Armas desaparecem de dentro de cofre de delegacia

Arsenal estava em cofre do 99º DP, na zona sul de São Paulo | Foto: Google Street View

Um registro da Polícia Civil de São Paulo oficializou o sumiço de dez armas de dentro de uma delegacia na capital paulista. O caso aconteceu no 99º DP (Campo Grande), na zona sul da cidade.

Em boletim de ocorrência, o escrivão-chefe da unidade, localizada na Rua Sargento Manoel Barbosa da Silva, descreveu ter notado a ausência das armas no fim da tarde do dia 14 de setembro.

Segundo ele, decidiu fazer a checagem do material por volta de 17h30. Foi ao cofre de sua sua sala e deu conta da falta de dez armas: 3 pistolas e 7 revólveres.

Todas as armas estavam ligadas a procedimentos registrados naquela delegacia e faziam parte de investigações.

Curiosamente, a chave do cofre estava dentro de uma gaveta trancada na mesa do escrivão. Junto de cada uma delas havia um laudo que comprovava o delito a que elas estão ligadas.

Além das armas, também sumiu da sala um livro em que os policiais civis anotavam fisicamente cada apreensão de armas de fogo. O documento do 99º DP não detalha se havia outra maneira de tabelar os itens apreendidos.

Há alguns problemas expostos pelo desaparecimento das dez armas, como analisa Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz. A especialista lista três: registros precários, custódia das armas e retorno à criminalidade. Segundo ela, questões antigas a serem superadas.

Uma solução simples para o primeiro dela seria a criação de um sistema online para controle dos armamentos. “Infelizmente ainda é bastante comum no Brasil, não é só de SP, termos registros precários”, diz.

Outro ponto envolve o poder Judiciário. Até 2017, as armas ligadas a crimes ficaram guardadas nos fóruns, mas, depois de dois grandes roubos, a Justiça decidiu mantê-las nas delegacias.

“Num geral, essa custodia se dá por tempo maior do que o necessário. Nada justifica guardas essas armas por muito anos”, afirma, citando que os juízes têm cinco dias para definir o que fazer com as armas depois das perícias, mas o tempo não é respeitado.

Por fim, Natália cita o problema imediato ao furto: a volta das armas para a ilegalidade. Estudos apontam que 40% das armas apreendidas com criminosos têm o mercado legal como origem.

“É um dano duplo quando a arma volta a circular: são desvios ruins por voltar ao crime e desperdiça todo o trabalho policial”, analisa.

Para além disso, ela problematiza o próprio acesso à informações. Os estudos Se baseiam em dados do sistema da Polícia Federal, mas há outra base de dados, do Exército, sem informações públicas.

“Não temos dados de CACs (registros de armas de Colecionadores, Atiradores e Caçadores) e policiais”, cita, sobre a fragilidade das informações disponíveis.

Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo sobre o sumiço das armas do 99º DP. Segundo a pasta, a investigação está em “sob sigilo determinado pela Justiça”. A própria unidade é responsável pela apuração. 

“Um suspeito foi preso e uma arma recuperada. A Corregedoria da Polícia Civil foi notificada sobre os fatos”, explica a secretaria, sem detalhar se o suspeito é ou não policial e qual arma teria sido apreendida de novo.

Por Arthur Stabile, da Ponte

PCC é investigado por execuções de 2 agentes em SP

Suspeita é de que os assassinatos de dois agentes em quatro dias, na Grande SP, sejam uma retaliação às denúncias de maus tratos contra a cúpula da facção em Brasília; em SP e Brasília, presos fazem greve

Polícia na rua onde agente Alexandre foi assassinado, em Taboão da Serra (Grande SP)
(Arquivo pessoal)

Dois agentes penitenciários foram assassinados em quatro dias na Grande São Paulo. A Polícia Civil investiga se as mortes são uma retaliação do PCC (Primeiro Comando da Capital) por conta das denúncias de maus-tratos aos líderes da facção presos na Penitenciária Federal de Brasília.

Na noite desta quinta-feira (12/3), o agente penitenciário Alexandre Roberto de Souza foi executado com 15 tiros no Jardim das Oliveiras, em Taboão da Serra (Grande SP). A vítima trabalhava no Centro de Detenção Provisória de Itapecerica da Serra, também na região metropolitana. Segundo a Polícia Militar, os assassinos fugiram em um veículo Fiat Toro vermelho.

Documento de Alexandre Roberto de Souza, assassinado em 12/3 (Arquivo pessoal)

Na tarde de segunda (9/3), Samuel Correia Lima, funcionário do CDP de Mauá, também na Grande SP, foi assassinado com sete tiros em um depósito de material de construção no vizinho município de Santo André. Amigos de Lima afirmaram à Ponte que o servidor trabalhava na enfermaria da unidade prisional e que sempre tratou bem tantos os presos quanto os colegas de trabalho.

Os assassinatos dos agentes  deixaram a categoria em alerta. O presidente do Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo, Fábio Jabá, enviou uma mensagem de áudio na noite de quinta-feira (12/3) pedindo cautela aos trabalhadores. “Vamos nos defender e se possível também atacar”, afirma.

“Não devemos esperar 2006 para saber o que está ocorrendo”, afirma Fábio Jabá na mensagem. Ele orienta a categoria a ter o máximo cuidado dentro e fora dos presídios para que não se repitam as cenas registradas em  maio de 2006, quando o PCC comandou rebelião simultânea em 74 prisões e atacou as forças de segurança, matando 59 pessoas, entre agentes e policiais. “Vamos nos defender e se possível também atacar”, afirma.



