Yonghwa Kwon.

O painel A mostra a distribuição normal de CD4 (em verde) e MHC-I (HLA, em vermelho) em linfócitos T. O painel B mostra a mudança na distribuição dessas duas proteínas em um linfócito T que também expressa a proteína Nef do HIV. (imagem: Estela A. Pereira e Luis L. P. da Silva/FMRP-USP)

“Notavelmente, o estudo de Kwon e colaboradores mostra que Nef liga diretamente CD4 a AP-2. Também revela uma relação estrutural entre a regulação negativa de CD4 mediada por Nef e o antagonismo de Nef ao complexo principal de histocompatibilidade I (MHC-I)”, escrevem os dois brasileiros em seu artigo na NSMB.

Segundo Silva, já se sabe que Nef é fundamental para a progressão dos efeitos do HIV no desenvolvimento da Aids. Além disso, essa proteína pode continuar sendo produzida pelo organismo de pacientes em tratamento ou cujos níveis de vírus se mantenham abaixo dos detectáveis. “Isso tem sido relacionado com comorbidades da infecção. Nef é importante e não existe nenhuma droga para atacá-la”, completa o professor.

Ao longo dos últimos quase 40 anos, desde a descoberta do vírus da imunodeficiência humana como agente causador da Aids, as pesquisas vêm desvendando os intrincados mecanismos pelos quais o HIV ataca o sistema imunológico, invadindo e controlando as células. Mas até agora não foi possível bloquear diretamente a Nef, que já se mostrou uma proteína multifuncional e com intrincado sistema de funcionamento. Ela não faz parte da estrutura do HIV, mas modifica a célula para acomodar a replicação do vírus.

Atualmente, os medicamentos antirretrovirais, divididos em classes, agem no sistema imunológico do paciente, bloqueando as diferentes fases do ciclo de multiplicação do HIV, reduzindo a carga viral e até impedindo o desenvolvimento da doença.

Entre os antirretrovirais mais comuns estão, por exemplo, inibidores da transcriptase reversa (nucleosídeos e não nucleosídeos), que atuam nessa enzima para tornar defeituosa a cadeia de DNA que o vírus cria dentro da célula de defesa do organismo ou para bloquear diretamente sua multiplicação. Há também inibidores de protease e de integrase (proteína responsável pela integração do código genético do HIV ao da célula humana), além dos chamados inibidores de entrada, que bloqueiam receptores, como CCR5, e impedem o HIV de penetrar nas células de defesa.

A crescente resistência do HIV aos medicamentos atuais e os efeitos colaterais para pacientes, no entanto, têm feito com que cada vez mais se busquem novas formas de combater o vírus.

O Programa das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) calcula que, em 2019, cerca de 38 milhões de pessoas viviam com o vírus em todo o mundo, dos quais 1,8 milhão de crianças com até 14 anos. Já o Ministério da Saúde estima que aproximadamente 866 mil brasileiros eram portadores do HIV no ano passado. Do total no mundo, 67% tinham acesso à terapia antirretroviral, segundo a Unaids.

Outras ligações

Por meio dos trabalhos com seu grupo de pesquisa na USP de Ribeirão Preto, Silva publicou no início do ano um estudo mostrando como Nef utiliza uma outra proteína celular, a AP-1G2, e o ponto entre essas duas vias. Esse trabalho teve o apoio da FAPESP.

Ao analisar os efeitos de Nef no sistema de endomembranas da célula hospedeira, o grupo descreveu os mecanismos pelos quais essa proteína utiliza uma outra, chamada AP-1G2, e manda o CD4 para os lisossomos – organelas com capacidade de degradar partículas –, retirando assim essas moléculas da superfície da célula. Essa ação de Nef facilita a saída de novos vírus da célula produtora, contribuindo para espalhar a infecção.

Isso porque o CD4 é o receptor usado pelo HIV para entrar na célula. Se ele permanece na superfície da célula produtora, esses novos vírus ficam presos e não se espalham tão facilmente. Por isso, Nef tira o CD4 da superfície da célula já infectada.

“Mostramos que há um ponto comum entre essas duas vias. Para mandar CD4 e MHC-I para o lisossomo, Nef sequestra uma terceira proteína da célula, comum às duas vias. Agora, com esse resultado, outros grupos podem mostrar a estrutura de Nef com a terceira proteína. Com isso, é possível obter um novo alvo, como foi feito com AP-2”, completa Silva.

