Convenção contra o racismo é promulgada pelo Congresso

(Arquivo/Filipe Araujo/via Fotos Públicas)

O Congresso Nacional promulgou hoje (19) a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância, aprovada em 2013, na Guatemala, durante a 43ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos, em 2013. O Decreto Legislativo 1/2021, assinado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), foi publicado no Diário Oficial da União.

O texto foi ratificado pela Câmara em dezembro do ano passado, e pelo Senado no início deste mês. Ele será agora submetido ao presidente da República, Jair Bolsonaro, para ratificação por meio de decreto.

Os países que ratificam a convenção se comprometem a prevenir, eliminar, proibir e punir, de acordo com suas normas constitucionais e com as regras da convenção, todos os atos e manifestações de racismo, discriminação racial e intolerância.

Em termos gerais, a convenção define que a discriminação ocorre quando há distinção, exclusão, restrição ou preferência tendo por base a raça, a cor, a ascendência ou a origem nacional ou étnica de um indivíduo “com o propósito ou efeito de anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de um ou mais direitos humanos e liberdades fundamentais consagrados nos instrumentos internacionais aplicáveis aos Estados partes”.

O texto também inclui o combate às violações motivadas por orientação sexual, identidade de gênero e condição infectocontagiosa estigmatizada. A convenção conceitua intolerância como “um ato ou conjunto de atos ou manifestações que denotam desrespeito, rejeição ou desprezo à dignidade, características, convicções ou opiniões de pessoas por serem diferentes ou contrárias”.

Histórico

A Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância é fruto de negociações iniciadas em 2005 pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 2011 foram apresentadas as primeiras propostas do texto durante a 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, que ocorreu em Durban, na África do Sul.

Por Pedro Peduzzi, da Agência Brasil

*Com informações da Agência Câmara de Notícias

Injúria racial: TJ mantém condenação de pai que ofendeu professora

(Antonio Carreta/TJSP)

A 9ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve condenação de réu acusado de injúria racial contra funcionária pública, professora de Educação Física, em razão da cor da pele. Ele foi condenado a um ano e quatro meses de serviços à comunidade e prestação de pena pecuniária em favor da vítima.

Consta nos autos que, durante partida de vôlei, o acusado estava na arquibancada do Ginásio de Esportes Municipal de Nova Granada torcendo para o time adversário do filho da vítima, enquanto ela atuava como apontadora do placar. Em determinado momento, o réu, na presença de diversas pessoas, passou a ofender a dignidade e o decoro da mulher, chamando-a de “macaca” e dizendo “que era para ficar tranquila que logo a Prefeitura a dispensaria”.

De acordo com o desembargador Grassi Neto, relator da apelação, a partir do depoimento da vítima e de testemunhas, “as provas apresentadas são, com efeito, suficientes para a condenação do ora recorrente por injuria racial, eis que este proferiu ofensas à vítima relacionada à pigmentação de sua tez”. “O decreto condenatório é, pois, de rigor, tal como foi lançado”, afirmou.

O julgamento teve a participação dos desembargadores Alcides Malossi Junior e Silmar Fernandes. A decisão foi unânime.

Por TJ-SP

Promotores denunciam 6 pessoas pela morte de Beto Freitas no Carrefour

(Reprodução)

O Ministério Público (MP) do Rio Grande do Sul apresentou nesta quinta-feira (17/12) denúncia contra seis pessoas pela morte de João Alberto Freitas, um homem negro de 40 anos que foi espancado e asfixiado por seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, em 19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra.

Para os promotores, a morte de Beto Freitas é um homicídio triplamente qualificado. Os denunciados são os seguranças Giovane Gaspar da Silva, Paulo Francisco da Silva e Magno Braz Borges, a fiscal Adriana Alves Dutra, e os funcionários Kleiton Silva Santos e Rafael Rezende.

Os três agravantes apresentados pelo MP são motivo torpe (ligado a preconceito racial), uso de meio cruel (asfixia) e impossibilidade de defesa pela vítima. O MP afirmou que todos os envolvidos poderiam ter evitado a morte.

O laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul apontou que Beto morreu por asfixia. Após ser espancado, ele foi mantido imobilizado no chão pelos funcionários do Carrefour.

O procurador-geral de Justiça, Fabiano Dallazen, disse que foram instaurados três inquéritos na área cível. “Eles buscam indenizar a coletividade e a promoção de ações afirmativas capazes de gerar mudanças efetivas na realidade, no dia a dia de muitas pessoas que são vítimas de todo tipo de racismo”, acrescentou.

João Alberto Silveira Freitas tinha 40 anos (Reprodução)

Um dos inquéritos é para a averiguação do dano tanto às famílias da vítima quanto ao dano coletivo. O outro é para a promoção de ações que visem enfrentar o racismo estrutural. O terceiro visa a investigação da forma como é feito o controle das empresas de segurança privada no estado, disse Dallazen.

O subprocurador-geral para Assuntos Institucionais, Marcelo Lemos Dornelles, disse que o crime foi de “uma brutalidade que chocou praticamente o mundo todo” e que as imagens falam por si. Ele disse ter constatado desprezo pela vítima.

O promotor André Martínez afirmou que Beto Freitas estava sendo monitorado dentro do supermercado e expressou desconforto com essa situação se aproximando de uma das fiscais.

Para Martínez, “é forçoso concluir que esse padrão de abuso e descaso para com a integridade física e moral da vítima só pode se explicar pelo sentimento de desconsideração, senão desprezo, que os denunciados demonstraram ter para com ela, certamente a partir de uma leitura preconceituosa relacionada à sua fragilidade socioeconômica e origem racial”.

AS/ots

Por Deutsche Welle

Polícia indicia seis por morte de Beto Freitas

(Reprodução)

A Polícia Civil do Rio Grande do Sul indiciou nesta sexta-feira (11/12) seis pessoas por homicídio no caso que resultou na morte de João Alberto Silveira Freitas  num supermercado em Porto Alegre em 19 de novembro.    

As seis pessoas acusadas foram indiciadas por homicídio triplamente qualificado – por motivo torpe, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima.

O laudo do Instituto Geral de Perícias (IGP) do Rio Grande do Sul apontou que Beto morreu por asfixia. Após ser espancado, ele foi mantido imobilizado no chão pelos funcionários.

Mas não houve indiciamento por injúria racial, embora a delegada Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoas, tenha falado em “racismo estrutural. Segundo a delegada, não há indícios de que a motivação do crime tenha sido racismo, mas houve um contexto discriminatório. “Se a cor da pele da pessoa fosse outra, provavelmente a situação seria outra”, afirmou Bertoldo.

Em 19 de novembro, na véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto, de 40 anos, também conhecido por Beto Freitas, foi espancado num Carrefour, em Porto Alegre. Imagens de gravações de testemunhas e de câmeras de vigilância mostram a violência e o uso desnecessário de força exercido pelos seguranças. O caso provocou comoção no Brasil e protestos em lojas da rede Carrefour no país.

Os indiciados pela morte de Beto Freitas

João Alberto Silveira Freitas tinha 40 anos (Reprodução)

Entre as seis pessoas indiciadas pelo crime estão os dois seguranças, Geovane Gaspar da Silva, ex-soldado temporário da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, e Magno Braz Borges. Ambos haviam sido detidos em flagrante pelo espancamento e pela morte por asfixia de Beto Freitas.

Completam a lista de indiciados a agente de fiscalização do Carrefour que tentou impedir as gravações, Adriana Alves Dutra, além de Paulo Francisco da Silva, funcionário da empresa de segurança que impediu que a esposa ajudasse Beto Freitas, e dois funcionários do Carrefour – Kleiton Silva Santos e Rafael Rezende – que auxiliaram na imobilização da vítima.

Eles também foram indiciados por impedir socorro à vítima e por não prestar nenhum tipo de ajuda. “A vítima não apresentava sinais vitais, mas eles se mantiveram inertes, mesmo tendo uma unidade hospitalar próxima, distante apenas 1,2 quilômetros. E, mesmo assim, aguardou-se uma equipe do Samu, que chegou ao local 14 minutos após ser cientificada”, diz trecho do inquérito.