A megarrebelião de 2006 foi em protesto contra o isolamento de 765 presos da facção na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, na véspera do Dia das Mães, data sagrada para a população carcerária. Em resposta aos ataques do PCC, policiais mataram 505 pessoas em São Paulo.

O mesmo sindicalista apresentou o que seria um “salve” (recado trocado entre presos de facção), apreendido em uma prisão do interior de São Paulo, que ordenava a morte de um agente penitenciário, informando o nome dele e de seus pais, além do endereço (veja o documento completo, sem os nomes).

Suposto “salve” ordenando morte de agente penitenciário, apreendido no interior de SP

“Greve branca”

Parentes de presos disseram que os detentos da Penitenciária Federal de Brasília iniciaram greve de fome como forma de protesto. Eles se queixam da qualidade da alimentação, da falta de atendimento médico e de revistas vexatórias impostas às visitantes, que seriam obrigadas a ficaram nuas na frente de funcionários.

Polícia na rua onde agente Alexandre foi assassinado, em Taboão da Serra (Grande SP)| Foto: Arquivo pessoal 

No Estado de São Paulo, centenas de detentos manifestaram solidariedadeaos presos do PCC de Brasília e se recusaram em sair das celas para audiências em fóruns. A manifestação é chamada de “greve branca”.

Em mensagem de áudio a que a Ponte teve acesso, um agente penitenciário no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista, conversa com colega do CDP Belém, na zona leste, sobre a greve dos presos em São Paulo e comenta que “o bicho vai pegar”.

Segundo funcionários do sistema prisional, na quarta-feira (11/3) ao menos 60 presos foram mandados para o castigo na Penitenciária 1 de Presidente Venceslau, por causa da “greve branca”. A SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária) não confirma essa informação.

Funcionários do sistema prisional disseram à Ponte  não ter dúvidas de que as mortes dos dois agentes foi uma vingança do PCC por conta da situação dos líderes na Penitenciária Federal de Brasília e também por causa da remoção de presos para o castigo na Penitenciária 1 de Venceslau.

Um agente penitenciário afirmou que entre 60 e 80 presos da Capital foram transferidos para a P1 de Venceslau porque se solidarizaram com os chefes da facção criminosa recolhidos em Brasília. O funcionário contou ainda que outros presos do Interior, que também participaram da “greve branca”, serão levados para a P1 de Venceslau ainda esta semana.

Em nota divulgada na quarta-feira (11/03), a SAP havia informado que “houve poucas recusas dos presos, em algumas unidades, para comparecimento em juízo”.

Desde janeiro a Ponte vem divulgando denúncias trazidas por familiares de presos do PCC relacionadas à falta de atendimento médico e hospitalar, privação de alimentação e revista vexatória na unidade de Brasília.

Outra queixa refere-se à proibição dos presos de abraçar os filhos ao menos uma vez por mês em dia de visita. Os detentos que tiveram bom comportamento em um ano inteiro podiam fazer isso. Mas esse direito foi tirado, o que causou grande insatisfação à população carcerária.

Por Josmar Jozino – Repórter da Ponte

Polícia vai usar reconhecimento facial para apurar crimes

Foi inaugurado hoje (28), em São Paulo, o Laboratório de Identificação Biométrica – Facial e Digital, na sede do Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt (IIRGD) – ligado à Polícia Civil do Estado. Desde 2014, o Sistema de Identificação Automatizada de Impressões Digitais – Automated Fingerprint Identification System (Afis, na sigla em inglês) – localiza e cruza dados de impressões digitais. Agora, também passa a contar com reconhecimento facial.

“É a mais moderna plataforma digital do país nos Estados. É tecnologia a serviço da segurança pública e que melhora a eficiência investigativa. E, ao analisar casos já ocorridos, permite que se tenha um histórico para evitar novos crimes ou como combater crimes dessa natureza”, disse o governador João Doria, durante cerimônia de abertura do laboratório, que permite maior celeridade, confiabilidade e capacidade de processamento na produção de provas técnicas, dando mais agilidade a diversas investigações conduzidas pela Polícia Civil.

O sistema já possui um banco de dados com cerca de 30 milhões de registros biométricos. A plataforma está interligada a outras do mesmo gênero.

“O reconhecimento facial não vai ser utilizado isoladamente como meio de prova. Nós vamos ‘linkar’ a outros procedimentos da Polícia Civil e formar um conjunto que vai determinar se um sujeito, que é o suspeito, praticou um delito ou não”, afirmou o delegado-Geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes.

O contrato que implantou o sistema na instituição venceu e, a partir de um novo acordo, firmado por meio de licitação em agosto de 2019, foi possível a expansão do programa. A empresa vencedora do certame foi a Gemalto do Brasil, que investirá R$ 5,1 milhões no contrato, com vigência de um ano.

Funcionalidades

Os dados biométricos coletados durante a emissão de um RG (Registro Geral) serão submetidos ao sistema para confirmação da identidade do requerente. O mesmo ocorrerá com imagens captadas em locais de crime e fragmentos de impressões digitais. Assim, por meio de algoritmo de busca, obtém-se possíveis candidatos cujos dados serão analisados por um papiloscopista policial.