Atualmente, o grupo de Silva trabalha em mais uma pesquisa, também com o apoio da FAPESP, cujo foco é descobrir novos alvos de Nef. “Vários ingredientes estão disponíveis. Agora tem de chegar alguém e costurar tudo isso para obter essa molécula capaz de inibir Nef”, conclui o pesquisador brasileiro.  

Por Luciana Constantino, da Agência FAPESP

Crianças sem sintomas podem carregar vírus por semanas

À medida que escolas em várias partes do mundo reabrem, um estudo americano sobre o potencial de transmissão do coronavírus Sars-Cov-2 entre crianças apresenta resultados preocupantes, capazes de influenciar o debate sobre a volta às aulas.

Segundo as pesquisadoras do Hospital Nacional Infantil de Washington, crianças infectadas podem transmitir a doença durante semanas, mesmo que não apresentem sintomas.

O resultado corrobora o que já havia sido apontado em um estudo anterior, em que pesquisadores em Boston mostraram que crianças e jovens tinham cargas virais surpreendentemente altas.

O novo estudo, publicado em 28 de agosto no site da revista médica Jama Pediatrics, foi conduzido por Roberta L. DeBiasi e Meghan Delaney. Elas analisaram dados de 91 crianças em 22 hospitais da Coreia do Sul.

“Ao contrário do sistema de saúde dos EUA, quem testa positivo para covid-19 na Coreia do Sul permanece no hospital até ter se recuperado completamente da infecção”, explica DeBiasi.

De acordo com o estudo, 22% das crianças não desenvolveram sintomas durante toda a infecção; 20% começaram assintomáticas, mas mais tarde desenvolveram sintomas; e 58% tiveram sintomas desde o primeiro teste positivo.

O estudo também mostrou grandes diferenças no período de tempo em que as crianças permaneceram sintomáticas, variando de três dias a três semanas. Um quinto dos pacientes assintomáticos e aproximadamente metade dos pacientes sintomáticos ainda estava transmitindo o vírus três semanas após a infecção inicial. Isso não reflete diretamente, porém, seu nível de contagiosidade.

Alta carga viral

Os pesquisadores em Boston, por sua vez, encontraram cargas virais surpreendentemente altas entre os pacientes mais jovens. Para o estudo, eles colheram amostras de secreção do nariz e da garganta de 49 pacientes com menos de 21 anos de idade. O estudo encontrou muito mais presença do vírus entre eles do que entre adultos sendo tratados em unidades de terapia intensiva para covid-19.

Ainda de acordo com o estudo de Boston, publicado em 1º de agosto no periódico científico The Journal of Pediatrics, os cientistas encontraram muito menos receptores ECA-2 entre as crianças menores do que entre os jovens e adultos. Acredita-se que esses receptores sejam a porta de entrada para a covid-19 nas células do corpo.

O papel das crianças e dos jovens na propagação do coronavírus tem sido muito debatido desde que as primeiras infecções foram registradas. Uma coisa é certa: crianças e jovens podem infectar outras pessoas. Também é certo que as crianças e os jovens infectados muitas vezes mostram poucos ou nenhuns sinais de estarem doentes. E também está claro – embora a maioria das pessoas prefira não falar sobre isso – que crianças e jovens também podem morrer ou sofrer com sequelas duradouras resultantes de uma infecção por covid-19.

Isso não significa automaticamente que todas as crianças e jovens são potenciais origens de novos focos da doença, impulsionando as taxas de infecção ao seu redor. Ainda assim, crianças e jovens – através do jardim de infância, escola, amigos e esportes – frequentemente têm muito mais interação social do que os adultos. Os últimos meses também mostraram que os jovens são tão propensos quanto os adultos a ignorar o distanciamento social e as regras de higiene se não forem obrigados a fazer o contrário.

Jovens como propagadores

Na Alemanha, por exemplo, onde a epidemia é considerada sob controle, turistas voltando de férias de verão, além de festas e eventos lotados, levaram os índices de infecção aos níveis mais altos desde abril. Grande parte dos que testaram positivo recentemente são jovens – a idade média de infectados é a mais baixa no país desde o início da pandemia.

Apesar das altas cargas virais e da capacidade de transmitir o vírus durante semanas – mesmo que uma criança seja assintomática – especialistas dizem que os jovens ainda podem agir decisivamente para deter a propagação da infecção.