A polícia pediu a prisão preventiva dos três funcionários que ainda não foram detidos e ainda apresentou à Justiça um pedido de manutenção da prisão preventiva dos dois seguranças e da agente de fiscalização.

Depoimentos apontam incidente dois dias antes

Em depoimento à polícia, o funcionário Kleiton Silva Santos afirmou que uma funcionária que ficava num setor que vigia os caixas solicitou ajuda via rádio. Imagens de câmeras de vigilância mostram Beto Freitas indo em direção dessa funcionária, que não está entre os indiciados. Ela é vista saindo de perto de Beto Freitas, que se reaproxima dela, gesticulando e falando algo que a funcionária disse não ter entendido.

Também em depoimento à polícia, Paulo Francisco da Silva, funcionário da empresa de segurança Vector, contou que naquela mesma semana Beto Freitas havia ido ao supermercado com sinais de embriaguez ou sob efeito de narcóticos e que importunou clientes com gestos de arma com as mãos e forçando abraços.

Durante as investigações, clientes do supermercado foram à polícia detalhar que foram importunadas por Beto Freitas no local em dias anteriores. Francisco da Silva é quem aparece nos vídeos gravados dizendo a Beto Freitas: “não faz cena, a gente te avisou da outra vez”.   

O incidente relatado ocorreu dois dias antes da morte e foi confirmado por imagens de vigilância, conforme comunicou a delegada Bertoldo. Na ocasião, Beto Freitas também foi abordado por seguranças. Dissuadido, ele deixou o supermercado.

“Mas eram outros funcionários e esse evento em nada implicou nesse desfecho depois [dia da morte]”, afirmou a delegada. Ainda segundo a polícia, não foi constatado ato criminal de Beto Freitas nas proximidades dos caixas no dia da morte.

Na terça-feira, o Senado aprovou em votação simbólica um projeto que prevê uma pena específica para atos cometidos por agentes públicos e profissionais de segurança privada que tenham relação discriminatória por raça, etnia, gênero ou orientação sexual. O projeto tramita agora na Câmara dos Deputados.

PV/ots

Por Deutsche Welle

Jogadores abandonam partida da Champions após acusação de racismo

Jogadores reunidos durante discussão (PSG/Reprodução)

Uma partida entre o Paris Saint-Germain (PSG) e o Istanbul Basaksehir, válida pela rodada final da fase de grupos da Champions League (Liga dos Campeões), foi interrompido – e, posteriormente, suspenso – após alegações de racismo contra o quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu. Ambas as equipes abandonaram o gramado, em protesto.

O episódio transcorreu na noite desta terça-feira (08/12) no estádio Parque dos Príncipes, em Paris. Casos de racismo no futebol não são raros, especialmente no futebol europeu. Mas o incidente no Parque dos Príncipes causou ainda mais indignação por trazer um incomum elemento: a ofensa teria vindo de um oficial da arbitragem.

O tumulto se iniciou por volta dos 13 minutos do primeiro tempo, após o lateral brasileiro Rafael, que joga pelo Istanbul, ser punido com um cartão amarelo. Nesse momento, Coltescu comunicou ao árbitro principal, o também romeno Ovidiu Hategan, um ato de indisciplina no banco de suplentes da equipe turca.

Ao mencionar sobre qual pessoa se tratava, Coltescu disse “ala negru”, o que em romeno quer dizer “aquele negro”. A pessoa em questão era o ex-atacante camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do Basaksehir. Webó se revoltou e questionou Coltescu, em inglês: “O que você falou? Por que você falou ‘negro’?”

Hategan se aproximou e deu cartão vermelho a Webó, o que desencadeou uma revolta generalizada dos membros da comissão técnica e reservas do Basaksehir.

“Por que usar a palavra ‘negro’?”

Entre os mais exaltados estava o atacante franco-senegalês Demba Ba, com passagens por Hoffenheim e Chelsea. Visivelmente revoltado, Ba bradou em inglês em direção aos árbitros: “Por que usar a palavra ‘negro’? Você nunca diz ‘esse cara branco’, você diz ‘esse cara’. Você tem que dizer ‘esse cara preto’? Por quê”?