A formação dos profissionais que atuam com a plataforma ocorre em cursos ministrados pela Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra” e complementados com o uso in loco do sistema no IIRGD. Os cursos duram, em média, seis meses e todos os servidores que atuam na área são capacitados.

Prontuários digitais

Está prevista, ainda para o primeiro semestre deste ano, uma licitação para contratar a empresa que será responsável pela digitalização de cerca de 30 milhões de prontuários de cidadãos do Estado de São Paulo – correspondente a 40% do total de prontuários existentes do IIRDG.

O certame será realizado a partir de convênio firmado em 2018 entre a Secretaria da Segurança Pública e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. A medida permite que os registros sejam integrados à base biométrica do banco de dados do sistema biométrico automatizado, que poderá ser disponibilizado para outros órgãos públicos.

*Com informações do Governo do Estado de SP

Suspeito de colocar fogo em morador de rua é identificado

Por  Letycia Bond 

Momento em que morador de rua foi queimado (Reprodução)


A Polícia Civil de São Paulo informou, na manhã de hoje (8), que o suspeito de ter ateado fogo em um homem em situação de rua vivia em condições semelhantes, há 25 anos, também na região. A identificação do autor do crime ocorrerá somente após a conclusão das investigações. Até o momento, a polícia divulgou oficialmente apenas que o homem tem 49 anos e nasceu em Minas Gerais.

De acordo com a delegada titular do 18º Distrito Policial (DP), Silvana Sentieri Françolin, o suspeito relatou a agentes que conhecia a vítima há quatro anos. A delegada informou ainda que o suspeito foi reconhecido por uma pessoa que viu as imagens registradas em câmeras de segurança. Ainda segundo a Polícia Civil, ele teve uma madeixa de cabelo queimada e há indícios de que o combustível usado no crime foi gasolina.

O mandado de prisão foi cumprido na madrugada de hoje, quando ele foi localizado na região do Cambuci, zona central de São Paulo. E o suspeito ficará detido por 30 dias, na unidade policial.

A Polícia Civil informou que o suspeito confessou o crime, mas que ainda há divergências que precisam ser averiguadas. De acordo com a polícia, a versão apresentada às autoridades policiais é a de que ele efetuou um saque de R$ 10 mil de uma poupança que mantém e que a quantia foi furtada momentos antes da agressão.

De acordo com o delegado titular da 56ª DP, Glaucus Vinicius Silva, que acompanha o caso, o relato parece ter inconsistências, já que não faria sentido uma pessoa em situação de rua ter disponível um montante de dinheiro tão elevado. “Esse fato ainda não convenceu a polícia”, disse, acrescentando que, se indiciado, o homem deverá responder por homicídio doloso qualificado.

Glaucus Silva destacou que o suspeito já teve passagens na polícia, que resultaram em termos circunstanciados. Esse tipo de registro documenta infrações de menor potencial ofensivo. “Mas não devem ser levados em consideração, porque já prescreveram [para fins de antecedentes criminais]”, disse.

Questionada se o suspeito será submetido a exames psicológicos, que poderiam indicar insanidade mental ou transtornos, a Policia Civil disse que tais procedimentos podem, se necessários, ser realizados posteriormente, enquanto a investigação avança.

Vídeo mostra morador de rua sendo atacado com fogo

Por Paloma Vasconcelos

Carlos Roberto Vieira da Silva, 39 anos, morreu nesta segunda (6/1), após ser atacado em frente a um supermercado na Mooca, zona leste de SP

O morador em situação de rua Carlos Roberto Vieira da Silva, 39 anos, não resistiu aos ferimentos e faleceu na manhã desta segunda-feira (6/1). A informação foi confirmada pela Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, que também informou que o corpo de Carlos foi encaminhado ao IML (Instituto Médico-Legal).

Carlos foi atacado com fogo na madrugada do último domingo (5/1) enquanto dormia em frente ao supermercado Dia, na região da Mooca, na zona leste de SP. Ele foi atingido nas pernas, costas, peito e no rosto, sofrendo queimaduras de 2º e 3º graus, ou seja, queimaduras profundas e mais extensas. Estava internado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Municipal Tatuapé.

Momento em que morador, à esquerda do vídeo, tenta se livrar do fogo | Foto: reprodução

Ponte recebeu um vídeo que mostra o momento exato em que uma pessoa ateia fogo em Carlos, que dormia em frente ao supermercado. As imagens de uma câmera de segurança mostram a pessoa correndo depois do crime. É possível ver uma explosão, um fogo alto e Carlos saindo com o corpo todo em chamas. 

O Padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, lamentou o ocorrido. “Ontem quando eu o visitei na UTI o estado dele era bem crítico, já se sabia que havia um risco bem grande de morte”, disse à Ponte

“Nós começamos o ano com um sinal bem grave na cidade, de uma pessoa em situação de rua ser morta dessa forma. Já se acendeu o sinal de alerta máximo e isso exige uma mobilização da cidade toda na proteção da vida de pessoas em situação de rua, que são cada vez mais numerosos”, apontou Lancellotti.

https://www.youtube.com/watch?v=Y9YlTnCGZ3k&feature=emb_title

*Esta reportagem foi publicada originalmente pela Ponte.