No final das férias de verão europeias, as infecções aumentaram em toda a Alemanha e em muitos outros países. Entretanto, os jardins de infância, escolas e outras instituições de ensino estão abrindo suas portas, não apenas para dar alívio aos pais, mas também em prol do bem-estar das crianças.

Máscaras obrigatórias, distanciamento físico, regras de higiene e grupos de estudo fixos podem reduzir o risco de propagação. Esse é o consenso, mas a forma de lidar com tais questões, assim como a frequência com que as aulas devem ser realizadas on-line ou presencialmente, permanece aberta à interpretação em muitos países.

A fim de detectar potenciais grupos de infecção e evitar o fechamento de escolas em larga escala, as infecções entre crianças e jovens assintomáticos devem ser detectadas precocemente, e a criança isolada, segundo especialistas.

Estes últimos estudos americanos sem dúvida levarão a uma reavaliação da necessidade de testar regularmente os professores, mas também da questão de saber se os testes devem ser realizados apenas nos alunos que apresentam infecções respiratórias agudas ou em uma porcentagem mais ampla de crianças.

Por Alexander Freund, da Deutsche Welle

Pesquisa associa umidade do ambiente a disseminação da covid-19

A umidade relativa “influencia fortemente” a propagação de vírus entre as pessoas em ambientes fechados, especialmente em salas secas. Essa é a conclusão a que chegou uma pesquisa realizada por uma equipe formada por especialistas alemães e indianos, com base em dez estudos internacionais, a maioria recentes.

Micrografia eletrônica de uma célula (azul) fortemente infectada com partículas do vírus (amarelo), isoladas de uma amostra de paciente. Imagem capturada e aprimorada de cores no Integrated Research Facility (IRF) (NIAID/Fotos Públicas)

“O papel da umidade parece ser extremamente importante para a disseminação da covid-19 no ar, em ambientes fechados”, afirma o relatório, também baseado em resultados de testes anteriores com vírus semelhantes, como H1N1 e Mers-CoV.

A umidade afeta a disseminação viral de três maneiras: no tamanho do perdigoto, na flutuação dos aerossóis carregados de vírus, que podem ficar “por horas” no ar, e na forma que estes permanecem virais ao cair nas superfícies. Em locais úmidos, o perdigoto viral – uma solução de sais, água, orgânicos e vírus – cresce e cai mais rápido, “proporcionando menos chances de outras pessoas aspirarem as gotículas virais infecciosas”.

Mas no ar interno seco, as micropartículas encolhidas pela evaporação tornam-se mais leves e ficam à deriva – uma “rota ideal” para os vírus serem “inalados por outros residentes ou se estabelecerem em superfícies onde podem sobreviver por muitos dias”, avisa o estudo.

Baixa umidade facilita flutuação de micropartículas om vírus, segundo pesquisadores

“Prédios públicos devem ter pelo menos 40% de umidade interna, com limite de 60%, para reduzir os riscos de disseminação viral para seus ocupantes”, concluem os pesquisadores, liderados por Sumit Kumar Mishra, do Laboratório de Física Nacional do CSIR da Índia e Alfred Wiedensohler e Ajit Ahlawat, do Instituto Leibniz para Pesquisa Troposférica (Tropos), da Alemanha.

Assim como manter a umidade relativa do ambiente, abrir as janelas também pode reduzir a absorção de vírus pelas vias nasais, pois “o ar seco também torna as membranas mucosas do nariz mais secas e mais permeáveis aos vírus”, ressalta Ahlawat.

A aproximação do inverno do Hemisfério Norte significa maiores riscos para “milhões” em salas aquecidas, adverte Wiedensohler: “O aquecimento do ar interno a uma temperatura confortável reduz significativamente a umidade relativa do ambiente, criando uma situação extremamente perigosa para os residentes, especialmente durante a pandemia de covid-19.”

Citando estudos de Cingapura e da Malásia, os especialistas também alertam os residentes de países tropicais para que evitem sistemas de “resfriamento extremo”, pois os fluxos de ar interno secos resultantes também promoveriam mais viabilidade para a covid-19.

Para a equipe, os supervisores de construções e os governos têm um “papel extremamente importante” na atualização dos padrões. “As autoridades devem incluir o fator umidade nas futuras diretrizes internas”, diz Sumit Kumar Mishra, do CSIR.

“Com base nas descobertas da pesquisa, para cenários futuros, estabelecer um padrão mínimo de umidade relativa em prédios públicos não reduzirá só o impacto da covid-19, mas também o de novos surtos virais”, conclui a equipe internacional.