“Na Romênia, ‘negru’ é uma referência ao tom de pele, jogador negro, e entre nós falamos em romeno”, respondeu Coltescu. 

Dirigentes das duas equipes foram ao gramado para entender a situação. A discussão em campo durou vários minutos, e a transmissão oficial da partida flagrou o momento em que as estrelas do PSG, Neymar e Kylian Mbappé, deixaram claro que não voltariam para o jogo caso Coltescu continuasse em campo.

Diante da passividade da arbitragem, os atletas de PSG e do Istanbul decidiram abandonar a partida. Inicialmente, o jogo foi declarado interrompido, e a Uefa divulgou um horário de reinício. Mas alguns jogadores da equipe turca se recusaram a entrar em campo caso Coltescu continuasse na equipe de arbitragem.

Posteriormente, a partida foi oficialmente suspensa e transferida para esta quarta-feira, com uma nova equipe de arbitragem. A Uefa anunciou também uma investigação interna do incidente no Parque dos Príncipes e reiterou que “o racismo e a discriminação em todas as suas formas não têm lugar no futebol”.

Nas redes sociais, o Istanbul publicou uma mensagem de combate ao racismo, usando inclusive o emblema e o slogan utilizado na campanha da própria Uefa. A mensagem foi replicada pelo PSG. Vários atletas, entre eles Neymar e Mbappé também publicaram mensagens de repúdio ao racismo.

O jogo é válido pela última rodada do Grupo H da Liga dos Campeões. Com a vitória do RB Leipzig contra o Manchester United, na terça-feira, o PSG garantiu sua classificação às oitavas de final. No entanto, o PSG precisa vencer o Istanbul para garantir a primeira colocação no grupo.

Polêmicas e instabilidade emocional

Os árbitros Hategan e Coltescu possuem um histórico de polêmicas e instabilidade emocional. Com várias decisões controversas em sua carreira no futebol romeno, Coltescu entrou em depressão após ser rebaixado na escala de arbitragem e tentou tirar a própria vida – um caso que teve grande repercussão na Romênia há 12 anos. Ele também perdeu recentemente seus pais. Esta seria sua última temporada como árbitro internacional – ele foi retirado da lista de árbitros da Fifa há duas semanas.  

Há alguns anos, Hategan apitava o clássico romeno entre Dinamo Bucareste e Steaua Bucareste e ignorou o fato de que os torcedores do Dinamo entoavam sons de macaco em direção a Harlem Gnohere, atacante do Steaua e com passagem pelo Dinamo.

Hategan alegou que não sabia de que se tratava de algo racista – ele pensava que os torcedores estavam entoando um grito de guerra inspirado no filme “300”. Não houve punição, nem para Hategan, nem para o Dinamo.

PV/ots

Por Deutsche Welle

Carrefour anuncia fim da terceirização dos serviços de segurança

O Carrefour anunciou nesta sexta-feira (4) o fim da terceirização dos serviços de segurança nos supermercados do grupo. A decisão foi tomada por sugestão do Comitê Externo e Independente criado pela rede para analisar medidas preventivas após o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, homem negro de 40 anos, espancado até a morte por dois seguranças na filial do grupo em Porto Alegre, no último dia 19 de novembro, um dia antes da data em que se se celebra no país a Consciência Negra.

Segundo um comunicado do Carrefour distribuído à imprensa, a internalização dos serviços segurança será realizada de forma gradual, começando pelos quatro hipermercados no Rio Grande Sul, dentro de um projeto-piloto. 

“O novo modelo é o ponto inicial para transformação do seu modelo de segurança e faz parte dos compromissos anunciados pela rede. O processo de recrutamento e o treinamento dos profissionais para as lojas contará com associação que reúne empreendedores negros da região de Porto Alegre. Todo o processo de internalização da segurança terá como foco a implementação de práticas antirracistas e de uma cultura de respeito aos direitos humanos, além de considerar a representatividade da população brasileira (50% de mulheres e 56% de negros) como um compromisso”, diz a nota.