Laudo revela causa da morte do menino Lucas, de 14 anos

Por Paulo Eduardo Dias

Documento do IML não encontrou lesões no corpo, mas profissionais alertam que em caso de afogamento é necessário outros exames para identificar morte violenta

Familiares e amigos espalharam cartazes com a foto de Lucas Eduardo antes da confirmação de sua morte | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Laudo elaborado pelo IML (Instituto Médico Legal) de Santo André, cidade na Grande São Paulo, aponta que Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14 anos, morreu em decorrência de “asfixia mecânica por afogamento”. Tanto seus familiares como vizinhos da Favela do Amor, na Vila Luzita, periferia da cidade, acusam policiais militares pelo sumiço e morte do adolescente, desaparecido na madrugada do dia 13 de novembro. 

O documento ao qual a reportagem da Ponte teve acesso indica que o corpo do Lucas, que nasceu em 25 abril de 2005, em Bezerros, na região de Caruaru, no agreste pernambucano, não possuía qualquer tipo de agressão. Lucas sumiu nas primeiras horas da madrugada enquanto voltava para casa, após comprar um refrigerante Dolly e um pacote de bolachas, em uma quitanda dentro da própria favela em que morava com sua mãe, um irmão e a cunhada. Família e amigos cobraram respostas em protestos na região.

O corpo do adolescente que foi encontrado no dia 15 de novembro boiando num lago do parque Natural Municipal do Pedroso, em Santo André, apenas de cueca branca e um par de meias cinza. Trechos do laudo revelam que o corpo apresentava “coloração esverdeada em todo abdome, tórax, cabeça e membros, e pele de aspecto anserina em extremidades de membros superiores e inferiores” quando chegou no IML. O documento é assinado pelo legista Marcos Moraes Biancalana. 

Já no exame interno, em que são abertas as cavidades, não havia fratura em nenhum dos osso do crânio nem sinais de lesões traumáticas no tórax. No entanto, “continham petéquias subpleurais (pequenas hemorragias de vasos sanguíneos) em ambos pulmões, além de conteúdo líquido no estômago”. O exame ainda apontou que o “tempo da morte é maior que 48 horas ao momento em que se iniciou a necrópsia”. 

Dois legistas ouvidos pela reportagem indicaram que em casos de afogamento é necessário outros laudos para se saber se houve ou não violência. “A morte causada pelo afogamento é chamada de asfixia mecânica por afogamento, que é provocada pela substituição do oxigênio (ar) pelo meio liquido (água). Todos os casos encaminhados ao IML são considerados morte violenta ou morte suspeita”, descreve Celso Domene, presidente da Associação dos Médicos Legistas. “O inquérito policial é que irá determinar se houve ou não violência e fica a cargo do delegado de polícia investigar. O médico legista apenas constata o tipo de morte”.

Sob a condição de anonimato, um outro perito criminal ouvido pela reportagem afirmou que “do ponto de vista técnico, o laudo está perfeito, e de fato todos os sinais lançados no laudo são compatíveis com afogamento. Aquela equimose verde no pescoço, líquido no estômago, e coloração da pele é típico de afogamento”, sustenta. “O prazo de 48 horas é relevante. Se foi afogamento natural ou se foi homicídio, aí tem que ter mais dados de perícia criminal para fazer essa análise. Estão esperando um exame toxicológico, então tem que ver se a pessoa foi sedada e jogada na água… Tem que ter outros elementos para concluir”, pondera. 

Familiares do menino contestam a tese de afogamento, já que os parentes que viram o corpo no IML e outros que viram fotos do menino morto no parque alegam que ele sofreu muito antes de ser atirado no rio. “Ele foi espancado, os dentes quebrados, o rosto estava muito machucado, tinha marcas de pisadas no peito e no braço”, afirma Cícera Santos, 43 anos, tia do menino. A mulher conta que não chegou a ver o corpo no IML, mas que viu as fotos e que os familiares que entraram na sala com o médico legista a contaram o estado do cadáver.

Paralelamente à investigação sobre a morte de Lucas, sua mãe, Maria Marques Martins dos Santos, 39 anos, segue presa na Penitenciária Feminina de Santana, no Carandiru, zona norte da capital paulista. A mulher foi presa em 19 de novembro ao prestar depoimento sobre o desparecimento de seu filho no Setor de Homicídios e Desaparecidos de Santo André. No enterro de Lucas, ela permaneceu algemada enquanto se despedia do filho.

Maria tinha um mandado de prisão expedido em 2017 após ser condenada em segunda instância, dois anos antes, a cumprir pena de cinco anos por tráfico de drogas. Ela é testemunha chave do caso, pois horas após o menino sumir duas viaturas da Policia Militar foram até sua residência, com um dos PMs encapuzados, e pediram para entrar na residência. A mulher ainda afirma ter ouvido “eu moro aqui”, que assegura ter ouvido de Lucas, vindo do mesmo ponto em que estavam os carros da PM. 

Os policiais militares Rodrigo Matos Viana e Lucas Lima Bispo dos Santos, ambos da 2ª Companhia do 41º BPM/M (Batalhão da Polícia Militar Metropolitano), e que são suspeitos de participação no caso, estão afastados do patrulhamento de rua e trabalhando internamente em atividades administrativas, no entanto, continuam a receber salário normalmente. Um exame de DNA em sangue encontrado na viatura M-41222, em que os PMs estariam no dia 13 de novembro, teve resultado inconclusivo devido a pouca quantidade do material humano coletado. 