Por Ian P. Johnson (md)

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. 

Pesquisadores testam vacina genética contra zika

Aposta da ciência contemporânea, vacinas de RNA nunca foram aprovadas para uso humano. Mas há muitos pesquisadores pelo mundo debruçados sobre essa tecnologia. E um estudo publicado nesta sexta (07/08) pela revista Science Advances dá esperanças neste sentido, principalmente para o Brasil — bastante atingido pelo vírus da zika nos últimos anos.

(TV Brasil/Reprodução)

A pesquisa, realizada por um grupo de cientistas de diversas instituições americanas, conseguiu resultados efetivos com vacinas genéticas em animais — primeiro em camundongos, depois em macacos-rhesus. Com uma das duas versões desenvolvidas, o índice de proteção foi total quando os animais, 49 dias depois de serem imunizados, foram submetidos ao vírus da zika.

Um dos pesquisadores envolvidos, o biólogo molecular e bioquímico Dong Yu, diretor do setor de identificação de antígenos da unidade Estados Unidos da GSK Vaccines, afirma à DW Brasil que essa tecnologia “tem o potencial de impactar significativamente o futuro da ciência das vacinas”, por sua capacidade de provocar uma “resposta imunológica forte e sustentada” no organismo. “Os dados pré-clínicos mostram que o método é promissor”, ressalta.

Tanto os envolvidos na pesquisa quanto cientistas brasileiros consultados pela reportagem, contudo, lembram que é preciso cautela. São vacinas ainda em início de desenvolvimento — e há um longo caminho até que possam ser comprovadamente consideradas seguras e eficientes para uso humano.

“Nunca foi feita nenhuma vacina por RNA ainda porque não houve oportunidade”, comenta o o médico infectologista Celso Granato, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “É verdade que se trata de uma tecnologia nova e sua vantagem, em tese, seria um desenvolvimento um pouco mais rápido. Mas vamos ver se funciona, já houve tentativas que não deram certo.”

“Em teoria, qualquer técnica para fazer vacinas pode ser aplicada para qualquer doença ou contra qualquer patógeno”, diz o médico Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina. “Tudo precisa de teste: funciona? Não funciona? É viável economicamente? É o mínimo que precisa ser respondido na hora de pensar em fazer uma potencial vacina.”

Historicamente o RNA é uma molécula bem mais difícil de trabalhar no laboratório. De acordo com Zárate-Bladés, nos anos 1990, havia uma expectativa de que todas as novas vacinas fossem genéticas, mas baseadas em DNA, “mais estável e fácil de manipular” — contudo a técnica se mostrou pouco efetiva. Isso fez com que até hoje não exista vacina do tipo para uso humano. De DNA, há algumas de uso veterinário.

Covid

Mas veio a pandemia do novo coronavírus e a corrida é mundial pela descoberta, em tempo recorde, de um imunizante capaz de fazer o planeta voltar ao normal. Dentre as pesquisas mais avançadas em desenvolver a vacina, há exemplos que usam a ideia do RNA.

Conforme explica o médico Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), a técnica consiste em fazer com o RNA mensageiro entre na célula com uma mensagem da proteína imunogênica, desencadeando sua produção e exportação para fora da célula. O sistema imunológico, consequentemente, reconheceria isso como uma proteína estranha.

“Existem várias candidatas a vacinas [contra a covid-19] sendo testadas atualmente que funcionariam assim. Dentre elas, duas das mais avançadas”, comenta ele.

No caso da vacina contra zika cujo artigo foi publicado nesta sexta, Dong Ju e sua equipe fizeram adaptações na técnica para que o RNA se autoamplificasse. Esse foi o pulo do gato para que a imunização, ao menos nos testes com animais, fosse eficaz. Ele reconhece que em condições normais o desenvolvimento de uma vacina deve levar anos. Mas acha que as pesquisas urgentes que vêm sendo realizadas por conta do coronavírus podem ajudá-lo.

“Temos esperança de que a aceleração da tecnologia, por meio do processo colaborativo [com os pesquisadores de coronavírus], possa impactar os prazos de desenvolvimento de potenciais vacinas baseadas em RNA”, afirma o biólogo. “Mas isso precisa ser analisado à medida que formos acompanhando o progresso feito com as vacinas contra covid-19.”

Brasil

Depois do boom entre 2015 e 2016, os casos de zika no Brasil caíram significativamente. Se ao longo de 2016 foram registrados 215 mil infectados pelo vírus no país, nos primeiros seis meses de 2020 os dados do Ministério da Saúde indicam apenas 5 mil.