O Grupo Carrefour é investigado pela Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos de Porto Alegre e pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre práticas relacionadas à fiscalização de serviços de segurança contratados e também sobre medidas para o enfrentamento de ações racistas e discriminatórias. Na Justiça, o conglomerado também responderá uma ação civil pública que pede indenização de R$ 200 milhões por danos morais coletivos e sociais.  

A contratação direta das novas equipes de segurança do Carrefour está em andamento e e admissão dos novos funcionários está prevista para o dia 14 de dezembro. 

Por Agência Brasil

No CNJ, Fux faz minuto de silêncio por negro morto em supermercado

Luiz Fux, presidente do STF (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luiz Fux, pediu hoje (20), durante evento organizado pelo órgão pelo Dia da Consciência Negra, um minuto de silêncio em homenagem ao homem negro que foi espancado até a morte por seguranças no estacionamento de um supermercado em Porto Alegre.

crime ocorreu na noite de ontem (19), em um supermercado Carrefour da zona norte da capital gaúcha. A vítima foi identificada como João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos. Ele teria se desentendido com a caixa do estabelecimento, sendo depois conduzido pelo segurança da loja até o estacionamento, onde começaram as agressões.“Independentemente de versões, o que nos deve preocupar é a violência exacerbada. Toda violência é desmedida e deve ser banida da nossa sociedade. Mas esse é um triste episódio, exatamente no momento em que nós comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra”, disse Fux sobre o crime. “Esse minuto de silêncio é um dever de todo brasileiro”, acrescentou em seguida.

Nesta sexta-feira, o CNJ firmou uma parceria de combate à discriminação no Judiciário com a Faculdade Zumbi dos Palmares, instituição de ensino de São Paulo voltada para a qualificação e inclusão de jovens negros, criada pelo advogado José Vicente, fundador da organização não governamental (ONG) Afrobras.  

“Faz parte do nosso sonho o dia em que todos poderão andar livremente pelo nosso país independentemente da sua raça ou da sua cor de pele, o dia em que nosso Estado Democrático de Direito vai permitir que nós de fato sejamos cidadãos de primeira classe, e não sejamos submetidos a essa brutalidade da cena social de todos os dias”, disse Vicente durante a solenidade. “Queremos render nossas condolências a essa família destroçada.”

Fux, que lembrou ter recebido em 2015 o título de “negro honorário”, concedido pela ONG Educafro, havia dito mais cedo, em um congresso sobre registro civil, que o “Brasil foi a sociedade escravocrata mais longa de todo o mundo” e que, por isso, deve-se lembrar cotidianamente disso para ter a “inclusão social como resgate histórico”.

Outros ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, também comentaram o episódio em Porto Alegre, que classificaram de “bárbaro”. Sem citar o crime, o ministro Luís Roberto Barroso, que é também presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), disse nesta sexta-feira que o país “tem o dever de reparar a chaga moral a escravidão”.

Por Felipe Pontes, da Agência Brasil

Justiça determina prisão dos seguranças que mataram homem negro

João Alberto Silveira Freitas tinha 40 anos e foi morto dentro do Carrefour (Reprodução)

O Juiz plantonista do Foro Central de Porto Alegre, Cristiano Vilhalba Flores, determinou a prisão preventiva de Magno Braz Borges e Giovane Gaspar Da Silva, apontados por envolvimento na morte de João Alberto Silveira Freitas, ocorrida na noite dessa quinta-feira, no estacionamento do supermercado Carrefour, na zona norte da capital.

Conforme o magistrado, “existem indícios de autoria pelas declarações das testemunhas, as quais afirmaram que a vítima fora detida pelos flagrados, sendo que estes teriam argumentado que agiram para cessar uma agressão que a própria vítima teria cometido contra terceiro, funcionário da empresa onde os fatos ocorreram. Os indícios de autoria são reforçados pelos vídeos juntados aos autos, onde se pode verificar toda a ação que culminou no óbito da vítima, que viera a falecer no local”.

O Juiz converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva e destacou a brutalidade do fato ocorrido.