O advogado e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Ariel de Castro Alves também enxerga incoerência no documento. “Certamente o jovem não sairia de sua casa de madrugada para nadar no córrego e em consequência disso se afogar. A Polícia Civil e a Polícia Militar precisam explicar a provável abordagem policial sofrida pelo jovem, o desaparecimento e o próprio afogamento”, cobra o profissional, que vai além. “Os assassinos podem ter utilizado o afogamento do Lucas para dificultar as investigações e para garantirem a impunidade. Ele pode ter sido jogado no córrego e os criminosos ficaram aguardando até ele se afogar e ser consumada sua morte antes de deixarem o local”.

Castro Alves também analisa com preocupação o fato das investigações correrem em sigilo. “O caso Lucas tem tudo pra ficar impune. O primeiro passo para isso foi a Justiça decretar o sigilo. O Ministério Público, que pela lei tem que fiscalizar e controlar as ações policiais, até agora não se manifestou sobre as apurações”, afirma.

Por telefone, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou a Ponte que o caso segue em investigação e em segredo de Justiça.

*Esta reportagem foi publicada originalmente pela Ponte.

Relatório revela causas do rompimento da barragem de Brumadinho

Por Ludmilla Souza

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O resultado da investigação técnica sobre o rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), mostrou que a causa da tragédia foi a combinação crítica de deformações específicas internas contínuas, devido ao creep e à pequena redução de força em uma zona insaturada pela perda de sucção por causa da água de fortes chuvas acumulada no local – aí incluídas as intensas chuvas do final de 2018.

A barragem rompeu-se em janeiro deste ano, provocando a morte de centenas de pessoas. Ainda há desaparecidos.

O resultado foi apresentado pelo líder de um painel de especialistas, Peter Robertson, PhD em geotecnia pela Universidade British Columbia, no Canadá. As conclusões do grupo foram divulgadas nesta quinta-feira (12) em São Paulo.

“O creep ocorre quando o material tem uma carga constante e se deforma de maneira lenta. Isso acontece com alguns materiais, que sofrem uma carga muito forte, como, por exemplo, um talude íngreme com excesso de água, que vai sofrer o efeito de creep, com tensões de cisalhamento [tensão gerada por forças aplicadas em sentidos iguais ou opostos, em direções semelhantes, mas com intensidades diferentes] no material analisado”, explicou Robertson. “É uma deformação que acontece lentamente, mas a ruptura é abrupta”, completou o especialista.

De acordo com Robertson, a novidade do estudo é a identificação da cimentação entre as partículas. “Em testes de laboratório, [constatou-se] o efeito da cimentação, e isso criou um material muito mais quebradiço, que perdia a resistência muito mais rapidamente”, observou.

Segundo o relatório do painel de especialistas sobre as causas técnicas do rompimento da Barragem I do Feijão, análises do estado de tensão dentro da estrutura mostraram ainda que partes significativas dela estavam sob carregamentos muito elevados devido a sua inclinação,  ao alto peso dos rejeitos e ao nível de água. “A construção de uma barragem íngreme a montante [método no qual a barreira de contenção recebe camadas do próprio material do rejeito da mineração], o alto nível de água, rejeitos finos fracos dentro da barragem e a natureza frágil dos rejeitos geraram as condições para o rompimento”, conclui o estudo divulgado hoje.

Liquefação estática

A análise apontou também a “liquefação estática” (quando um material sólido passa a se comportar como líquido) como motivo do rompimento. “O rompimento e o deslizamento de lama resultante decorreram da liquefação estática dos rejeitos da barragem”, diz o documento.

A barragem era essencialmente muito íngreme e muito úmida, e o material retido por ela, fofo, saturado, muito pesado e de comportamento muito frágil, destacou Robertson. “O rompimento foi resultado de liquefação estática dos materiais”, reforçou.

O relatório descartou elementos como sismos e detonações como causadores da tragéida. Segundo o Painel, embora tenham ocorrido detonações nas minas a céu aberto na área, nenhuma foi registrada pelo sismógrafo mais próximo da Barragem I no dia 25 de janeiro de 2019, antes do rompimento.

“Sabemos que houve uma detonação na mina, mas aconteceu mais ou menos 5 minutos após a ruptura. A detonação foi eliminada como possível gatilho e não teve nenhuma atividade de terremoto na região naquele dia”, ressaltou Robertson.

Ele disse que o painel de especialistas não avaliou responsabilidades da empresa, nem de pessoas envolvidas no acidente, mas que espera que as conclusões do relatório sirvam de exemplo. “Geralmente, quando rupturas como essa acontecem, a indústria aprende coisas novas, e as práticas melhoram. É uma lástima essa perda enorme de vidas.  Esperamos que as nossas descobertas possam ajudar a indústria para que fatalidades como essa não se repitam”, finalizou.

O painel foi contratado por um escritório de advocacia em nome da Vale SA para apurar as causas técnicas do rompimento. O relatório completo está disponível em www.b1technicalinvestigation.com.