Não há uma explicação clara para o fenômeno. Segundo Granato, as hipóteses são de que o zika “perdeu na competição com outros vírus, como o da dengue, que segue firme e forte”; que a infecção tenha se tornado mais branda, do ponto de vista clínico; ou, menos provável para o médico, que nos locais onde o vírus teve mais impacto “a população de suscetíveis saturou”.

Se por um lado os dados indicam um bom cenário, por outro isso dificultaria a aprovação de uma vacina definitiva. Isto porque a fase 3 dos testes de um imunizante, segundo os protocolos, são os testes em massa. “O grande problema de uma vacina contra zika hoje é que não se pode chegar a essa fase, porque ela exige a doença ativa”, diz Kalil.

Isso não significa, de forma alguma, a interrupção das pesquisas. Conforme explica o médico, o melhor a ser feito é evoluir nas fases anteriores a essa final, deixando as vacinas “prontas”. “Então, se por acaso vier a começar algum novo surto de zika em qualquer lugar do mundo, é possível testá-la”, explica.

Por Edison Veiga

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.

Hidroxicloroquina não ajuda no tratamento da Covid-19, conclui estudo brasileiro

Um estudo promovido por pesquisadores de um consórcio de instituições de saúde brasileiras concluiu que a hidroxicloroquina não é eficaz para o tratamento de casos precoces da covid-19. A pesquisa foi publicada no periódico New England Journal of Medicine hoje.

Os pesquisadores da Coalizão Covid-19 Brasil conduziram um ensaio clínico randomizado de 15 dias com três grupos, envolvendo um total de 667 pacientes em 55 hospitais de todo o país. Para um grupo foi ministrada apenas hidroxicloroquina, para outro hidroxicloroquina e azitromicina e para o terceiro nenhum dos remédios, com tratamento denominado padrão.

Foi empregado um modelo de análise com uma escala de sete níveis de acordo com a situação e saúde dos pacientes, indo da não hospitalização sem comprometimento de atividades à morte em função da doença.

Os autores não encontraram efeitos do uso de hidroxicloroquina sozinha ou com azitromicina em comparação aos pacientes que não receberam os remédios, do denominado grupo-controle.

“Entre os pacientes com covid-19, não houve diferença entre grupos nas probabilidades proporcionais entre grupos de ter um desempenho pior na escala de sete pontos ordinais no fim do período de 15 dias”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Na escala, em que 1 são as melhores condições de saúde e 7 é a morte por covid-19, o grupo que recebeu o tratamento padrão teve percentual maior do que os pacientes cujo tratamento foi feito com hidroxicloroquina apenas (68% contra 64%) no número de pessoas que permaneceram no Estágio 1, com melhor quadro de saúde.

O estudo também identificou mais efeitos adversos entre quem recebeu hidroxicloroquina com azitromicina (39.3%) e hidroxicloroquina (33,7%) do que no grupo com tratamento padrão (18%).

Consórcio

Os pesquisadores da Coalizão Covid-19 Brasil fazem parte das equipes dos hospitais e institutos Albert Einstein, HCor, Alemão Oswaldo Cruz, Beneficiência Portuguesa e Sírio Libanês, de São Paulo, e Moinhos de Vento, de Porto Alegre.

Governo

O estudo vai em sentido contrário do que tem defendido o governo federal. Sob a gestão interina de Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde passou a recomendar o uso de cloroquina e hidroxicloroquina também em casos precoces e como prevenção, a partir da decisão do médico. Até então o medicamento era recomendado apenas em casos médios e graves, pelas possibilidades de complicações.

Em entrevistas coletivas, representantes do MS afirmaram que havia evidências de eficácia da cloroquina, embora sem listá-las. Na semana passada, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) recomendou a retirada da cloroquina e da hidroxicloroquina do tratamento da covid-19.

No dia 19 de julho, a Associação Médica Brasileira (AMB) defendeu em nota a autonomia do médico para prescrever o medicamento com a anuência do paciente.

Perguntado pela Agência Brasil sobre o estudo, o Ministério da Saúde, por meio de sua assessoria, informou que “o uso de qualquer medicamento compete à autonomia e orientação médica, em consonância com o esclarecimento e consentimento do paciente”.