“Pela análise do vídeo do momento em que o evento se desenrolou, pode-se constatar que, em que pese possa o fato ter se iniciado por ato da vítima, a ação dos flagrados extrapola ao que se pode conceituar como necessária para a contenção desta, pois passaram a praticar, contra ela, agressões quando já ao solo. Embora não seja este o momento para a verificação da tipificação da conduta dos flagrados de uma forma definitiva, é necessária uma prévia e provisória análise das condutas para um juízo mínimo sobre a gravidade do fato a justificar a manutenção da segregação destes”.

Também ressaltou que “não há como se afastar, de plano, o dolo homicida na conduta, pelo menos na sua forma eventual”.

“Portanto, pelo menos neste momento, até para fins de melhor elucidação de todo o evento trágico ocorrido, a prisão cautelar dos flagrados se justifica, pelo que a aplicação de qualquer outra medida cautelar seria inadequada e insuficiente”.

*TJRS

Carrefour destina lucro das lojas para projetos contra o racismo

O Carrefour anunciou hoje (20), após a morte de João Alberto Silveira Freitas em uma das unidades da rede, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que vai destinar o lucro de todas as lojas do Brasil nesta sexta-feira para projetos que atuem para combater o racismo. A informação foi divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

“Essa quantia, obviamente, não reduz a perda irreparável de uma vida, mas é um esforço para ajudar a evitar que isso se repita”, afirmou, em nota, a empresa.

Ainda segundo a reportagem, as lojas abrirão duas horas mais tarde neste sábado (21), para que, neste período, a rede possa reforçar com colaboradores diretos e terceirizados os valores da rede.

O Carrefour informou que rompeu o contrato com a empresa terceirizada de segurança, responsável pela loja onde o João Alberto foi morto.

Após morte de homem negro em mercado, Mourão diz que não existe racismo no Brasil

Hamilton Mourão, Vice-Presidente da República (Romério Cunha/VPR)

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira (20/11), Dia da Consciência Negra, que não existe racismo no Brasil. A declaração foi dada quando ele comentou a morte de João Alberto Silveira Freitas, que foi espancado por seguranças no estacionamento de um supermercado Carrefour.

A jornalistas, Mourão lamentou a morte de Freitas e disse que o episódio foi provocado por uma equipe de segurança “totalmente despreparada”. Ao ser questionado se o crime pode ter sido por motivado por questões raciais, o vice afirmou que não existe racismo no país.

“Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui. Eu digo pra você com toda tranquilidade, não tem racismo”, ressaltou Mourão.

O vice continuou então dizendo que racismo existe em outros países, como nos Estados Unidos. Acrescentou ter morado naquele país na década de 1960 e, com base nessa experiência, pode concluir que não existe um problema racial no Brasil.

“Morei dois anos nos Estados Unidos, racismo tem lá. Na minha escola, o pessoal de cor andava separado. Isso eu nunca tinha visto no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí.”

“Aqui não existe. Aqui, o que você pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade. Isso é uma coisa que existe no nosso país. Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas, e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidade da sociedade moderna, são gente de cor”, concluiu Mourão.

João Alberto Silveira Freitas morreu após ser espancado no estacionamento de um supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. Ele teria discutido com uma caixa do supermercado e sido levado para fora do estabelecimento.

Vídeos nas redes sociais mostram cenas em que dois homens derrubam Freitas, e um deles lhe dá vários socos na cabeça. Em outro vídeo, os dois homens imobilizam no chão a vítima, já ensanguentada, enquanto uma funcionária tenta evitar a gravação e afirma que Freitas havia batido numa fiscal.

Dois suspeitos pelo crime, ambos brancos, de 24 e 30 anos de idade, respectivamente, foram presos em flagrante. A investigação trata o crime como homicídio qualificado.

O Carrefour afirmou, em nota, lamentar profundamente o caso, tendo iniciado rigorosa apuração interna e tomado providências para que os responsáveis sejam punidos legalmente. A empresa atribuiu a agressão aos seguranças, chamou o ato de criminoso e anunciou o rompimento do contrato com a empresa responsável pelos funcionários.

CN/ots

Por Deutsche Welle