O texto foi ampliado às 16h13

Paraisópolis: Delegado isenta PM após menos de 7 horas de investigação

Por Maria Teresa Cruz

Para delegado, ‘não há indícios’ de que PMs sejam responsáveis pelas 9 mortes em favela da zona sul de SP; Ministério Público vai acompanhar investigação

Protesto neste domingo por justiça aos 9 mortos em ação policial em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo (Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)


Policiais militares que participaram da ação com 9 mortes em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, afirmam que fizeram “uso moderado da força” com cassetetes e munição química, negam ter feito disparos com arma de fogo e colocam a responsabilidade pelo que aconteceu em uma suposta perseguição policial que terminou no meio da multidão que participava de um baile funk. 

Para o delegado do 89º DP (Portal do Morumbi) Emiliano da Silva Chaves Neto, “não foram encontrados indícios de participação direta ou efetiva [dos policiais] nas mortes” e, portanto, a investigação segue na própria delegacia e não será, até o momento, remetida ao DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa). O registro da ocorrência onde consta essa conclusão foi feito cerca de 7 horas após os fatos. 

Vídeos que circularam nas redes sociais durante o domingo e compilados pela Ponte mostram outra versão: multidão encurralada, disparos feitos pela PM na direção de pessoas correndo e dois jovens sendo agredidos com socos, tapas e pisões em uma viela pelos policiais. 

As vítimas são: Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Mateus dos Santos Costa, 23, Eduardo da Silva, 21, Luara Victoria Oliveira, 18, Gabriel R. de Moraes, 20, Dennys Franca, 16, e Gustavo Cruz Xavier, 14. 

Ponte teve acesso aos depoimentos de 4 PMs envolvidos na ocorrência – Antonio Marcos Cruz da Silva, Vinícius José Nahool Lima, Thiago Roger de Lima Martins Oliveira e Renan Cesar Angelo, todos do 16º BPM/M – além de policiais que falaram à Polícia Civil na condição de testemunhas.

A narrativa é a mesma: os PMs afirma que estavam em operação de combate ao pancadão na região, quando dois agentes avistaram suspeitos em uma moto XT 660 que, para escapar da abordagem, atiraram e fugiram, iniciando uma perseguição. Na sequência, tentaram se esconder no meio da multidão que participava de um baile funk, o baile da DZ7. Os participantes da festa, ainda segundo os relatos dos agentes, teriam lançado pedras e garrafas contra os policiais, que, então, reagiram. 



“Ao visualizarem as equipes policiais furaram o comboio policial e o indivíduo que esta estava na garupa do motociclo sacou de arma de fogo e passou a efetuar disparos de arma de fogo em direção do comboio que era formado por viaturas motocicletas da polícia militar, que não tiveram condições de revidar no momento, que conseguiram se abrigar e logo em seguida foram no encalço dos meliantes, porém eles adentraram no pancadão que ocorria na via pública no interior da comunidade Paraisópolis e mesmo se misturando entre os frequentadores do pancadão o indivíduo que estava com arma de fogo continuava efetuando disparos a esmo, o que causou uma grande confusão entre dos frequentadores do pancadão, restando nove pessoas pisoteadas por conta do tumulto, as quais ficaram pelo local”, diz trecho sobre o depoimento do PM Renan Cesar Angelo. Com poucas diferenças, a narrativa se repete em outras falas. 

Ainda, segundo os testemunhos, os PMs negam terem efetuado disparos de arma de fogo e apenas identificaram que uma das vítimas havia levado um tiro em uma das pernas. Apesar disso, reforçam que não dispararam e que não houve revide com arma de fogo após os ocupantes da moto terem atirado.

O PM Thiago Roger Lima Martins de Oliveira destacou, em seu depoimento, que quando a equipe percebeu que havia uma multidão, tentaram sair, foram atacados, “visualizaram as viaturas da Força Tática, M16010 e M16011 apedrejadas e danificadas” e que tentaram “prestar apoio”, segundo o B.O.. 

O delegado Emiliano da Silva Chaves Neto também destacou a “lesão corporal” por possível disparo de arma de fogo em uma das vítimas feridas, destacou que as armas dos policiais foram apreendidas e indicou exame balístico caso necessário. 

Nesta segunda-feira (2/12), em coletiva de imprensa, o governador João Doria (PSDB), que anteriormente havia pedido em sua conta no Twitter “apuração rigorosa”, saiu em defesa dos policiais. “A letalidade não foi provocada pela PM e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo”, disse. Doria prestou solidariedade às famílias das vítimas.

Segundo o R7, a Polícia Civil vai esperar os laudos do IML (Instituto Médico Legal) para saber a causa das nove mortes e, por enquanto, os depoimentos estão suspensos. 

O Ministério Público Estadual de SP informou nesta segunda-feira (2/12) que o procurador-geral de Justiça de SP, Gianpaolo Smanio, determinou que a promotora Soraia Bicudo Simões acompanhe a investigação da ação policial.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/em-menos-de-7-horas-delegado-isenta-pms-por-mortes/

PCC usou Poupatempo para falsificar documentos

Por Josmar Jozino, da Ponte Jornalismo, e Luis Adorno, do UOL

Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior é irmão de Marcola, líder da facção criminosa, e tirou RG falso em 2003, em unidade de São José dos Campos

Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão do Marcola, enquanto estava preso com a cúpula do PCC no interior de SP (Reprodução)


Condenado e foragido da Justiça, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, irmão de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder máximo do PCC (Primeiro Comando da Capital), deixou suas impressões digitais e conseguiu tirar uma carteira de identidade falsa em uma unidade do Poupatempo em São José dos Campos, a 97 km de São Paulo.