Por Jonas Valente – Repórter Agência Brasil 

Droga contra o zika previne microcelafia em camundongos

Um grupo internacional de pesquisadores descobriu que a inibição de uma proteína chamada AhR (receptor para aril hidrocarboneto) permite ao sistema imune combater com muito mais eficácia a replicação do vírus zika no organismo. Em experimentos feitos no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), a terapia antiviral se mostrou capaz de prevenir o desenvolvimento de microcefalia e outras malformações em fetos de camundongos cujas mães foram infectadas durante a gestação.

Os resultados da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo(Fapesp), foram divulgados nesta segunda-feira (20) na revista Nature Neuroscience.

“Usamos nos testes uma droga experimental capaz de inibir a AhR e observamos diminuição na replicação tanto do zika como do vírus da dengue. Agora pretendemos testar o efeito da terapia contra o novo coronavírus”, conta à Agência Fapesp o professor do ICB Jean Pierre Peron, que coordenou a investigação ao lado dos pesquisadores Cybele Garcia (Universidad de Buenos Aires, na Argentina) e Francisco Quintana (Harvard Medical School, nos Estados Unidos).

Modelo experimental

O modelo experimental usado no trabalho foi o mesmo que permitiu ao grupo de Peron comprovar, em 2016, a relação causal entre o zika e a microcefalia. Naquela ocasião, fêmeas de camundongo da linhagem SJL – bem mais suscetível à infecção do que outras normalmente usadas em laboratório – foram infectadas com o vírus entre o 10º e o 12º dia de gestação.

Quando os filhotes nasceram, os pesquisadores notaram uma redução significativa na espessura do córtex cerebral, além de alterações na quantidade e na morfologia das células neuronais. Observaram ainda que o vírus estava se replicando na placenta e no cérebro dos roedores recém-nascidos em quantidades muito maiores do que em outros órgãos.

“Repetimos agora esse experimento, mas com uma diferença. Pouco antes de infectar as fêmeas prenhas com o zika nós começamos a administrar o inibidor de AhR. O tratamento foi feito por via oral até o fim da gestação. Ao nascerem, os filhotes apresentaram cérebros com tamanho e peso normais e uma carga viral muito mais baixa que a do grupo não tratado, quase indetectável, tanto na placenta como no sistema nervoso central. Além disso, análises histopatológicas mostraram que não houve redução na espessura do córtex e que o número de células nervosas mortas pelo vírus foi muito menor”, relata Peron.

Segundo o pesquisador, os camundongos tratados com o inibidor de AhR não apresentaram efeitos adversos. Antes de se pensar em testes com humanos, porém, ele considera necessário replicar o experimento em macacos.

A pesquisa levou quatro anos para ser concluída e contou com a participação das doutorandas do ICB-USP Nagela Zanluqui e Carolina Polonio, ambas bolsistas da Fapesp.

Início

O laboratório coordenado por Quintana em Harvard é um dos principais centros mundiais de estudo da proteína AhR. Em entrevista à Agência Fapesp, o professor de neurologia conta que seu grupo descobriu há alguns anos que proteínas do tipo interferon, secretadas por células do sistema imune, controlam a ativação desse receptor celular.

“Como os interferons são moléculas centrais na resposta imune antiviral, postulamos – em conjunto com o grupo de Garcia – que a AhR poderia estar envolvida na supressão da imunidade contra vírus. Projetamos terapias anti-AhR e geramos nanopartículas e inibidores para uso nos experimentos”, diz.

Testes feitos in vitro e in vivo confirmaram que o vírus ativa a proteína AhR para suprimir a resposta imune do hospedeiro. Tal feito possivelmente ocorre quando o patógeno infecta o fígado e induz a liberação do metabólito quinurenina, um subproduto do aminoácido triptofano.

“Esse metabólito ativa a AhR que, por sua vez, inibe a expressão de uma outra proteína chamada PML [proteína leucemia promielocítica, muito importante para a resposta imune antiviral], permitindo que o zika se replique mais livremente nas células”, explica Peron.

Na Universidad de Buenos Aires, Cybele Garcia coordenou experimentos em diversos tipos de linhagens celulares, entre elas hepatócitos e progenitoras neurais – um tipo de célula-tronco que pode se diferenciar em neurônios.

“Tratamos as linhagens celulares com compostos agonistas de AhR [que amplificam a ação da proteína] e também com antagonistas [que inibem]. Confirmamos assim que a modulação negativa desse receptor inibe a replicação do zika. Do mesmo modo, comprovamos que a modulação positiva aumenta a replicação viral nas células”, conta.