Na época, 17 de julho de 2003, Júnior, quatro anos mais novo que Marcola, tinha 36 anos. No Poupatempo, que presta serviço para o Instituto de Identificação ligado à Polícia Civil de São Paulo, adquiriu o documento em nome de Paulo Cezar Albuquerque de Souza.

Por causa da emissão do documento falso, Júnior pode abrir uma conta bancária, na qual movimentou R$ 504 mil de novembro de 2002 até maio de 2006. Aquele mês ficou marcado pelos Crimes de Maio, quando o Estado revidou os ataques do PCC às forças de segurança de São Paulo e deixou mais de 500 pessoas mortas.

O irmão de Marcola não foi o único a ter sucesso nesse tipo de operação. Outros líderes do PCC, integrantes de quadrilhas responsáveis por grandes roubos a bancos, transportadores de valores e carros-fortes, também conseguiram a emissão de documento falso na mesma unidade.

Irmão de Marcola afirmou em depoimento que, foragido, foi ao Poupatempo para ter RG falso (Reprodução)

De julho de 2003 a abril de 2010, ao menos 10 criminosos tiraram carteira de identidade falsa na mesma unidade do Poupatempo. A Corregedoria da Polícia Civil abriu inquérito na época para apurar o possível envolvimento de policiais no episódio. O processo de falsificação de documento público contra os acusados continua em andamento. A próxima audiência judicial foi marcada para 30 de janeiro de 2020.

Na prática, com os RGs falsos, os integrantes passam despercebidos quando parados pela polícia e tentam conviver em sociedade sem antecedentes que os comprometam.

Procurado às 14h desta terça-feira (26/11), o Poupatempo não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação deste texto. O UOL e a Ponte Jornalismo perguntaram qual o resultado do inquérito sobre o documento falso e se alguém foi responsabilizado pela ilegalidade.

Dez anos depois de RG, assassinado com 70 tiros

Cláudio Roberto Zanetti, 38 anos, dirigia seu Audi Q3 blindado, com R$ 73.360 e roupas novas em uma mala, pelo Tatuapé, na zona leste de São Paulo, quando foi atingido por cerca de 70 tiros na cabeça, nos braços e nas pernas, no dia 23 de julho de 2018. Zanetti morreu no hospital, mas sua identidade era outra: Cláudio Roberto Ferreira, o Galo Cego, conhecido pela polícia como um dos grandes ladrões de banco do PCC.

Em 16 de agosto de 2008, dez anos antes, Galo Cego conseguiu tirar a carteira de identidade no Poupatempo de São José dos Campos com o nome falso. Como o irmão de Marcola, suas impressões digitais foram coletadas sem nenhum questionamento.

Cláudio Ferreira estava foragido da Justiça, segundo o Banco Nacional de Mandados de Prisão. Em 2008, ele participou de uma perseguição policial que terminou com três pessoas mortas e 11 feridos. Pela ação, a Justiça o condenou a 65 anos, um mês e 15 dias de prisão em regime fechado, em segunda instância, sob a acusação de latrocínio, roubo, lesão corporal e organização criminosa.

Galo Cego também era ligado à quadrilha que, em agosto de 2005, roubou R$ 164 milhões do Banco Central de Fortaleza.

A morte ocorreu durante uma guerra interna do PCC, originada em fevereiro do mesmo ano, após os assassinatos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, acusados de desviar dinheiro da facção criminosa.

Outro beneficiado pelo esquema criminoso foi Lucival Marques da Silva, acusado de participar de grandes roubos a transportadoras de valores. Um deles aconteceu em julho de 1997, quando a quadrilha levou R$ 1,83 milhão de uma empresa em São Paulo. O falso documento obtido por Silva foi emitido em 29 de março de 2008, em nome de Reginaldo Antonio de Souza.

Marcola e Júnior (ou Marcolinha)

Os irmãos Marco, 51 anos, e Alejandro, 47, estão presos na Penitenciária Federal da Papuda, em Brasília, no Distrito Federal, desde março deste ano. O irmão mais novo é chamado de Marcolinha. No sistema estadual paulista, Marcolinha era chamado de Júnior.

Filhos de pai boliviano e mãe brasileira, os irmãos foram criados por uma tia desde 1980, quando fugiram, moraram na rua e passaram a praticar crimes.

Marcola está condenado a 330 anos, seis meses e 24 dias de prisão com praticamente todos os crimes violentos ou hediondos do Código Penal brasileiro, de acordo com sua folha de antecedentes, consultada com exclusividade pela reportagem.

Júnior está condenado a 104 anos, oito meses e 23 dias de prisão por crimes como associação para o tráfico de drogas, tráfico de drogas, roubo qualificado e formação de quadrilha.

Ofício expedido pelo secretário da Administração Penitenciária paulista, o coronel Nivaldo Restivo, aponta que Júnior “registra envolvimento com a facção criminosa, é irmão do Marcola e seu principal conselheiro”, além de ser “extremamente forte no tráfico de drogas e sócio de seu irmão nessa atividade”.

Preso em Fortaleza em 2016, Camacho Júnior estava ganhando espaço dentro da facção. Sua presença no Nordeste serviria para analisar a região como potencial território de exportação de drogas, sobretudo cocaína, para países dos continentes europeu e africano.

De acordo com o Ministério Público, mesmo preso em local de segurança máxima, Júnior não deixou de “exercer sua influência e posição de comando no seio da facção”. Por isso, foi transferido para o sistema federal no início deste ano.