Fatores ambientais

Como ressalta a virologista da Universidad de Buenos Aires, o impacto causado pela epidemia de zika em 2015 foi bastante assimétrico. Em determinadas regiões e cidades, a incidência de síndrome congênita e microcefalia causada pelo vírus foi muito maior do que em outras.

Na avaliação da pesquisadora, isso pode indicar que nesses locais afetados com mais gravidade existia uma condição ambiental que favorecia a infecção ou então que aquelas populações eram mais suscetíveis. Os dois fatores também podem ter contribuído simultaneamente para aumentar o impacto do vírus.

“Coincidentemente, a AhR pode ser ativada por poluentes ambientais, bem como por uma certa dieta ou pela microbiota endógena. Nosso próximo desafio é descartar ou confirmar se existe uma relação entre a AhR, ambientes poluídos ou degradados socioeconomicamente e uma maior virulência do zika”, conta Garcia à Agência Fapesp.

O artigo (em inglês) pode ser lido em www.nature.com/articles/s41593-020-0664-0.

*com informações do Governo do Estado de SP

Capital libera estúdios de tatuagem, audiovisual e pesquisa

O prefeito Bruno Covas regulamentou o funcionamento de mais três setores das fases dois e três do Plano São Paulo, do Governo do Estado. Os protocolos de retomada foram assinados por sete entidades que representam os setores audiovisual, pesquisa, tatuagem e piercing nesta quarta-feira (8). Com a publicação no Diário Oficial nesta quinta-feira (9), os estabelecimentos estarão liberados para retomar suas atividades, desde que sigam as medidas recomendadas pelos protocolos geral e de autorregulação do setor.

“É uma alegria poder agradecer a todos vocês, em primeiro lugar pela paciência, pela resiliência, pelo sacrifício que cada um fez, para que pudéssemos passar pela fase mais difícil da pandemia, um momento que o poder público pôde aproveitar  para ampliar a rede hospitalar  na cidade de São Paulo. Tínhamos 507 leitos de UTI e chegamos a ter 92%  dos leitos ocupados. Estamos já há três semanas com menos de 60% dos leitos administrados pela Prefeitura ocupados, já desmobilizamos um hospital municipal de campanha”, afirmou Bruno Covas.

Para o prefeito, não há a menor dúvida de que os números que São Paulo vem colecionando nas últimas semanas permitiram que a cidade avançasse para a segunda fase e, agora, para a terceira.

“Isso é fruto do trabalho não apenas do poder público, que reforçou a rede hospitalar, que não deixou ninguém sem atendimento na cidade de São Paulo mas, acima de tudo, por conta da sociedade que também colaborou, ajudou, se isolou e que mudou suas atitudes, seus hábitos e passou a utilizar máscara”, enfatizou Bruno Covas.

De acordo com a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, Aline Cardoso, hoje foram totalizadas 58 entidades  que já terão firmado protocolos de abertura com a Prefeitura.

”Tudo com segurança e responsabilidade, para que possamos dar continuidade a esse trabalho de preservação da vida e da saúde, mas também para que possamos seguir preservando os empregos e a geração de renda de todos. Hoje, com setores importantes, de vocações da cidade de São Paulo, da economia criativa e das pesquisas e que estão se somando, então, a um conjunto de mais de 13 setores que já estão funcionando a todo vapor  e que,  em breve, terão outros companheiros. Este é um momento difícil porém bem-sucedido e a prova é termos a parceria de entidades tão importantes”, destacou a secretária.

As entidades que assinaram o protocolo nesta quarta-feira foram Sindcine – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de SP; Siasp – Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo; Apro – Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais; Associação dos Tatuadores do Bem;  Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil – ATPB; Sescon – Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Estado de São Paulo e ABEP – Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa. Os protocolos de higienização e prevenções devem ser seguidos, também, por empresas que não são associadas a essas entidades, contribuindo com os cuidados com os clientes e profissionais da área.

Para retomar as atividades os estabelecimentos deverão seguir as orientações gerais de atendimento on-line, distanciamento mínimo de 1,5 metro entre as pessoas, organização de filas, demarcação de pisos e fornecimento de máscaras e álcool em gel. Antes de reabrir, as empresas devem também higienizar os locais, evitando a contaminação das pessoas e a propagação do vírus.