PCC em processo de cartelização

Principal organização criminosa do Brasil, com domínio sobre a exportação de drogas para outros continentes, o PCC está a um passo de se tornar uma máfia, nos moldes de grupos italianos, japoneses, mexicanos e colombianos.

O que falta para o PCC chegar a esse patamar, segundo investigações do MP (Ministério Público) e da PF (Polícia Federal), é a lavagem de dinheiro não precária.

“O PCC ainda enterra dinheiro e mantém a contabilidade em papéis. Falta ter uma lavagem de dinheiro requintada. Mas isso não deve demorar para acontecer. A organização criminosa está em pleno processo de cartelização”, diz o promotor Lincoln Gakyia, considerado como o principal investigador do país contra o crime organizado em São Paulo.

Outro lado

Em nota, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informa que o caso foi investigado junto à Corregedoria e que os documentos emitidos ilegalmente foram cancelados. “A falsificação de documentos pode levar a prisão de dois a seis anos, além de multa. O referido inquérito foi relatado em 2014 e arquivado pelo Judiciário no ano seguinte”, diz a nota.

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/pcc-tinha-esquema-de-falsificacao-de-documentos-em-poupatempo-no-interior-de-sp/

Delegacia de SP teve falso policial durante um ano

Por Josmar Jozino

Informante da polícia, Cristiano Alleson Arruda da Silva tinha documento falso de investigador e mesa de trabalho no 90º DP (Parque Novo Mundo)

Documento, arma e equipamentos apreendidos junto do falso policial
(Arquivo pessoal/via Ponte Jornalismo)

O falso policial civil Cristiano Alleson Arruda da Silva, 42 anos, trabalhou aproximadamente um ano no 90º DP (Parque Novo Mundo), zona norte da cidade de São Paulo, onde tinha até mesa em uma sala no 1º andar da delegacia.

Na realidade, Silva jamais integrou os quadros da Polícia Civil e era apenas um “ganso” (informante, como se diz na gíria) dos investigadores e delegados do distrito policial.

A farsa de Silva acabou às 7h20 desta segunda-feira (11/11), em Embu das Artes, cidade na Grande São Paulo, quando ele foi preso pelos policiais militares Thiago Carneiro Arruda, 33 anos, e Eduardo Sidney Rodrigues, 37 anos.

Os PMs faziam patrulhamento na rua Itambé, no Jardim Santo Eduardo, quando suspeitaram do ocupante do veículo Hyundai IX 35, branco, com vidros escuros e placas FCR-7667.

O motorista do carro foi abordado pelos militares e se identificou como Cristiano Alleson Arruda da Silva. Ele alegou ser policial civil e apresentou uma carteira funcional em seu nome.

Os PMs acharam o documento estranho, fizeram uma pesquisa via Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) e foram informados de que não havia nenhum policial civil com aquele nome.

Veículo Hyundai IX35 utilizado pelo homem (Arquivo pessoal/via Ponte Jornalismo)

Silva demonstrou nervosismo, mas insistiu em dizer que era policial civil e que deveria estar ocorrendo algum equívoco.

Desconfiados da farsa, os PMs o algemaram e, durante revista no Hyundai, encontraram uma pistola Taurus, calibre .40, com numeração raspada, carregada com 11 cartuchos.

No porta-malas do veículo havia um colete à prova de balas, com símbolo da Polícia Civil, além de um rádio HT de comunicação. No porta-luvas foi encontrado um distintivo metálico da Polícia Civil.

Os policiais militares apuraram também que o veículo dirigido por Silva estava com as placas adulteradas e que o carro era produto de roubo. Os documentos do automóvel eram falsificados.

Silva foi levado para o 1º Distrito Policial de Embu das Artes. Na delegacia foi constatado que o Hyndai havia sido roubado em 15 de março de 2017 na área do 49º Distrito Policial (São Mateus), zona leste da cidade de São Paulo.

O delegado Francisco José Videira autuou Silva em flagrante pelos crimes de posse e porte ilegal de arma, receptação, uso de documento falso, falsa identidade e usurpação de função pública.

Nos bastidores da Polícia Civil, os comentários são de que Silva “trabalhou” por um ano no 90º DP, na sala dos investigadores, e saiu de lá recentemente, após a mudança do delegado-titular e da chefia dos investigadores.

Há rumores também de que Silva chegou até a ser filmado por emissoras de TV, carregando presos na delegacia, durante entrevista coletiva sobre prisões de criminosos.

Fábio Paes Dominici, advogado do falso policial civil, afirmou à Ponte que não iria se manifestar sobre a prisão de Silva para não prejudicar a defesa de seu cliente.

Procurada pela Ponte, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos, nesta gestão de João Doria (PSDB), afirmou, por meio de nota, que “a Polícia Militar prendeu, em flagrante um homem, de 42 anos, por se passar por policial civil, na manhã desta segunda-feira (11), em Embu das Artes” e que “um carro roubado e outros objetos foram apreendidos”. Segundo a nota, “a Polícia Civil esclarece que a unidade não tem conhecimento sobre a pessoa citada”.

*Atualizado às 17h32

*Esta reportagem foi publicada originalmente neste link: https://ponte.org/falso-policial-trabalhou-por-um-ano-em-delegacia-de-sp/