“Nós já estamos, há alguns dias, com o chamado RT abaixo de 1, ou seja, para cada pessoa com o vírus, para menos de uma pessoa ele é transmitido. É um índice referência  utilizado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), para começar a falar em reabertura. Estamos fazendo aos poucos, com a tranquilidade de que não vamos retroceder. Várias cidades, que foram abrindo de qualquer  forma, tiveram que voltar atrás, no Brasil e no mundo. Tiveram que voltar a decretar lockdown, a fazer quarentena, porque reabriram de qualquer forma. Estamos fazendo isso, acima de tudo, em parceria com os setores que estão propondo seus protocolos, apresentando suas ideias”, declarou Covas.

Além das orientações gerais, os estabelecimentos que não são contemplados por portarias específicas deverão seguir as regras constantes dos protocolos que regulam os setores.

As propostas de reabertura são enviadas pelas entidades setoriais para a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, que faz a análise das propostas e as envia para validação da vigilância sanitária.

“Não adianta o poder público inventar moda, se quem conhece a atividade não participa da elaboração das suas próprias regras. Quero agradecer pelo empenho, dedicação  e trabalho conjunto de todos. Tenho  certeza de que, em breve, estaremos assinando mais e mais protocolos para retomar a atividade na cidade e reduzir o prejuízo econômico. A pandemia não trouxe apenas uma problema de saúde, mas também um problema social e econômico. Então, retomando com a cautela necessária, vamos avançar e não retroceder dentro de alguns dias”, disse Bruno Covas.   

 Confira as orientações que cada setor deverá seguir:

 Audiovisual

Os produtores, câmeras e demais funcionários deverão utilizar equipamentos de proteção durante todo o processo. Atores só poderão retirar a máscara na hora exata da gravação. As filmagens em locais públicos estão proibidas até o fim da pandemia. Será permitido apenas gravações por meio remoto, com deslocamento mínimo de equipe e equipamentos.

O processo de pré-produção deve seguir a modalidade de teletrabalho, sempre que possível. Os projetos deverão ser analisados com cuidado para, se necessário, aumentar o período do cronograma, tendo em vista que será necessário seguir os procedimentos de higienização e sanitização com frequência.

Os roteiros deverão ser adequados de acordo com a nova realidade e limites impostos pela pandemia, evitando cenas que os atores precisem ter contato físico uns com os outros.

Empresas de pesquisa

As empresas deverão fornecer kits de equipamentos de proteção com máscaras de tecido nos padrões recomendados pelo Ministério da Saúde; álcool 70% em spray para higienização dos sapatos; luvas e álcool 70% em gel para higienização das mãos.

Os trabalhadores de campo deverão trocar suas máscaras a cada duas horas e o descarte das luvas após o fim de cada entrevista ou visita a domicílio. Os pesquisadores só poderão entrar nas casas das pessoas se for extremamente necessário e após fazer a higienização adequada dos sapatos.

Antes de iniciar a entrevista, questionar se o entrevistado ou alguma outra pessoa que mora na residência apresentou os sintomas do coronavírus, evitando assim qualquer exposição aos colaboradores de campo.

As orientações de utilização de máscaras, espaçamento entre os colabores e redução de expediente também deverão ser seguidas durante o trabalho dentro do escritório.

Estúdios de tatuagem e piercing

Os orçamentos de tatuagens deverão ser feitos exclusivamente on-line. Antes de se deslocar até o estabelecimento, o cliente deve tomar banho, higienizando bem o corpo e secando o cabelo. Ao chegar no estúdio, o cliente receberá um propé, uma touca e uma máscara. No caso de lojas com tapete sanitizante, o cliente será orientado a como fazer a limpeza e secagem dos sapatos.

É recomendável que o cliente não leve acompanhantes para a sessão, tendo em vista que só uma pessoa poderá ficar na sala de atendimento durante o procedimento.

Os estabelecimentos deverão agendar os atendimentos com espaço de 40 minutos entre eles. Os funcionários devem usar máscaras cirúrgicas de tripla proteção, sendo trocada a cada quatro horas ou caso a mesma umedeça. Durante os procedimentos é necessário utilizar o protetor facial (face shield) ou óculos de proteção, além dos equipamentos que já são utilizados no dia a dia.

Os tatuadores têm por obrigação embalar com plástico filme de PVC a maca, bancada e tintas que serão utilizadas; fazer o isolamento das máquinas de tatuagem, clipcord e fonte com plásticos próprios para a criação de barreiras dos equipamentos. Após cada atendimento, fazer a desinfecção de nível médio no objetos não passíveis de descarte.

*com informações da Prefeitura de São Paulo